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agosto 04, 2006
MULHERÕES

Mulherão – fêmea que corresponda a um ou mais dos seguintes itens: podre de boa, de coragem, de seios como sacos de cebolas de quilo, nádega maior que folar de Páscoa, mulher nalguma coisa ou qualidade excessiva.
Chegada a casa de veraneio sem os préstimos da Lucinda que atafulhava a despensa e a arca para a chegadas dos senhores, é pretexto para gastronomia ardilosa do colesterol e fígado. Os ares são bons, lugares de bem-comer abundam como pipocas nas feiras, as ementas são uma surpresa que a cozinha apura para os forasteiros. Que não sou. Conhecida desde menina pelos pais fundadores, depois pelos herdeiros do lugar, sinto-me em casa. Sem panelas e fogão. Um delírio de mimos e palato falante: “que se passa?, noite de sábado? festa?, namorado?”
Foi hoje chegada a triste realidade: mergulhar sem escafandro ou botija num mini-hiper-mercado. As capelas do consumo local, lembrando romarias, foguetório e procissão, estão à pinha. “Mete a casquette ou torço-te!” vomitado ao miúdo franzino por um mulherão é coisa de arrepiar. Tivesse um casquette e quem o teria enterrado até às orelhas era eu. Os mulherões trazem tudo à trela: marido, carrinho do supermercado e filhos. Sogros e cunhados não costumam faltar. Falantes. Berrando das cervejas para as bolachas. As células adiposas enfeitam com pneus em pilha os mulherões. Um festival de banha. Um hino à gula e à liderança.
No café tradicional onde os amigos dos amigos, nossos amigos são, os mulherões são outros – louras, penduradas em sandálias de plataforma, bronzeado ao léu e óculos fantásticos entre extensões do cabelo. Origem? – Local. Residência: Luxemburgo, Genéve ou quejandos. São raras, Deo gratias! Ao entrarem mobilizam olhares. O meu incluído. Atónita, engulo o café. Bebo a água. Retomada a conversa, ficam as tiradas humoradas, o querer saber de um ou meio ano passado. Os mulherões passam, a serenidade fica. E venha outro café que o primeiro não contou.
Publicado por Teresa C. às agosto 4, 2006 09:22 AM
Comentários
Lembro-me do tamanhão de algumas mulheres da minha família. Algumas são mesmo altas. Umas primas. Outras baixinhas, largas, ancas de matriarca, seios abundantes, generosos. Todas as de que em lembro agora têm essa dimensão, esse peso, a força que a própria voz confirma, no volume, em que alguns agudos se soltam é certo, mas alguns graves de fundo também atestam a gravidade, a tonalidade trágica. Mulherões... Lembro de como não é preciso falar muito, perco facilmente o meu excesso. E no café, sim, recordo conversas em que não é preciso falar muito, umas perguntas curtas e directas põem tudo em dia, como que atalham, há umas espécie de serviço de informações, de base de dados familiar. Mas que nas conversas de café não me atinge dessa forma. As perguntas, a conversação faz-me ter uma noção subitamente muito concreta "do que tenho feito", do que tenho sido". E namoradas? O mesmo emprego? Já saíste daquela casa? O outro sempre...? Parece que no mês passado...? É tudo tão sem rodeios e aqueles mulherões sabem tão bem, desde que eu era um ser enrugado de fraldas nos braços de cada uma delas como "eu fui sendo", "o que eu tenho sido"... que eu respondo. E nem sempre é um interrogatório. Porque há um número muito limitado de perguntas possíveis. E muito para falar. E pouco de verborreico - de repente - em mim. Ali, no seio das minhas raízes, perco muita da minha agitação. Um abraço, nuno.
Publicado por: troblogdita às agosto 4, 2006 10:11 AM
Aquele abraço, aquele prazer de sempre.
Publicado por: Tati às agosto 10, 2006 11:22 PM