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outubro 31, 2006
PRÓS E CONTRAS

Barclay Shaw
Os termómetros avaliam temperaturas desde o século dezanove. Dos dez anos mais quentes, nove registaram-se a partir de 1990. Sem alicerce em teorias, mas em factos, a dedução indiscutível é que o planeta aqueceu. Se fenómenos climáticos periódicos ou consequências da civilização são interpretações que somam, sob a forma de dados científicos, prós e contras.
O documentário Verdade Inconveniente é panfletário e tendencioso. Não peca do mesmo a observação meteorológica das últimas semanas – chuvas torrenciais acompanhadas de altas temperaturas como é próprio de climas tropicais que não o nosso. Desequilíbrios ambientais aleatórios dirão alguns, merecendo apenas registo por contrariarem o calendário. Outros vão mais longe – o aquecimento global é traduzido também pelo degelo dos glaciares e pelo recuo das «neves eternas». Garantem: França, Espanha e Portugal serão os países europeus mais penalizados - amplitudes térmicas amplas que tornarão os estios insuportáveis. Entre prejuízos directos nas populações e, portanto, nas economias, o custo rondará os cinco biliões de euros. O turismo de veraneio deslocar-se-á para os países do norte europeu. Por aqui, a vida rondará o inferno em fatia grossa do ano. E o remédio, a ir a tempo, é um de dois: diminuir o consumo das energias poluentes por via da sua espartana racionalização, nomeadamente as provenientes dos combustíveis fósseis, ou optar pela energia nuclear, perigosa mas asseada.
Neste contexto, a investigação do EuroLifeNet sobre as micropartículas de diâmetro inferior a 2,5 milésima do milímetro (MP2.5) suspensas na atmosfera, capazes de penetrarem nas células sãs e, com o tempo, delas fazendo doentes, fornecerá dados para reflexões e posterior legislação europeia. De Portugal à Irlanda, da Irlanda a Itália, o trabalho de campo será simultâneo e exigente. Técnicos e investigadores de todos os países participantes estarão de 6 a 24 de Novembro seguindo centenas de jovens que transportam um aparelho medidor do quotidiano atmosférico. Uns e outros com a esperança comum de conhecer melhor a atmosfera que temos e dela inferir razões para depois decidir. Bem, esperamos.
Publicado por Teresa C. às 07:57 AM | Comentários (0)
outubro 30, 2006
O ENGENHEIRO QUE DECIDA

Deborah Poynton
As convulsões sociais vão e vêm para voltarem a ir. Na presente mutabilidade dos humanos, seis meses são lençol para imprimir cinquenta anos de factos de outrora. Das maternidades fechadas por esse país fora é ido o falatório. Sigilo bancário escancarado por interesse das finanças quem o lembra? E do aeroporto da Ota, quem dele fala agora? Ao sabor das habilidades governamentais e noticiosas saltitamos de um facto para outro sem concluir a digestão racional de cada um. Frivolidade que a rapidez social induz? Cortinas de fumaça escondendo perversa manipulação dos cidadãos?

Deborah Pynton
Passageiras inquietações de quem o quotidiano viu atingido pela onda de renovação(penúria?) não explicam a multidão saída em magotes para a rua que grita e expolinha descontentamento onde quer que o Engenheiro Sócrates vá. Bem pode o Governo orquestrar propaganda ou multiplicar – algumas credíveis – explicações. Delas o povo entende a contenção económica e a urgência de mudança. Rejeita a incoerência, arrogância, autismo e desditos – num dia o aumento da energia é 13%, depois 9%, finalizando nos 6%, noutro, pelo começo da noite, foi alcançado entendimento com os sindicatos dos docentes e no alvorecer do seguinte vem o desmentido.
O povo português será como o descrevem: miúdo, feiote, baixinho e com vista curta. Uma coisa é certa: de parvo nada tem e abespinha-se com razão se como tal o (des)consideram. A gentiaga na rua é aviso sério – os portugueses estão magoados. Ou o Engenheiro e o Governo arrepiam caminho na forma de renovar o que há muito está precisado e têm a sensibilidade de atender à dureza da vida da maioria do povo, ou afundam a bondade da intenção reformista pela rejeição colectiva. O Engenheiro que decida.
Publicado por Teresa C. às 10:14 AM | Comentários (0)
outubro 29, 2006
MULHER E BOFE PARA GATO

Autor que nãoi possível identificar
A hora muda e até a PT teve a gentileza de me avisar, não antecipasse eu compromissos no domingo de manhã. Mal feito fora a empresa que por mês me saca da conta substantiva parte do pecúlio pessoal não me retribuir a fidelidade, o saque autorizado, pagamento multiplicado por mil do equipamento instalado, com amabilidades na forma de alertas. Pertence-lhe a obrigação.
Como despedida de dias esticados e o retorno às luzes da cidade pelas seis da tarde, o BUBA por três vezes fez a folha aos leões. O xeique não-sei-das-quantas, muçulmano da Austrália, fez questão de avisar o mulherio das consequências da carne trazerem descoberta. As partes à vista do corpo da mulher afirmou constituírem tentação semelhante a bofes de sobra do talho largados na frente de gatos. Os gatos abocanham os bofes porque lhos põem ao alcance. As mulheres sugerem violação ao circularem descobertas. Mulher e bofe para gato, semelhantes. O homem como animal sem-eira-nem-beira, somente escutando o instinto. Vindo de um xeique no final do Ramadão entendo o desespero da comparação. O homem não fumou, não bebeu álcool, comeu mal, não fornicou, está esfomeado, coitadito!... Ele vai um bofe, um vinho a martelo, uma maço de tabaco e um harém inteiro. Maomé o salve de indigestão ou de se apagar com a cabeça enfiada no entre-presuntos de alguém.
Segui o alerta do xeique – uso leggings que tapam sobras da saia curta num jogo de sobreposições. Atentando, o homem está up to date com o visual da estação. Para os XY menos atentos traduzo: collants sem pé usados com salto alto ou sabrinas. Reveladores, torneiam cada curva da mulher; tapam, porém, as fêveras que, se descobertas, fazem do homem bicho esfaimado abocanhando-as a eito.
Publicado por Teresa C. às 10:12 AM | Comentários (2)
outubro 28, 2006
DE ÉVORA A LISBOA

Andre Wek
Foi-se o tempo dos interditos que, incrustados na sociedade, comandavam a vida. Da vida política aos costumes amorosos, eram os interditos e os costumes, com o seu peso imenso, a estabelecerem fronteiras sociais.
A sociedade de hoje é ávida por objectos. As pessoas não se contentam com elas próprias, têm fome de coisas, de bens exteriores que compensem carências reais ou inventadas. São poucos os indiferentes aos significantes de status ou poder, e esses, pela extraordinária capacidade de pensarem o seu tempo e a eles próprios, fazem a diferença entre o ser comum e os que elevam a condição humana.
Depois, a sociedade do nosso tempo é veloz. Ainda há vestígios dos idos em que ser rápido numa viagem de automóvel de Évora a Lisboa era sintoma de afirmação. Marca de importância frívola, mas adaptada a um tempo em que a lentidão das comunicações e da evolução dos costumes era regra.
As metarmofoses sociais deste tempo são tão meteóricas vistas à escala da história do homem, que o passado, também ele implacável na velocidade de chegada, não dá tempo a constituir-se como fonte de aprendizagens capazes de ajudarem a enfrentar o presente. O que agora vivemos estrutura-se em bens móveis – objectos e rapidez. Talvez, como poderia dizer o Borges, nos espere, afinal e para sempre, o esquecimento.
Nota: texto baseado numa crónica do Alçada Baptista lida algures no anonimato dos dias.
Publicado por Teresa C. às 12:02 PM | Comentários (2)
outubro 27, 2006
Meu Manuel,

