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setembro 30, 2006

ABÓBORA!

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Lorenzo Sperlonga

Alcovitar. Ganha-pão de sucesso desmentindo o ocaso empresarial português. Agências matrimoniais, amores arranjados por electrónica sobreposição de expecTativas e perfis, anúncios de jornal, tudo serve para enterrar solidões e memórias desamadas. Se do académico jogo de probabilidades não duvido, juntar à roleta dos afectos ficha extra, mal não deve fazer.

Alcovitices são como placebos - o sucesso é proporcional à crença depositada -, ou método para deixar de fumar – a eficácia existe quando há vontade e o montante investido exige resultados. As mulheres, sempre disponíveis para sonhos românticos, têm talento afinado como alcoviteiras. Se resolvidas afectivamente, não dispensam renovar quebrantos idílicos no papel de fada-madrinha pronta a fornecer abóbora e sapatos de cristal. Esteja o príncipe encantado debaixo de olho e a borralheira disponível, o baile combina-se depois.

Sendo que premeditações desdizem do meu feitio, deu-me para casamenteira. O príncipe estava a jeito, a borralheira era amiga, somei dois com dois e iniciei-me na segunda mais antiga profissão do mundo – alcoviteira. Estendi-me nos dons, justos e reais, da amiga sem parceiro. Ele, um gentil homem, doce, inteligente e bem-formado, ouviu-me com educação aprimorada. Acabado o esboço, perguntou-me o nome da candidata. Mal o disse, acresceu dados que eu partilhava. Estupefacta, concluí: conheciam-se! Amigos de longa data que há muito tinham a amizade como melodia que em dueto sabiam compor.

Dei por finda a actividade. Nem precisei de dar baixa nas Finanças. Finou-se como começou – num impulso.

Publicado por Teresa C. às 12:22 PM | Comentários (2)

setembro 29, 2006

JUÍZO FINAL

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Bryce Cameron

«O dia do Juízo Final é aquele em que na Terra a solidão chega e o amor nos esquece.»

...Porque antes nos esquecemos dele, acrescentaria. Odeio teias, cabos de aço, grades, ditaduras, regras escritas em granito. E medos. Impingidos, induzidos por quem da manipulação das consciências tem o conhecimento - medo de não-parecer-bem, medo de afirmação da identidade cultural, medo de viver. Como manto negro enlutando por dentro o ser. Medo como limite ao pensamento, a actos ou omissões - a da Deutsche Oper ao anunciar a substituição das quatro apresentações de "Idomeneo" programadas para Novembro por "O Casamento de Figaro" e "La Traviata".

O maior dos medos, maior do que não ser amado, é o de não amar. No dia em que desaparece o último que nos ama, a solidão e o luto batem à porta. Entre as lágrimas e os silêncios ficam as memórias. O capital que mais conta – o amor e a sua memória.

Não amar é o vazio. A descrença. O nada onde antes existia o melhor de nós. Mas podemos amar os seres, a Terra, um Deus. Amar libertos de ansiedades e de interpelações ociosas. Gratuitamente. Pela primeira vez, sem nada esperar. Abrir a porta, sair do breu e entrar na luz que sempre atende quem a procura. Como quando em crianças fugíamos da noite e nos aninhávamos no calor de quem nos dera à vida. Para mais tarde adormecermos em paz.


Agradeço à Eterna Descontente, ao Sandes de Atum, ao Eubozeno, ao Sandro Franco, ao Zé, ao Nuno, ao Rui, ao Nuno Guerreiro e a todos os que pela via do comentário ou email foram presentes no terceiro aniversário deste blogue. Uns queridos que muito me mimaram!Obrigada.

Publicado por Teresa C. às 08:11 AM | Comentários (3)

setembro 28, 2006

DA FUGA, A ARTE

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Nicholas Orr

Saíram para jantar na cidade que lhes conhecia segredos. O temporal da véspera sucumbira à chuva ou ao calor que emanavam como fluido volátil . Do Bairro Alto a calçada luzia da chuva e cantavam passos nas ruelas. Rostos iludidos e pés ligeiros. Deslizaram para a noite cuidando do ouro do momento. Da arte da fuga haviam aprendido truques e conquistado o condimento maior: paciência. Fintaram (in)conveniências, jamais tornando a arte jogo airoso. Tropeçaram, caíram, saíram magoados, levantaram-se, de novo caíram como se o elo mútuo tivesse peso demais.

Da fuga não rezam os fortes, dizem. Porém, como é fácil pôr ao peito a medalha da coragem quando por detrás a parede é sólida e não existe vontade séria de fugir... A fuga é arte, uma narrativa pessoal, esculpida e cinzelada com amor. Não licencia escapar às contrariedades, aos fantasmas, frustrações e sobressaltos. Autoriza a ilusão contida no sorriso matreiro de quem julga evitar o lamaçal dos medos e negações.

Saíram do restaurante três horas depois. Ignorando a marcação intermédia, a mesa foi de banquete enquanto o apetite durou. Esqueceram sons alheios, mergulharam nos sabores, aspiraram do vinho o bouquet. Escorreu pela noite a fala, os corpos e o desejo. Fugiram. Inventaram paraísos longínquos para um dia. Talvez... quem sabe?, para quando nada houver de que queiram fugir.

Publicado por Teresa C. às 08:11 AM | Comentários (2)

setembro 27, 2006

PUTEIRO

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James W Johnson

Apresentou-se. Dados pessoais, todos. Chegado à profissão, diz: “puteiro, melhor, tenho alguns por conta própria. Cá e na Suíça.” À primeira, remetendo para viveiros, somente em vez de trutas, robalos, douradas e linguados, morangos, legumes, frutas e flores exóticas, mulheres. Putas – puteiro. Bem visto! Oito enfiadas num «apertamento» de urbe cerca de Lisboa. Do negócio não se queixava – “hoje, por exemplo, que é final de mês e são apenas três da tarde, já aviaram dezoito. Não atingem os mínimos, é verdade: dez por dia e cabeça, delas, claro! Só assim diria ir a empresa de vento em popa.” Mas não se queixava. Limpos quatrocentos euros. Vinha da recolha do dinheiro. “Amanhã vou para a Suíça saber como correm as coisas. Trocar algumas de cá com o visto no fim por outras que as casas renovem e atraiam clientes. Quando um patrão descuida a empresa, é despacho até chegar à falência. Ora, a esse luxo não me posso dar – falatório, despedimentos, greves quiçá, e acabava embrulhado entre advogados e bófia.”

Continuou: “na Suíça a clientela é menor. Os homens têm o sangue mais parado. Pelo frio, deve ser, porque os portugueses para uma estão sempre prontos. Fora de casa, porque portas adentro a coisa é como calha – «ele» não querendo, paciência! Aqui não há crise que me arrebente o negócio. Ainda pensei montar uma empresa, lavandaria ou um comes-e-bebes que também são negócios de truz, mas faltou o capital. Além da trabalheira para a constituir, porque ao tempo não havia isto da empresa-na-hora. Depois, negócios desses prendem um gajo até ao fim de semana. Não compensa. Neste não há muito a saber: bufete são cinquenta euros, à lista depende da escolha, mas ronda os quarenta. Metade para elas, outro tanto para mim, descontando-lhes as despesas e o «apertamento».”

Aviado o assunto que o trazia, foi-se. Ainda tinha de ir buscar o mais novo ao colégio e pedir à mulher para lhe fazer a mala. “É o senão: um gajo não pára. Passa a vida em bolandas!”

Publicado por Teresa C. às 07:15 AM | Comentários (6)

setembro 26, 2006

TRÊS ANOS

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Philip Howe

De mansinho, o tempo deslizou como um pardal e escorregou como um peixe. Inexorável, viu humanos nascer, crescer e definhar. Impávido, perpetua na Terra - útero da sobrevivência -, o ciclo das estações, da água e da vida. A diversidade do que respira e ocupa o planeta, luta pelo direito de existir. Vegetal ou animal, os seres não desistem enquanto podem enfrentar as agressões externas. E a Terra, na sua exuberância pagã, persevera na satisfação das necessidades vitais. O tempo e a vida na inevitabilidade do eterno conflito.

