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outubro 11, 2006

QUANDO A CAMPAINHA TOCA

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Dave Nestler

Em fífia colectiva gritam “Aldrabão, aldrabão” ou “Mentirosa, mentirosa” consoante o endereço da desarmonia. Aos milhares no cinco de Outubro, em magote nas escolas. Muitos. Mais que as mães, infelizmente, dado os passamentos de algumas. Lamúrias, insatisfação e desalento são denominadores comuns. Análises assertivas e autocríticas escasseiam. Assim vão os dias à mistura com entusiasmo, alegria e afecto. Professores no pior e no melhor.

O dia-a-dia de um professor não tinha que saber: cumpria horário fixado – mais ou menos, “porque blocos de noventa minutos não aguentam os “miúdos” e eu também não” –, despejava faltas da turma no computador, uma ou outra reunião encurtada e ala que se faz tarde – “em casa é que estou bem!” Aulas preparadas no intervalo da fritura dos carapaus, uma falta e um teste por mês - “mais do que isso nem pensar!, não sou parvo e sei o trabalho que dão a corrigir”, professores assíduos gozando nos períodos lectivos dias de férias sobrantes. Estúpido? Claro que sim, mas Ministério oblige ao descontar em Agosto os subsídios, gozadas as férias ou não. Progressão na carreira: esperar sentado em cursos de formação só para rir e que o tempo fosse passado. Topo da carreira garantido sem distinguir os medíocres dos excelentes.

A equipa ministerial virou tudo de alicerces ao ar. O que antes era papel e ocasionalmente prestado é agora presente conjugado em todas as pessoas. É exigido exame de candidatura – até que enfim!, qualquer gato-sapato-licenciado acedia a carreira no secundário -, tempo aumentado ao serviço dos alunos, professor ausente deixa em arquivo material didáctico aplicado pelo professor-substituto, progressão na carreira condicionada ao mérito. A assiduidade condiciona a avaliação e configura o sabido: maior presença dos professores nas escolas é adeus à gorda fatia do tempo que tinham livre. Uma maçada!

A Ministra não pecou nas decisões, antes na forma. Não percebeu que a maioria dos professores se empenha na realização pessoal e profissional com gosto e dedicação. Os «profs» não merecem tratamento de putos preguiçosos - são os únicos profissionais que picam o ponto e são avaliados de noventa em noventa minutos por trinta pares de olhos. Não têm chefe a quem pedir desculpa pelo atraso se o trânsito está um caos ou a filha mais nova adoeceu no infantário. Quando a campainha toca não há ministério, nem estatuto, nem mentirosos; há jovens curiosos que merecem alegria, paixão e eficácia. Eles são os juizes. O resto? Que se lixe!

Publicado por Teresa C. às outubro 11, 2006 06:44 AM

Comentários

Hoje não é para lançar "colheres de chá de barro à parede"....
Sobre a abordagem que faz parece-me dever apontar alguma contradição. Por um lado parece regozijar-se com as medidas do Ministério, nomeadamente quando se refere à "maior presença dos professores nas escolas é adeus à gorda fatia do tempo que tinham livre".

Por outro lado parece-me que faz uma avaliação correcta dos professores quando se refere à "maioria dos professores se empenha na realização pessoal e profissional com gosto e dedicação".
A Tita,(estando incluida no "ranking" do Ministério das melhores professoras da sua área)sabe que a preparação das aulas e o acompanhamento do trabalho dos alunos fora de aulas são na maioria das vezes mais dias e noites que dias de trabalho!!!
E pergunto estarão as Escolas minimamente preparadas para dar as condições de trabalho que os professores carecem e ao fim de 7 horas diárias estes poderem, todos, pegar na carteira e "ala que se faz tarde, amanhã há mais...".
De quem são os computadores e outros materiais que o prof utiliza ao serviço da escola? e onde estão os espaços com sosego suficiente para desenvolver um trabalho consciente.

Em tempos ouvi alguém dizer dos colegas que passavam todo o seu tempo na escola (e não seriam tão poucos que até davam nas vistas) que ou queriam fazer carreira ou era falta de mulher/homem. E agora como vai ser ...

Um dia destes apareço e vamos trocar impressões.
Não acredito que,afinal, isto seja só para os maus professores.Para uma minoria não seria necessário tanto "escarcel" e propaganda.

Uma coisa me parece que toda esta movimentação já provocou: alguns dos professores com provas dadas de "muito bons professores" já quebraram e só se mantêm firmes pelo respeito que sempre tiveram para com os jovens que se lhes apresentam à frente todos os dias. O resto ... vamos ver

ccbbbb

Publicado por: ccbbbb às outubro 11, 2006 06:50 PM

Não há contradição. Aposto mesmo nas medidas ministeriais. As escolas centrais estão equipadas com tecnologias disponíveis para docentes e discentes, laboratórios equipados, recursos multimédia, participam em projectos científicos inovadores em estreita colaboração com universidades portuguesas e estrangeiras, salas de estudo acompanhado. O que se passava era ser reduzida a permanência dos professores nas escolas, diminuta a utilização dos recursos por alguns e o abandono dos alunos mal a campainha tocava. E sim, a preparação de aulas exige rigor e disponibilidade. Mas tudo junto de nada vale se o professor não tiver talento, entusiasmo, paixão. É o que faz a diferença entre empenho e excelência. Por outro lado, existindo tantos candidatos a professores, por que não seleccionar os melhores para a carreira?
E não exagere, ccbbb: dias e noites de trabalho? Madre mia, nunca tal ouvi! Mas de si, sim, aos poucos, e pela Tita ali em cima, julgo saber quem é. Meu ex-aluno??? Ranking? «Professora das melhores na sua área» Deixe-me rir! ;) Gato escondido com o rabo de fora... OK, tenhamos a elegância de ficar por aqui.
Obrigada pela sua intervenção.

Publicado por: Tati às outubro 11, 2006 09:23 PM

É verdade. Houve professores (as) que tive que se tornaram amigos e como consequência, do respeito e admração já adquiridas, há uma compreensão alargada do que, dia-a-dia da dificuldade e da incerteza do que é ensinar. Há bons e maus professores como há bons e maus profissionais em todo o lado, na faculdade então... bem há casos que... e pensamos por vezes para nós mesmos, se não fossem estes aqui que nos ouvem e espicaçam com eficácia não sei não... ou então, gostamos o suficiente do que fazemos para encorporar e ultrapassar as dificuldades... mas isto já por si só dava pano para mangas.

Continuo com a sensação que o Estado sustenta muito malandro, mas isso não quer dizer que na altura de agir haja um alvo público e notório para toda a gente, e nisso também o português sabe separa o trigo do joio como ninguém (há algumas excepções, porque também há gente parva). Para haver mudanças e uma re-estruturação séria, duradoura e frutuosa no ensino é preciso saber, também por onde e como começar. É preciso professores, e é preciso alunos, deve ser por aí não é?

:)

Publicado por: Sandro Franco às outubro 12, 2006 12:01 AM

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