Licio Passon
Tenho-te um pouco meu pela sussurrada fala que registamos. Sei das pessoas o gosto de possuírem quem gostam. Não fujo à regra, modifico-a porém. De ti chega afecto com cheiro, voz e tacto. Meu no instante em que tudo recolho. Meu porque me lembro de ti. Por ser leve a tua memória. Suave como lábios ou seda ou veludo da pele. Há dias (re)lembrei o meu prazer antigo pelas tuas palavras. A ponte que de ti vinha desaguava aqui, e, por esse tempo, era já formosa. E deixámos largo tempo de a percorrer. Tempos conturbados para os dois...
Do “Gato de Schrodïnger” nós e os outros temos muito. Se iluminares uma partícula ultramicroscópica ela, de tão leve, altera a velocidade, conquanto fiques a conhecer-lhe a posição. Na falta de luz, aos fotões em carreirinha é impedida a colisão com o muitíssimo pequeno. Deste ignoras o sítio; detectas, em contrapartida, a velocidade da progressão. Daí a caixa escura onde se «vê» (conhece) o que a luz não permite. Como nós. Neste silêncio eloquente são os dedos a falar. E as letras em palavras, em frases, em cartas, desnudam do íntimo o mais profundo. Que tu procuras. Como eu.
Em idos juvenis preocupava-me a excelência. No colégio, no liceu, no curso. Mulher perfeita. Mãe dedicada. Profissional competente. Com tantos desafios aconteceu esquecer-me de mim. Parando para me olhar, não gostei do que vi - objectivos e padrões em demasia. Fiz-me à vida. Reaprendi a gostar de mim. Demorei a aceitar as minhas imperfeições. Lentamente, ganhei o que jamais tivera - honra na mulher que sou. E aqui me tens.
Da tua fala escrita comoveram-me hoje as confidências. Vi-te nos momentos passados que ternamente descreveste. Vi o teu cabelo encharcado pesando nos ombros. Secando ao vento. Ondulando com ele. E sabes? É lindo! Como deve ser o teu corpo se o sentires em harmonia contigo. Belos são aqueles em que flui cântico entre o «ser» e o «ver». Esses não esquecemos. Como obra de arte que o tempo não esgota e o entendimento não cansa. Assim te vejo. Assim és.
Um beijo,
Teresa
Publicado por Teresa C. às 07:29 AM | Comentários (4)
outubro 26, 2006
CHUVAVA

Jim Warren
“Chuvava, chuvava, chuvava”- assim descrevia a Nadette, francesa de gema e por isso com miúdo rosto de pevide, o temporal da tarde. Uma outra, a Lise, alta e enérgica figura, começava o dia espreitando pela janela. Sendo cinza ou pingão, resmungava: “le putain du temps, hein... le putain!” Jamais perguntei se aplicava à meteorologia matinal o poema do Michel Sardou? “Chuvava” e “le putain du temps” ficaram como graça familiar.
Pingos múltiplos em bátegas como da chuva faz parte. Da chuva, sim, que dos orgasmos femininos em cascata - momentos inolvidáveis nos currículos masculinos - estamos fartas que eles os tragam à colação. As expressões múltiplas do nosso prazer como troféus que a habilidade do homem alcança, quais cabeças de caça bravia empalhadas na parede do ego, confrangem por imbecis. Provam do masculino a eterna e penosa dúvida da eficácia(?) sexual.
Pois foi precisamente na noite em que muito «chuvava» que as superiores entidades julgaram por bem referir a subida do preço da água tendo em vista desperdícios e períodos de seca. As notícias misturam factos e cospem bombeiros sacando água dos domicílios, garagens e comércio. Exibem viaturas espalmadas pelas árvores na horizontal. Provam o desespero das gentes pelos prejuízos e sustos e morte. De caminho, anunciam que a água sobe por ser escassa e cara a exploração. Como sentido de oportunidade foi do melhor!...
Publicado por Teresa C. às 07:41 AM | Comentários (4)
outubro 25, 2006
FREDO OU CALDO?

Keith Garv
Se a ele ocupava fracções saborosas da noite, a ela não era indiferente. Como o mais que lhe compunha o dia-a-dia. O acordar sempre cedo demais, de madrugada, dizia, conquanto somente às oito e meia bradasse o telemóvel. Odiava relógios. Não possuía nem um. Aos despertadores reservava raiva pelo tiquetaque audível quando abandonava o corpo, fosse dormir ou não a função. Tinha coisas destas, como a do cigarro fumado na cama, um olho semifechado e o outro não, ou a da janela sempre aberta indiferente ao ciclo das estações. Por pequeno-almoço um café, por almoço uma sanduíche frugal; mais nada até à hora de jantar. Aí, sim!, repunha energia medida por muitos Joules. Ao serão era o remanso com as tecnologias por perto.
Ora, sítios onde é possível ir com o rato entre os dedos são galáxia inteira a pedir circum-navegação. Que ele cumpria de raro em raro, por ter arrebanhado para os favoritos um sistema solar inteiro. Caldo ou fredo eram opções para as noites. Fredo para começo, caldo para serão meio. Acabava, fatalmente, com ele na mão. Mais fazia: arribando insónia, manipulação rigorosa e meia hora passada dormia ao colo dos anjos, das «anjas», dizia ela.

Keith Garv
Numa das esparsas noites a dois, de o usar na função costumada ele hesitava. Que não, que a preferia, que dela vinham prazeres maiores. “Diferentes”, dizia ela apontando com o pé esticado na direcção dos lábios dele. A seguir, corrigia, lânguida, olhar atrevido no dele: “melhores, concedo, deliciosos...” E ele assentia enquanto a vibração aumentava. Sem insistência, passou-lho para a mão. Ela abordou-o sentindo do infinito o prazer. Suavemente, aflorando, contornou-o. Tocou-o depois. Sentiu-lhe as curvas bravias, a dimensão vibrante. Só para ela. Hesitava. Ele deu conta. “Mais acima. Aí mesmo.” E ela submetida como virgem que satisfaz homem experiente. “Sim, forte. Espera. Mais um pouco. Agora!” Decidida, carregou no X – derrotara com magia, quase expirando pela diminuída vida, um boss Percebia-o finalmente – jogo aliciante e comando da playsTation eram combinação soberba. Como preliminar, novidade. No final, ao fogo-de-artifício foi intocado o esplendor.
Publicado por Teresa C. às 06:46 AM | Comentários (0)
outubro 24, 2006
HORA DE PONTA

Tamara Donahoe
Final de dia. Regresso a casa. A cidade entupida, os acessos às periferias vazam pelas bordas. Nos automóveis, a impaciência do condutor soma-se ao cansaço do trabalho, à pesporrência do chefe, ao desconsolo do salário congelado ou demasiado frio para permitir o direito à alma de se aquecer num sonho. Em casa, esperam os miúdos inquietos. Exigem atenção, cumprimento dos rituais, reclamam ténis novos, aulas de um desporto esquisito ou chinesice do consumo. Do parceiro(a) o olhar é baço e sem vestígio de aconchego. Dia igual ao de ontem, igual à previsibilidade do amanhã. Dias em carreira. A submissão a remoer por dentro, o incómodo crescente, silêncio por desabafo.
O detrás apita e faz uma manobra louca e irrita e consome a última fatia de calma e solta a tampa que comprimia tamanha fúria e desilusão. Esvaiu o resto da energia na injúria ao desaforo sofrido. Da náusea destilou a certeza de a vida urbana ser potencial assassina do conforto da esperança. O pavão surgiu na via lateral do Campo Grande. Leque armado e vagar na passada. Olhar fixo no verde em frente. Ficaram imobilizados veículos e condutores. E o pavão subiu com majestade o passeio. Em silêncio, arrastou a hora-de-ponta da cidade e desapareceu no jardim. O silêncio com ele.
Publicado por Teresa C. às 07:40 AM | Comentários (0)
outubro 23, 2006
ÉDEN QUE DURA

