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novembro 30, 2006

VIAS DE FACTO

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Autor que não possível identificar

Chegar a vias de facto. Os «psis» consagraram o «passar ao acto». Ambas as expressões vão dar ao mesmo - fazer ou dizer coisas impensadamente, por vezes em ruptura com o comportamento normal do sujeito. Estaladas, agressões verbais, danos físicos, irreparáveis ou não. A morte. Num instante de loucura passar de cidadão banal a assassino.

Que motivações ocultas e recalcadas emergem à luz do dia que nem o próprio consegue explicar razoavelmente e com coerência? Quem assiste à bizarria do facto não entende a desproporção entre a (re)acção e o discurso. Da fraca ligação com o enquadramento. Escusada a compreensão quando o próprio não entende.

Manter a pose, a dignidade, ficar bem no retrato, são postiços que levedam agressividades, zangas interiores que num momento deflagram em erupções emotivamente vulcânicas. Oscilamos entre o sentimento de sermos os maiores e o de não passamos de pequenos e maltratados.

A excreção de emoções formatada de modo desajeitado, não raro, dá asneira. Para o próprio e para os espectadores que não percebem serem balofas as cenas. Quando o são... Será monótono o comedimento como regra, mas fervura fácil queima aqueles onde o líquido derrama, e de cicatrizes todos temos bastantes.

Publicado por Teresa C. às 08:31 AM | Comentários (7)

novembro 29, 2006

QUEBRA NOZES

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Olivia de Berardinis

É simples. Deles o sonho de possuírem o melhor automóvel do mercado e uma mulher fantástica com o rabo da Jennifer Lopez, o peito verdadeiro da Kelly Brook, as pernas da Claudia Shiffer, o rosto da Catherine Zeta Jones e a elegância da Jessica Alba. Delas é a ilusão de viverem conto de fadas em que o príncipe, seja pela realeza sanguínea ou pela conta bancária, é protagonista. Rendem-se perante a nostalgia da Cinderela cujas farruscas escondiam beleza inolvidável. Um sapato de cristal, largado na pressa da fuga, bastou como fogoso pretexto para ventura eterna.

Da constatação decorrem ilações várias. Por volta dos vinte e oito anos ficamos com o homem que mascaramos de príncipe, após a desesperança de encontrar um a sério. Cerca dos trinta e muitos, quarenta, desistimos daquele que, no mínimo, nos aquecia no Inverno a cama. Por esse tempo, surgem-nos asas das costelas directamente proporcionais à ânsia de voo que nos eleve da rotina tediosa com o sapo que, (in)justamente, dizemos ter em casa. Entramos, então, em fase regressiva - adquirimos serôdia jovialidade e, como quem não quer a coisa, acabamos enroladas com músculos e genica nascidos quinze anos depois de nós. Uma festa que soçobra perante a canseira de trocar por miúdos a proposta de ir ver o Quebra Nozes, como cumpre pelo Natal, e ele argumenta que “não, não vale a pena, querida tens um na gaveta da cozinha.”

Príncipes e princesas é, definitivamente, o topo dos sonhos delas. Mais ainda quando uma jornalista, Letizia de seu nome, nem o divórcio ou as trompas laqueadas curriculares impediram o beija-mão pelos maiores do mundo. Aparte a obrigação das cíclicas gravidezes e dos saltos de doze centímetros – minha querida, estamos de acordo, sandálias, sapatos, botas e botins, a par das malas, digo eu, constituem a maior das perdições -, Letizia é princesa para a anorexia e para a saúde. Como louvaria um bardo, “en su cuarto mes de embarazo, y tras haber superado los anteriores con las molestias típicas de su estado, Doña Letizia no necesita ni un peinado ni un maquillaje de escándalo, con esos ojos, con su mirada, con su boca, incluso con su nariz algo prominente.”

Publicado por Teresa C. às 06:57 AM | Comentários (0)

novembro 28, 2006

COISA PRIVADA

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Milo Manara

Não era de pedir muito. Habituara-se a baixar expecTativas pela falta de gosto em si. Mentia, aprimorando o exercício. Não se queixava da vida, salvo na dose a todos comum - o suporte caseiro de afectos bastava assim-assim, dinheiro curto, sonhos adiados. A tibieza, a mentira metódica vinham do desajuste à idealização pessoal. Tivera desencantos no amor, tropeções de que saíra esfolado nas sortidas juvenis. “Tudo sarara,” dizia. Mas não. A desconfiança ficara como verruga mal-encarada. A culpa não atribua às vítimas asadas – os pais, a família, a sociedade malvada. A lucidez impedia-o. Mais fácil culpar a má sorte ou estrela distraída no momento do parto. O fado. A fortuna. A roda que com ele só desandava.

