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setembro 01, 2006
OS ENGOMADOS

Sorayama
Em Agosto, ficou a cidade vazia de engomados. Por isso mais leve. Relaxada. Voluptuosa no langor. Sombras geométricas no lugar das mutantes que a natureza reserva. Passos lentos e valsa abrasadora. Tudo sugerindo descontracção no vestir.
Os suits estão a banhos ou sujeitos ao zumbir do ar condicionado - ventoinhas se o estatuto do engomado ou da empresa for menor. Chegado o meio do dia, escasseiam aqueles que Araldite agarra ao casaco cinza ou azul escuro. Nisso distintos dos políticos – pelo Verão, abusam dos tons pastel, mais parecendo meninos a caminho da primeira comunhão. Os engomados, rodeados de roupa casual por todo o lado excepto neles, abandonam à hora do almoço o casaco no ofício, e, em mangas de camisa, arriscam alargar o nó da gravata. Que diabo!, ou se está com os veraneantes ou contra eles. Nisto, como em quase tudo, a maioria determina atitudes. A dos engomados também. Mais o calor. E o desconforto. O estigma de trabalhador estival.
Pelo final da tarde, não dispenso a esplanada que prefiro. Água tónica com limão e muito gelo, bronzeado ao léu, casualidade no traje e chinelas por calçado. Pelo segundo reforço da água tónica no copo, nem antes, nem depois, ele surge vindo do nada. Trinta graus Celsius não alteram o homem – trintão, sisudo, lento na passada, fato completo de tom escuro e bom corte, óculos de sol espessados nas hastes, cabelo com gel. Impecável. Improvável. Impensável numa tarde de estio em que pela sombra demora o caminho. Entra na pastelaria e sai quase logo a seguir. Conhecido o aparato, detive-me nos pés. Enormes, enfiados em calcantes pretos de bom gosto e reluzentes. O engomado desaparece como aparece: do nada abarcado pela minha atenção.
Publicado por Teresa C. às setembro 1, 2006 11:16 AM