Se do mundo antimaterial muito foi dito e escrito – simétrico do nosso e aproveitado na reacção com a matéria pela medicina (tomografias) -, do virtual, através do qual aqui comunico, não o foi menos. Os blogues abortam, nascem, evoluem e morrem. No entretanto, cumprem etapas de crescimento. O “Sem Pénis, Nem Inveja” nasceu faz hoje três anos. Chuchou no dedo a maior parte do tempo – ainda chucha! -, mamou como pôde, usou fraldas que aparassem água e caca que a ama, de pena em riste, não cuidou evitar. Aprendeu a andar sozinho quando a mãe Lulu rumou para outras paragens. A fala jamais lhe faltou - tagarela, irreverente, frívolo e atabalhoado. A ama dá-lhe trela e ele corre arrogante por campos em que, não raro, se espalha ao comprido. Ri muito, levanta-se a apronta-se para a seguinte. Mas quer saber. Conhecer mais mundo - o que espreita da sacada limitam-no colinas. Por isso continua livre e curioso. Não falte paciência à ama para lhe aturar audácias e ao pequeno insolente enlevo pelo desconhecido... A ama e o ladino “Sem Pénis” agradecem os mimos recebidos (um dos mais recentes veio daqui)

Publicado por Teresa C. às 08:05 AM | Comentários (14)

setembro 25, 2006

OSAMA NAS ALTURAS

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Drudwyn

Bin Laden, morto ou vivo - a Câmara dos Reprensentantes norte-americana votou dobrar para 50 milhões de dólares a recompensa oferecida pela captura do esquálido e congeminante homem. A febre tifóide dizem tê-lo levado do mundo que ajudou a desatinar. Finalmente, encontrou as virgens, em fila, diáfanas, espetando os pescoços para ver de todos os ex-vivos contemporâneos o maior instigador da Guerra Santa. Surpresa passada, correram a homenagear o homem - prostradas de rabo para o ar e braços estendidos, gritando em coro “Osama”. Presumo-as (mal) cobertas de bourka leve – musselina, organza branca, formas translúcidas e ao leú em público. Morto, mas público. Como o Bin. Infectado o corpo, as entranhas do espírito finalmente dominando de cima o mundo. Osama nas alturas.

O Além dos muçulmanos em muito deve ser distinto do prometido aos cristãos. Estes revelam pragmatismo – não futuram ajuntamentos virginais porque do que aqui em baixo vai deduzem impossibilidade de reunir hímens intactos em número e qualidade. Por outro lado, à conta das desbundas terrestres, os apagados levam barriga cheia. Pouca seria a lucidez ao deixarem para o Além o que poderiam fazer hoje. Ninguém em perfeito juízo acredita estarem no Céu promotores turísticos que, de bandeja, proporcionem prazeres sensoriais - a viagem de sonho, misturas da carne com as anjinhas, jantaradas no Eleven ou no Valle-Flôr. Além do mais, cristãos falecidos são recebidos com “Hossanas nas alturas”, não por Osamas descarnados.

No post-mortem muçulmano as virgens são protagonistas. Por tal é deduzida pobre satisfação lasciva dos muçulmanos vivos. As mulheres não podem revelar a estranhos as formas e o rosto ou ter escorregadelas na virtude sob pena de apedrejamento mortal; estudar sim, às vezes, mas sempre tapadinhas. O Ramadão que por ora se inicia - significando queimar ou incendiar, pecados, está visto!, não uma embaixada aqui, um autocarro ali, bandeiras em todo o lado -, impõe jejum e rol de proibições, entre elas a de não fumar e ter relações sexuais Não apenas em simultâneo mas também à vez-à-vez. Para quem das práticas muçulmanas quase tudo ignora, assim, de repente, a vida dos crentes é um tédio que explica candidatarem-se, amiúde, à morte – dão por garantido irem desta para melhor (as virgens no paraíso devem ser mato esfaimado!).

Nota 1 - O texto desconchavado deve ser lido ao som da música ao lado, cujo compositor entregou ontem a alma ao Além.

NOTA 2 - Serve a presente para assegurar não pedir desculpa pelas enormidades descritas

Publicado por Teresa C. às 10:19 AM | Comentários (4)

setembro 24, 2006

MP 2,5

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Autor que não foi possível identificar

Partículas Respiráveis de Alto Risco – MP 2,5. Partículas que podem ser classificadas como partículas inaláveis finas (menores que 2,5µm ou, o que é o mesmo, inferiores a 0,0025 milímetros). As partículas finas, devido ao seu tamanho diminuto, podem atingir os alvéolos pulmonares, ficando as de tamanho maior retidas na parte superior do sistema respiratório.

Sob a denominação geral de Material Particulado – MP - está um conjunto de poluentes constituídos de poeiras, fumos e todo tipo de material sólido e líquido que se mantém suspenso na atmosfera devido à microscópico dimensão. As principais fontes de emissão de «particulado» para a atmosfera são os veículos automotores, processos industriais, queima de biomassa, suspensão de poeira do solo, entre outros. O material «particulado» pode também formar-se na atmosfera a partir de gases emitidos principalmente nas actividades de combustão, transformando-se em partículas como resultado de reacções químicas no ar.

Nalguns países da Europa estão em curso estudos sobre a concentração destas ínfimas partículas que a cada respirar introduzimos no organismo. O problema da exposição pessoal e das doenças respiratórias, sobretudo atingindo crianças a ritmo avassalador, é um assunto politicamente escaldante. Portugal também participa neste projecto que está sob jurisdição e controle do IES-JRC da Comissão Europeia - lembram-se de quem a dirige? -, que vê a sua implantação e actividade sujeita a factores e pressões políticas. Com clareza: esta Comissão Europeia favorece lobbies da indústria e evita rígidas medidas de protecção do ambiente e da saúde publica. Assim sendo, o apoio do IES ao programa MP 2,5 tem sido o resultado de um esforço literalmente permanente, de encontrar soluções, compromissos, e contornar dificuldades e obstáculos. Recentemente, o IES retirou os apoios pelas inomináveis pressões a que está sujeito.

Sendo que o principal parceiro do referido programa para Portugal é Mamma Antismog di Milano (literalmente, "Mães contra o smog"), e que Milão é uma das cidades mais poluídas do mundo, foi precisamente ali que o IES recusou suporte em equipamento e coordenação cientifica como resultado de intoleráveis pressões políticas. Outros financiadores procuraram desvirtuar a natureza do projecto, ou levá-lo a uma quase clandestinidade. Os investigadores envolvidos recusaram, perdendo os fundos.

Esta síntese do problema é um alerta para as características da troposfera política da União Europeia. Como cidadãos estamos condenados ao esquecimento. Poderá a paz reinar nas consciências?

Publicado por Teresa C. às 11:58 AM | Comentários (2)

setembro 23, 2006

DE PERNAS PARA O AR

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Elvgren

Não é meu o hábito de «assobiar e olhar para o ar». Por desgraça deve ser tomada a incapacidade – envolvo-me para lá do regulado com injustiças e humilhações exercidas sobre quem, pelos recursos exíguos, está arredado da defesa. Olhar o ar, sim, é prática de que não abdico seja íntima e amena a fracção do dia. Assobiar é que não. Sibilar como periquito engasgado, consigo, além não vou. Dizem-me para treinar a garganta e relaxar as bochechas. Nem assim. Afunilo o ar, silvo e acabo num sopro esmorecido. Ando em explicações práticas, e da última restou garganta dorida.

Patinar é ambição. Em pequena ensaiei, seduzida pela etérea delicadeza da patinagem no gelo. Mal despeguei do gradeamento do pátio. Deslizavam alegremente os outros meninos, e eu trôpega, braços abertos em desalinho, quais asas de condor. Teimei, caí, esfolei joelhos e cotovelos. Nada. As rodas eram mais rápidas que eu. Farta de ver o mundo de pernas para o ar, arrumei os patins para um dia que, vergonha minha, até hoje adiei.