A má-sorte existindo teria nomes: inteligência, arguto, espírito ladino, atento, reservado. Por tudo junto, manipulador - na profissão, com a família, nos (des)amores. No espírito carregava o receio de ver esgaçadas as mentiras, assim aviltando em vez de um, dois: quem era e quem queria ser. Mentia nos gestos e requebros da voz.

“Que não mentia”, dizia, “Arredondava a verdade.” E sossegava. Coisa privada que lhe dava arranjo. Porque a verdade incomoda como pionés invertido furando a pele. Por que a verdade muda: hoje uma, outra amanhã. Por que, não raro, a (in)digestão da verdade acarreta dores e lágrimas. Por isso a omitia. Por egoísmo esperava que a realidade torcida viesse a ser real. Só então a contaria. Sem mentir.

Publicado por Teresa C. às 07:14 AM | Comentários (2)

novembro 27, 2006

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS

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Jan Esmann

Fim-de-semana cruel. Na sexta-feira, águas raivosas destruíram bens e ilusões, subindo a morte às alturas do sul do Chile para levar quatro portugueses. Sábado, morreu Mário Cesariny. O que ele trouxe à arte portuguesa - ou o sítio para onde ele levou, e elevou, essa arte mesma - é o que fica por explicar. Também por falta de uma tradição ensaística que não foi suprida em décadas de cultura incapazes de a reflectir.

“Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor”

Mário Cesariny

Num banco de um jardim no castelo de Elsenor, dormia o rei Hamlet da fabulosa (re)criação de Shakespeare. Cláudio, tio de Hamlet-filho, por meio de um estratagema covarde, assassinou-lhe o pai pingando gotas de um funesto licor no ouvido do monarca adormecido. Havia, pois, algo de podre no Reino da Dinamarca, como em qualquer era e lugar que humanos povoem. Elsenor pairará invisível, entre o ser e o que este escreve. Seja o grande Casariny, ou um escriba menor.

Da morte não sinto temor, afora a gula pelos que admiro ou amo. O milagre do nascimento ou o imprevisível fim são limites. Pelo meio, é na vida que confio.

Publicado por Teresa C. às 09:25 AM | Comentários (0)

novembro 26, 2006

MR. DARCY

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Jennifer Janesko

É verdade. As mulheres não se compadecem de uma outra que não venha acompanhada de um Mr. Darcy. Este é requisito sério na selecção do parceiro adequado, idealizado, requerido, condizente com o êxito na pública apresentação do novo amor duma mulher. Da Bridget Jones aprendizes, ou dela distanciadas por sabedoria maior, mulher faz de outra mulher respeitada e severa juiz. Elas vestem-se para si próprias, contudo pensando no sucesso perante as pares e, somente, em terceiro lugar nos homens. Quiçá prescindem deles quando o conforto apetece e o gozo da liberdade é maior.

Arranjarmo-nos para o amado é voluptuosa bem-aventurança. Requer amor sábio, prioridades alinhadas, distanciamento da frivolidade. Ele é, enquanto dura o amor, a causa da minúcia na escolha da lingerie – que aprecia num relance e despe em breve instante -, da saia justa e meias de ligas, dos saltos que, sabemos, lhe aguça o deleite. O «eu» e o «tu» misturados em solução homogénea de emoções.

Aos demais provocar agrado é fácil. Todas conhecemos o bê-a-bá dos gostos masculinos. Diversos, porém o denominador é comum. Qual deles resiste à intensidade do gesto íntimo de alongar a perna, arquear o pé e retirar, sem pressa, a meia da coxa, desprendendo-a com suavidade do pé? Ou a um vestido sóbrio que, mal é desapertado um colchete, cai, assim o queiramos, ao chão? Ou a pernas longas, torneadas a preceito, sobrando de interior mínimo, rendado, antevendo o que a nudez confirmará?

Um Mr. Darcy impressiona as pares. Cuidem-se aquelas que constituam o apreço e subida de estatuto no género como requisito dominante daquele a quem entregam o melhor de si. A vida é implacável – não contemporiza leviandades com verdade. Apenas desta é feita um grande amor.

