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outubro 28, 2006

DE ÉVORA A LISBOA

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Andre Wek

Foi-se o tempo dos interditos que, incrustados na sociedade, comandavam a vida. Da vida política aos costumes amorosos, eram os interditos e os costumes, com o seu peso imenso, a estabelecerem fronteiras sociais.

A sociedade de hoje é ávida por objectos. As pessoas não se contentam com elas próprias, têm fome de coisas, de bens exteriores que compensem carências reais ou inventadas. São poucos os indiferentes aos significantes de status ou poder, e esses, pela extraordinária capacidade de pensarem o seu tempo e a eles próprios, fazem a diferença entre o ser comum e os que elevam a condição humana.

Depois, a sociedade do nosso tempo é veloz. Ainda há vestígios dos idos em que ser rápido numa viagem de automóvel de Évora a Lisboa era sintoma de afirmação. Marca de importância frívola, mas adaptada a um tempo em que a lentidão das comunicações e da evolução dos costumes era regra.

As metarmofoses sociais deste tempo são tão meteóricas vistas à escala da história do homem, que o passado, também ele implacável na velocidade de chegada, não dá tempo a constituir-se como fonte de aprendizagens capazes de ajudarem a enfrentar o presente. O que agora vivemos estrutura-se em bens móveis – objectos e rapidez. Talvez, como poderia dizer o Borges, nos espere, afinal e para sempre, o esquecimento.

Nota: texto baseado numa crónica do Alçada Baptista lida algures no anonimato dos dias.

Publicado por Teresa C. às outubro 28, 2006 12:02 PM

Comentários

Lembrei-me de dois contos de Borges. Um é a Biblioteca de Babel. O outro não me lembro como se chama, mas fala de um país, uma sociedade em que a pouco e pouco tudo, todo o tecido social, os costumes, as leis acabam por se basear na lotaria. Estar a comparar os dois contos desta forma é quase uma heresia, porque há naquelas histórias uma profundidade imensa, mas adiante. Tanto num como noutro as aspirações se afunilam, inapelavelmente. Os indivíduos que aparecem nas celas descritas na Biblioteca de Babel, que começam a ter consciência de onde estão, a perceber que existem outras pessoas, que cada cela têm outro livro, descobrem que há outros como eles. Que aquele mundo é imenso. Que o mundo não se resume ao seu espaço indivudual. E que cada livro é diferente. Um individuo pode aspirar a ler o livro do vizinho, ou o máximo de livros que conseguir. Ou todos os livros que existem. No mundo que vive à volta da lotaria as pessoas, naquela história vão vendo tudo sendo colocado à mercê da lotaria. Se pretendem uma promoção, jogam na lotaria. Se "sair" uma promoção são promovidos, caso contrário, não. A mesma coisa para se casarem. A esposa ou o esposo é escolhido através de uma lotaria própria. Os líderes políticos também. Tudo.

Eu ouço muitas vezes falar da nossa sociedade em termos que fazem pensar que de facto vivemos numa sociedade monolítica. E há muitos factores que são massificantes. Só nossa, a "nossa" sociedade me parece suspeito. Mas pronto, adopto essa terminologia, esse pronome. Há de facto muitas coisas que tornam a nossa sociedade normalizadora. Bastou a televisão, a introdução da televisão para mudar muita coisa. E existem muitos outros meios de comunicação que são produtores de cultura de massa, que geram comportamentos de massa que depois são muitos parecidos.

A velocidade, o desejo de ter de imediato o objecto do desejo, a circularidade de tudo, a tautologia... bem, tudo isso faz parte do nosso mundo. Mas este caldeirão imenso, e isso nota-se mais onde as marcas da cultura cosmopolita forem mais vincadas, acolhe muitas formas de estar, pessoas com interesses diferentes. De tal forma isso acontece que algumas tribos urbanas são bem curiosas. A vontade de misturar vivências diferentes não acaba, como não acabam os revivalismos, os exotismos. Em alguns casos isso não passará de mais uma forma de consumismo urbano, ou de moda, ou mesmo de tique, de uma manifestação da vontade de ser chique. Mas noutros casos assume-se como identidade muito forte. Movimentos culturais nascem a cada momento. A ruptura trazida pela adolescência com o estabelecido talvez nunca tenha sido tão presente como agora, num mundo que paradoxalmente prolonga a juventude de forma artificial[?) até uma idade cada mais mais tardia.

Um abraço,
nuno.

Publicado por: anarresti às outubro 29, 2006 01:15 AM

Que acrescentar? Nada! Apenas a minha gratidão por este comentário o meu escrito merecer. Beijinho grande.

Publicado por: Tati às novembro 4, 2006 04:01 PM

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