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outubro 27, 2006

Meu Manuel,


Licio Passon.jpg
Licio Passon

Tenho-te um pouco meu pela sussurrada fala que registamos. Sei das pessoas o gosto de possuírem quem gostam. Não fujo à regra, modifico-a porém. De ti chega afecto com cheiro, voz e tacto. Meu no instante em que tudo recolho. Meu porque me lembro de ti. Por ser leve a tua memória. Suave como lábios ou seda ou veludo da pele. Há dias (re)lembrei o meu prazer antigo pelas tuas palavras. A ponte que de ti vinha desaguava aqui, e, por esse tempo, era já formosa. E deixámos largo tempo de a percorrer. Tempos conturbados para os dois...

Do “Gato de Schrodïnger” nós e os outros temos muito. Se iluminares uma partícula ultramicroscópica ela, de tão leve, altera a velocidade, conquanto fiques a conhecer-lhe a posição. Na falta de luz, aos fotões em carreirinha é impedida a colisão com o muitíssimo pequeno. Deste ignoras o sítio; detectas, em contrapartida, a velocidade da progressão. Daí a caixa escura onde se «vê» (conhece) o que a luz não permite. Como nós. Neste silêncio eloquente são os dedos a falar. E as letras em palavras, em frases, em cartas, desnudam do íntimo o mais profundo. Que tu procuras. Como eu.

Em idos juvenis preocupava-me a excelência. No colégio, no liceu, no curso. Mulher perfeita. Mãe dedicada. Profissional competente. Com tantos desafios aconteceu esquecer-me de mim. Parando para me olhar, não gostei do que vi - objectivos e padrões em demasia. Fiz-me à vida. Reaprendi a gostar de mim. Demorei a aceitar as minhas imperfeições. Lentamente, ganhei o que jamais tivera - honra na mulher que sou. E aqui me tens.

Da tua fala escrita comoveram-me hoje as confidências. Vi-te nos momentos passados que ternamente descreveste. Vi o teu cabelo encharcado pesando nos ombros. Secando ao vento. Ondulando com ele. E sabes? É lindo! Como deve ser o teu corpo se o sentires em harmonia contigo. Belos são aqueles em que flui cântico entre o «ser» e o «ver». Esses não esquecemos. Como obra de arte que o tempo não esgota e o entendimento não cansa. Assim te vejo. Assim és.

Um beijo,

Teresa

Publicado por Teresa C. às outubro 27, 2006 07:29 AM

Comentários

Eu tenho sempre algum receio de comentar um texto como este, pessoal,claro, expressivo, interessante.
A única coisa que me apraz dizer é que amizades assim é um conforto, uma segurança, um privilégio, não tenho experiência suficiente para dizer que se constroem por uma vida, para mim consolidam-se todos os dias (amor inclusivé).

Temum bom fim de semana.

Publicado por: Sandro Franco às outubro 27, 2006 05:41 PM

Sexta-feira, acabo de entregar o táxi para o motorista da noite... passei na Lan house para dar uma espiada por ai. Agora é ir para casa curtir o fim de semana.
Há braços!!

Publicado por: Mauro Castro às outubro 27, 2006 09:17 PM

Minha Maria, grande maluca!

"Como deve ser o teu corpo se o sentires em harmonia contigo. Belos são aqueles em que flui cântico entre o «ser» e o «ver»."

Deve ser??? Não é? Flui cântico??? A inspiração às vezes tolda o pensamento?

Leitor derretido

Publicado por: cb às outubro 27, 2006 10:21 PM

Sandro Franco - fascinada com as suas sugestões musicais e comentários espontâneos. Gosto muito da sua presença aqui.

Mauro Castro - e se bem sabe um abraço que atravessa o Atlântico... :)

Cb - aos comentadores mais não peço que urbanidade já que por aqui não são destratados. Para sí é pedir demais?

Publicado por: Tati às outubro 28, 2006 08:38 PM

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