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setembro 15, 2006
CATRAPUZ!

Jisan Kim
Amornou. Quero dizer, esfriou. Não exactamente, nublou. Ventou. Toldou. Ou foi tudo ao mesmo tempo. Ou nem foi nada disto e quem acinzentou fui eu. Anda pele habituada à quentura do sol, à leveza dos trapinhos, às tiras nos pés, e a meteorologia entristece a rentrée. Mal refeita do regresso à equipa profissional, gente boa e amável que adiaria sem desgosto o reencontro, afastada de lojas e festas que não íntimas ou a dois, finou-se a calidez dos dias. Ora, isto é o que custa mais. Assim, como assim, das ondas de calor aperfeiçoámos defesas e para a chuva-molha-tolos não estávamos preparados. Foi queda em escorrega inclinado a oitenta graus. Catrapuz!
Os portugueses padecem de alguns defeitos e muitas qualidade como a resistência exemplar que contrapõem à fragilidade dos outros europeus. Por uma onde calor de nada morrem como tordos. Nós não. Contámos cinco e morreu alguém? Nem um! O mesmo com o frio e os fogos e os acidentes. Por cá, em número até podem, finar os mesmos, mas ninguém se descose, enquanto os de fora entregam a alma ao Criador num ambiente de tragédia, de must noticioso, com câmaras e holofotes por cima de lado e em baixo. Resumindo: morremos como vivemos, anonimamente, e os outros em grande estilo. Tem de ser karma, só pode. Ou a terceira lei de Newton na versão budista ou hindu – “qualquer corpo sujeito a uma força reage com outra de igual direcção, intensidade e sentido contrário. Sofridos em vida, sofríveis na morte. Secante sina a nossa (isto deve ser lido sibilando bem os ss).
Até levava a bem o sumiço do calor se enfiar-me num avião e passarinhar o cartão de crédito entre os Champs Elysées e o Faubourg Saint Honoré fosse solução. Que não é. Nem sei quando virá a ser. Recuso-me a pôr os pé num avião enquanto limparem da minha alçada os haveres e a mala de mão. É inconcebível viajar de mãos a abanar. Sem os meus trapos de estimação na mala de cabina e o necessário para uma mulher – acetona, verniz, estojo de unhas, agulha, linhas e dedal, medicamentos para uma eventualidade, vários bâton, sudoku, livros, agenda, estojo de escrita, óculos de sol, toalhitas refrescantes, lenços de papel, produtos de maquilhagem, perfume, pasta de dentes e escova, rolo tira-pêlos – não me vou daqui para lado nenhum. Como bate-perna no Chiado e nos centros comerciais é tédio, visto o mesmo do ano passado. Desgraçada rentrée!...
Publicado por Teresa C. às setembro 15, 2006 07:55 AM