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agosto 08, 2006
MARIA UMÍDA

Leanne Cerro
De onde surgiu a ideia de baptizar bebé com nome tão arrevesado não me souberam dizer. Os pais lá teriam razões para assim nomear a criança. Ao tempo, a originalidade não era razão de escolha. Teimosia dos padrinhos, mania do pai ou mãe eram motivos, e o Maria tornava o despropósito do Umída razoável. Pais humildes - um trabalhando a terra, outro nas fábricas locais, ambos sacrificados para à filha dar educação. Fez, à época, o segundo ano do liceu. Mais longe os pais não a puderam levar dada a carestia do colégio, única escola na terra a fornecer o ensino liceal. Ficou em casa, cresceu em altura e formosura. Olhos verde-água, cabelo claro, alta e de corpo esculpido, mais parecendo à mão. A beldade local.
Pobreza e limites familiares enclausuravam a rapariga. Aspirava a mais. O que tinha desesperava-a, o que não tinha desejava de modo tão ardente que o primeiro passo foi casamento aos dezasseis anos de idade com rapaz fora do circuito rural. Zelava o marido pelo sustento dos dois, quando do serviço militar nas colónias recebeu carta de chamada. E lá foi, embarcado com centenas de maçaricos como ele. Menos no regresso, era certo, mas pensamentos negros não convinham ao momento.
Durante a «comissão» da praxe, à beldade era suposto recato, honrando a lonjura e o perigo que sujeitava o respectivo. Pedir a uma garota clausura repetida foi excessivo. Não aguentou - mal dos nervos, tristeza, peso a menos que ida ao médico resolveria. E foi. Uma, duas, muitas vezes. As necessárias para de amores, doente e médico, se perderem. Num ápice, a mancebia pediu casa e pucarinho num apartamento de luxo à renda. Escândalo social. “Onde se viu amancebados arrojarem trocar matas e milheirais por casa montada e filho engendrado já na barriga da mãe?”
Anos passados, o divórcio que a esposa nortenha negava por convicções religiosas e convencionais aconteceu quando um filho da amante era crescido e filha estava a caminho. Às tantas, a digníssima esposa considerou filhos a mais para possível reconciliação. Tornaram-se casal honrado num dia de Verão. Ela, deslumbrante em azul diáfano, os miúdos e convidados em festa de arromba nos jardins da moradia que para a nova família o médico forneceu. Tudo rumava à felicidade. Mas não. Ela continuava mulher perdida na opinião dos locais. Famílias reputadas ignoravam-na e pagavam consulta ao marido. Uma mulher de má fama é puta disfarçada, diziam. Desfez uma família, e benção por tão mau-passo o granito das gentes recusava-o. Assim foi até ela não macular a viuvez sendo ainda jovem mulher.
Só, filhos para criar, obteve diploma do ensino superior. Conservou o património legado pelo marido, e se muito era!, trabalhando e fazendo crescer em harmonia os filhos. Ao café mais reputado faz visita diária. Pelas onze, entra a figura esbelta de porte altivo. Numa mesa do canto lê o jornal. Condescende um olhar à distância aos que outrora vendo-a, não a viam. Levanta os magníficos olhos verdes, passeia-os sem parança de monta e regressa ao jornal. Bela, altiva, corajosa. Maria Umída de seu nome. Mulher de bem, digo eu.
Publicado por Teresa C. às agosto 8, 2006 09:43 AM
Comentários
A má fama está em olhos maldosos, em almas maldosas. Em quem aponta.
Eis uma música que tenho notado ser considerada romântica. Chama-se "Mulheres". é de Martinho da Vila.
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeças e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim
Penso que a ideia principal é que o homem que a canta já esteve com todo o tipo de mulheres e por isso quer demonstrar que quando diz as coisas que diz sobre a mulher para quem canta "sabe o que está a dizer". Lembro-me de uma vez ouvir uma psicóloga, num desses programas sobre relações amorosas, falar sobre os homens que saltam de relação em relação, e sobre o encanto imenso que têm para algumas mulheres, de ter tentado resumir tudo numa frase. Tinha-se falado sobre "a primeira vez" no início da conversa. Ela disse então que para esses homens não poderiam elas ser a primeira mas elas tinham a secreta esperança, o sonho, de que pudessem ser a última.
Tenho pensado, quanto àquela canção, numa versão em que é uma mulher que canta a um homem. Qualquer coisa como, "Já tive homens de todas as cores, de várias idades, de muitos amores..." Mais à frente poderia concretizar, "Já tive homens do tipo atrevido, do tipo acanhado, do tipo vivido, do tipo carente, casado inseguro, solteiro feliz..."
Imaginei cenários improváveis. Vésperas de casamento. Um karaoke. Como já vi fazer, ela improvisa a letra e canta uma que ela própria escreveu. Em que relata o que lhe vai na alma. Em que lhe quer provar que, de entre todos os homens que conheceu, é aquele o único capaz de a fazer feliz. Mostra que "sabe o que está a dizer" quando diz que é com ele que quer ficar, que é aquele "o sol da vida dela", "tudo o que ela sonhou um dia". Pensei que poderia até ser a música do casamento, como já a do Martinho da Vila deve ter sido usada. Mas não imagino uma mulher a atrever-se fazer isto por carinho, na maior parte das relações. Nem imagino os amigos, a família, a ouvirem enternecidos. Aliás, é nos ouvidos da plateia que mais pensei. Uma mulher que relate a experiência dela como um exercício poético, mesmo assim vagamente, criaria um desconforto terrível, e provavelmente olhares pesados, e não a cumplicidade ternurenta que a voz roufenha do Martinho da Vila parece inspirar imediatamente. O recato e a modéstia, ainda que de fachada, ainda que uma maquilhagem bem composta e bem engolida por todos, fica sempre bem.
Valham-nos os olhos, verdes ou de outra cor, a coragem, a têmpera de quem tem o proveito de não se vergar à maldade alheia, e vai vivendo. É sempre digno viver assim. E olhar sem acusar.
Publicado por: troblogdita às agosto 8, 2006 09:14 PM
Sintonia e maior profunidade a tua que a minha. Agradeço-ta.
Publicado por: Tati às agosto 10, 2006 11:24 PM