Husami
Podia dizer que não disse. Podia confirmar o dito. Podia ter corrido para a cozinha pretextando queimada a lasanha, fosse caseiro o momento. Podia, mas recusei. Ostentei o silêncio, derramando no teu olhar o meu. Lábios semiabertos prometiam a palavra. Ou não. Não retirei das tuas as mãos. Conservada a proximidade dos corpos. Não atentei na chuva e no vento e nas gentes em fuga da rua. Perdida foi a noção de tempo. Conservada a velocidade do pensamento.
À pergunta evitavas a urgência. Foram os «ses» insuportáveis - “e se não for?”, “se estiver enganado?, “se for matiz novo e inocente o responsável?” – a sobreporem-se à tua vontade. “Não me queres contar?” foi trovão que o relâmpago do teu rosto acompanhou. Podia prever próxima a borrasca. Temer da energia o incêndio. O esvaziar da seiva do nosso afecto – a confiança. Enganados os dois ao julgá-la sólida como tronco de tília. Pela trovoada soubemo-la de cristal.
E tinha para contar. Éden que dura. Lago de água serena recolhendo da terra os tons e do céu o azul ou o cinza. O mundo aberto na planura de um leque aos meus pés. Um passo e desdobrara em dois o coração. Na tua fracção há a doçura da harmonia, da outra conservo a porta aberta. Nunca a fechei. Por isso disse o que disse – “Amo-o. A ti? Quero.”
Publicado por Teresa C. às 10:11 AM | Comentários (3)
outubro 22, 2006
SEM PREGOS

Autor que não foi possível identificar
Casas verdes. Ecológicas. Madeira, vidro, pedra e tintas naturais. Nem um prego. Somente o que a natureza dá enforma as habitações. Como até ao princípio do século vinte. A Segunda Guerra Mundial alteraria os métodos tradicionais pela necessidade de altura e resistência das construções. O cimento, tal como hoje o conhecemos – o usado pelos romanos diferia do actual -, expandiu as aplicações. Betão e cimento significavam à época desenvolvimento. Permanece, ainda hoje, a confusão.
No Alentejo, as antigas habitações de taipa e adobe servem de exemplo segundo a corrente da arquitectura ecológica com inspirações hindu e chinesa. No Norte e Centro do país, o granito, a ardósia e as paredes em tabique abrigaram gerações. Continuam solidamente orgulhosas dos anos volvidos e do muito visto. Aspecto áspero só por fora – o interior tem o cheiro suave da madeira seca e da respiração da pedra.
Capturar energias positivas pela orientação solar do espaço e mobiliário simples com desenho apurado ajuda à tranquilidade dos moradores. Materiais naturais – algodão, sedas, lãs e madeira, muita madeira – excluem os artifícios do sintético nos objectos e revestimentos. Redirecionam as influências negativas e pacificam o ambiente. O Feng Shui – em mandarim pronunciado Fon Chuei lembrando o vento e a água – começou pelo estudo e avaliação geográfica da paisagem e o modo como ela influenciava a vida dos que aí moravam. Escola da Forma foi a designação dessa filosofia. Alguns dos nossos melhores arquitectos seguem-na e aplicam-na seja o caso a harmonia entre arquitecto e cliente.
Publicado por Teresa C. às 12:14 PM | Comentários (0)
outubro 21, 2006
(IN)CONJUGALIDES
(IN)CONJUGALIDADE I

Greg Horn
- Não está na altura de mudares o óleo ao carro?
- Está.
- E da revisão?
- Também.
- Tens visto a pressão dos pneus? És tão distraída...
- Sou nada!
- Sabes que sim.
- Vê lá se não escolhi um homem atento...
(IN)CONJUGALIDADE II

John Kacere
- Ressono?
- Não.
- Mexo-me muito?
- Nada!
- Sou desarrumada?
- Nada.
- É o que eu pensava!
- O quê?
- Desapaixonámo-nos.
- Como assim?
- No início fazíamos perguntas ociosas?
Publicado por Teresa C. às 12:42 PM | Comentários (2)
outubro 20, 2006
LAMELAS DE XANAX

Denise Nielsen
Une Orhan Pamuk e Harold Pinter o prémio recebido, respectivamente, em 2006 e 2005: o Nobel da Literatura. Para além desse elo há outros. Ambos comprometidos com causas sociais: liberdade, das minorias em particular, tirania, opressão e injustiça. Ambos difíceis de ler pela inovação estética no uso da palavra e pela densidade do conteúdo - no caso do dramaturgo inglês raiando o insuportável. Definitivamente escrevem para leitores experimentados e muito, muito convictos que obra deixada a meio é fracasso pessoal.
O Plano Nacional da Leitura, representado pela comissária Isabel Alçada, foi definido como um período exacto e obrigatório para as crianças lerem na sala de aula. A leitura é uma "prioridade política". E "treina-se" - como nadar ou andar de bicicleta. Não desdigo a bondade da medida, mas é triste vir do exterior da família, com o desgosto da obrigação, a aprendizagem pelas crianças do gosto da leitura. Livros de imagens cativantes olhadas no aconchego do colo dos pais reforçam o laço afectivo e adubam o espírito infantil. Não chegarem a leitores dos laureados dos anos recentes poderá ser bom sinal - a leitura como um prazer, não lamela de xanax, e arredada do intelectual vestido de negro e colarinho branco dizendo com a lixívia da pele.
Cancer Cells
"Cancer cells are those which have forgotten how to die".
(Nurse, Royal Marsden Hospital)
They have forgotten how to die
And so extend their killing life.
I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.
I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.
But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.
The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.
Harold Pinter, Março 2002
Publicado por Teresa C. às 07:26 AM | Comentários (0)
outubro 19, 2006
PÉS NUS

Mozert
Vestido de noite. Sandálias com salto afilado. Busto cintilando acima do decote fundo. A cintura moldada pelo cetim. Caindo pesado. Marcando curvas desdobradas da anca. Sugerindo, ao andar, pernas longas. Prolongadas em vertiginosos saltos. Sorrindo. Feliz. Capturando no olhar os flashes. Repetidos. Sons - os trrrack-trrrack das câmaras fotográficas. E o brilho do gloss resplandecendo. O dourado escuro do cabelo longo. Ondulando. Como requebros do cetim. Assim devia ser. Não foi.
Calças em malha de algodão com atilhos na cintura. Uma T-Shirt a combinar. Branco e rosa-carmim. Pés nus. Rentes ao chão. Rosto lavado, perfume leve – no corpo, nos lençóis. Em todo o quarto, pelo anoitecer. Jazz forrando as paredes. Luzes veladas. Verde-lima, branco, notas de laranja, madeiras claras. Flores e folhagens tropicais num jarrão. Pelas paredes, óleos. Cerâmicas. Sisal no chão. Tecidos fluidos. Macios como cetim. Como a noite. Como o amor e a feitura dele.
Um jantar na cidade. No bairro. Num pulmão da cidade. Passadiços em madeira encerada. Água saltando em cascata entre eles. Árvores adultas, relva aparada. Um piano, uma voz cantando – sussurrando? – “As Time Goes By.” Risos na noite. O pavimento molhado. Frio outonal. A saia de chiffon como nada. Sapatos de salto. Meias com liga de renda larga. Bordada. Tons de Outono que a saia repetiu. O verde húmido da terra na camisa de cetim. Que brilhava.
Computador aberto após o regresso a casa. Uma olhadela aos emails – “tantos! Porque me envolvi em quatro projectos científicos? Quando aprenderei a comedir o gosto de aprender?” Saber do prémio veio depois. Boquiaberta! Envergonhada ao ler aqui um escrito de penada e meia, recortado até aos dois mil caracteres. E não me reconheci. Texto vadio. Como eu. Como o espírito atento da Rita Barata Silvério. Obrigada.
Publicado por Teresa C. às 07:38 AM | Comentários (6)
outubro 18, 2006
GINSENG OU INFIDELIDADE?

