« VESTIDO DE COCKTAIL | Entrada | TURCOS E PORRETAS »
agosto 10, 2006
MARIA BENEDITA

Alexander Rosenfeld
Castas. Aristocracia rural. Marqueses e condes houve no início do século passado. Foram-se os títulos, desapareceram os herdeiros, ficaram os solares. Tenho para mim, que a fuga dos herdados foi devida à pipa de dinheiro vivo que os gostos de luxo aviaram. Nada sobrando para manter os casarões, foram evitados tectos caídos e portadas partidas numa desolação total poqaue a Câmara assumir o restauro. Os brasões requintam monumentais entradas da biblioteca e outros serviços abertos à população. Granito trabalhado, sempre o granito, orna altas janelas de pincho. Paredes caiadas de branco ou rosa português.
Fábricas têxteis. Construções desmesuradas como brutais contentores de máquinas e operários e ruído, dia e noite, salvo ao domingo. O «fim de semana à inglesa» veio passado mais de metade do século. O trabalho por turnos arrebanhava gentes das aldeias em redor. A pé, nevasse ou fizesse sol, operários do turno de dia, ainda o sol não era erguido, substituíam os da noite amarrados desde o entardecer da véspera ao inferno dos fios corridos nas lancçadeiras. Crianças de dez anos para cima, assim revelassem talento – os menos dotados iam para os campos ou apanhar lenha para as lareiras de chão onde panelas de ferro coziam comida frugal, batatas principalmente – iniciavam a carreira fabril. A fábrica era uma promoção. Só décadas depois os pais aspiravam a salvar os filhos do sacrifício. As condições mudaram: trocaram a comida fria das marmitas pelo refeitório. Creches apareceram mais tarde a cargo dos patrões – os Belinos, os Pratas, os Sampainho e Lima. Para estes a vida era abastada: viagens e usos fidalgos. Os antepassados? Silenciados. Dos Belinos, a avó havia sido forneira.
No lazer matinal, acorrem, agora, ao café mais tradicional a classe média e os sobrevivos da elite. É o caso da Maria Benedita. Mulher de sessenta anos, cabelo grisalho apanhado num carrapito raro de ver hoje em dia. Bonita e elegante, refinada no vestir. Surpreendeu-me vê-la – só em Setembro, após o Agosto fora do país, vinha de Coimbra com a família dar vida à Quinta da Pedra Alta. Lugar de ouro, uma jóia das Beiras. Não entrou no café - preferiu a esplanada num recanto isolado livre de misturas com a meia-tigela. Do tempo das serviçais fardadas e crista engomada resta-lhe a lembrança. Hoje, paga caro os poucos que a servem, sem farda, nem cristas, nem punhos hirtos de goma. A simplicidade como última opção. Ainda brilha a Maria Benedita. Mas não ofusca. E se merece reparo é pelo envelhecer distinto. Uma bela mulher. Mais nada.
Publicado por Teresa C. às agosto 10, 2006 09:24 AM
Comentários
Olááááááá.
Vim aqui por sugestão da Mad. E que bela sugestão. Algusndestes teus contos ficariam a combinar muito bem com os cortinados do blog porcalhoto. Por acaso não estarias interessada em publicar lá alguns dos teus contos mais... malandrecos? Se e estiveres, envia-me um e-mail.
Publicado por: São Rosas às agosto 10, 2006 02:16 PM
Obrigada. No regresso de férias irei ler o seu blog. Até lá.
Publicado por: Tati às agosto 17, 2006 11:01 PM