CAFÉ DA MANHÃ

Ao Beber para esquecer, ao Traz Outro Amigo Também agradeço a companhia, bem como ao Geração Rasca pela iniciativa da eleição dos melhores blogues e bloguers de 2006 que tantos novos amigos me tem dado a conhecer.

Publicado por Teresa C. às 11:57 AM | Comentários (2)

novembro 25, 2006

COCOROCÓ

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Richard Baxter

Ia o peregrino a caminho de Santiago de Compostela. Pela exaustão, fez parança numa estalagem próxima de Barcelinhos e, assegurada a pernoita, abriu o farnel. Ao estalajadeiro, à espreita, pareceu-lhe farto - a crista de um galo saía do alforge. Cobiçoso, chamou a guarda, alegando do galo o furto. Como aos de parecença miserável dos outros cedo ou tarde vem desconfiança, os guardas prenderam o peregrino e o estalajadeiro o galo.

Na masmorra da prisão, o injustiçado reclamava inocência – “que nenhum ilícito havia cometido e até o catre pagara adiantado”. Condenado pelo tribunal à morte por enforcamento, reclamou nova presença diante do juiz. Tanto rogou que o pretendido aconteceu – foi recebido pelo magistrado em animada festança da qual era anfitrião o estalajadeiro e acepipe principal o galo assado. Ousou ameaçar, tão certo como ele estar vivo, que se viesse a ser enforcado no preciso momento o galo cantaria. Fosse pela surpresa ou medo, ninguém tocou na travessa onde o galo cozinhado jazia.

Chegada foi a hora da morte do peregrino. O juiz permanecia frente à travessa – fumegante reza a lenda, conquanto, saibamos, assado não se mantenha quente tanto tempo. Preparava-se o carrasco para a execução, e, a um dedo de accionar a forca, levanta-se o galo da travessa e faz sonoro cocorocó. Sendo virada para a rua a casa do juiz, este sai esbaforido, ouvindo também o povo na rua do galo o cacarejar. Interrompida a morte do bom homem, aquieta-se, silenciosa, a multidão e de imediato o galo se cala – fora feita justiça.

Se o Galo de Barcelos simboliza justiça desacertada e é símbolo nacional, espanta-me não ouvir dia sim, dia sim, o galo cacarejar.

CAFÉ DA MANHÃ

Cinco blogues que acrescento à leitura matinal: a Ana Cláudia Vicente, o Cinco Dias, o Cor-de-Rosa-Indigo, o Artur Vaz Oliveira e o Letteri Café. Todos tiveram a gentileza de estabelecer ligações para este espaço. Muito Obrigada.

Publicado por Teresa C. às 11:51 AM | Comentários (3)

novembro 24, 2006

PIPI_NELAS

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Steve Hanks

Fui encontrar o “Sem Pénis, Nem Inveja” incluído numa listagem fabulosa. Segue junta: PIPI-nelas, Ponto G, Pornograffiti, Pura Putaria, Sexo dos Mitos, Simples Coisas da Vida, Sensações Profundas. Lisonjeou-me a companhia. Procurasse eu descrever no formato telegrama económico este blogue, e não encontraria melhor. O autor - Cl@]\[d€$Ti]\[®™ - de si diz ser malandro, perverso, ousado, um pouco louco na opinião de muitos que o não conhecem. Master Dixit.

Sem pénis nomeei o blogue, jamais negando remeter o pipi para o simbólico profundo disto de ser mulher - é o ventre, são as coxas que o ladeiam e abrem para gerar vidas, novos e puros amores. Do ponto G, mapeado por coordenadas (im)precisas, atribuem exclusivadade à mulher. Todavia, no recato do cérebro, o ser afirma-se e determina emoções reservadas à combinação genética XX ou XY com a qual nasceu. Esse é o verdadeiro Ponto G. Tê-lo por vaginal é redutor.

Pornograffiti - registo de cariz sexual explícito. Ora, o que para uns é explícito, para outros é subtil. Jogo de palavras ardiloso~, apreendido numa leitura, pode ser mais sugestivo do que formas nuas. Cito-me, por estar mais à mão: “Acenda ele as velas, num requebro anuncie ela o desejo, noutro alise o palpável, amacie ele o beliscável, e Éros acordará de rompão.” Da pura putaria não afasto o que escrevo - exponho o que do íntimo brota aos olhos de qualquer. Com ele sustento cópula ao acasalarmos as mentes. Putaria, sim. Pura, também.

Busco dos mitos o sexo, das simples coisas da vida o gosto, da profundidade das sensações a voluptuosidade. Por isso, ao Cl@]\[d€$Ti]\[®™ devo a descrição.

