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agosto 06, 2006
ROSINHA DOS LIMÕES

Kimberley Dow
Mistério. Desaparecimento. Janelas cerradas. Ainda no Agosto passado, era sabida viva pela entrega regular de mantimentos. Deixados à porta em troca da paga dos últimos, não sendo vista a mão que os recolhia ou como aos da casa chegava o dinheiro. Lata de biscoitos vazia usada como cofre? Gaveta anónima sem cuidados de maior? Esconderijo debaixo do colchão? Ninguém sabia e, aos poucos, aos de fora deixou de importar. Talvez a estranheza dos vizinhos tivesse proveito na forma de papão que, pelo espanto abrindo a boca aos mais pequenos, desse entrada a nova colher de sopa. Quando a miudagem é arredia do comer, desde o avião ao carro na garagem tudo serve para enfiar sustento e garantir crescença.
Era uma rapariga fidalga. Pele branca, caracóis louros emoldurando oval de rosto perfeito. Filha única, desde cedo órfã de pai, caiu como presa inocente nas teias da ditadura materna. Vigiada, proibido era o convívio com moços e moças da idade dela. Diziam as matriarcas visitas da casa que prendas não lhe faltavam. Gabavam-lhe a candura, a beleza e a delicadeza de fala e mãos. Culta, acrescentavam, já que educação a preceito fazia, aos olhos da mãe, parte do dote. Chegada a altura de casar, nenhum pretendente estava à altura da severidade materna. Anos passaram, e a frescura da pele mais o mortiço dos olhos foram eloquentes: à casa faltava um homem que como genro tomasse conta das duas mulheres. Um mecânico candidatou-se à aliança no dedo e casou. O fito era a fortuna da megera; difícil era levá-la à certa.
A Rosinha dos Limões não voltou a ser a mesma. De facto, poucos sabiam como era antes do mecânico. Os abelhudos afirmavam-na destratada pelo marido - a torneira da fortuna fechada nas mãos da sogra dava à casa mau viver. Morrendo a velha, prediziam vida sorridente à Rosinha que aos vizinhos não deixava faltar limões da árvore generosa nas traseiras do quintal. Mas não. Após a morte da mãe deitou-se e fechou as portadas. Por ela perguntavam ao mecânico que lhe atribuía os nervos doentes ao luto recente. Um dia após o outro, e o marido fechou-se em casa. Como a mulher. Fora os víveres à porta e depois sumidos, nada era sabido do casal. Corria a vidinha no rego do costume - fábrica, serviços, uma horta para entreter e dar frescos –, e o esquecimento alheio varreu os da casa dos limões. Um cesto de comida ressequida pelo sol e a tranca na porta deu o sinal: foram-se! Nem cheiro a mortos ou sangue escorrendo no granito da entrada. Nada de suculento. Passado o falatório no café e nas idas e vindas do mulherio aos contentores do lixo, caiu no esquecimento. Arraiais assentes da chegada, dei pela falta e perguntei: “a Rosinha dos Limões curou-se?” – “Não. Foi-se.” Nem uma palavra mais.
Publicado por Teresa C. às agosto 6, 2006 12:59 PM