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setembro 21, 2006

TACADAS

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Autor que não foi possível identificar

Há quem diga este planeta uma nau navegada por loucos. Vogando ao deus-dará entre fúrias meteorológicas, económicas, religiosas e, por tudo, sociais. Oriente, Ocidente. Muçulmanos e cristãos (Buda conserva imperturbável placidez desde que um melro não seja morto por pisar descuidado). Ricos e miseráveis. Culturas ancestrais antes colonizadas, sempre humilhadas pela enfatuada supremacia ocidental (não vale lembrar que o monstro chinês semicerra os olhos de fogo, enquanto pela sorrelfa devora economias). O negro e untuoso sangue da nossa civilização maioritariamente na posse dos escravos de anteontem, desde ontem cansados de abanar ventoinhas de penas para a frescura dos patrões brancos. Todos no meio-termo entre a paz e a guerra. Tacadas a esmo do Papa, do presidente americano cujo nome nem deve ser dito por atrair o que de pior há em nós, do Ayatolá Khamanei.

As forças da Terra têm gerido as catástrofes naturais, entre elas as danosas causadas por furacões. Atemorizam pela fúria. Pela aparente génese a partir do nada. Massas de ar enraivecidas, vá lá saber-se porquê. Aventura-se a explicação - águas profundas aquecidas e unanimidade na orientação e intensidade entre os ventos da troposfera e da superfície terrestre como útero provável. O aquecimento como vilão. A conversão da energia térmica estocada pelos oceanos em energia mecânica sem destino para lá da destruição, assim encontre coisas ou gentes. O Gordon foi um triste, a vergonha dos furacões seniores que a memória dos homens registou. Não estocou. Deu uma tacadas ligeiras, enfraqueceu e enviesou.

Os ventos - deles o assobio constante enerva-me – podem aniquilar tacadas. No golf, por exemplo. Ventanias arruinam um enquadramento perfeito. E a tacada certeira que estava para ser, não o foi. Sai a tacada de banda, fica o buraco deserto. Por que tacada memorável requer habilidade e ambiente sereno, há que atentar. Ombros, pés, joelhos e ancas posicionam correctamente o taco na linha do alvo, do buraco disponível. Guinadas alheias à situação – toque de telemóvel, luz encandeando os olhos, súbita dor de cabeça -, perturbam a eficácia da tacada. E não vale culpar o vento. O aquecimento. O Papa. O Khamanei. Ou o outro cujo nome não pode ou deve ser dito.

Publicado por Teresa C. às setembro 21, 2006 01:49 PM

Comentários

Eu joguei basquetebol anos a fio. Quando já era maiorzito tinha quase o peso que muitos anos mantive, a seguir. Ali são dez jogadores. Cinco de cada lado. É um jogo muito diferente do futebol. E a forma como se pratica em Portugal ainda está distante do que se faz no modelo americano, que era o nosso, quando a seguir jogávamos horas sem parar, nos campos ao ar livre.

Quando se vai a entrar para o cesto, a driblar, são muitas pernas por que temos de passar. Arranca-se com força. Há muitas pernas. Embora tenha de haver agilidade, parte-se com uma certa motivação que tem de ser agressiva, ou ajuda, em muitos momentos, se o for. Não nos podem parar. Num instante, milhares de configurações diferentes são possíveis, quanto aos movimentos possível. Podem surgir dois ou três oponentes. Basta um toque de raspão na nossa mão, com a mão deles para que seja falta. Uma coisa subtil. Pára tudo. No entanto, já nos preparamos para saltar, para impulsionarmos o corpo para cima e para a frente. A forma como tomamos conta da bola, que tem de ser nossa e de mais ninguém, é determinante. O impulso é dado com toda a energia que pudermos dispensar sem que o movimento se torne completamente descontrolado. E é feito de forma a que o adversário não nos páre.

Quando estamos do outro lado usamos o corpo. Ao contrário do futebol podemos pôr o corpo à frente, se chegarmos primeiro que o tipo que tem a bola e pararmos, o outro é que faz falta. O que tem lógica. Nós já lá estávamos. O outro é que veio contra nós. E isso, obviamente, por esperteza nossa. Foi algo que provocámos. Conseguimos antecipar onde o movimento do atacante ia passar e pusemo-nos no caminho dele. Para que, legalmente, fosse considerado culpa dele.

Usamos o corpo para provocar outro tipo de choques. Há muito contacto. Sabe enormemente bem usar o corpo. E usamos todo o arsenal psicológico que nos é permitido. Ao contrário de outros desportos podemos fazer algo que no basjet acabou por se designar por "trash talking". Vou dar um exemplo extremo, que é um dos que me agrada mais.