CAFÉ DA TARDE

Não me tinha dado conta da nomeação deste sítio para melhor blogue feminino por gentileza da Luna. Sendo que bajulações não me fazem o género, considero, tal como milhares de leitores, o Horas Perdidas uma delícia. Beijinho grato e um pedido de desculpa pelo atraso. Confio na sua compreensão.

Publicado por Teresa C. às 01:58 PM | Comentários (3)

novembro 23, 2006

NA AORTA DA CIDADE

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Daniel Green

O metro engoliu-a. Após noite mal dormida, dera pela falta do café. Compensou a omissa fonte de energia matinal com saltos que dessem ao corpo que fazer. A miudeza da chuva era verniz fino nas escadas e plataforma, desencontrando a gravidade dos saltos – “Parva! Num dia assim lembrei-me deles!” Na aorta da cidade, os morcegos do costume.

No comboio sentou o rabo estafado. Abriu a mala, caçou lápis e sudoku –entretém como borracha da cigana desdentada, da mulher das mamas enrugadas, dos leitões de fato e gravata. Mortos-vivos, todos. “Os números são uma gaita! Empancam, mas até Arroios caço alguns.” Esbarrou no dois. Olhou a janela. O vidro reflectia rabo incomum – redondo e alto. Atentou - por detrás nada mal, pela frente seria morcego como os demais? Imóvel o nadegueiro, voltou ao dois. Ouviu: “no canto esquerdo.” Levantou os olhos, certa de vir do nadegueiro o conselho. Aliviou o rosto, endireitou pernas e saltos – “não pense ele que só sirvo para sudokus!” Nova dica, o homem de sudoku percebia, e saíram na paragem dela. Dele também? Jurava o não, e honrou o par de nádegas cuja frente condizia.

Cafés, dois almoços e um jantar depois, mais havia a uni-los. Além da conversa boa, houvera toques casuais de polimento e carinho. Mais nada. Por esse tempo, perguntava se o nadegueiro preferia os pares às acolhedoras ancas de uma mulher. “Que se lixe, exijo provas.” Era sábado e veria. Escondeu pilhas de roupa, aspirou, esfregou. A casa num primor e ela esbodegada - “visita de nadegueiro é pior que de mãe!” Marinou no banho, afagou com creme a pele. Ao espelho premiu as molezas - “de pudim, ora bolas! Se encolho a barriga, o rabo é memória. E as mamas? Empino? Nope, volta a barriga. OK, sutiã almofadado, collants que sobem o rabo e apagam barriga. Raios! E se me despe em pé? Cai tudo: roupa, mamas e rabo. Ora, apago luzes... Velas, é isso! Ah, e prendo com fita-cola os interruptores.”

Fosse a química dos corpos ou dos copos, enrolaram-se. Lábios sedentos, dedos mapeando ocultos apetecidos. O nadegueiro, até à cama, eliminou o supérfluo. Suspiros, gemidos e urros passados, a vigília derrotou o sono. As velas ele pensou-as românticas, a fita-cola não deu por ela, nem do que com a nudez caíra. Sussurraram tolices. Ele não saiu, ela desejou-o ali. Ainda riam ia alta a madrugada e as peles coladas. Desafiaram-se. Começaram como acabaram – num jogo de sudoku onde fugia o dois.

CAFÉ DA MANHÃ

Descobri, pelas ligações que com este blogue tiveram a gentileza de estabelecer, dois espaços que merecem visita. São eles o Pequenos Nadas e o Yin & Yang. Ao Espreitador agradeço a nomeação para melhor blogue de 2006. A todos muito obrigada.

Publicado por Teresa C. às 08:21 AM | Comentários (5)

novembro 22, 2006

PALPÁVEL E BELISCÁVEL

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Anthony Christian

Caulfield, li algures, defendia a inexistência de uma realidade palpável, com excepção do traseiro da vizinha mexicana Lolly Rodriguez, que era, nas suas palavras, "palpável e beliscável". Na prisão, onde passou 10 anos por porte ilegal de armas, Caulfield criou as bases da sua Filosofia Moral, tentando desenvolver uma ética baseada na liberdade de cada um fazer o que bem entender da vida. Pensamento marcante: "Há um sólido equilíbrio em todos os elementos do Universo, que une e dá sentido às coisas. Desde que o sujeito não tenha entornado sozinho uma garrafa de Bourbon."