Andar de bicicleta foi incentivo dos pais. Comecei pelo triciclo sem rasgos que preanunciassem talento especial. Trocava sem pena as três rodas pelas bonecas, brincar às casinhas, calçar os sapatos da mãe e andar de baloiço. A passagem para a bicicleta deveria ser coisa normal. Não foi. O pai segurava-me, corria estimulando avanços, se possível a direito. Uma vez e outra. Mais outras. Mas não. Jamais caí, não aprendi – rima e é verdade obedecendo à tradição. Tenho pena. Embevecem-me ciclistas, mochila às costas, pernas a dar a dar, a bicicleta a avançar e eles com ela. Sigo-lhes o percurso e invento o prazer do esforço mitigado pelo vento no rosto.

Não sendo do meu feitio conformar-me perante limites ociosos, para o assobio ando em treinos, intervalados com outros, convenho, mas treino; patins e bicicleta virão depois. Enfastiada dum mundo virado do avesso que não posso ou sei mudar, uma coisa é certa: irei (re)vê-lo de pernas para o ar.

Nota: Ao lado, Fiona Apple.

Publicado por Teresa C. às 11:44 AM | Comentários (3)

setembro 22, 2006

VIA POSTAL

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Peter Powell

Receber notícia de multa é comum. Por via postal arribam notícias maioritariamente dispensáveis: saque por via de facturas, finanças, autarquias e infracções de trânsito. Uma houve que me localizava no Porto na Rotunda da Boavista estando à data pousada numa magnífica cidade europeia. Multa que paguei – evitar a canseira de provar que o veículo em questão dormia na garagem onde o vim encontrar intocado, valia os contos de réis. Mas era automóvel o veículo, não um tractor. E estava no Porto, não em Inglaterra. Além do mais, o tractor jamais vira mundo para lá de Carreixede, suponho que nisto próximo do dono, agricultor honrado. Lido de revés o papel, o homem presumiu que algum dos filhos tivesse andado na maroteira. Mas não. Leu melhor. Os rapazes, ainda que pudessem ter escapulido para ir à vila montados no tractor catrapiscar miúdas, beber uns copos, mostrar que se tinha mãos para aquilo para o resto não faltariam, a Inglaterra não chegariam na presumida sortida nocturna. E os moços negaram – que não, nem à vila foram e da ilha não se lembrariam, ainda mais sabendo como água atasca num ai o motor. E como estariam de volta logo pelo alvorecer? O pai cofiou a barba, meditou, coçou a cabeça e concluiu: “Aqui há caso!”

Este fait divers de um jornal noticioso lembrou-me amigo que prezo. Dobrando limites de velocidade na A1, foi à má-fé captado pelo radar. A multa veio como a do outro, pelo correio. Nem pensou duas vezes: sabendo a multa pesada ou a carta jazendo numa gaveta burocrata, afirmou convicto que o carro era dele, isso confirmou, mas quem o guiava era um italiano como quem na altura negociava. E dormiu descansado sonhando com a multa ocupada num vai-não-vai sem retorno. Meses passados – na demora do processo não se equivocara! -, recebe convocatória para se deslocar à esquadra. Reviu pecadilhos recentes, nada de grande monta, e foi em relativo sossego, que nisto de polícia e fisco só a distância é segura. Ficou pasmo: a polícia italiana fora a casa do suposto condutor e o homem, boquiaberto, logo ali provou estar nessa altura em Itália. E o polícia para o meu amigo: - “Com que então era o outro? E o senhor onde estava? A águas nas Caldas?

Publicado por Teresa C. às 07:42 AM | Comentários (2)

setembro 21, 2006

TACADAS

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Autor que não foi possível identificar

Há quem diga este planeta uma nau navegada por loucos. Vogando ao deus-dará entre fúrias meteorológicas, económicas, religiosas e, por tudo, sociais. Oriente, Ocidente. Muçulmanos e cristãos (Buda conserva imperturbável placidez desde que um melro não seja morto por pisar descuidado). Ricos e miseráveis. Culturas ancestrais antes colonizadas, sempre humilhadas pela enfatuada supremacia ocidental (não vale lembrar que o monstro chinês semicerra os olhos de fogo, enquanto pela sorrelfa devora economias). O negro e untuoso sangue da nossa civilização maioritariamente na posse dos escravos de anteontem, desde ontem cansados de abanar ventoinhas de penas para a frescura dos patrões brancos. Todos no meio-termo entre a paz e a guerra. Tacadas a esmo do Papa, do presidente americano cujo nome nem deve ser dito por atrair o que de pior há em nós, do Ayatolá Khamanei.

As forças da Terra têm gerido as catástrofes naturais, entre elas as danosas causadas por furacões. Atemorizam pela fúria. Pela aparente génese a partir do nada. Massas de ar enraivecidas, vá lá saber-se porquê. Aventura-se a explicação - águas profundas aquecidas e unanimidade na orientação e intensidade entre os ventos da troposfera e da superfície terrestre como útero provável. O aquecimento como vilão. A conversão da energia térmica estocada pelos oceanos em energia mecânica sem destino para lá da destruição, assim encontre coisas ou gentes. O Gordon foi um triste, a vergonha dos furacões seniores que a memória dos homens registou. Não estocou. Deu uma tacadas ligeiras, enfraqueceu e enviesou.

Os ventos - deles o assobio constante enerva-me – podem aniquilar tacadas. No golf, por exemplo. Ventanias arruinam um enquadramento perfeito. E a tacada certeira que estava para ser, não o foi. Sai a tacada de banda, fica o buraco deserto. Por que tacada memorável requer habilidade e ambiente sereno, há que atentar. Ombros, pés, joelhos e ancas posicionam correctamente o taco na linha do alvo, do buraco disponível. Guinadas alheias à situação – toque de telemóvel, luz encandeando os olhos, súbita dor de cabeça -, perturbam a eficácia da tacada. E não vale culpar o vento. O aquecimento. O Papa. O Khamanei. Ou o outro cujo nome não pode ou deve ser dito.

Publicado por Teresa C. às 01:49 PM | Comentários (2)

setembro 20, 2006

URDIDURAS

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Mortimer Wilson

Adivinhas, puzzles, livros policiais, palavras cruzadas. Enigmas. Códigos. Indícios. Desafio. Virtuosismo. Atenção. Paciência. Atormentado que esteja o espírito, a disciplina da atenção requerida pelo farejador de cifras vem a calhar. Fica a urdidura penosa entre parêntesis, dando tempo ao tempo para a embrumar.

Descontando enigmas grandiosos a que todo o conhecimento acumulado não deu respostas, os enigmas quotidianos rodopiam num só pé em torno do essencial: os afectos. Por eles fazemos escolhas, alteramos caminhos, desbravamos silvedos e encaramos horizontes nunca pensados. Os afectos jamais se resumirão à história melosa (penosa?) do atrai-junta-separa. Para quem a ouve poderá ser, para o contador é a sua «história», nada tendo de trivialidade sem vestígio de imaginação.

Individualmente, o maior enigma não é pergunta mítica da esfinge. Condensa-se numa simples: como dar sentido feliz à vida que temos, sem a desconstruir? Na rua passam, lentos, casais de idosos. Um ao outro segurando o braço ajudam a superar escolhos. A bengala que trazem invisível na mão é o elo íntimo de forças maiores, como a felicidade dos dias bons em que juntos à família reconhecem os traços de ambos e ancestrais dos filhos aos bisnetos. Um dia, foram novos. Sentiram dores, certezas e dúvidas. Aliviadas as tormentas – por que as há sempre –, o afecto resistiu. Forte o laço, frágeis eles.