Um jogador faz uma entrada para o cesto. Com toda a força que tem no corpo dá dois passos com a bola na mão, estica o corpo, um braço vai-o esticando também e com esse braço já esticado para cima e o corpo a preparar-se para descer, faz um impulso seco com esse braço, esse mesmo, que tem a bola. Só que do seu lado esquerdo, na linha de fundo, vem um defesa, enorme. Como qualquer bom defesa nestas situações sabe o que fazer e sabe que tem de ser preciso e rápido. Pouco antes do momento mais alto do voo do atacante, salta. O seu salto é diferente. Rápido, seco, brutal, rectilíneo, para cima, com um propósito. Com o braço na máxima extensão dá uma palmada na bola. Isto se chama um abafanço, na gíria portuguesa do basquetebol. Só que este é específico. É que o atacante ia fazer um afundanço. Que é outra palavra de gíria. Este faz-se não largando nunca a bola. Levando-a até às últimas consequências, daí a palavra a fundanço, levando-a até dentro do cesto, batendo com as mãos ou uma só mão no aro, muitas vezes com violência.

O choque dá-se porque os dois braços estão esticados verticalmente, a mão do atacante quer levar a bola para a frente, na direção do aro, a mão do defesa, mais forte, com uma força brutal, de quem defende a sua aldeia, a tribo, de quem não permite nada a niguém, bate na bola. A bola entre as duas mãos. É a bola que apanha com o embate. E a seguir a mão e o corpo de cada um. Mas quem tem mais força é o defesa, que se preparou, visualizando o que ia acontecer. E o atacante estava desprevenido. Quando a sua mão fica "presa" na bola, todo o corpo, embaixo, cai desamparado no chão. Estatela-se no chão, primeiro as costas, uma omoplata, um cotovelo, do outro braço, um pouco da espinha dorsal, é que ele cai mal e tortamente. E fica, dorido e sentido porque não chegou ao cesto e visualizava já uma grande concretização.

Mas tudo isto o defesa viu, antecipou.
Está o homem caído no chão, ao comprido, combalido. E o homem que o pôs assim imediatamente retesou todos os músculos do corpo, ao ver a bola cair, obsoleta no chão, assim que as duas mãos dos dois homens a deixaram, ao vê-la cair, deu-lhe uma sapatada de animal feroz, uma sapatada para fora, assim que de punhos fechados vê o outro no chão abre as pernas e baixa a cabeça, com as pernas abertas pôe uma de um lado e a outra do outro do corpo do homem que está no chão.

E diz-lhe:
"viste? é isto que te vai acontecer sempre que tentares passar por mim", "não tens nada para me mostrar", "és uma sombra", "nada, ouviste", "nada"

É com uma cara séria que lhe diz isto, com um dedo, ou com os punhos ainda fechados e a mostrar-lhe músculos de primata, de primata que está de pé e o outro vai ter que ficar no chão.
Por um bocado. Porque é mesmo só um bocado. A seguir no outro cesto há um movimento belíssimo em que os dois participam. Como me foi ensinado no karaté, que só graças a quem está diante de mim posso aplicar a minha técnica, por isso nem preciso de pensar na pessoa como adversário. E há muitos momentos no basket assim. As faltas que se optam por fazer são contadas. Já tenho 1, 4, já fiz todas, saí. Isto que fiz àquele, só isto, por si é tão grave que me expulsam. E pronto, é uma das poucas actividades que fiz só com homens em que estava tudo no sítio.

É assim o basket. E eu gosto.

Porque raios a política, a gestão do mundo e a religião, meu Deus, querido Gautama, até a religião tem a ver com... olha, não sei como isto seria se fosse gerido por mulheres, não sei. Porque ainda estamos num mundo, numa fase em que vivemos a emancipação. Em que faço frases destas, e se tudo tivesse começado a ser gerido por mulheres, o que é uma hipótese estúpida. Nem nada disto tem a ver com isso.

No fundo, quando apagamos a luz no candeeiro para dormir, o tipo que governa o outro ou o nosso país... bem ele quando apaga o seu candeeiro também terá lá as suas questões. E há pessoas que não têm candeeiros, outras que quando começam frases ambiciosas são mais comprometidas que eu com a necessidades de as acabar.

não será sempre assim, o excesso de palavras,
um abraço,
nuno

Publicado por: troblogdita às setembro 21, 2006 02:55 PM

O que dizes ser o teu excesso de palavras é o desejo de rigor e fundamentação da ideia que pretendes desenvolver. Aprecio-o, sabes disso, e de te ler não me canso. Beijinho.

Publicado por: Tati às outubro 4, 2006 12:28 PM

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