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setembro 20, 2006
URDIDURAS
Mortimer Wilson
Adivinhas, puzzles, livros policiais, palavras cruzadas. Enigmas. Códigos. Indícios. Desafio. Virtuosismo. Atenção. Paciência. Atormentado que esteja o espírito, a disciplina da atenção requerida pelo farejador de cifras vem a calhar. Fica a urdidura penosa entre parêntesis, dando tempo ao tempo para a embrumar.
Descontando enigmas grandiosos a que todo o conhecimento acumulado não deu respostas, os enigmas quotidianos rodopiam num só pé em torno do essencial: os afectos. Por eles fazemos escolhas, alteramos caminhos, desbravamos silvedos e encaramos horizontes nunca pensados. Os afectos jamais se resumirão à história melosa (penosa?) do atrai-junta-separa. Para quem a ouve poderá ser, para o contador é a sua «história», nada tendo de trivialidade sem vestígio de imaginação.
Individualmente, o maior enigma não é pergunta mítica da esfinge. Condensa-se numa simples: como dar sentido feliz à vida que temos, sem a desconstruir? Na rua passam, lentos, casais de idosos. Um ao outro segurando o braço ajudam a superar escolhos. A bengala que trazem invisível na mão é o elo íntimo de forças maiores, como a felicidade dos dias bons em que juntos à família reconhecem os traços de ambos e ancestrais dos filhos aos bisnetos. Um dia, foram novos. Sentiram dores, certezas e dúvidas. Aliviadas as tormentas – por que as há sempre –, o afecto resistiu. Forte o laço, frágeis eles.
Publicado por Teresa C. às setembro 20, 2006 07:29 AM
Comentários
Falando em construção e desconstrução.
A minha vida é minha. Lucidez é palavra doce e potável. Há bastante tempo que procuro deixar cair impulsos de embarcar no que parece ter tons de derradeiro, ou me soe suspeito por ser desestruturado, incoerente, por contrariar a minha forma de caminhar, o lar que tenho dentro, que sou em mim. Tentando outra linguagem, verificando em mim ou no outro indícios, vertigem mínima, algo que desse a entender que a minha vida, o que é o meu mundo tivesse de ser abdicado, capitulado, desconstruído, usando então a palavra, notando alguma indicação disso, bem, rapidamente eu me encontraria noutro local. Desapareceria. O que é diferente de estar aberto. Inteiramente. Aberto. Mas ser invadido, apoderado por, tomado de assalto, arruinado, é outra coisa. Se for possível notar sinais, iço velas e vou.
A mim tem-me ajudado esta coisa de viver um dia de cada vez. Que é proeza que faço uns dias melhor que outros. Porque hão-de haver expectativas mais insistentes que outras, medos mais consistentes, fantasias mais meladas. Mas expectativas, medos e fantasias lembram-me da minha fragilidade e do que tenho dentro, apontam-me para o que sou. E quando chegam fazem-me lembrar da última porta por onde as deixei sair. É que cada momento é sempre o momento presente.
Tenho também tentado ajudar-me ao tentar evitar que o desejo e o impulso para o outro, um outro corpo, para uma mulher, uma companheira, se transforme em necessidade e sofreguidão. Ou uma forma de frustração ou me leve a inibições ou constrangimentos. A pulsão que vivo e me habita é energia e vitalidade.
Dito isto que tem sido, desde há muito, o teor do meu dia, sei intimamante que a minha felicidade é um caminho em que uma mulher ao lado tem sentido. E lhe tenho sentido falta. Profundamente.
Publicado por: troblogdita às setembro 20, 2006 10:52 AM
como dar sentido feliz à vida que temos, sem a desconstruir?
Para quem julga que tem conseguido dar esse sentido à vida no mero respeito por um principio, que julgo não será nada de extraordinário, mas é sempre eficaz: "respeito por mim que o respeito pelos outros vem naturalmente", não posso deixar de assinalar mais este texto da Tati (nem o início das aulas pertubou a qualidade) e o comentário troblogdita. Valeu a pena visitar, parabéns
Publicado por: ccbbbbb às setembro 20, 2006 02:51 PM
como dar sentido feliz à vida que temos, sem a desconstruir?
Para quem julga que tem conseguido dar esse sentido à vida no mero respeito por um principio, que julgo não será nada de extraordinário, mas é sempre eficaz: "respeito por mim que o respeito pelos outros vem naturalmente", não posso deixar de assinalar mais este texto da Tati (nem o início das aulas pertubou a qualidade) e o comentário troblogdita. Valeu a pena visitar, parabéns aos dois.
Publicado por: ccbbbbb às setembro 20, 2006 02:54 PM
A fotografia...esta fotografia é um tratado!
Ah!inconfessável...sim,talvez,sorri...caramba mas que escolha,ri-me!
Fabulosa!
Deixo-lhe um beijo
Publicado por: isabel às setembro 22, 2006 08:17 AM
Adorei a imagem, também. Após a redacção do texto, entre alguns milhares, só esta desejei para o ilustrar. A sintonia do apreço é um prazer.
Publicado por: Tati às outubro 4, 2006 12:31 PM