Alain Aslan
Adoro ter razão. Ainda mais se o politicamente correcto me contraria e os conservadores pudicos insistem converter-me a insípidas teorias que as sem-vergonhices privadas desmentem. Sorte a deles eu ter coração de pomba branca, criatura apaziguadora, que, sem os marginalizar ou confrontar – defendo o direito à liberdade por mais libertina que seja e somente ao próprio afecte –, cai na venalidade trocista e silenciosa.
Desde que comecei, tardiamente, confesso, a olhar para a sombra arrastada comigo, fui registando fait-divers do desenvolvimento sexual. Os pedreiros iniciaram-me nos piropos de tasca, dos homens de meia-idade-e-pilinha-minguada, lascivos com baba nos cantos dos lábios, registei olhares decadentes, dos adolescentes meus pares a timidez exacerbada, porém langorosa. Com os desinibidos flirtava inocentemente(?). Chegada à idade adulta, concluíra na matéria o secundário. Licenciei-me como hobby redentor de tédios sociais. Anda-não-anda, está inacabado o mestrado. Lá irei.
Dizem provado que flirtar com terceiros é como Ginseng para as relações. Às mulheres, principalmente. Balzaquianas de preferência. Como elixir da juventude. Ora, assim sendo, é mais eficaz, barato e seguro que o botox. Da prática do flirt os homens beneficiam, salvo se for “puro e duro.” Aqui pasmei – julgava não carecer o flirt de dureza instrumental. Aliás, tinha-o por malícia light e humorada. Dizia o artigo: a 47% dos entrevistados não apetece trair a cara-metade. Pode lá ser? Com quem traímos nós? Sendo eles de Marte, certamente com marcianos. Só pode!
CAFÉ DA MANHÃ
Agradeço ao Professor, ao O Escudo, à Monalisa e à Eterna Descontente a gentileza de referirem este blogue.
Publicado por Teresa C. às 06:27 AM | Comentários (3)
outubro 17, 2006
SEM-REI-NEM-ROQUE

Deborah Poynton
Não seja falado o Pénis por distracção da actualidade nacional - os portugueses ilustres, as taxas na saúde, mudanças nas carreiras, a tirada infantil do Ministro da Economia, desemprego, a carestia de vida, percursos da Carris mudados, manifestações dando voz ao descontentamento geral. Ora bem!, um de cada vez.
Na lista dos portugueses ilustres falta o Salazar. Concedo ter feito o homem jus à condição de pároco frustrado. Com vistas curtas, agarrado à ideia de ter descido à terra beiraltina no coração do terreno (território é demais!) português para salvação nacional. Como a Senhora de Fátima em aparição, trocada a azinheira por palácio governamental e a permanência de minutos miraculosos por quarenta anos de dor. Nos primórdios da gestão do país, Salazar deu rumo a um povo sem-rei-nem-roque e às turras, endireitou as finanças. Tivesse a cadeira do poder atirado mais cedo o homem para o chão, e seria incontestada o nome no rol dos ilustres.
Reacções às taxas na saúde, reviravolta nas carreiras da Função Pública e da Carris atiram ao ar o povo, depois caído na rua. Causa comum: somos avessos a mudanças como gatos a água. Privilégios diminuídos de braço dado com desinformação e «apre que é demais!» (desemprego e carestia aqui inclusas) explicam o descontentamento das multidões sem tretas como razão - se há empresa difícil é sacar as gentes ao ramerrão das vidas e pô-las a mexer para a rua.
O Ministro da Economia foi um querido – quis animar o pessoal e decretou o fim da crise. Uma boa alma, ali onde o vemos, porém um «contentinho» como a maioria dos que chegam ao poder. Quem me dera pisar os tapetes fofos dos palácios e gabinetes!... O tom pardo da vida do cidadão comum mudava para cor vibrante de néon. Atrevo-me a mais: o país deles não é deste mundo - está encastelado nas irisadas nuvens do Além.
Publicado por Teresa C. às 07:24 AM | Comentários (0)
outubro 16, 2006
AMIÚDE

Damon Denys
Finalmente respondida questão que nunca pus: o que fazem ou não os donos dos bancos. No amiúde televisivo entram-me casa adentro acrescentos ao perfil e aos hábitos de um banqueiro. Tudo somado, concluí terem vida boa, insípida sendo os privilégios rotina. Por que um cidadão habitua-se a tudo, é uma questão de tempo; não admira que o bem-bom, tal como o remedeio ou a penúria, entedie. Inquietude comum é a falta de saúde – banqueiros e pelintras. Quem na miséria vive, a subsistência é a inquietação maior. Escorregar pelos dias só acontece aos frívolos, e estes têm como inquietação única o estado do umbigo.
O dinheiro soía assemelhar-se ao amor – não brotando este para os outros jamais seria devolvido, sendo o retorno frequentemente moroso. Nos juros e risco se distinguiam – maior capital de afecto depositado nem sempre acrescia lucros, o dinheiro como investimento podia gerar insolvência. Muhammad Yunus e o Banco Grameen esbateram as diferenças entre o sangue das economias e o mais nobre dos afectos – ambos disponíveis para os outros, generosos, confiantes, sem outras preocupações que não a de aliviarem e darem ânimo a mágoas e dificuldades. E a filosofia do microcrédito é aplicável ao amor – uma palavra e um sorriso para quem necessita de ajuda podem transformar uma lágrima em esperança.
Café da Manhã
Agradeço a referência amável da Simplesmente Joana. Muito Obrigada.
Publicado por Teresa C. às 09:37 AM | Comentários (0)
outubro 15, 2006
JOBBY

Quinta-feira. Dia de antecipação – da tarde e fim de dia de sexta, do final da semana a pedir justa celebração. Ao telefone, ele dizia – “vem ter comigo assim possas; espero-te.” Segundos eram corridos, ela revendo obrigações, compatibilizando o desejo do sim com a probabilidade do não, e ouve “Vou levar a playsTation. O jogo é espectacular. Ainda nem saiu em Portugal!” - Que sim, que levasse, mas certezas não tinha e eram prováveis problemas familiares. No dia de sexta veriam. Desligaram.
A playsTation como vértice num triângulo entre o par e a máquina deixou-a cabisbaixa: “homessa! Pouco é o tempo para nos vermos e fala-me de jogo mais apetitoso do que os nossos? Sou patética, p’rá aqui plantada com máscara verde-cueca na cara, depilando recônditos lugares, mimando com creme o corpo que ele diz cetim por onde lhe vagueiam as mãos. Pior: habituada a jogos que dispensam comando de plástico e ecrã...” Adormeceu desiludida, como em criança quando lhe desdiziam promessas.
O dia de sexta complicou-se para os dois – ela não ia e ele podia reservar o serão para o comando dele. No caso, parecia, o da playsTation. “Hobby como outro qualquer.” “Jobby!”, resmungava ela. “Nem dançando sevilhanas em torno dele o tentaria. De olho vidrado e prolongando o braço no comando electrónico, diria – “A esta hora? O que te deu? Deitadinha não estás melhor?”
Publicado por Teresa C. às 11:16 AM | Comentários (2)
outubro 14, 2006
A LUA DO VOO DOS PATOS

