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setembro 13, 2006

A COISA

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Sorayama

Por uma causa de somenos quebrei um dente na horizontal. Isto é, o dente, que eu estava semi-vertical. Não foi descuido, gesto impulsivo ou dureza da coisa. Nada disso. A coisa não estava nem dura, nem mole. Estando assim-assim, da passividade da dita não desconfiei. Enfiada na boca, preparava-me para engolir. Já não deu – saltei para trás num ápice, a mão apertada, a dor no rosto. Ia alta a noite para aventuras dentárias, que fazer? A coisa surpreendeu-me e trinquei-a bem demais. No desatino da dor busquei alívio num gole de água gelada (costuma resultar). Qual quê? A dor cresceu e a coisa sumiu. Fiquei metálica. Um horror!

Boca revista no verão pela minha dentista preferida, limpeza e coisa-e-tal, e vai daí o fado desanda a roda dentária. Fatalidade inesperada para quem uma dor de dentes é pior que mau amante trazendo ao acto beliscão cruel no mamilo. De tanto prevenir conflitos bucais, caí num sem rede ou mínima cautela. Pus a coisa de lado – continuar era pena infernal – e engoli duas pílulas analgésicas. Demorei a deglutição e à racha no dente acresci azia. Dormi mal – pendurei-me num pesadelo com dentes, coisas nem dura nem moles, e dores. Tenebrosa horizontalidade a dessa noite...

Bem cedo, busco um dentista numa clínica próxima. Clínica próxima, muito latão reluzente, focos e plantas e jornais e recepcionista atenta e livro de marcações. A tabela de preços mesmo em frente revelava: noventa euros uma consulta. Saí porta fora sem consulta, rematando – “preço especulativo!” Despedi-me dos latões e a dor amainou num acto solidário com a minha decisão. No trabalho, o rosto pardo e omisso o sorriso, uma boca feminina diz-me: “Vens tão gira, tão Barbie!” Fui de novo ao Inferno e voltei – “estás a candidatar-te a Ken?” Para dentro: “homessa!, a gaja é parva em dose XXL”

O alívio veio mais tarde por via de mulher licenciada em artes dentárias e outros encantos. Picou, anestesiou, brocou, zuniu. Ao sair, despediu-se como me recebeu: sorridente e afável. Fiquei fã. Dela, por que da razão da visita nem um pouco. A meio da consulta, dada a razão da fractura, informou: “teve sorte com a dureza da coisa; pois se uma pizza de marisco rachou de alto a baixo um dente!” Nem sei que faça: não podendo evitar a causa, como enfiá-la na boca? Partida em pedaços miúdos?

Publicado por Teresa C. às setembro 13, 2006 10:20 AM

Comentários

Solidária nas dores e na noite mal dormida.
Um beijinho

Publicado por: adalberth às setembro 13, 2006 09:00 PM

Depois de tudo ainda nos serves esta refeição.
Te sirva e aconchegue o carinho nosso, meu.
Me custa saber-te dorida. Sorrisos encontres muitos como esse. E cedo possas saborar os sabores que tanto gostas e celebras. As dores, essas, fiquem para trás, rápido, rapidinho.

Um abraço,
nuno.

Publicado por: troblogdita às setembro 13, 2006 10:13 PM

Agradeço os mimos. E um sorriso alivia sempre a dor...

Beijinhos

Publicado por: Tati às setembro 22, 2006 06:42 PM

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