Holden Caulfield, um personagem criado por Salinger e protagonista da novela The Catcher in the Rye, cáustico da sociedade de elite em que nasceu, foi homem que viu longe. Muito Longe. Tão longe, que a realidade palpável mais próxima pertencia à vizinha. Pelo visto, o gosto do homem assemelha o nosso: trazemos como imigrantes meninas de aluguer, emigram trabalhadores. Somos latinos dados a oito ou oitenta - tanto exportamos cérebros como músculos, seja o pilim maior.

Voltando a Caulfield – não prescindimos do palpável e beliscável. Apalpa-se, logo existe. Ou se belisca. Ou vasa de uma mão. Infiro, pela importação de mulherio, ou que as lusas fêmeas não bastam aos parceiros, ou a apalpões dizem não, ou eles têm mais olhos que barriga. Atendendo ao que elas, à sorrelfa, dizem, julgo ser esta a questão. O lar doce lar não erotiza os casais. Serão os detergentes, as batatas, o azeite ou a pasta de dentes que consumidos a meias entediam Éros até o pobre jazer em pura hibernação? Ora isto é sério – casal que não prepara aromática sopa e um manjar sem pôr como dilema paparoca ou te(n)são, sofre de excesso de realidade não beliscável. Acenda ele as velas, num requebro anuncie ela o desejo, noutro alise o palpável, amacie ele o beliscável, e Éros acordará de rompão.

CAFÉ DA MANHÃ

Pela companhia agradeço à Bruxinha, e ao Coisas de Tipo. A Simplesmente Joana teve a simpatia de seleccionar a Tati para melhor bloguer e o “Sem Pénis, Nem Inveja” para melhor blogue. Muito obrigada.

Publicado por Teresa C. às 06:33 AM | Comentários (2)

novembro 21, 2006

O MEU É MAIS QUE O TEU

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Autor que não foi possível identificar

A Luisa é amiga de anos. Mulher bonita, morena, dona de exuberante cabelo negro luzidio como tição, alentejana e um par de anos mais nova que eu. Urbana por obrigação, nada nela contradiz o ar cosmopolita que vinga na capital. Os fins de semana desmentem-no, mas isso somente os íntimos sabem. Chegada ao monte que possui perto de Santiago do Cacém, troca os saltos por botas caneleiras e vigia a terra com amor. Activa como poucas, tem o dom da resposta oportuna em qualquer ocasião. Um exemplo: chegado ao monte comprador de cereais, pôs-se o problema de carregar o transporte na falta dos trabalhadores. Sugere fazerem os dois o carrego. Vai daí, pergunta o comprador: “então e o sê homem? Está dormindo e nã acorda?” Ela sem se desmanchar: “deixe-o dormir que é do modo que não me arreia com o cinto.” “Ai coitadinha que já tem para si. Deixe que carrego eu.” Assim foi.

Por isto e mais aquilo estivemos anos sem nos vermos, de uma a outra sabendo por amizades comuns. Recuperámos os contactos há curtos dias. Ela antecipou-se – foi a primeira a ligar. Depois de exuberante evidência da alegria comum, retomámos, como se minuto não fora passado, o fio à meada da conversa interrompida tempos atrás. Quis saber se havia homem por perto. Respondeu-me num despacho – “há, mas é um cabrão!” E dali correu, solto, o riso. Pergunta depois: “e a Mané como vai?” – “Apaixonada, feliz, do novo amor descrevendo a perfeição. Dá gosto vê-la.” - “Ah... ela ainda não sabe?” – “O quê?” – “Que ele é um cabrão!”

Publicado por Teresa C. às 07:36 AM | Comentários (2)

novembro 20, 2006

MOLHO TÁRTARO

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Linn Randolph

Em qualquer lugar do mundo, até no Iraque, suponho, o sinal amarelo significa “cuidado, o semáforo vai fechar; diminua a velocidade”. Em Portugal, desengane-se quem julga desse modo acautelada a circulação, lemos: “acelere o que puder antes do vermelho cair”. Nos instantes seguintes, o verde-tinto é ainda sinal para avançar. E depressa. Mal comparado, este hábito latino, exclusivamente português foi presunção que corrijo, está para a circulação viária como a invenção dos hambúrgueres pelos tártaros – a contrario sensu os hamburgueses deverão ter inventado o molho tártaro. Como vingança, presumo. É o nosso caso.

