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agosto 09, 2006

VESTIDO DE COCKTAIL

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Alain Aslan

Chama-se João. Apelidos constam do registo que, contudo, ignoro. Há uns vinte anos que o conheço pelos bons ofícios de faz-tudo e anjo da guarda da casa de família. Canalizador, electricista, conserta esquentadores e estores, oleia dobradiças e, especialmente, tem a seu cargo o jardim. Poda videiras e árvores de fruto, cameleiras, sebes de bucho, roseiras, heras, qualquer verde que ciclicamente obrigue a resumo ao essencial. E da rega, melhor dito, do sistema automático de rega caracterizado pelo temperamento intempestivo. Como ajudantes acidentais tem, no caso vertente, dois: o Laurindo e o Angelino. Destes, o primeiro é mais dado ao vinho do que às videiras; o segundo é mais a horta dele e os concursos da televisão. Pelo visto nos anexos e do lixo nas áleas, os três não são demais. Junta à conta calada que em cada regresso acumulam e apresentam após a cerveja de oferta, vem a frase gasta – “Deixei tudo num brinquinho, mas o Angelino pouca ajuda deu. Sabem como é...” No bolso das calças busca a factura que vem à mistura com o forro esburacado. Olhado o forro, atentando no rosto avinhado, quem tem coragem de chamar roubo à soma total? Eu não! O Angelino dá o fora com um limpeza invejável - “Este mês está mau para cá vir; chega a família da Suíça mais os netos, fora as batatas que mirram na terra e têm de ser ensacadas. Depois, estão à porta as Festas, sabe como é...” Sei, se sei!, que o resto da família vem aí para a reunião anual e quem terá o serviço nas mãos sou eu!

Não sendo de adiar o que posso adiantar, enfiei um vestido da colecção de antiguidades que em Lisboa me atafulhavam armários e repousam em paz aqui. Cabelo preso ao alto, havaianas nos pés e “jardim dos meus amores, aqui estou!” Uma dezena de caldeiros enchi-os em menos de um rosário pela varridela esmerada do granito. Molhos de vides enchiam um dos anexos à mistura com teias de aranha, bicharada vária e calma que não me esperava. Avancei com a vassoura empunhada como lança em guerra medieva. Os fios cinzentos das teias caíam como azeitonas maduras. Enredadas no cabelo, braços e pernas não me detiveram e os molhos viram a luz do dia. E as aranhas. E bichos vários. O pior estava para vir: molhos e caldeirões cheios teriam de sumir.

Em vestido de cocktail, só então reparei na minha figura, ajeitei um caldeirão numa mão e vides na outra. Uma viagem até aos contentores do lixo. Duas. Três. Passantes e automobilistas abrandavam ao ver-me. Os conhecidos acenava e sorriam. Ofereciam préstimos – “não, obrigada, isto não pesa” dizia com a leveza que não sentia. Muitos não resistiam e olhavam para trás. Entre os músculos retesados e o êxito alcançado, entendi: não eram as alças finas e o peito saltando traquinas. A transparência do vestido sem vestígios de qualquer peça de lingerie estavam para os caldeirões e as vides como farda de enfermeira para as mentes masculinas. Só para que conste, acabei o serviço como comecei – o mesmo vestido e nada de lingerie.

Publicado por Teresa C. às agosto 9, 2006 09:32 AM

Comentários

"There are several theories why time spent gardening is so soothing, Relf said."
"It might be that plants provide a simple aesthetic joy, or that people are responding to ingrained psychological and physical cues borne of thousands of years of evolution."
http://ww3.komotv.com/Global/story.asp?S=4865809

:-D
Muitos anos de evolução, da língua portuguesa - e de outros elementos que não os das linguagens - não me trazem uma condigna tradução dessa deliciosa palavra: "soothing".

Nem a intuição, venha ela de onde vier, que aqui é palavra que encontrou novas paragens.

Publicado por: troblogdita às agosto 9, 2006 01:58 PM

Só para não não deixar uma frase assim tão vaga... É que o olhar às vezes também encontra algo de "soothing"; ainda que por uma fracção de segundos.

soothing:In a comforting manner; affording physical relief; freeing from fear and anxiety;

Publicado por: troblogdita às agosto 9, 2006 02:35 PM

A fantasia tornada realidade longe do foro clínico é obra de Deuses e Deusas!

Publicado por: Jorge às agosto 9, 2006 04:16 PM

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