Drew Posada
Veio parar-me às mãos visão do que sou, serei e devo ser.
CORVO
A Lua do Voo dos Patos
”O Corvo é inteligente e místico. Pessoas Corvo amam a paz, são idealistas e charmosas. Esperam harmonia na comunidade e devem ficar longe de incertezas e inconsistências. O Corvo odeia a solidão e necessita estar rodeado de gente. Ainda que seja agradável e bondoso, vive influenciado pelo ambiente que o rodeia. Se é negativo, pode ficar mal-humorado. Sabe ser idealista e diplomático e gosta que prevaleça a justiça acima de tudo. Veio ao mundo para harmonizar os contrários. No amor, é forte e sensível, mas por demais influenciado pelos desejos e sentimentos de seu parceiro.
Dá-se bem com Cervo e Lontra.
Deve cultivar: constância, imparcialidade e inspiração
Deve evitar: indecisão, incerteza e inconsistência
Planta: hera
Mineral: azurita
Cor: azul
Direcção: sudoeste
Medicina do Corvo: aptidão para transformar situações negativas ou estéreis em positivas, e capacidade de superar limitações.”
P.S. Pouco sei de astrologia, karmas, feng shuis e similares. Por isso não atinei com a razão de estarem pontos cardeais ao barulho? OK, gosto de heras selvagens trepando por paredes e muros, do azul das safiras. Azurita tem cobre na constituição – preferia metal mais nobre, mas enfim, remedeia. A Patagónia como destino parece-me bem. Chocante é o animal que me associam: o corvo! Ave agoirenta... E os patos, que terão a ver com tudo isto? Já agora, e salvo seja!, os cervos e as lontras quem serão?
Publicado por Teresa C. às 10:58 AM | Comentários (2)
outubro 13, 2006
INTERLÚDIOS

Zindy Nielsen
Para dos dois fruírem não chegava a semana, o mês, o ano. Por isso faziam suaves interlúdios nos dias. Horas roubadas. Pacíficas ou tumultuosas se mais alto que a voz soava o apelo da pele. A dos lábios primeiro, desvendando de cada um o calor e a sede da presença. Antes, fora o olhar do travesso sorriso. O aproximar ligeiro. O abraço forte e demorado. As mãos dando-se e soltando-se para afagar o rosto, o cabelo, as mãos devolvidas. Depois, era o beijo que de um ao outro contava o que ao dia até aí faltara. Dos lábios à fala demorava. Era dos corpos a vez. O desejo avolumado e húmido, impetuoso e provado. Breve ou com vagar.
Serenando a respiração e as carícias, falavam, completando numa refeição o apetite por mais sabores, ou num café, ou numa cerveja e água tónica gelada com limão. Ele fumava, ela não. Dele ela amava as diferenças e semelhanças com os demais. Confirmava as palavras do António Fagundes – os homens são iguais em todo o mundo, até nas diferenças. Querem amor, ternura, o desejo satisfeito. Como as mulheres, acrescentaria ela. Deles é o desconforto ao debaterem emoções e a relação. As mulheres atraídas por certezas, confirmações do laço afectivo como mosca por mel.
Um do outro jamais seguros, salvo do amor sentido. Nem queriam. A reserva, o mistério que inventavam, mais ela do que ele, a privacidade eram direitos e pretextos. Descobertas. Água selvagem, turva e fugidia brotando de ignotos recantos. Inesperadas fontes do espírito. Por isso se surpreendiam, ela e ele. Por isso faziam interlúdios nos dias.
Publicado por Teresa C. às 07:32 AM | Comentários (0)
outubro 12, 2006
FATALIDADES

Greg Horn
Fatalidade I
80% do consumo tem responsabilidade feminina. Ele, escandalizado, dizia: “Suspeitava, mas preto no branco e em número tão impressivo choca. Não fossem as mulheres e adeus sociedade de consumos exacerbados. Vós, vós sois as culpadas!” Eu, que somente o vira tão amarfanhado quando o cão desarranjara os intestinos e derramava fedor e o resto pela casa ou se o Sporting levava cabazada, fiquei assombrada. Engoli o riso, e, numa fracção de segundo avaliei a explosão. Decidi ser mais do que retórica o que ouvira – acusação sentida de consumistas inveteradas. Baixei a voz como tenho por uso se estou zangada, e retorqui: “pudera! Quem abastece a casa, as crianças, o respectivo e os pais a cargo? As mulheres! E se de caminho comprarmos trapinho novo, um par de sapatos, mala, lingerie e demais acessórios a condizer, foi por ser a peça de roupa compra excelente e dos abastecimentos domésticos termos saído cansadas. Além de ser justa a recompensa, ora pois! Não gostando, têm remédio: vão eles da próxima vez e tragam tudo para casa. Ao entrarem, exibiremos um sorriso de lado a lado e, sacos jazendo no chão, a bancada da cozinha apetece.
Fatalidade II
Tiro o esmalte às unhas. Olho, apreensiva, o horizonte. Neurónios a mil à hora. Chá gelado numa mão, a outra caída. Não parece de minha propriedade tamanha ânsia e nostalgia. Sofrerei do mal da melancolia que dois séculos atrás roía as mentes femininas? Por desamor, amor contrariado, luto, desgosto fundo, marido ausente na guerra ou em casa da amante em parte incerta. Tomara não me tratem com ventosas ou sanguessugas... As pupilas teimam no longe, mão poisada no colo, corpo reclinado, cabelo vagamente ondulado como o pensamento. Nem pasmo com o langor. Com o vagar da mente. Com a inércia do corpo. Olho o calendário: “Cinco dias. Tanto tempo...” E queda me fico onde estava. Os neurónios alarmam-se: “ela não me parece bem. Que dizes?” O outro, ronceiro, nada. Diz o terceiro: “fazia-nos correr Seca e Meca e agora borregou!” O quarto: “tens razão, a engrenagem está parada e, por aqui, os que de nós restam ou ressonam ou jogam às cartas. O quinto: “fosse ela homem e sopraria que se aqui estamos parados é porque a festa é lá em baixo.” Do ajuntamento dei conta: “Ah, ingratos que tanto cuido de vos manter em forma! Não vêem que o mal é pesado? Que de ser gaja premiada com T-Shirt e publicidade perdi a esperança? Tinha planeado agradecimentos à mãe, às avós, às tias, enfim às matriarcas que de menina julgaram torcer-me a courgette. O veredicto pressinto-o fatal. E sem o prémio rosa-cueca adio o estatuto de Gaja e fico remoendo como o Calimero - é uma injustiça... é uma injustiça... olá se é...”
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outubro 11, 2006
QUANDO A CAMPAINHA TOCA

Dave Nestler
Em fífia colectiva gritam “Aldrabão, aldrabão” ou “Mentirosa, mentirosa” consoante o endereço da desarmonia. Aos milhares no cinco de Outubro, em magote nas escolas. Muitos. Mais que as mães, infelizmente, dado os passamentos de algumas. Lamúrias, insatisfação e desalento são denominadores comuns. Análises assertivas e autocríticas escasseiam. Assim vão os dias à mistura com entusiasmo, alegria e afecto. Professores no pior e no melhor.
O dia-a-dia de um professor não tinha que saber: cumpria horário fixado – mais ou menos, “porque blocos de noventa minutos não aguentam os “miúdos” e eu também não” –, despejava faltas da turma no computador, uma ou outra reunião encurtada e ala que se faz tarde – “em casa é que estou bem!” Aulas preparadas no intervalo da fritura dos carapaus, uma falta e um teste por mês - “mais do que isso nem pensar!, não sou parvo e sei o trabalho que dão a corrigir”, professores assíduos gozando nos períodos lectivos dias de férias sobrantes. Estúpido? Claro que sim, mas Ministério oblige ao descontar em Agosto os subsídios, gozadas as férias ou não. Progressão na carreira: esperar sentado em cursos de formação só para rir e que o tempo fosse passado. Topo da carreira garantido sem distinguir os medíocres dos excelentes.
A equipa ministerial virou tudo de alicerces ao ar. O que antes era papel e ocasionalmente prestado é agora presente conjugado em todas as pessoas. É exigido exame de candidatura – até que enfim!, qualquer gato-sapato-licenciado acedia a carreira no secundário -, tempo aumentado ao serviço dos alunos, professor ausente deixa em arquivo material didáctico aplicado pelo professor-substituto, progressão na carreira condicionada ao mérito. A assiduidade condiciona a avaliação e configura o sabido: maior presença dos professores nas escolas é adeus à gorda fatia do tempo que tinham livre. Uma maçada!
A Ministra não pecou nas decisões, antes na forma. Não percebeu que a maioria dos professores se empenha na realização pessoal e profissional com gosto e dedicação. Os «profs» não merecem tratamento de putos preguiçosos - são os únicos profissionais que picam o ponto e são avaliados de noventa em noventa minutos por trinta pares de olhos. Não têm chefe a quem pedir desculpa pelo atraso se o trânsito está um caos ou a filha mais nova adoeceu no infantário. Quando a campainha toca não há ministério, nem estatuto, nem mentirosos; há jovens curiosos que merecem alegria, paixão e eficácia. Eles são os juizes. O resto? Que se lixe!
Publicado por Teresa C. às 06:44 AM | Comentários (3)
outubro 10, 2006
CASARÁS E AMANSARÁS