Por cá, cumpridor é tolo. O mundo, contrapõem muitos, é dos (chicos)espertos. Deve ser gene do ADN lusitano, o mesmo que cospe máximas a toda a hora, o culpado pela tendência autodestrutiva que revelamos – não reconhecemos méritos e do demérito fazemos bandeira. Nada havendo pior do que boas intenções, os mais destrutivos são os idiotas bem intencionados. Fossem racionais, e persuadi-los seria hipótese. Num pulha, actuaria o suborno. Ao idiota bem intencionado nada atinge; leva a peito a imbecilidade como cruzado lutando por causa justa. “Não empatar o trânsito à conta de códigos coloridos inventados sabe-se lá por quem”, “se os outros não pagam, eu também não”, “um copo a mais nunca fez mal desde que no carro, caso a polícia mande parar, esteja à mão garrafa de água para gargarejo lavador”, são parte da nata dos saberes simplórios e na estrada assassinos. Outros há por aí «afora» - trocar o alcance das palavras é outra prenda nossa.

CAFÉ DA MANHÃ

Ao Rainbow, à Terra de Sol, à Natalie, e às Vozes da Rádio agradeço as visitas e as ligações para este blogue. Ao Consciência Crítica as palavras elogiosas que procurarei merecer.

Publicado por Teresa C. às 09:54 AM | Comentários (2)

novembro 19, 2006

“E OS NOMEADOS SÃO...”

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Victor Tchetchet

Não foi precisada peregrinação blogosférica para corresponder à iniciativa do Geração Rasca. Subi e desci pelos Adoçantes aqui do lado e a escolha impôs-se. O alinhamento dos blogues seleccionados para cada categoria respeita a ordem alfabética.

Melhor Blogue Individual Feminino

Abrigo da Pastora, Bomba Inteligente, Controversa Maresia, Fata Morgana, Rititi e Um Amor Atrevido

Melhor Blogue Individual Masculino

Adufe, Avatares de um Desejo, Katraponga, Novos Voos, Rua da Judiaria e Troblogdita

Melhor Blogue Colectivo

Destreza das Dúvidas, Briteiros, Causa Nossa, Geração Rasca, Mar Salgado e a Minha Rica Casinha

Melhor Blogue Temático

Almocreve das Petas, Entre o Chão e o Céu, Parceiro Pensador, Pornographo, Puta de Vida e a Revista Atlântico

Melhor Blogue

Bomba Inteligente, Ma-Shamba, Origem das Espécies, Rititi, Rua da Judiaria e Um Amor Atrevido

Melhor Bloguer

Anarresti, Carla Hilário Quevedo, Nuno Guerreiro, Pedro Mexia, Rita Barata Silvério e Vieira do Mar

O limite de meia dúzia de escolhidos por cada categoria excluiu nomes que admiro e me acompanham no café da manhã, como letras familiares que não prescindo de saborear.

Publicado por Teresa C. às 11:41 AM | Comentários (7)

novembro 18, 2006

DE IMPROVISO E SEM AVENTAL

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Dinh Dang

Arte só é arte se for princípio e fim. Ideais não estéticos contaminam-na como sabor a presunto nas batatas fritas de pacote – ficam longe do presunto e das batatas fritas foi perdido o sabor. Numa peça teatral pouco importa o lado político para onde cai o autor. Numa ópera, escultura, tela, concerto é procurado o contacto com a beleza intangível, não com a realidade por desta haver de sobra desde o acordar ao dormir. Arte realista é contradição – as trivialidades quotidianas sem acrescentos mentirosos não seduzem ou deixam pairar no limbo do perfeito à escala humana.

Uma peça de teatro ou um filme sobre a banalidade dos dias que não remeta à elevação do espírito é como recepção de gala para dezenas de pessoas em que é servido carapau. De um banquete é esperado estímulo do apetite para pratos fantasiados – iguarias regadas com molhos espirituais, acompanhadas por formosas saladas de inteligência, regadas com emoções requintadas. Deparar com uma descrição da vida-tal-qual é pobreza que a carestia do bilhete excede. É desaforo que o espectador não merece. A alguém ocorre pagar para, de improviso e sem avental, ensanguentar as mãos nas entranhas do peixe e lhe retirar as guelras?

CAFÉ DA MANHÃ

Ao Cinco Dias, ao Canhotices, e ao Francisco Araújo agradeço a amabilidade de listarem este blogue. Ao Tó Colante, ao Filipe Alves Moreira, e ao caro André Carvalho um obrigada especial por terem seleccionado a Tati e o “Sem Pénis, Nem Inveja" para melhor Blogue Feminino.

