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agosto 20, 2006
ISABEL MOURA

Valueva
Ela entrava e eu saía da pedicure. Isto de arranjos e eliminação de carradas de inutilidades que a carroça motorizada transportou duas dezenas de vezes, sempre a abarrotar, dá a mulher cuidada ar de fêmea das cavernas num «ai». Antes da partida para novo rumo de férias, achei que tratar de pés e mãos, e uma massagem total era o mínimo que me competia para lides mais urbanas. Cabeleireiro nem vê-lo!, já que o leve ondulado natural não carece de secador ou cuidados especiais.
Os Moura foram empresários têxteis. Tudo começou com o Sr. Jacinto Moura, remediado empreendedor, por adquirir dois teares e com eles o fabrico de cobertores e do sorrubeco para fatos de quentura garantida na meia parte do ano muito fria. O fio usado era grosseiro porque liquidez para a compra dos refinados não havia. A mulher auxiliava a economia doméstica cozendo broa que distribuía na vila. Dá-se o caso de ao vinho a padeira não ser indiferente. A broa ressentia-se, os clientes também, descontando a irregularidade das entregas quando a embriaguez pedia cama e sono.
A Isabel é banal, excepto no ego grande como o mundo. Baixa, larga, loura discreta, nem feia, nem bonita. Banal, havia dito - assim é. Pródiga em grifes requintadas que usa bem à vista. De nariz empinado e olhos vagos de quem filtra do visto o que convém, perde o sentido da visão e do ouvido se um meia-tigela a reverencia num cumprimento de ocasião. Jamais entendi. A família é de boa gente, peneirenta, convenho, desde o crescimento da fabriqueta em teares, rendimento e qualidade de manufacturação. Construíram nos anos trinta do século passado, na avenida principal da urbe, moradias altaneiras, uma para cada herdeiro: o Joaquim, o Virgílio e o Carlos Moura. Este haveria de casar com a Agustinha Correia, senhora minha prima, com solar genuíno, quinta e salões forrados a damasco e cadeirões capittonnè; acima de tudo muito querida e mestra na arte de bem receber. À Isabel Moura conviria o mesmo que a todos: descer à terra e atentar na vida das pessoas comuns, como tantas, como ela, como eu.
Publicado por Teresa C. às agosto 20, 2006 12:26 PM