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agosto 11, 2006
TURCOS E PORRETAS

Chelin Sanjuan
Em férias, descuido notícias do país e do mundo. Chegam as do dia-a-dia local. Acho terrivelmente importante o divórcio do Dr. Mesquita e a tristeza da Olguinha, conhecer o pimpolho da Ana e do Rui, ouvir-lhes a descrição do desarranjo das noites em claro e da mama que esvaziada enche mais depressa que balão. E pinga, e ela empapa o leite, e vai a correr para casa. Deliciosas memórias, prisão para quem amamenta. Porém, o sorriso embevecido quando a volumosa fonte é sugada pelo rebento, diz tudo. Para os pais é instante de paraíso.
Das mudanças constatadas, a menor não é a roulotte das farturas entre a Igreja de S. Pedro e o fontanário quinhentista. Para alugar aquele espaço a Câmara deve ter as finanças como as dos portugueses: a zeros ou negativa. Ao ver o preparo da Praça que fora da época das festas votivas é primorosa de bom-gosto, lembrei-me dum vernáculo reservado pelas boas famílias locais a incidentes desagradáveis – “olha a porreta!” Coisa morna, disfarçada, já que «porreta» significa também «macacos» do nariz. Mais feio que uma «porreta» só o ranho nos petizes.
Ao saber que a água tem pouca pressão para as regas particulares enquanto nas cascatas e fontes dos jardins públicos corre em cachões, apeteceu-me (des)cumprimentar o Presidente da Câmara e dois assessores que esta manhã passeavam vistoria ou seduziam munícipes. Num impulso que só por aqui tenho, a expressão que à primeira me ocorreu foi: “ah que «turcos»!” Turcos eram seres viciosos segundo a tradição beirã. Bárbaros. Recolhendo prazer do mal feito. Já a tia Rosinha, solteira, mimosa em tudo menos nos assomos de mau génio, quando uma sem-vergonhice suculenta, carnal, esdrúxula, lhe chegava aos ouvidos, era ouvi-la, entre-dentes, murmurar: “uns turcos. Piores que animais. Uns turcos!” Morreu cedo. Evito supor o que dirá se do além me vir...
Publicado por Teresa C. às agosto 11, 2006 08:18 AM