Cecil Hayter
Casarás e amansarás — Conjugium satis est juvenem dominare ferocem
O Outono coincide com o regresso ao lar e o desejo de nele renovar os dias. As obstinadas tentarão banir as resmas de roupa na cadeira do quarto. Eles, ardilosos se o dolce far niente está em causa, num resmoneio alegarão servir a cadeira para o arejamento das calças e casacos e cintos e gravatas – “aliás, acto higiénico ao evitar a contaminação do roupeiro pelo fato despido e, por isso, conspurcado de bactérias.”
Elas ensaiarão levar à prática a frase publicitária da TMN: “...de manhã também é bom...” dispensando o “...a minha mãe gosta de tomar banho primeiro.” Eles, após o erecto acordar mictórico, murcharão atributos e energia. “Fica para logo, «quiduxa», agora não há tempo.” E vão ao computador, vêem as primeiras na televisão, fumam um cigarro, só depois disparando para o despacho da saída. Com a pressa nem reparam no gelo do beijo delas.
Na ânsia de mudanças que se vejam, já que das sentidas foi diluída a esperança, elas desfolham catálogos do IKEA, obrigam-nos a entortar o rosto como quem presta atenção mas tem olhos de vidro fixos no ecrã. Eles dão de barato o acordo ao não-visto e somente na tarde de sábado, metaforicamente enfiados «nelas», percebem a ratoeira. Arrastam a infelicidade visível de homem-vítima-de-maníaca. Uns tristes, uns sem-abrigo da determinação feminina. Confrangem, pobrezitos...
Para doce regresso à conjugalidade outonal, deixo receita de uma amiga: se o parceiro emudeceu, ficou frio, sofre de cegueira selectiva ou embarrigou para cima de uma arroba de quilos, há solução: fazê-lo caminhar cinco quilómetros por dia. Ao fim de duas semanas estará a setenta quilómetros de distância. Nada mau!
CAFÉ DA MANHÃ
Excelente o artigo sobre “A Má Fama dos Professores.” É tema que tenho na calha.
Publicado por Teresa C. às 09:26 AM | Comentários (2)
outubro 09, 2006
BY NIGHT

Sorayama
Nos cafés da Nova Evangelização são servidas bebidas sem pingo de álcool, uma Bíblia por mesa, reflexão, música ao vivo louvando Jesus, coreografada – tipo “Atirei o Pau ao Gato” para crentes -, vibrante para alguma meia-idade e idosos solitários. A esperança e o convívio possíveis mitigando vazios e comboios de desilusões. Gente muito nova, nem vê-la - faltam os shots emborcados em série, a aprendizagem dos amores e liberdade que miúdas(os) de quinze anos assimilam de copo na boca ou na mão, ancas maneadas com langor, maquilhagem no rosto. E que lindas são!...
Enquanto isso, no escuro da cidade, a droga muda de mãos como passe para o esquecimento da insegurança pessoal, na família e na escola, como ritual de integração no grupo - a referência que pesa. Se o desafio ou apetite por um automóvel acontece, não havendo o do amigo à mão, mais um roubo alargará o currículo. Álcool, outras drogas, transgressões, garantem o meio-caminho para enredos policiais, quiçá morte por overdose de adrenalina deles e dos GNR.
E as mulheres, sempre as mulheres, são promissória bancária nas vilezas de ocasião. Exploradas, enganadas, chamarizes nas casas de alterne, putas encartadas. Muitas delas imigrantes ilegais que a inépcia burocrata esquece, lembradas nas rusgas policiais. Falaciosa prova de eficácia na vigilância social. Os imigrantes são neglicenciados, olhados com desconfiança e desdém. O Estado, assobia e olhando o ar, permite que a economia nacional saque a baixo custo trabalho duro. Tudo arremedando inocência. Nós cegos ao que não convém.
Publicado por Teresa C. às 10:39 AM | Comentários (2)
outubro 08, 2006
TINTAS E MATIZES

Al Buell
Começam cedo demais. Nem falo das pinturas enquanto petizes, mas daquelas de esmero crescido com os anos. Aos quinze disfarçamos a acne, aos vinte corrigimos sobrancelhas e pintamos os olhos, aos trinta usamos anticerne, base correctora, e simulamos maior altura quilibradas em saltos. Os quarenta espevitam o aparecimento dos brancos - colorimos o cabelo, fazemos nuances, o diabo-a-sete para dos anos não exibirmos mazelas. Daí em diante, as tintas e os truques não variam, disfarçam é menos. Nas sociedades também.
Passámos trinta e dois anos armados em garotos. Desbaratámos ilusões, recursos e trabalho. Se é de latinos a origem, pelo regabofe generalizado ficámos num limbo entre a América e a latinidade. Somos europeus nas expecTativas e enleios, na mania de saltar degraus na escada social. Americanos pelo potencial acesso ao consumo insano. Américo-Latinos pela história, real penúria e corrupção. Nesta todos molhámos o pão. Declarações de impostos anorécticas quando a pança ou a bulimia dos bens pedia rectidão. Gorjas, comissões clandestinas nos contratos e transacções. Meninas de aluguer em troca de favores. Corporativismo profissional e lobbies centiplicados. Sociedade autófaga pintada de sucesso. Dos rectos aos cabotinos, os matizes degradam a alvura até ao negrume total.
Sou balança pelo signo astral. Dada a introspecções e não a nostalgia. Coquete, frívola, a justiça como espada afiada para o «eu» solitário e para o colectivo de pertença. Depois, rio. Confio. Gosto de ser feliz nem que, para me aninhar na beatitude, pinte a verdade – finjo não ver o que vejo, ignorar o que sei, empresto inocentes matizes aos íntegros-intrujões. Mas vejo, sei, reconheço a mentira onde existe. E penso-a: a razão não cessa o rolar oleado. Por isso pinto. Aprecio a beleza dos momentos em que todos somos realmente puros, ideais e sensíveis. E pinto as inverdades de cores vivas, dispensando o roxo ou o preto. Sorrio genuinamente pela transparência do que o outro deseja omitir. Matizes do arco-íris que dão arranjo ao viver.
Publicado por Teresa C. às 12:16 PM | Comentários (0)
outubro 07, 2006
UM SHOT PARA O CAMINHO

Bart Lindstrom
Amigos: faço anos. Acompanhem-me num Syrah Cortes de Cima 2002 (castas: 50% Aragonez, 34% Syrah, 10% Cabernet Sauvignon), ou, para os guerreiros urbanos, num shot à maneira:
Ingredientes:
-1shot de tequilha
-1cálice de xarope de manga
-1cálice de licor de melancia
-1colher de chá de sumo de lima
Molhar o bordo do copo alto com sumo de limão e passá-lo em açúcar. Bater num shaker os ingredientes e verter no copo. Entorná-lo com sabedoria.
Publicado por Teresa C. às 02:24 PM | Comentários (6)
outubro 06, 2006
OK MULHER