Publicado por Teresa C. às 07:29 AM | Comentários (5)

setembro 19, 2006

UMA MINI E UMA VELHA

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Erica Chappuis

Duas taças, uma mini e uma velha. Ouvi o pedido de raspão. Clientes conhecidos pela postura e conversa gasta. Café manhoso numa esquina onde confinam recintos fechados de classe média e habitação social. Eram onze da manhã e os amigalhaços, a hora tão matutina, haviam lastro no estômago para sopesar o álcool. Não se sentaram. Aviaram o assunto de pé – uns repartindo o peso com a ombreira da porta e as montras, os outros no passeio cavaqueando como os que já lá estavam. Bando de homens inertes numa segunda de manhã. Desempregados, abonados por reforma, com baixa ou profissionais do ócio, tanto faz. Em pé, garrafa ou taça na mão, fumo subindo, formas descidas, esperança, quiçá!, também. E bebiam. Espantando asas de pensamentos negros, gargalhavam dos chistes, dos dias, do vazio, de si.

Os humores do bando excluíam os básicos noticiosos do dia. Nem uma palavra sobre a (in)consistência papal, a raiva islâmica, a mão na derrota do Sporting, ameaças terroristas ou o arranjo do presumido árbitro-marioneta contra o Portimonense. Nada. Olhavam as mulheres deles e dos outros carregando sacos de plástico de conteúdo pensado ao cêntimo no supermercado. Os miúdos pequenos giravam por perto – pontapés na bola, duas rodas, corridas e mais. Protegidos pelo olhar atento(?) dos homens. Numa liberdade condicionada mas feliz, a deixar longe as das crianças que enclausuradas em casa aguardam o regresso do cansaço dos pais.

Os parques infantis colam no exterior aos espaços privados dos condomínios. Apelo ao crescimento conjunto de meninos de todas as condições. Pequeno comércio abrange as necessidades do bairro que se preza de ser. E o parque. Espreguiçado de Este a Oeste. Represas, pérgulas, riachos cantando nos atrevidos obstáculos. Espécies vegetais sabiamente dispostas pela equipa de arquitectos-paisagistas. Espaço que se recolhe e afunda, serpenteia e dá a mostrar. Todos - os das taças, minis, velhas e engravatados dos serviços – o procuram pelo cair do dia e ao fim de semana. Uns com os outros aprendendo modos de estar. Cooperando na preservação dos espaços comuns. Integrando quem a vida maltratou.

Publicado por Teresa C. às 07:53 AM | Comentários (1)

setembro 18, 2006

BY NIGHT

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Beryl Cook

Sair numa noite de sábado com programa usual - jantar fora, copos, música, espectáculos no «lounge» do Casino Lisboa - é risco cujos enredos convém antes avaliar. Para a paparoca, seja objectivo comer bem e não trincar insípidas texturas enquanto se vê e é visto, é fácil encontrar local amável especialista na arte de satisfazer o palato. Estando acesa a conversa, humor na ponta da língua e sorrisos nos lábios, os olhos reluzem no prazer da noitada.

O ajuntamento para a janta, entre comer e rir, ronda as três horas. Começando às nove, pela meia noite o lombo do pessoal animado reclama arredo da cadeira. Bares são o destino. Bad choice! Pior não pode haver. A 2ª Circular regorgita viaturas. A Praça de Espanha simula hora de ponto. Alcântara, Parque das Nações, Bairro Alto são como pote de mel para colmeia sem abrigo. Zumbem os motores dos automóveis, fazem filas, andam a passo de caracol, melam condutores e penduras ou olha cada um para seu lado sendo de rotina a relação. Quem nestas romarias intestinas persiste, merece admiração – gente obstinada que tendo em vista um gozo não desiste nem a feijões. Pode ludibriar condutores desprevenidos, espetar dois dedos intervalados no ar, ser um senhor – engolir um cabrão ou filho-da-puta –, sofrer, sentir o cóccix e a cervical reagirem com ferocidade a horas de imobilização, que não desiste – braço de fora, cigarro na mão, tédio como rótulo na testa, mas sem desistir. “Gajo que é gajo aguenta, não dá o braço a torcer”

Quando a lata do transporte é finalmente parada e o corpo esticado, surgem passado novos obstáculos. A disposição definhou, a espera da bebida dá para vários sudoku e azedar conversas. Salvo aqueles para quem estar na maior é a natural condição, os demais dão conta do logro e gajo que é gajo cai redondo na cama e resfolega um gemido – “p’rá semana há mais!”

Publicado por Teresa C. às 10:11 AM | Comentários (0)

setembro 17, 2006

45 POR MINUTO

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Deborah Poynton

É obra! Parece pouco tratando-se do ritmo da respiração, demais para cervejolas buxo abaixo. Como em tudo, ça dépend. Tratando-se de proeza alemã é esperada eficácia, execução perfeita, elevada produtividade, obstinada convicção. Os boches para esquecerem os genocídios nazistas e os japoneses como exorcismo dos horrores atómicos mantêm prodigiosa actividade. Mão que trabalha, mente anestesiada pela velocidade da produção. Ajuda, mas não impede do (in)consciente o tique-taque constante.

Quase fazendo lembrar lusitano empreendedor buscando imortalidade Guiness, por regra em comezainas de espanto – o maior pão com chouriço, a maior broa, regueifa, arroz à valenciana, bolo de chocolate, sardinhada, feijoada, cozido à portuguesa para um vila inteira -, o alemão não pensou em encher bandulhos. Elaborou. Poderia ter apertado, manualmente, 45 parafusos. Montado aviões em kit. Desmantelado o motor de um automóvel. Poderia, mas não o fez. Desapertou sutiãs.

Sabendo o reino feminino como os dedos deles se embaracem e torcem e substituem no rosto a expressão do desejo ardente pela língua meia torcida e de fora perante o fecho de um sutiã, confessemos, é obra! Para o recorde pessoal e absoluto ter dimensão, espero ter sido desaperto de modelos de sutiã diferentes - com colchetes, fecho único à frente, atrás, de lado, nas alças, grandes e pequenos ou dissimulados. Um dos momentos altos das abordagens íntimas é o desempenho deles perante o obstáculo sutiã. Hábeis, desiludem-nos – quantas centenas não desapertaram já? Homem somente por treino intensivo ganha habilidade. Desajeitados, não atinando sequer se o aperto é atrás ou à frente, e não sendo a risota descarada opção, conformamo-nos com as tenTativas até, num suspiro, o desapertarmos nós.

O alemão cumpriu de empreitada a missão. Quem julgar o treino a dois como ensaio, desengane-se. O homem sentou-se na cama rodeado de sutiãs por todos os lados e desapertou um a um. Coitado!...

Publicado por Teresa C. às 12:02 PM | Comentários (0)

setembro 16, 2006

NÃO DIGAS QUE SIM OU QUE NÃO

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Alberto Pancorbo

Não digas que sim ou que não. Deixa que a noite reclame a verdade. Das emoções, dos corpos, dos sentidos, da paixão. Ousa derramar-te inteiro nos braços de uma mulher. Sem temores. Sem reservas. Isento de mágoas, traumas ou prudência. Havendo feridas que não confessas e de ti ocultas, continuando abertas e por elas doente o espírito, o renovar da esperança será unguento que sara onde mais dói. Por que olhar insistente no passado e ver negras auroras quando elas se pintam de malva é luto inacabado. São feridas cuja crosta é retirada e se afundam e infectam em cada anoitecer.

De ti ir além da fala dos lábios, das mãos, das modulações da voz, da expressão do rosto é presumir o não-dito, eu sei. Mas quantas vezes revelamos pelo silêncio o clandestino eu? E dessas, quantas noutras expressamos carinho, distância, amor, ódio, desejo de «ficar com»? Dizem as mulheres sensitivas. Não creio. É sensitivo relativamente ao outro aquele que presta atenção. Exclusiva. Como se o mundo se confinasse aos dois. E nem é preciso existirem laços da carne. O amor por um familiar, amigo ou um amante tem pilares no espírito. A carne pode confirmá-lo ou não.

