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outubro 12, 2006

FATALIDADES

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Greg Horn

Fatalidade I

80% do consumo tem responsabilidade feminina. Ele, escandalizado, dizia: “Suspeitava, mas preto no branco e em número tão impressivo choca. Não fossem as mulheres e adeus sociedade de consumos exacerbados. Vós, vós sois as culpadas!” Eu, que somente o vira tão amarfanhado quando o cão desarranjara os intestinos e derramava fedor e o resto pela casa ou se o Sporting levava cabazada, fiquei assombrada. Engoli o riso, e, numa fracção de segundo avaliei a explosão. Decidi ser mais do que retórica o que ouvira – acusação sentida de consumistas inveteradas. Baixei a voz como tenho por uso se estou zangada, e retorqui: “pudera! Quem abastece a casa, as crianças, o respectivo e os pais a cargo? As mulheres! E se de caminho comprarmos trapinho novo, um par de sapatos, mala, lingerie e demais acessórios a condizer, foi por ser a peça de roupa compra excelente e dos abastecimentos domésticos termos saído cansadas. Além de ser justa a recompensa, ora pois! Não gostando, têm remédio: vão eles da próxima vez e tragam tudo para casa. Ao entrarem, exibiremos um sorriso de lado a lado e, sacos jazendo no chão, a bancada da cozinha apetece.

Fatalidade II

Tiro o esmalte às unhas. Olho, apreensiva, o horizonte. Neurónios a mil à hora. Chá gelado numa mão, a outra caída. Não parece de minha propriedade tamanha ânsia e nostalgia. Sofrerei do mal da melancolia que dois séculos atrás roía as mentes femininas? Por desamor, amor contrariado, luto, desgosto fundo, marido ausente na guerra ou em casa da amante em parte incerta. Tomara não me tratem com ventosas ou sanguessugas... As pupilas teimam no longe, mão poisada no colo, corpo reclinado, cabelo vagamente ondulado como o pensamento. Nem pasmo com o langor. Com o vagar da mente. Com a inércia do corpo. Olho o calendário: “Cinco dias. Tanto tempo...” E queda me fico onde estava. Os neurónios alarmam-se: “ela não me parece bem. Que dizes?” O outro, ronceiro, nada. Diz o terceiro: “fazia-nos correr Seca e Meca e agora borregou!” O quarto: “tens razão, a engrenagem está parada e, por aqui, os que de nós restam ou ressonam ou jogam às cartas. O quinto: “fosse ela homem e sopraria que se aqui estamos parados é porque a festa é lá em baixo.” Do ajuntamento dei conta: “Ah, ingratos que tanto cuido de vos manter em forma! Não vêem que o mal é pesado? Que de ser gaja premiada com T-Shirt e publicidade perdi a esperança? Tinha planeado agradecimentos à mãe, às avós, às tias, enfim às matriarcas que de menina julgaram torcer-me a courgette. O veredicto pressinto-o fatal. E sem o prémio rosa-cueca adio o estatuto de Gaja e fico remoendo como o Calimero - é uma injustiça... é uma injustiça... olá se é...”

Publicado por Teresa C. às outubro 12, 2006 07:53 AM

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