Yuliang Wu e Andrew Potter
O novo anúncio da OK Tele-Seguros, OK Mulher, é desvario para mentes femininas e pura agressão para homens heterossexuais. Eles – sim, que inveja do visual alheio não é exclusivo de mulherzinhas - mal vêem o desfile de machos perfeitos fazem zapping, vomitando: “todos gays!” Até podem ser, por que não?, mas é infecta a dúvida de serem deuses invulgares. E não, não me centrei na matéria. Eles sorriem, enviesam o olhar, semicerram as pálpebras, inclinam o rosto, e, mais do que tudo, prometem afabilidade, atenção, mimo, sedução ao tratarem riscos, amolgadelas, batidas, furos dos pneus, assim dispensando a mulher de futilidades garageiras. Melhor mesmo só o homem amado, o CocaColaMan e os meninos nus dos calendários que entre o mulherio circulam via email. Estivessem daquele modo recheadas as oficinas, qual caixa de bombons surpresa, e a minha viatura ser-lhes-ia entregue, carecida como está (só ela?) de leves remendos. E não estando, garanto: arranjaria razões.
Para homens inseguros ou machos do “vais lá tu ou vou lá eu”- frase tribal usada quando a vista alcança uma «gaja boa» -, a retaliação é previsível: “palhaço! O «meu» é maior e mais grosso que o «teu».” Um dos efeitos trágicos do anúncio é provar que em matéria de defeitos não se distinguem os sexos. Somos frágeis na consideração para connosco, invejosos, boateiros. Um exemplo: a Vera Sampaio, filha do anterior presidente, foi aluna excelente, jovem mulher empenhada em cruzadas sociais que culminaram, após a licenciatura, na assessoria ao Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. Pois, pasmem, há quem propale o boato dela ser tão medíocre que só a cunha e o apelido permitem trabalhar hoje com o Ministro da Presidência. Imaginam criaturas destas, garras treinadas no maldizer e no boato, vendo desfilar os Adónis do anúncio? Eu imagino, e, de o fazer, parar de rir não foi fácil.
Publicado por Teresa C. às 07:42 AM | Comentários (5)
outubro 05, 2006
KIZOMBA, KUDURO, 2000

Gisetti
Caracteres: 2553. Veredicto implacável da contagem no Word. Subtraí aspas, «ques» e troquei tempos verbais. 2512. Dos dois mil exigidos sobravam demais. Não desisti. Voltei à leitura. Uma tirada saída menos mal, foi directa para o ciberespaço. Por lá deve vogar na companhia das excluídas pelos filtros dos autores, dos blogues apagados, do spam enjeitado. Só de imaginar os meus desperdícios virtuais fazendo companhia aos do Pacheco Pereira, incho de orgulho. Numa coisa não sou inferior a ele. Aliás, em duas: tenho uma figura mais airosa e o meu ciberlixo faz companhia ao dele. É um começo.
No entretanto das (re)leituras e contagens e tira e substitui, a minha Cila arribava, invariavelmente, nos instantes cruciais. “Arroz branco ou de tomate?” “Ponho a máquina da roupa a lavar?” “Esta camisa precisa de uns pontos. Posso deixá-la aqui para me lembrar?” E eu que sim a tudo – “branco”, “ponha”, “pode” - sem desviar da contagem o olhar: 2013. Hip hip hurray! Só forte dor me salvaria de abdicar da deixa favorita que o sentido do texto dispensava. O intelecto em luto profundo deu legitimidade ao dedo e apagou-a. Vem a Cila com pergunta na baila: “ a doutorinha sabe dançar Kizomba?” Eu, nada. Insiste: “aquilo é que o preto dança na televisão! E olhe que nem gosto de negros. Ah, mas aquele é sensual. Um corpo, uns maneios... Ai... Ai...” Sorri e reforcei – “pois, deve ser.” “E Kuduro já experimentou?” No automático respondi – “claro, no ginásio.” “Ai lá dançam isso?” – “Não, isso não.” “Mas se disse agora que sim!...” E eu, amarfanhada pelo desgosto de tanta subtracção, fiz das tripas bondade e sorri: “sabe, Cila, nos treinos, as nádegas e o abdómen devem ser pedra.” “Não sei a quem pedir para me ensinar Kisomba e Kuduro. Queria fazer uma surpresa ao meu homem.” – “Também eu, Cila, também eu... mas no meu caso é serpentear no varão. Ou, como a Shakira, pôr o ventre a tremer e as loucas franjas da saia a-dar-a-dar.”
1992 foi o resultado da contagem final. Sem título, por que a contar fica o gozo e lá vai a T-Shirt do I Concurso Rosa-Cueca De Posts De Amor (ou da falta dele) mais o texto fazer companhia às sobras do Pacheco Pereira e de muitos mais.
Publicado por Teresa C. às 10:27 AM | Comentários (3)
outubro 04, 2006
SAP, CATUS, TAC

Carlos Diez
E não se pode virar o país de pernas para o ar, chocalhar, baralhar e dar de novo? O infortunado Portugal corre o risco de ensandecer sob o jugo da penúria vestida de competência. O governo é socrático por duas razões: presidido por Sócrates e pelo método de parir ideias complexas que somente iluminados ou iniciados entendem através de perguntas, respostas e mais perguntas. Como ao exercício lógico as lusas gentes escapam, e ao pragmatismo preferem a fatalidade, o método Socrático mais parece coisa de doudos que de gente sã.
Irá fechar caterva de urgências por esse país fora. Meia hora, diz o estudo que fundamentou a decisão – persistem os erros, mas quem erra estudou a questão e pagou aos puTativos culpados -, será o tempo médio de um doente aceder à urgência hospitalar mais próxima. Para um milhão de portugueses três quartos de hora será o tempo máximo, assim a morte espere e a vida os segure. Nem é muito, se pensarmos o que à hora de ponta um desgraçado sofre desde a Ameixoeira até Santa Maria. Para o Curry Cabral nem pensar, que encerrou para aflições de última hora.
Todo o português se comporta como órfão de pai, atribuindo ao Estado o dever de ad eternum de tomar conta dele. Falhando, desanca-o pela língua, preguiça e argúcia. Estava o povo habituado a trocar Centros de Saúde, SAPs e CATUS - incompatíveis com dias parados no emprego e não fornecendo, de mão-beijada, especialistas, TACs, análises e outros exames complementares de diagnóstico - pelas urgências hospitalares, quando o método socrático do faz-agora-responde-depois lhe troca as voltas. Aumentará nas urgências restantes a espera pelos raros médicos de Medicina Interna, e numerosos clínicos gerais – de dia estão no Centro de Saúde, ganhando no tempo livre mais uns cobres fazendo Bancos - ou mesmo tarefeiros – licenciados em medicina mas sem especialização. O especialista fica como última estância se a gravidade do caso a justifica e for passado o teste à paciência do ror de horas para obter o resultado de um exame.
Em síntese: o estudo pariu monstros. Dotar os Centros de Saúde e SAPs e CATUS – serviços de saúde de primeira linha - com especialidades várias e meios complementares de diagnóstico serve melhor as populações na detecção precoce dos males e descomprime os hospitais das falsas urgências. E se são muitas... Pudera! - Médico, exames e especialidade pagos com uma reduzida taxa moderadora... Ah matreiro povo que esta terra pariu!
Nota: ao lado, nos Adoçantes, a suavidade do Teor da Pele.
Publicado por Teresa C. às 06:57 AM | Comentários (0)
outubro 03, 2006
VINAGRE BALSÂMICO