Levanta âncora do cais onde atracaste quem és. Solta amarras e navega a noite. Esquece-te de ti. Como se fosses barcaça ondulando na liberdade e para trás ficasse a prisão sem grades onde jazias. Olha o horizonte. Lá ao fundo, vês? Não? Falta apurares a atenção para o que não começa e acaba em ti. Quando a neblina nocturna te fizer sentir indefeso, resumido a um ser com medo do desconhecido, os teus limites e defesas e estratégias irão encher a barcaça. Ou te afundas com ela, ou deitas borda fora o que não integras e te faz infeliz.

Publicado por Teresa C. às 10:41 AM | Comentários (2)

setembro 15, 2006

CATRAPUZ!

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Jisan Kim

Amornou. Quero dizer, esfriou. Não exactamente, nublou. Ventou. Toldou. Ou foi tudo ao mesmo tempo. Ou nem foi nada disto e quem acinzentou fui eu. Anda pele habituada à quentura do sol, à leveza dos trapinhos, às tiras nos pés, e a meteorologia entristece a rentrée. Mal refeita do regresso à equipa profissional, gente boa e amável que adiaria sem desgosto o reencontro, afastada de lojas e festas que não íntimas ou a dois, finou-se a calidez dos dias. Ora, isto é o que custa mais. Assim, como assim, das ondas de calor aperfeiçoámos defesas e para a chuva-molha-tolos não estávamos preparados. Foi queda em escorrega inclinado a oitenta graus. Catrapuz!

Os portugueses padecem de alguns defeitos e muitas qualidade como a resistência exemplar que contrapõem à fragilidade dos outros europeus. Por uma onde calor de nada morrem como tordos. Nós não. Contámos cinco e morreu alguém? Nem um! O mesmo com o frio e os fogos e os acidentes. Por cá, em número até podem, finar os mesmos, mas ninguém se descose, enquanto os de fora entregam a alma ao Criador num ambiente de tragédia, de must noticioso, com câmaras e holofotes por cima de lado e em baixo. Resumindo: morremos como vivemos, anonimamente, e os outros em grande estilo. Tem de ser karma, só pode. Ou a terceira lei de Newton na versão budista ou hindu – “qualquer corpo sujeito a uma força reage com outra de igual direcção, intensidade e sentido contrário. Sofridos em vida, sofríveis na morte. Secante sina a nossa (isto deve ser lido sibilando bem os ss).

Até levava a bem o sumiço do calor se enfiar-me num avião e passarinhar o cartão de crédito entre os Champs Elysées e o Faubourg Saint Honoré fosse solução. Que não é. Nem sei quando virá a ser. Recuso-me a pôr os pé num avião enquanto limparem da minha alçada os haveres e a mala de mão. É inconcebível viajar de mãos a abanar. Sem os meus trapos de estimação na mala de cabina e o necessário para uma mulher – acetona, verniz, estojo de unhas, agulha, linhas e dedal, medicamentos para uma eventualidade, vários bâton, sudoku, livros, agenda, estojo de escrita, óculos de sol, toalhitas refrescantes, lenços de papel, produtos de maquilhagem, perfume, pasta de dentes e escova, rolo tira-pêlos – não me vou daqui para lado nenhum. Como bate-perna no Chiado e nos centros comerciais é tédio, visto o mesmo do ano passado. Desgraçada rentrée!...

Publicado por Teresa C. às 07:55 AM | Comentários (0)

setembro 14, 2006

CAMPAINHAS

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Terry Rodgers

Já Pavlov deu conta do condicionamento dos seres – ratos, é certo, abrangendo humanos logo a seguir. Alguns comportamentos que a modernidade trouxe são exemplo perfeito do nosso condicionamento. Campainhas que tocam silêncio e orientam o modo de estar.

Pessoa tida como atenta, informada e tratando por tu novas tecnologias, não prescinde de diariamente correr virtualmente o seu mundo; a competição desenfreada obriga a estender o trabalho ao transporte, à esplanada ou à casa. Até ao quarto. Coisa extraordinária para o meu modesto entendimento, essa maníaca necessidade de «estar em todas». Como se pretendêssemos a omnipotência. Reinando num emaranhado de cabos ópticos e pelejando entre gigas de informação.

Desapareceu, para esses espíritos hiperinformados e que não passam de distraídos espectadores do real, a doçura de um serão partilhado entre lençóis, na leitura de um livro ou numa conversa íntima em que o calor permutado serena e conforta. De inefável proximidade. A tornar intenso e prazeroso o alheamento do mundo. Reclamando o essencial que dois seres têm para dar – eles próprios. Sem permitirem que campainha exterior e tirana lhes comande o salivar.

Publicado por Teresa C. às 09:29 AM | Comentários (3)

setembro 13, 2006

A COISA

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Sorayama

Por uma causa de somenos quebrei um dente na horizontal. Isto é, o dente, que eu estava semi-vertical. Não foi descuido, gesto impulsivo ou dureza da coisa. Nada disso. A coisa não estava nem dura, nem mole. Estando assim-assim, da passividade da dita não desconfiei. Enfiada na boca, preparava-me para engolir. Já não deu – saltei para trás num ápice, a mão apertada, a dor no rosto. Ia alta a noite para aventuras dentárias, que fazer? A coisa surpreendeu-me e trinquei-a bem demais. No desatino da dor busquei alívio num gole de água gelada (costuma resultar). Qual quê? A dor cresceu e a coisa sumiu. Fiquei metálica. Um horror!

Boca revista no verão pela minha dentista preferida, limpeza e coisa-e-tal, e vai daí o fado desanda a roda dentária. Fatalidade inesperada para quem uma dor de dentes é pior que mau amante trazendo ao acto beliscão cruel no mamilo. De tanto prevenir conflitos bucais, caí num sem rede ou mínima cautela. Pus a coisa de lado – continuar era pena infernal – e engoli duas pílulas analgésicas. Demorei a deglutição e à racha no dente acresci azia. Dormi mal – pendurei-me num pesadelo com dentes, coisas nem dura nem moles, e dores. Tenebrosa horizontalidade a dessa noite...

Bem cedo, busco um dentista numa clínica próxima. Clínica próxima, muito latão reluzente, focos e plantas e jornais e recepcionista atenta e livro de marcações. A tabela de preços mesmo em frente revelava: noventa euros uma consulta. Saí porta fora sem consulta, rematando – “preço especulativo!” Despedi-me dos latões e a dor amainou num acto solidário com a minha decisão. No trabalho, o rosto pardo e omisso o sorriso, uma boca feminina diz-me: “Vens tão gira, tão Barbie!” Fui de novo ao Inferno e voltei – “estás a candidatar-te a Ken?” Para dentro: “homessa!, a gaja é parva em dose XXL”

O alívio veio mais tarde por via de mulher licenciada em artes dentárias e outros encantos. Picou, anestesiou, brocou, zuniu. Ao sair, despediu-se como me recebeu: sorridente e afável. Fiquei fã. Dela, por que da razão da visita nem um pouco. A meio da consulta, dada a razão da fractura, informou: “teve sorte com a dureza da coisa; pois se uma pizza de marisco rachou de alto a baixo um dente!” Nem sei que faça: não podendo evitar a causa, como enfiá-la na boca? Partida em pedaços miúdos?

Publicado por Teresa C. às 10:20 AM | Comentários (3)

setembro 12, 2006

VEGETAL, EU?

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Blake Flynn

Devo ter ADN vegetal. As suspeitas são recentes, porém, indícios acumulados desde que de mim sei fornecem os fundamentos. Banda desenhada lida sob árvores frondosas. Na adolescência, livros devorados à sombra de pinheiros, latadas e nogueiras no recatado ambiente doméstico. Mais tarde, o Jardim Botânico, o Choupal, e o parque beira-rio de Coimbra foram testemunhas silenciosas da concha sobre mim. Lendo. Balanceando o querer e poder da liberdade diminuída. Preferência por courts de ténis bordados a verde nas margens – do CIF, Estádio Nacional, Monsanto e Vale do Lobo. Do golfe, pouco indo além do básico swing, qual birdie desajeitada tentando levantar voo, retenho as caminhadas pelos greens e o aconchego da posição à chinês para mergulhar no livro e no espírito.

