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setembro 06, 2006
A OUTRA E ELA

Steve Hanks
Ela sentiu cair o silêncio. Como muro. Espesso. Como pérolas. Líquidas. Como água. Lágrimas. Correram. Como respiração. Por cada uma sentiu rego húmido deslizando na face. Às que desaguaram nos lábios, bebeu-as. Como se receasse o fim daquele sofrimento líquido. As outras contornaram-lhe o rosto. Pingaram no regaço. Molharam o linho da túnica. Trespassaram-no. Escorreram na pele. Como se as desejasse.
Não se permitiu a sofreguidão da dor. Entornou-a com vagar. Nem um soluço ou respiração ofegada. Nada. Ela com ela. A outra e ela. Porque ela sabia que a outra um dia cansaria o canto a que fora remetida. Tanto a vigiara... Jamais descuidara o hábito de a aferrolhar. Pela noitinha, antes do sono chegar, pé-ante-pé certificava-se de nada a ter agitado. E dormia. Só pela tarde do outro dia poderia acordar.
Houve quem dela a ela contasse. Tocasse a verdade dupla. (Re)Afirmou nada saber. Pura invenção. Porém, dos sortilégios que detinha, sabia. O de a esquecer também. Sem que a matasse. Isso não queria. Matando-a, matava-se. Por isso as lágrimas corriam.
Publicado por Teresa C. às setembro 6, 2006 10:06 AM