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agosto 07, 2006
SALTOS DE PLANTAR COUVES

Sorayama
Domingo nas urbes rurais tem apuro e ritual. Seja tradicional a família e o preguiçar não vai além das nove. Na cozinha, os preparos do almoço em andamento misturam-se com o aroma do café acabado de fazer. A porta-janela da sala da refeição matinal emoldura picos da montanha e dá entrada ao ar fresco da manhã. Calor? Aqui? Nem pensar! É Verão com todos, dá para perceber, mas suores ou incómodos somente para os que ao sol mercam vencimento.
A missa dominical é assunto sério. Antecede-a meia dúzia de larachas no café costumado. O pessoal aprimora a fatiota; se feminino o esmero é maior. À conta do corredor da nave central da igreja, o vestir é o último grito da moda local – pormenor de somenos é há quantos anos foi aquela a moda. Mas usou-se. Usa-se. O bom estado das roupas nem é admiração: cobre o corpo uma dúzia de vezes por ano e no restante fica no guarda-fatos ao lado da mortalha. O desfile faz-se na calçada que separa o estacionamento da «bica» e depois da Igreja. O mulherio espevitou – alças e decotes para a benção do Senhor desnudam seios fartos e costas anchas e redondas. Coisa nunca vista é o penteado das damas. Devem existir por estas bandas multicortes como há multibancos – máquina com buraco para enfiar a cabeça e sair com o cabelo cortado. Inenarrável. Curto, pescoço atrás bem rapado, contornando em comprimento as orelhas, cocuruto composto mas sem abusos. O colorido cabeludo é... é... Só vendo!
Avancei, decidida a enfrentar a prova do café no dia do Senhor. Saia leve e rodada, blusa insinuando o busto e bem cavada em tons pastel. Pernas com bronze ao léu. O cabelo esvoaçante. A rematar tanta leveza chinelas de salto. Ora, reside aqui o cerne da questão: a calçada de granito não foi feita para pontas finas. Que remédio senão prejudicar o porte olhando frequentemente para o chão, não afundasse o salto, ficando a chinela para trás e o pé descalço para a frente. Pecaminoso incidente por manchar a minha fantasiada elegância. Lembrei o chiste agrícola dos que encarreiravam buracos finos para em cada um enterrar raiz de couve – “saltos de plantar couves? Desculpar-me-á menina, mas vê-se que não é daqui!”
Publicado por Teresa C. às agosto 7, 2006 01:26 PM
Comentários
Ler-te tem sido enriquecedor, surpreendente; um aconchego; por vezes um engolir difícil na garganta subitamente congestionada, quando a emoção é servida sem artifícios nem pompa. Tem sido um privilégio vir aqui encontrar o teu olhar sobre os teus dias, os teus mundos. Agradeço-te a tua escrita. Um abraço.
Publicado por: troblogdita às agosto 7, 2006 04:02 PM
Não resisto a este leve comentário a um belíssimo texto acerca do mulherame da minha santa terrinha... Tal e qual!
Porém, eu não agradeço, porque acho que é obrigação de quem assim escreve servir a escrita como quem oferece jóias.
Publicado por: j às agosto 7, 2006 07:20 PM
admiro-te admiro-te muito pela tua força de mulher num mundo feito para homens. A tua força é um exempl, sem machismos desnscessários com toda a feminilidade e sensualidade nata ao teu ser impoes-te suavemente mas com determunação. O titulo do teu blog diz tudo
Publicado por: MARIA às agosto 10, 2006 03:53 PM
A todos agradeço a partilha com as minhas férias rurais. Abraços.
Publicado por: Tati às agosto 10, 2006 11:21 PM