No visual da casa ou do look o verde não foi sempre cor de eleição. Ou no futebol – do Sporting sabia existir e pouco mais. Nas casas que habitei havia em todas denominador comum – ausência de vizinhos à frente. No lugar do betão, antes quinta de casa senhorial, jardins ou campo anónimo regulando o verde pelas estações. Agora, parque cuidado e de enorme extensão convida a caminhadas pelo cair da tarde. O verde trouxe-o para casa em tom lima avivando bege pastel.

Do Sporting gosto cada vez mais. A memória do pai que me perdoe, mas o azul dragão nem vê-lo. O vermelho da águia suscita simpatia, o preto da Briosa ternura, o amarelo de uns que para aí pontapeiam, rejeição. Da noite aprecio o silêncio e o langor, do dia a luz do sol que me ergue a disposição. O dióxido de carbono e oxigénio combinados na respiração, amornam na doçura outonal, vivificam na exuberância primaveril. Que outra explicação se não vestígios de clorofila corporal? A cada dia vigio o espelho, não fique verde a pele. É que verde de inveja ou «ná que estão verdes» não combinam comigo. Verde que és verde: trago-te no ADN ou como necessidade vital.

Publicado por Teresa C. às 09:46 AM | Comentários (3)

setembro 11, 2006

IGNIÇÃO

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Boris Vallejo

Local e momento nem sempre identificados. Razões que a razão desconhece ou determinação. No(s) envolvidos(s) restará difusa bruma se a ignição ficar aquém da intensidade dos picos das experiências passadas e futuras. A memória é implacável - rotula e arquiva em categorias escusas, mas, num clique, apresta-se a trazer ao presente o passado. Em qualquer caso, ignições. Mecanismos que põem em movimento motores de combustão.

Da ignição é dito comburir sem chama material sólido. Como os humanos, animais ou vegetais. Injusta realidade para os líquidos e substâncias gasosas que ardendo com chama visível dela perdem a condição. Conceito discordante da experiência comum que reconhece álcoois, éteres e cetonas como excelentes fontes de ignição, não fora a visibilidade da chama. Problema para a ciência e memória: catalogam factos, conquanto amiúde o tempo e a inovação desapertem espartilhos e humildemente reconheçam já não ser o conceito o que foi.

Invejas. Amores. Saudades. Fanatismo. Maldade. Torres. Motivações lascivas. Rejeição. Terror. A Lei de Lavoisier negando exclusividade de constância à massa, reconhecendo hoje à da energia valor maior. Evoluem os conceitos. Mudam as ignições. Dos incêndios, atentados, dos fogos interiores. O que motiva a luxúria é que não muda, pensado seja o contrário. Jamais foi causa a parte em si - o tornozelo, a escassez da roupa, as curvas capitosas, a musculatura e o olhar matador. Sempre o subentendido, o mistério como fermento da combustão sensível. Sólida talvez a fonte oculta, espiritual a ignição.

Publicado por Teresa C. às 09:30 AM | Comentários (2)

setembro 10, 2006

SALTOS ALTOS

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Sorayama

A vida com tacão para cima de sete centímetros não é igual. O corpo adquire outra postura. Ombros para trás, peito para a frente e rabo para dentro, obrigam a desviar os olhos do chão. A tensão do abdómen enrijece a confiança dos gestos. Ficando a passada mais firme e o som dos saltos, qual perfume, rabisca no ar a palavra Mulher.

Não fica passivo o espírito perante as diferenças corporais – cresce também. O mundo, visto de cima, fornece horizonte maior, ângulos novos, correntes de ar que desembaraçam o pensamento das poeiras e ciscos e coçados modos de estar. A sensualidade no ondular das ancas, harmonizadas com os saltos, retesa os músculos das pernas e cada passo deixa escrito na calçada: desejo. Não que ela o delibere. Decorre da vertigem de sentir-se em tudo muito mulher. Como se o homem amado lhe enlaçasse a cintura, o gesto um tudo nada descido para que do frémito por ambos sentido só eles saibam, ninguém mais.

Rasando o chão o calçado e caminhando na rua, descai o que com os saltos subiu. Minora o que foi crescido. Esvai os rabiscos no chão e no ar que o caminhar alteado imprimiu. E a mulher fica dona-de-casa, mãe, amiga, cúmplice, colo. Por isso, a casa pede rasura ao chão. Ou, na noite clandestina bem como numa fugida do dia, calçar sapatos de salto e vestir somente a pele.

Publicado por Teresa C. às 11:07 AM | Comentários (10)

setembro 09, 2006

GRANDE ELVIRA!

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John Falter

Conheci várias Elviras. Aliás, nome predilectos dos padrinhos beirões. As baptizadas cresceram mansas e em adultas foram costureiras. Tanto assim, que fiz o nome sinónimo da profissão e me abespinho agora com as capelistas de franchising, do ofício fardadas pela fita métrica à volta do pescoço, porém com «sinhóra» na língua. Como os sapateiros. As engomadorias. Todos formatados. Emigrantes de mau grado. “Pode «voltarr» mais «tarrdi»?” como máxima profissional. Perdida a afabilidade das Elviras, Belmiras, Cidálias ou Deolindas.

Das Elviras da minha vida nem uma tinha pêlo na venta. Mansas desde criança, nesse particular não mudavam. Buscando defeito nelas, talvez o da subserviência modista. Maridos dominadores, esguios e mal-encarados, quem sabe de íntimo atazanado pela fita métrica no pescoço delas. Complexo? Recalcamento? Retaliação pela temida inferioridade métrica do batente? Factos eram as olheiras sofridas delas e o mau-génio deles.

Elvira Cook, setenta e nove anos, cabeleira postiça como barrete a tapar carapinha, recurvada, decidiu mudar de vida, assaltando sucursal do Bank of America. O funcionário, mal-encarado como é tradição nos homens da vida das Elviras, foi resoluto: “não, não, não! Não assalta e pronto! Vá dar uma volta.” E ela foi. A farmácia estava perto, naquelas idades há sempre receitas para aviar, e foi aí que a polícia a encontrou. Tranquila como é apanágio das Elviras. Sem entenderem que aflorando rebeldia numa Elvira, independentemente da idade, é bom sinal. Merece respeito e não 45 000 dólares de caução.

Publicado por Teresa C. às 11:01 AM | Comentários (5)

setembro 08, 2006

A VIZINHA DO C

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Dave Nestler

Trinta e dois anos. Licenciada em Inglês-Português. O apartamento foi comprado pelos pais que também pagam o condomínio. Como professora não tem colocação. Ensina num centro de explicações. Nas férias não ganha – sustentam-na os pais. Procura emprego e gostava de ser muitas coisas a nível profissional. Nesta altura qualquer coisa calha “por que sabe como é, nem tenho por onde escolher e nem o que quero sei.” Deixou a casa do companheiro com quem vivia, à conta dos ciúmes da mãe dele. Não conduz – reprovou três vezes e desistiu. Os transportes públicos servem, excepto para saídas nocturnas – táxi ou os amigos vêm buscar e trazer. Afirma-se barriguda “mas é dura, quer ver?” (pegou-me no indicador, esticou-o e pressionou a barriga que) “é dura, sim senhora!” Fez ballet anos a fio e tem pernas de bailarina (levantou a saia e posso confirmar). Gostava se ser mais alta, “por que metro e meio é de menos.” Aprecia ouvir a música com som forte, “mas se incomodar, basta dizer.” A casa é quente e dá para o jardim. Lamenta não ter sacadas de onde olhe a rua e possa dar conta da razão de sons estranhos que ouve. Tem um chá fantástico – “daqui a pouco toco lá e levo” - para as digestões, para vencer angústias e cair num sono profundo. Quer deixar de fumar. Encomendou produtos da Herbalife para desembarrigar, embora nem coma muito. “Como é mal... ás vezes... sabe como é!” A mãe faz sopas excelentes e vem de propósito trazer – “a de hoje estava tão boa...” Devia fazer ginásio, não fossem os limites da ausência de carta. “Até tenho celulite nos braços, está a ver?” (garanti nada ver). Levantou a saia – “nas coxas tenho mais” (assegurei-lhe que não). Faz umas panquecas óptimas e temos de combinar um lanche. A mãe abastece-a de compotas e afirma que se cuidasse da postura desaparecia parte da barriga (concordei). E ficava mais alta... (também!) Em casa prende o cabelo com uma mola. “Os representantes da administração não se calam, assim nem se pode conversar” (pois não!). “Isto vale a pena por conhecer caras novas, pessoas simpáticas, como hoje consigo. Temos de nos encontrar com sossego.” Pois... Despedi-me. Apagando o som dos saltos, fui-me da reunião.

