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novembro 27, 2006
ENTRE NÓS E AS PALAVRAS

Jan Esmann
Fim-de-semana cruel. Na sexta-feira, águas raivosas destruíram bens e ilusões, subindo a morte às alturas do sul do Chile para levar quatro portugueses. Sábado, morreu Mário Cesariny. O que ele trouxe à arte portuguesa - ou o sítio para onde ele levou, e elevou, essa arte mesma - é o que fica por explicar. Também por falta de uma tradição ensaística que não foi suprida em décadas de cultura incapazes de a reflectir.
“Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor”
Mário Cesariny
Num banco de um jardim no castelo de Elsenor, dormia o rei Hamlet da fabulosa (re)criação de Shakespeare. Cláudio, tio de Hamlet-filho, por meio de um estratagema covarde, assassinou-lhe o pai pingando gotas de um funesto licor no ouvido do monarca adormecido. Havia, pois, algo de podre no Reino da Dinamarca, como em qualquer era e lugar que humanos povoem. Elsenor pairará invisível, entre o ser e o que este escreve. Seja o grande Casariny, ou um escriba menor.
Da morte não sinto temor, afora a gula pelos que admiro ou amo. O milagre do nascimento ou o imprevisível fim são limites. Pelo meio, é na vida que confio.
Publicado por Teresa C. às novembro 27, 2006 09:25 AM