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setembro 28, 2006

DA FUGA, A ARTE

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Nicholas Orr

Saíram para jantar na cidade que lhes conhecia segredos. O temporal da véspera sucumbira à chuva ou ao calor que emanavam como fluido volátil . Do Bairro Alto a calçada luzia da chuva e cantavam passos nas ruelas. Rostos iludidos e pés ligeiros. Deslizaram para a noite cuidando do ouro do momento. Da arte da fuga haviam aprendido truques e conquistado o condimento maior: paciência. Fintaram (in)conveniências, jamais tornando a arte jogo airoso. Tropeçaram, caíram, saíram magoados, levantaram-se, de novo caíram como se o elo mútuo tivesse peso demais.

Da fuga não rezam os fortes, dizem. Porém, como é fácil pôr ao peito a medalha da coragem quando por detrás a parede é sólida e não existe vontade séria de fugir... A fuga é arte, uma narrativa pessoal, esculpida e cinzelada com amor. Não licencia escapar às contrariedades, aos fantasmas, frustrações e sobressaltos. Autoriza a ilusão contida no sorriso matreiro de quem julga evitar o lamaçal dos medos e negações.

Saíram do restaurante três horas depois. Ignorando a marcação intermédia, a mesa foi de banquete enquanto o apetite durou. Esqueceram sons alheios, mergulharam nos sabores, aspiraram do vinho o bouquet. Escorreu pela noite a fala, os corpos e o desejo. Fugiram. Inventaram paraísos longínquos para um dia. Talvez... quem sabe?, para quando nada houver de que queiram fugir.

Publicado por Teresa C. às setembro 28, 2006 08:11 AM

Comentários

Quem sabe se na próxima vez a fuga não seja para os braços um do outro...

Publicado por: BadSeed às setembro 28, 2006 09:27 AM

E foi, e foi... ;)

Publicado por: Tati às outubro 4, 2006 12:14 PM

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