Paul Kelly
Da luz de Outubro fruo a doçura e o regresso ao manto quotidiano. Respiro leve nostalgia, suavizo as trémulas incertezas de todos os (re)começos. Este é diferente. Desafia-me o despejo de um espaço familiar. Esvaziar uma casa que testemunhou a fatia maior da minha infância em férias. Entrar no silêncio abafado. Seguir a trajectória da poeira que na luz se pendura e onde paira o espírito, o odor e a voz de todos os que ali se iludiram, esperaram, viveram e acabaram. Nunca casa de passamentos após longas agonias; sempre espaço de existências direitinhas, espalmadas, sem maiores sobressaltos que o derriço da Luzia ou o esturro do refogado. Agonias só as minhas, inevitavelmente infractora de desconhecido preceito do longo rol escrito desde os «antigos».
Detenho-me. Olho montras de moda e reajo com prudência pela lembrança dos armários preenchidos. Analiso o ano e conto tantos casamentos como funerais. Abro a mala e o bâton convive com o analgésico. Coincidindo com um bonitão na escolha do vinagre balsâmico, sorrio ao identificar-lhe a hesitação que mais do que a figura me encanta. O aparente repouso da emulsão emotiva não me equivoca. Reconheço os sinais e abandono-me. Persiste, contudo, o manto fluido e subterrâneo que corre no mais íntimo onde sou. Que teima e corre. Palpita livre. E deseja. Quer. Sempre eu, para o melhor ou pior.
Nota: destaco a atenção amável que me têm dispensado seja sob a forma de visitas, ligações ou comentários. Por hoje, registo alguns dos mais assíduos blogues que não constam dos Adoçantes.
- Budah
- Claras em Castelo
- Tipografia Tirrena
- Cerridwen no Bad Books Don’t Exist
- Tomás Vasques
- Bell
- Bad Girl
- Su
Obrigada.
Publicado por Teresa C. às 07:32 AM | Comentários (3)
outubro 02, 2006
PUTÉFIAS?

Serpieri
Sou mulher de amores. Pelas pessoas em primeiro lugar. Das maravilhas da Terra elas são as maiores, sejam homens ou mulheres. Das minhas pares a intuição tem treino maior. E, depois, não somos tão diferentes assim. Elas e eu, nós e eles. Uns e outros se enlevam com requebros amorosos, eles envolvendo mais as cabeças, nós privilegiando o coração. Diferenças entre sexos ternamente registo algumas. A fragilidade deles, quando expostos ao feminino mais puro, comove. Nós adoramos fazê-los rabiar e são os obstinados a levar de nós o melhor. Mais ainda quando os damos por esbeltos, nem que eles tenham de perímetro abdominal para cima de 97cm, limite da obesidade. Anoto a primeira diferença: enquanto apaixonadas revelamos completa insensibilidade a outras nádegas; eles, perante um bom rabo e mamas condizentes, dos olhos fazem radar e da cabeça placa giratória. Sem consequências, as mais das vezes, apenas tique inscrito no ADN.
Outra fractura entre homens e mulheres é a condição de alvos inocentes perante toques e tentações. Batendo noutro veículo, invariavelmente dirão que o “sacana de um gajo veio para cima de mim”. Se o vilão for imóvel – um muro, carro estacionado, a curva duma via que monta há anos atrás, a história é déjà vu “Quando dei por mim, a malvada da curva fez patinar o automóvel.” Ou: “a fulana parada na fila de trânsito foi tão inábil que nem se mexeu ao ver-me na direcção dela. Pfff... Mulheres!” Se formos culpadas dos «encostos» em trânsito, assumirão ar de vítima acostumadas às trenguices do mulherio encartado.
Nas infidelidades arcamos com as culpas. Eles traem porque a feminina condição é o mesmo que demónios andantes de mamas e rabos e pernas e curvas e despudores de pernas abertas. “Estava ledo e quedo,” dirão ao ser descoberta a marosca, e “a gaja desinquietou-me pelos modos e decote.” As tentadoras são putéfias do piorio, sempre à cata de machos – “já um gajo não pode estar sossegado, em negócios, claro!, no Champanhe, sem que uma oferecida, especialista no varão e no «relógio», não venha para cima de nós. Ora um gajo não é granito, antes argila moldável. Somente isso e o agrado ao cliente do negócio me levaram ao «privado». Umas cabras, todas elas. Nem respeitam um homem casado. Fosses tu (a mulher) mais competente na satisfação do teu homem, e nem pela cabeça (qual?) me passaria cair nas garras doutra.”
Nota: Agradeço penhorada as atenções da Sempre-menina sagaz e bonita da blogosfera - grata surpresa a minha quando ontem, meia estremunhada, vim postar! -, do Vida Involuntária. e da mui estimada e valorosa Isabel.
Publicado por Teresa C. às 10:01 AM | Comentários (1)
outubro 01, 2006
OS MEUS SÃO MELHORES QUE OS VOSSOS


Carlos Diez
Mudei-me para o Sol. Tinham-me dito cobras e lagartos do novo semanário – miscelânea de Expresso, revista cor-de-rosa e Vogue. O nome de baptismo parecia-me desadequado para publicação de balanço das semanas obscuras no ramerraneiro nacional. Desatendendo aos avisos, arrebanhei um dos restantes na papelaria do costume. Super trendy no visual, melosa pelo acordar em doce remanso, armei o estendal na esplanada preferida. Sol no dia, Sol na mão. Por lá fiquei.
Ronda feita às «gordas» do jornal, convoquei os neurónios para a leitura. Artigos poucos palavrosos sem perderem fundura e consistência crítica, leveza na forma, diversidade de conteúdos com actualidade garantida. A revista – séria no artigo de fundo e noutros mais - pulveriza interesses para deixar satisfeito vasto menu de gostos. Foi feliz reencontro nas páginas do jornal, a cuja sedução já eu não estava indiferente, a doce e querida Carla Quevedo, excelente no discurso e no espírito crítico das abordagens como havia sido no Expresso e é na Atlântico. Que mulher! Melhor que le petit robe noir: sabe pensar e estar bem em qualquer circunstância. A Margarida Rebelo Pinto – sabem os deuses como não é meu hábito testemunhar-lhe preito – esteve bem na abordagem irónica ao gosto dos homens mais novos por mulheres mais velhas, e na predilecção que estas assumem por jeans gastos, irreverência, criatividade, humor e energia que os adónis garantem. Mais dizia: se qualquer homem da nossa idade nos troca sem cerimónias por uma par de mamas com metade da idade deles, então gozemos os homens dentro do limite mínimo do prazo de validade enquanto a rigidez não lhes formatou o estar.
Desde ontem o fim de semana prometia barriga-cheia de prazeres. O menor, ainda assim gozo, foi o Gil Vicente legitimar aos jogadores o uso das chuteiras num jogo da Liga de Honra. Foi de homem – logo com elevado grau de teimosia e insanidade – a obstinação do presidente do Gil. Ah protuguês-dos-sete-costados, do antes quebrar que torcer!... E o ar sóbrio do Vilarinho no apoio à recandidatura do Luís Filipe Vieira? Gostei. Além do mais, o vermelho- paixão e o verde-serenidade são cores que vão bem comigo.
Estou com a Luna no look trendy - comprei quatro impressivos pares de calcantes que vão do vertiginoso salto afilado, passando por elegantérrima cunha em camurça preta, rasteiros de verniz preto a sapatilhas -, com a Rita no anunciado concurso literário – minha querida, irei botar escritura capaz de fazer soluçar as pedras da calçada! – feliz com o mimo e o reaparecimento do José Pimentel Teixeira, inconsolável com o apagão do Troblogdita, e com o leilão do Cow Parade – vim sem «uminha» para casa!
Ao CITIDEP em Portugal, parabéns – dez anos de vida muito frutuosos. Venham mais.
Publicado por Teresa C. às 12:18 PM | Comentários (7)