Publicado por Teresa C. às 12:30 PM | Comentários (4)

novembro 17, 2006

AOS VINTE SUSSURAVA...

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Autor que não foi possível identificar

Mulheres: onde pára o nosso atávico gosto pelo glamour? Qual o requebro do caminho rumo à autonomia e horizontes alargados onde perdemos o ar frágil, vagamente precisado de amparo, obviamente de afecto? O gosto por pérolas, pelo tailleur e camisa de decote fundo? O natural equilíbrio sem dietas ou contagem maníaca de calorias ou preocupação com o rabo que é rabo e honra uma saia justa? O gosto pelo jóia única pendendo do pescoço? As meias encimadas por renda bordada e que na coxa subida libertam o que acima segue? A meiguice na palavra e no olhar, a insinuada nostalgia pelo amor que o não foi? Muito do que poetas e músicos e a literatura mais o cinema enalteceram na mulher? Diamonds Are A Girl's Best Friends?

Estudos provam termos diminuído expecTativas no que aos presentes dos nossos homens concerne. Livros, uma roupinha, perfumes ou bijuteria. Viagens e jóias descem ao meio da lista. Eles, que de nós somente alguns entendem ínfima fracção, insistem nos CDs ou vídeos, presumo clássicos ou de acção. Viagens e jóias somente 4% e 2% dos homens, respectivamente, se lembram delas para nos presentear. Das mulheres e dos homens assomam expecTativas modestas. Fatalidade, crise ou evolução natural?

Tenho por amiga mulher assertiva, cuja evolução descreve assim: “aos vinte sussurrava «foda-se» quando as coisas iam menos bem. Aos trinta passei ao «fodam-se os homens». Quarenta anos arribados, mudei para «fodam-se todos», portanto, a sociedade em geral. Todavia, introduzi nuance no desabafo: perante homem que a cabeça de cima usa tão bem como qualquer mulher, murmuro, dolente, “fode-me...” Acrescenta, deleitada, sorriso doce nos lábios: “pedido por nós sabe melhor.”

Publicado por Teresa C. às 07:32 AM | Comentários (7)

novembro 16, 2006

DESCULPE TAR A ENCOMUDA-LA

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Sorayama

“Desculpe tar a encomuda-la mas se por acaso sober de algum site a que possamos ter acesso para retirar mais ideias\apontamentos de **** ficaria lhe grata
beijinhos*”

Não, não é construção artificiosa de pena diligente. O acima transcrito é o conteúdo do email de uma estudante pré-universitária. Dezoito anos airosos, alta, cabelo loiro natural, rosto de menina num imaculado corpo de mulher. De falta de energia ou déficit de curiosidade não tem queixa. Olhar atento e riso pronto. Informada, dos jornais não desdenha a leitura diária. Porém, escreve assim. Como vendedora de castanhas fumegantes na rua turvada pela neblina do final de dia. Como se a escolaridade mínima tivesse abandonado em troca do vazio ou auxílio à economia familiar. Nada disto - berço privilegiado com direito a viagens, livros, desportos vários e segunda casa na elite da beira-mar.

Mais pequenos que nós só os malteses. Ufff!, é refrescante saber não sermos os liliputianos da Europa unida. Média da altura nacional: 1,65 m. “Eu ainda sou do tempo em que os pais me perguntavam quando garoto se queria o rabo ou a cabeça”, dizia um entrevistado desculpando o indesculpável devido à inexistência da culpa por não ter crescido mais. Instado a escrever um bilhete de conteúdo semelhante ao da menina-bem-nascida, decerto não cometeria um erro. Vá, concedo, um, não mais. À laia de provocação apetece ensaiar lógica falaciosa: se berço de ouro conduz a escrita caótica e parte da sardinha a correcção ortográfica, alimentemos a criançada a petinga enfarinhada e frita.

Publicado por Teresa C. às 10:54 AM | Comentários (3)

novembro 15, 2006

GÍRIA DE GOSTO RUIM

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Anna Halldin

Leitor atento perguntou-me por email, de forma gentil, qual a minha orientação sexual, por da leitura dos escritos não a depreender. Qualifica-a de insondável. Veremos.

Sem condescendência, calcule!, presumi evidente o sexo masculino como pessoal endereço da paixão e do desejo no bem-bom sexual. Resposta fácil e tão imediata como se fora perguntado “qual o prato favorito da gastronomia nacional” – cozido à portuguesa, diria, preparado à minhota (carnes de porco em vinha-d’alhos de um dia para o seguinte). Indecoroso seria divulgar aqui qual a ementa preferida do menu sexual. Aqui ou noutro lugar, porque nisto de preferências os gostos têm dias. «Vareiam», como boa gente diz.

