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outubro 08, 2006

TINTAS E MATIZES

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Al Buell

Começam cedo demais. Nem falo das pinturas enquanto petizes, mas daquelas de esmero crescido com os anos. Aos quinze disfarçamos a acne, aos vinte corrigimos sobrancelhas e pintamos os olhos, aos trinta usamos anticerne, base correctora, e simulamos maior altura quilibradas em saltos. Os quarenta espevitam o aparecimento dos brancos - colorimos o cabelo, fazemos nuances, o diabo-a-sete para dos anos não exibirmos mazelas. Daí em diante, as tintas e os truques não variam, disfarçam é menos. Nas sociedades também.

Passámos trinta e dois anos armados em garotos. Desbaratámos ilusões, recursos e trabalho. Se é de latinos a origem, pelo regabofe generalizado ficámos num limbo entre a América e a latinidade. Somos europeus nas expecTativas e enleios, na mania de saltar degraus na escada social. Americanos pelo potencial acesso ao consumo insano. Américo-Latinos pela história, real penúria e corrupção. Nesta todos molhámos o pão. Declarações de impostos anorécticas quando a pança ou a bulimia dos bens pedia rectidão. Gorjas, comissões clandestinas nos contratos e transacções. Meninas de aluguer em troca de favores. Corporativismo profissional e lobbies centiplicados. Sociedade autófaga pintada de sucesso. Dos rectos aos cabotinos, os matizes degradam a alvura até ao negrume total.

Sou balança pelo signo astral. Dada a introspecções e não a nostalgia. Coquete, frívola, a justiça como espada afiada para o «eu» solitário e para o colectivo de pertença. Depois, rio. Confio. Gosto de ser feliz nem que, para me aninhar na beatitude, pinte a verdade – finjo não ver o que vejo, ignorar o que sei, empresto inocentes matizes aos íntegros-intrujões. Mas vejo, sei, reconheço a mentira onde existe. E penso-a: a razão não cessa o rolar oleado. Por isso pinto. Aprecio a beleza dos momentos em que todos somos realmente puros, ideais e sensíveis. E pinto as inverdades de cores vivas, dispensando o roxo ou o preto. Sorrio genuinamente pela transparência do que o outro deseja omitir. Matizes do arco-íris que dão arranjo ao viver.

Publicado por Teresa C. às outubro 8, 2006 12:16 PM

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