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setembro 23, 2006

DE PERNAS PARA O AR

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Elvgren

Não é meu o hábito de «assobiar e olhar para o ar». Por desgraça deve ser tomada a incapacidade – envolvo-me para lá do regulado com injustiças e humilhações exercidas sobre quem, pelos recursos exíguos, está arredado da defesa. Olhar o ar, sim, é prática de que não abdico seja íntima e amena a fracção do dia. Assobiar é que não. Sibilar como periquito engasgado, consigo, além não vou. Dizem-me para treinar a garganta e relaxar as bochechas. Nem assim. Afunilo o ar, silvo e acabo num sopro esmorecido. Ando em explicações práticas, e da última restou garganta dorida.

Patinar é ambição. Em pequena ensaiei, seduzida pela etérea delicadeza da patinagem no gelo. Mal despeguei do gradeamento do pátio. Deslizavam alegremente os outros meninos, e eu trôpega, braços abertos em desalinho, quais asas de condor. Teimei, caí, esfolei joelhos e cotovelos. Nada. As rodas eram mais rápidas que eu. Farta de ver o mundo de pernas para o ar, arrumei os patins para um dia que, vergonha minha, até hoje adiei.

Andar de bicicleta foi incentivo dos pais. Comecei pelo triciclo sem rasgos que preanunciassem talento especial. Trocava sem pena as três rodas pelas bonecas, brincar às casinhas, calçar os sapatos da mãe e andar de baloiço. A passagem para a bicicleta deveria ser coisa normal. Não foi. O pai segurava-me, corria estimulando avanços, se possível a direito. Uma vez e outra. Mais outras. Mas não. Jamais caí, não aprendi – rima e é verdade obedecendo à tradição. Tenho pena. Embevecem-me ciclistas, mochila às costas, pernas a dar a dar, a bicicleta a avançar e eles com ela. Sigo-lhes o percurso e invento o prazer do esforço mitigado pelo vento no rosto.

Não sendo do meu feitio conformar-me perante limites ociosos, para o assobio ando em treinos, intervalados com outros, convenho, mas treino; patins e bicicleta virão depois. Enfastiada dum mundo virado do avesso que não posso ou sei mudar, uma coisa é certa: irei (re)vê-lo de pernas para o ar.

Nota: Ao lado, Fiona Apple.

Publicado por Teresa C. às setembro 23, 2006 11:44 AM

Comentários

:-D tenho pena que única pista de gelo que tinha próxima me foi substituída por uma esplanada, mais lucrativa, para um centro comercial. Pena que não cheguei a tempo, quando uma tenda tinha uma improvisada. O gelo é óptimo, belíssimo, para patinar. Tenho pena mais, ainda que tenho passos pesados, preciso de rodas e lâminas, talvez por isso. Lembro-me de ser conduzido, por professores paciente, numa workshop, de tango, quer por ela, quer por ele, que na Argentina, os homens treinavam semanas a fio entre si, até poderem finalmente poder dançar com as mulheres. E quando fui conduzido, pude conduzir um pouco melhor o meu par. Mas com as rodas deslizo. Com sapatos tenho de escolher onde piso primeiro. Essa imagem, é óptima, tão bom podermos fazer isso, levantar pernas, olhar para cima. O mundo de pernas para o ar. Ver nunvens a passar, ou o candeiro do quarto. Ou nada disto. Não ter que pensar nos pés. Os meus estão aqui cansaditos e felizes. E até dancei. Nestas pistas em que se abana, cada um por si. alegremente. um abraço.

Publicado por: troblogdita às setembro 24, 2006 10:25 PM

Na pista de dança deslizo com prazer, mas em menos de quatro rodas foi coisa que jamais consegui. Me ensina, please... :)

Publicado por: Tati às outubro 4, 2006 12:23 PM

Na pista de dança deslizo com prazer, mas em menos de quatro rodas foi coisa que jamais consegui. Me ensina, please... :)

Publicado por: Tati às outubro 4, 2006 12:23 PM

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