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agosto 05, 2006
MARIA DA CRUZ

Bart Lindstrom
«Don’t you fuckin’ look at me!» - Frank Booth (Dennis Hopper), in Blue Velvet
Ajeitava flores nas campas dos mais chegados. Fruía daqueles doces momentos de ternura em que os amores passados são tão vívidos como os presentes. Memórias. Sorrisos ao lembrar situações picarescas, os olhares cristalizados nas fotografias transbordando vidas que em parte testemunhei. A brisa do final de dia descia mansa da serra.
Acendia a última vela quando ela apareceu. Figura negra, delgada, porte elegante. Andar leve de quem muito transportou em cima de uma rodilha. As mulheres rurais não careceram de ginásios ou livros em cima da cabeça - para lá, para cá, outra vez, outra vez - para interiorizarem a postura correcta. O duro trabalho agrícola desde a infância ensinou-lhes muito – obediência, sacrifício, madrugadas, labores de sol a sol. Pelo meio carregavam: cestas de vime com uvas, azeitonas, batatas, o que fosse na época o produto da terra.
Aproximou-se. Mulher faceira. Rosto corado pelo sol. “A menina que me desculpe, mas não está lembrada de mim?” Que não, respondi, que não estava e me desculpasse pois não duvidava ter obrigação de a reconhecer. “É natural, era pequenina e só vinha de férias, mas parece que ainda estou a ver... Sou a Maria da Cruz. Quando os paizinhos iam ver a andança do trabalho às terras não havia modo de a impedirem de se descalçar e ir para a para o meio de nós. Sempre a fazer perguntas e a imitar com um sacho de brincar os que cavavam as leiras. Dava gosto ver!...”
Preparava-se para o desfiar de lembranças como contas de rosário, e baixei-me volvendo ao acender da vela. “Sabe, o seu paizinho deu-me a terra da Regada por mor de me saber precisada e sem ter onde cultivar para mim. Além de deixar a burra de noite, que nem corte tenho, valha-me Deus!” Que sim, bem havia feito o pai, retorqui. Aqui já se baixara até o olhar dela se postar no meu. Sem desistir: “deu-ma, a menina está a ouvir? Acha bem?” Percebi que sem rosto sério à altura do dela, dali não abalava. “Maria da Cruz – se o pai deu, está dada e muito bem.” Aliviada, despediu-se: “Deus a abençoe e aos seus, e que nada lhes venha a faltar como falta a mim.” Foi-se. Sombria, delgada, elegante. O saco das dúvidas mais leve, o esboço de um sorriso talvez.
Publicado por Teresa C. às agosto 5, 2006 09:57 AM