Publicado por Teresa C. às 10:57 AM | Comentários (2)

setembro 07, 2006

EU SOU DO TEMPO...

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Don Huber

... Dos postais de felicitações que, sendo abertos, em desenhos de maravilha erguiam bicharada, ambientes de Natal, casas de fadas e duendes e heróis das histórias-d’encantar. Garota, pedia ao pai que do postal contasse a história. E contava. Atenta, não perdia palavra. Afinal, além do enamoramento pelos desenhos-supresa, havia essa coisa mágica do pai atinar inevitavelmente com aquilo que o meu espírito captara ao abrir o postal. Sentada nas pernas fortes ou, mais crescida, aninhada aos pés, foram instantes de felicidade suprema que conservo intactos no que não se vendo, é.

Assim deviam ser os papéis. Os mails já o são. Incomparáveis no encantamento, é certo, mas... e os documentos, bibliografias, relatórios, projecções, papelada ociosa sobre importâncias de ontem e nadas de amanhã? O remédio é arquivar. Aos molhos. Em pastas mil. Rotular. Preparar a saison. Cuidar de colorir pelas pastas-arquivo a cinzentude dos papéis. Papel branco, convenho, porém hieroglifado peelos negros caracteres. Não se preserve o humano e morrerá afogado neles. Nos papéis. Em letras. Palavras escritas e precárias por condição.

Não delego em ninguém a escolha da nova colecção. Se o fim é trágico – maçadas recicláveis –, que respeitem, pelo menos, o visual da estação. A condizer com a esperança de não se multiplicarem como os coelhos dos postais de felicitações. Lamentando não surgirem de uma única folha do documento, ao abri-lo, os pardos conteúdos. Até dispensava os bonecos e as cores... O documento também.

NOTA Os comentários estão novamente activos. Such a dumb girl...

Publicado por Teresa C. às 09:08 AM | Comentários (2)

setembro 06, 2006

A OUTRA E ELA

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Steve Hanks

Ela sentiu cair o silêncio. Como muro. Espesso. Como pérolas. Líquidas. Como água. Lágrimas. Correram. Como respiração. Por cada uma sentiu rego húmido deslizando na face. Às que desaguaram nos lábios, bebeu-as. Como se receasse o fim daquele sofrimento líquido. As outras contornaram-lhe o rosto. Pingaram no regaço. Molharam o linho da túnica. Trespassaram-no. Escorreram na pele. Como se as desejasse.

Não se permitiu a sofreguidão da dor. Entornou-a com vagar. Nem um soluço ou respiração ofegada. Nada. Ela com ela. A outra e ela. Porque ela sabia que a outra um dia cansaria o canto a que fora remetida. Tanto a vigiara... Jamais descuidara o hábito de a aferrolhar. Pela noitinha, antes do sono chegar, pé-ante-pé certificava-se de nada a ter agitado. E dormia. Só pela tarde do outro dia poderia acordar.

Houve quem dela a ela contasse. Tocasse a verdade dupla. (Re)Afirmou nada saber. Pura invenção. Porém, dos sortilégios que detinha, sabia. O de a esquecer também. Sem que a matasse. Isso não queria. Matando-a, matava-se. Por isso as lágrimas corriam.

Publicado por Teresa C. às 10:06 AM | Comentários (0)

setembro 05, 2006

CABOTINOS? ELES?

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Gen Jun

Nem mais, nem menos que nós. Inquietou-me no masculino o termo ser comum e em nós de escassa utilização. Recorri ao dicionário temendo escapar-me sinónimo. Mas não. Cabotino foi e é cómico ambulante, actor pouco competente na sua profissão; em sentido figurado, indivíduo que alardeia qualidades que não tem. A intuição não me ludibriara.

Adjectivar humano como pretensioso, pródigo em vaidade ou orgulho tolo é no feminino o normal. Cabotino vem depois, quando de tudo já o pensámos, incluindo asno-d’um-raio, convencido de m**** ou parvóide de tigela cheia. O que menos nos preocupa é o ridículo em que chafurda a pessoa em questão. A tal insensíveis? Nós? Nem por isso, apenas habituadas a atitudes desajustadas na presunção. Desde a adolescência lidamos com “fresca e boa!”, “á se t’apanhasse...”, “comia-te!”, “queres brincar às mães e aos pais?” Ao crescermos, a substância não muda, salvo o que é moda nos comentários e a agudeza roTativa-perfurante dos olhares deles. Ofensivos? Ridículos? Não!...

Rótulo depreciativo de uso recorrente revela fragilidade, pavor ou receio de nele cair também. Perturba temerem os homens de modo tão aceso o ridículo que por tudo e nada rotulam como cabotino um igual. Não fique julgado remeter a idiotice das graçolas para tempos recuados ou profissões menores. Nem um pouco! Entrada de uma mulher num escritório, restaurante, actividade maioritariamente piloca, é reveladora – embasbacam, disfarçam atabalhoados, interrompem conversas, esquecem o que vão dizer. O pescoço, parte que da cintura para cima mais mexem, todavia, não geme dolorido. Pudera!.. O treino é intensivo. Peçam aos utentes de cervicais eficazes a 360º para aspirar a casa, cortar relva, passar a esfregona, varrer o jardim, e, numa penada, ficarão partidos. Amassados. Feitos num oito. Coitaditos... Frágeis, sim, cabotinos, não.

Publicado por Teresa C. às 08:14 AM | Comentários (0)

setembro 04, 2006

ÀS ARMAS!


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Deborah Poynton

É a reentré. Foi a festa do Avante. É a marcha pelo emprego do Louçã com o arremedo da cow parade em versão vacas magras. São os assaltos ao material escolar. Até o Marcelo Rebelo de Sousa trocou a elite algarvia pelo pó e calor e filas e desbunda nocturna da Atalaia. É o regresso dos transviados pelos calores do Verão.

Voltaram. Aguerridas, elas. Bronzeadas. Pés de sola arranhados pelos areais. Unhas estilhaçadas pelo faz-mala-desfaz-mala e manicuras de férias em parte incerta. Cabelos secos de palha. Mal amanhadas. No íntimo suspirando por saltos, odiando havaianas e páreos. Fartas de selvajaria estival, do apetite e desarrumo e rebeldia e petiscadas do marido e filhos e dos centímetros a mais. Venha o pretexto do trabalho que lhes dê descanso das birras dos Manelinhos, dos sacos da roupa suja obesos até mais não, das paparocas grupais que os Antónios, sob compromisso de honra não cumprido de tudo fazerem, impuseram portas adentro. Eles, os peritos em grelhados, mortinhos pela barbárie alcoólica, javardice, conspícuos devaneios com a Luisa, apostas com os compinchas se as mamas dela são naturais ou não, congeminam modo de a espalmar de raspão e ganhar o desafio – afinal são meloas de casca dura! -, do triunfo dando conta aos pares. Ficaram os grelhados secos e pecos, os homens em coma patético, elas engelhando o rosto pelo estado dos parceiros. No regresso, dirão das férias o melhor, salvo os desenxabidos que resumem a resposta a um “passaram-se!, para o ano há mais.”

