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novembro 25, 2006

COCOROCÓ

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Richard Baxter

Ia o peregrino a caminho de Santiago de Compostela. Pela exaustão, fez parança numa estalagem próxima de Barcelinhos e, assegurada a pernoita, abriu o farnel. Ao estalajadeiro, à espreita, pareceu-lhe farto - a crista de um galo saía do alforge. Cobiçoso, chamou a guarda, alegando do galo o furto. Como aos de parecença miserável dos outros cedo ou tarde vem desconfiança, os guardas prenderam o peregrino e o estalajadeiro o galo.

Na masmorra da prisão, o injustiçado reclamava inocência – “que nenhum ilícito havia cometido e até o catre pagara adiantado”. Condenado pelo tribunal à morte por enforcamento, reclamou nova presença diante do juiz. Tanto rogou que o pretendido aconteceu – foi recebido pelo magistrado em animada festança da qual era anfitrião o estalajadeiro e acepipe principal o galo assado. Ousou ameaçar, tão certo como ele estar vivo, que se viesse a ser enforcado no preciso momento o galo cantaria. Fosse pela surpresa ou medo, ninguém tocou na travessa onde o galo cozinhado jazia.

Chegada foi a hora da morte do peregrino. O juiz permanecia frente à travessa – fumegante reza a lenda, conquanto, saibamos, assado não se mantenha quente tanto tempo. Preparava-se o carrasco para a execução, e, a um dedo de accionar a forca, levanta-se o galo da travessa e faz sonoro cocorocó. Sendo virada para a rua a casa do juiz, este sai esbaforido, ouvindo também o povo na rua do galo o cacarejar. Interrompida a morte do bom homem, aquieta-se, silenciosa, a multidão e de imediato o galo se cala – fora feita justiça.

Se o Galo de Barcelos simboliza justiça desacertada e é símbolo nacional, espanta-me não ouvir dia sim, dia sim, o galo cacarejar.

CAFÉ DA MANHÃ

Cinco blogues que acrescento à leitura matinal: a Ana Cláudia Vicente, o Cinco Dias, o Cor-de-Rosa-Indigo, o Artur Vaz Oliveira e o Letteri Café. Todos tiveram a gentileza de estabelecer ligações para este espaço. Muito Obrigada.

Publicado por Teresa C. às novembro 25, 2006 11:51 AM

Comentários

Muito possivelmente não canta porque ficou afónico com o trabalho que tem tido ao longo dos anos ou então, acabou por se deixar seduzir e passou-se para a classe dos "que cantam de galo".
Já sei que não lida bem com os elogios, ainda bem porque eu sou péssima a fazê-los, contudo não posso deixar de referir que aprecio bastante a qualidade da sua escrita, pela forma e pelo conteúdo. Agradeço ainda a referência que fez ao meu espaço, foi muito atencioso da sua parte.

Publicado por: gi às novembro 25, 2006 08:07 PM

Gi - As atenções quando merecidas são justiça. É o seu caso. Li, gostei e volto uma e outra vez. Reafirmo o obrigada.

Publicado por: Tati às novembro 27, 2006 03:01 PM

Se morasse no campo como eu, reparava que ainda há galos com o sentido da justiça. Não lhes vale de muito, nem a eles nem a nós. Eles acabam na panela. De nós é melhor nem falarmos.
Gostei de passear mais uma vez pelo seu blogue. Até sempre.

Publicado por: tacci- às dezembro 9, 2006 01:46 PM

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