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setembro 19, 2006

UMA MINI E UMA VELHA

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Erica Chappuis

Duas taças, uma mini e uma velha. Ouvi o pedido de raspão. Clientes conhecidos pela postura e conversa gasta. Café manhoso numa esquina onde confinam recintos fechados de classe média e habitação social. Eram onze da manhã e os amigalhaços, a hora tão matutina, haviam lastro no estômago para sopesar o álcool. Não se sentaram. Aviaram o assunto de pé – uns repartindo o peso com a ombreira da porta e as montras, os outros no passeio cavaqueando como os que já lá estavam. Bando de homens inertes numa segunda de manhã. Desempregados, abonados por reforma, com baixa ou profissionais do ócio, tanto faz. Em pé, garrafa ou taça na mão, fumo subindo, formas descidas, esperança, quiçá!, também. E bebiam. Espantando asas de pensamentos negros, gargalhavam dos chistes, dos dias, do vazio, de si.

Os humores do bando excluíam os básicos noticiosos do dia. Nem uma palavra sobre a (in)consistência papal, a raiva islâmica, a mão na derrota do Sporting, ameaças terroristas ou o arranjo do presumido árbitro-marioneta contra o Portimonense. Nada. Olhavam as mulheres deles e dos outros carregando sacos de plástico de conteúdo pensado ao cêntimo no supermercado. Os miúdos pequenos giravam por perto – pontapés na bola, duas rodas, corridas e mais. Protegidos pelo olhar atento(?) dos homens. Numa liberdade condicionada mas feliz, a deixar longe as das crianças que enclausuradas em casa aguardam o regresso do cansaço dos pais.

Os parques infantis colam no exterior aos espaços privados dos condomínios. Apelo ao crescimento conjunto de meninos de todas as condições. Pequeno comércio abrange as necessidades do bairro que se preza de ser. E o parque. Espreguiçado de Este a Oeste. Represas, pérgulas, riachos cantando nos atrevidos obstáculos. Espécies vegetais sabiamente dispostas pela equipa de arquitectos-paisagistas. Espaço que se recolhe e afunda, serpenteia e dá a mostrar. Todos - os das taças, minis, velhas e engravatados dos serviços – o procuram pelo cair do dia e ao fim de semana. Uns com os outros aprendendo modos de estar. Cooperando na preservação dos espaços comuns. Integrando quem a vida maltratou.

Publicado por Teresa C. às setembro 19, 2006 07:53 AM

Comentários

... e aguardam todos pela próxima vontade de beber. Despediram à muito a ausência, mesmo na falta de assunto, mesmo observando o nicho de que tanto se orgulham, e que esporadicamente revolvem para não cair no esquecimento (quiçá ao pormenor). As mulheres, os filhos, as moedas no bolso, o desemprego, o desafogo, as festas em família, o prazo para a prestação; essa tasca imóvel, a microeconomia...

Espaços sem aparência como costumo dizer, porque são como são. Belíssimo texto Tati, tem capacidade de observação muito interessante.

Publicado por: Sandro Franco às outubro 1, 2006 06:08 PM

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