« FATALIDADES | Entrada | A LUA DO VOO DOS PATOS »
outubro 13, 2006
INTERLÚDIOS

Zindy Nielsen
Para dos dois fruírem não chegava a semana, o mês, o ano. Por isso faziam suaves interlúdios nos dias. Horas roubadas. Pacíficas ou tumultuosas se mais alto que a voz soava o apelo da pele. A dos lábios primeiro, desvendando de cada um o calor e a sede da presença. Antes, fora o olhar do travesso sorriso. O aproximar ligeiro. O abraço forte e demorado. As mãos dando-se e soltando-se para afagar o rosto, o cabelo, as mãos devolvidas. Depois, era o beijo que de um ao outro contava o que ao dia até aí faltara. Dos lábios à fala demorava. Era dos corpos a vez. O desejo avolumado e húmido, impetuoso e provado. Breve ou com vagar.
Serenando a respiração e as carícias, falavam, completando numa refeição o apetite por mais sabores, ou num café, ou numa cerveja e água tónica gelada com limão. Ele fumava, ela não. Dele ela amava as diferenças e semelhanças com os demais. Confirmava as palavras do António Fagundes – os homens são iguais em todo o mundo, até nas diferenças. Querem amor, ternura, o desejo satisfeito. Como as mulheres, acrescentaria ela. Deles é o desconforto ao debaterem emoções e a relação. As mulheres atraídas por certezas, confirmações do laço afectivo como mosca por mel.
Um do outro jamais seguros, salvo do amor sentido. Nem queriam. A reserva, o mistério que inventavam, mais ela do que ele, a privacidade eram direitos e pretextos. Descobertas. Água selvagem, turva e fugidia brotando de ignotos recantos. Inesperadas fontes do espírito. Por isso se surpreendiam, ela e ele. Por isso faziam interlúdios nos dias.
Publicado por Teresa C. às outubro 13, 2006 07:32 AM