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outubro 24, 2006

HORA DE PONTA

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Tamara Donahoe

Final de dia. Regresso a casa. A cidade entupida, os acessos às periferias vazam pelas bordas. Nos automóveis, a impaciência do condutor soma-se ao cansaço do trabalho, à pesporrência do chefe, ao desconsolo do salário congelado ou demasiado frio para permitir o direito à alma de se aquecer num sonho. Em casa, esperam os miúdos inquietos. Exigem atenção, cumprimento dos rituais, reclamam ténis novos, aulas de um desporto esquisito ou chinesice do consumo. Do parceiro(a) o olhar é baço e sem vestígio de aconchego. Dia igual ao de ontem, igual à previsibilidade do amanhã. Dias em carreira. A submissão a remoer por dentro, o incómodo crescente, silêncio por desabafo.

O detrás apita e faz uma manobra louca e irrita e consome a última fatia de calma e solta a tampa que comprimia tamanha fúria e desilusão. Esvaiu o resto da energia na injúria ao desaforo sofrido. Da náusea destilou a certeza de a vida urbana ser potencial assassina do conforto da esperança. O pavão surgiu na via lateral do Campo Grande. Leque armado e vagar na passada. Olhar fixo no verde em frente. Ficaram imobilizados veículos e condutores. E o pavão subiu com majestade o passeio. Em silêncio, arrastou a hora-de-ponta da cidade e desapareceu no jardim. O silêncio com ele.

Publicado por Teresa C. às outubro 24, 2006 07:40 AM

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