Caixeiras de lojas de roupa, de acessórios de moda, esteticistas, cabeleireiros segurem-se! Agarrem o que tiverem à mão! O mulherio não vos dará tréguas e a piedade será omissa. Restaurado o corpo, o bronzeado no melhor, a meteorologia que se livre de mudar e legitimar chuva em cachão. Os decotes, o branco, as sandálias de salto, as peles macias reluzindo de cremes e melamina são incompatíveis com chuva-molha-tolos. As pechinchas da nova colecção desaparecem como se aves de rapina infestassem áreas comerciais. Elas preparam o visual de Outono subtraindo aos cartões euros sobrados das fardas colegiais, mochilas, ténis e gorda parafernália escolar. E eles? Pagam, claro! Pelos olhares lascivos às mulheres alheias, pelo estiolar dos grelhados, excessos e deixa-andar. Uma coisa é certa: não lhes fica adiado para o «além» o pagamento com juros das faltas cometidas. Veniais ou não.

Publicado por Teresa C. às 07:52 AM | Comentários (0)

setembro 03, 2006

BOBÓ

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Devors

Ele pediu picanha fatiada com alho, ela bobó de camarão. Esplanada virada ao rio, luzes definindo do Tejo a margem de lá. Noite cerrada, mesas de madeira ripada, candeia acesa, música e tepidez sugeriam ambiente tropical. Até a leveza do riso, mais a soltura dos corpos e a vivacidade da fala diziam com os sentidos despertos após o dia de verão.

Aos primeiros goles de cachaça com lima e bolas quentes de queijo, ela recordou há muito não saborear bobó. Um “não?” malicioso que conhecia bem demais, baralhou e deu impulso à corrida do pensar. “Bobó pode ir além do camarão?” Bailando nele o olhar pelo diálogo desconjuntado, veio o que “sim, pode, e da habilidade dás provas.” Dela arredou confusão – trazia manha no bico -, e queria saber mais. Tudo. Do bobó a ambivalência. No riso aberto foi-lhe negada – espicaçada – a explicação.

Chegando o funcionário enfiado em camisa badejona e tropical, o à-vontade dela explodiu: “Dizes ou pergunto a este amável senhor?” Imobilizado, prato na mão, olhar surpreso, o empregado jogava a dois de paus. Apurando o sorriso sedutor, ela levantou o rosto para arrojar a questão. Rápido como coelho fugido ao caçador, sorrisos a três, ele aprestou um “digo, digo já!”. Depois, para o assarapantado espectador: “não o vamos por tão pouco incomodar!” O homem foi-se ficou o bobó na mesa e no ar. “Bobó é o mesmo que fellatio e pasmo de o não saberes.” Que não, que jamais entre mulheres bobós foram chamados à colação. “Discordo, é coisa comum do falar” Nesse preciso instante, ela ardia na vontade de se levantar e bem alto lançar às mulheres presentes a questão: “Além do de camarão, sabem o que é um bobó?” A sensatez impediu o acto e a estatística de ocasião. Odiando ignorar o que na língua é comum, fosse ela eu e, entre amigas e conhecidas, largaria a questão: “quantas de vós sabeis que o bobó pode diferir de filme de Manuel de Oliveira, inhame, azeite-de-dendê e camarão?”

Publicado por Teresa C. às 11:46 AM | Comentários (8)

setembro 02, 2006

SUTIÃS

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Barn Dog

«Soutenir». Aparar. «Soutien». Sutiã. «Poitrine». Peito, mamas. «Apara mamas» na gíria. Masculina. Nacional. Sugerindo decadência. Atributos pingões. Prontas a deslizar se libertas da suspensão. Como calças de barrigudos que por via dos suspensórios as retêm. Ou pénis estafado sem reacção. Em qualquer caso decadência. Ou se aparam, ou caem no chão. Aqui chegados, é altura de olhar de lado os cães, não estejam esfaimados e abocanhem o que caiu.

As mamas naturais, isentas de cortes, implantes, injecções de sutiã químico, escasseiam nas proeminências sociais que da imagem fazem sustento. E compreendo - em tempo de espírito diminuído, a generosidade dos atributos pudendos cresce na mesma proporção. Em qualquer dos casos carecendo de mais do que suporte - tapa-mamilos. Esta é a verdadeira questão. Os mamilos são atrevidos. Revelam, sem apelo ou agravo, da mulher a natureza sexual. No tempo quente, a finura dos tecidos carece de forro íntimo, não se arrepiem os bicos mamários e expluda a fantasia dos espectadores. Masculinos, já se vê, porque as damas conhecem desses botões os humores irracionais.

A escolha de um sutiã não é acto leviano. Preservando o que o nascimento forneceu, raro é o contento feminino com cabelo, rabo, e mamas. Podem eles admirar o que nós desaprovamos que nada altera. Admito que um quarenta, até ao metro e setenta de altura, é excesso escusado. Inclina a coluna e sobrecarrega o aspecto da mulher. Depois, obriga a sutiãs reforçados, que disfarcem o peito e permitam figura elegante. Ficam espalmadas as mamas como biscoito que não cresceu. Por outro lado, sendo redondas, o sutiã é suposto exibir delas a conjunção (rego) sem dispersões banais. Entram ao serviço os arames forrados para as conter no centro. Pequenas, obrigam aos arames e a enchumaços nos sutiãs. De bom tamanho, porém largas, ou caídas, vão-se os enchumaços e ficam os arames. Com vestido cai-cai, a complicação é maior. O nada é o que prefiro. Porém, para os extremos da abonação, enormes ou pequenas, caídas como sacos de supermercado, termina pouco acima da cintura o que a caixa do peito não prevê. A desarrumação é total. Os sutiãs sem alças ou marcam gorduras ou espreitam do vestido ou não cumprem de suporte a função.

A metafísica do sutiã carece de estudo adaptado a mulheres. Empanturrados que os homens estão de imagens da perfeição dos mutantes femininos, os inocentes desiludem-se com o real, os experientes, cumpridos os mínimos, valorizam o toque, a forma que lhes enche ou sobra da mão, a macieza da pele, o mamilo eréctil à carícia, o prazer que nelas e por elas a mulher tem. E eles por vida delas – das ditas e da dona que sabe aproveitar o que tem.

Publicado por Teresa C. às 11:02 AM | Comentários (5)

setembro 01, 2006

OS ENGOMADOS

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Sorayama

Em Agosto, ficou a cidade vazia de engomados. Por isso mais leve. Relaxada. Voluptuosa no langor. Sombras geométricas no lugar das mutantes que a natureza reserva. Passos lentos e valsa abrasadora. Tudo sugerindo descontracção no vestir.

Os suits estão a banhos ou sujeitos ao zumbir do ar condicionado - ventoinhas se o estatuto do engomado ou da empresa for menor. Chegado o meio do dia, escasseiam aqueles que Araldite agarra ao casaco cinza ou azul escuro. Nisso distintos dos políticos – pelo Verão, abusam dos tons pastel, mais parecendo meninos a caminho da primeira comunhão. Os engomados, rodeados de roupa casual por todo o lado excepto neles, abandonam à hora do almoço o casaco no ofício, e, em mangas de camisa, arriscam alargar o nó da gravata. Que diabo!, ou se está com os veraneantes ou contra eles. Nisto, como em quase tudo, a maioria determina atitudes. A dos engomados também. Mais o calor. E o desconforto. O estigma de trabalhador estival.

Pelo final da tarde, não dispenso a esplanada que prefiro. Água tónica com limão e muito gelo, bronzeado ao léu, casualidade no traje e chinelas por calçado. Pelo segundo reforço da água tónica no copo, nem antes, nem depois, ele surge vindo do nada. Trinta graus Celsius não alteram o homem – trintão, sisudo, lento na passada, fato completo de tom escuro e bom corte, óculos de sol espessados nas hastes, cabelo com gel. Impecável. Improvável. Impensável numa tarde de estio em que pela sombra demora o caminho. Entra na pastelaria e sai quase logo a seguir. Conhecido o aparato, detive-me nos pés. Enormes, enfiados em calcantes pretos de bom gosto e reluzentes. O engomado desaparece como aparece: do nada abarcado pela minha atenção.

Publicado por Teresa C. às 11:16 AM | Comentários (0)