Curiosa é a associação espontânea entre amar e comer. Se é verdade que nem sempre amamos quem «comemos», isto numa gíria de gosto ruim, é vulgar «comer» quem amamos com cariz sexual. E se do cozido aprecio a variedade e a feitura que ao acto da degustação confere infinito prazer, do mesmo modo, ao acto de amor é o virtuosismo libert(in)o de regras ou constrangimentos que o palato inunda de memorável sabor.

Das mulheres aprecio a força, inteligência, humor, lealdade, a dádiva, a beleza, elegância, distinção, a ternura solidária, a energia que ao quotidiano em família e no trabalho faz rolar. No masculino exalto o mesmo, subtraindo peso aos itens distinção ou beleza. Todavia, o que torna um ser perfeito é a imperfeição, aquele condimento dissonante que apela à diferença e ao amor.

As imagens das mulheres que publico confundem o leitor? Aprecio broa, mas não a amo. Assim está melhor?

Nota - no Geração Rasca decorre a votação para os melhores blogues de 2006. Está regulada a participação, e ver esta aumentada daria acrescida expressividade à iniciativa. Enquanto pondero a minha lista de nomeados, a Nancy Brown teve a gentileza de nomear esta modesta escriba em categorias que me deram enorme prazer. Muito obrigada.

Publicado por Teresa C. às 06:57 AM | Comentários (4)

novembro 14, 2006

ROTA QUE O DESEJO SOBE

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Michael Mobius

“Por ficam mais belas as mulheres vestindo preto? Vocação para o luto?”

Preto não é cor como outra qualquer. Por engolir todas as cores, sugere perigo que apetece correr. É poço sem fundo. Mistério. Breu. Promessa de oculto, magia. Centra atenção. Repete olhares. Num voluptuoso corpo de mulher, preto é tango que só ela parece saber dançar.

Vestido preto, um tudo nada abaixo do joelho, exige cintura fina, anca moldada, ondulação atrás, decote fundo que o peito elevado sugira sem revelar. Dispensa adornos, salvo pérolas ou brilhante pendendo de fina cadeia que aponte o começo dos desvairados prazeres.

Preto esculpindo longas pernas é rota que o desejo sobe. Começa num peito de pé arqueado pela vertigem do salto. Continua nas meias de seda cujo final o vestido esconde. Mas, ao traçá-las com sugestiva elegância, a liga despontará presa à fita de renda, esta suspensa do corpete com atilho que breve toque abrirá de par em par.

Luto sempre paira na mulher. Amores desaparecidos que a viram crescer farão brilhar, húmido, o olhar. Luto pelo afecto guardado que não encontra a quem confiar. Nostalgia meiga de quem sabe que da entrega inteira à vida a dor não será alheia – parir é acto de amor rasgando o deleitado e sofrido ventre.

“Por que ficam mais belas as mulheres vestindo preto? Vocação para o luto?” – Nem todas, nem sempre.

Publicado por Teresa C. às 07:34 AM | Comentários (4)

novembro 13, 2006

HAPPY DEFEAT, MR. PRESIDENT!

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Autor que não foi possível identificar

Mr Bush,

Deixei a poeira tomar assento para ver como pousava. Pousou bem, a meu ver. O júbilo global pela vitória democrata, excepto para os republicanos que maximamente representa, foi prova bastante. Sabendo da sua contrariedade ter elevada responsabilidade dos jovens e das mulheres que no seu país vivem sós, mais esperançosa fiquei. Por pertencerem à designada geração Y, nascida depois de 1979, estou em crer que os insanos Vietnams, Afeganistões e Iraques terão tendência a desaparecer. É que, Mr, Bush, os raciocínios redondos começados e acabados na pandilha que comanda, aniquilando quem calha ou tem sob a ponta dos seus Parkerson-Maraolo – dando por adquirido ter assessoria com gosto na escolha dos calcantes -, foi chão que deu uvas e a vindima levou.

... ...(15 minutos para o senhor entender a tradução do escrito até aqui, de preferência sem respirar)... ...

Orgulhoso macho americano com o seu pedigree político e na ronha especialista, presumo ter aliviado a consciência das malfeitorias desequilibradoras da paz mundial ao despedir o seu Secretário da Defesa, General Rumsfeld. Creia ser convicção geral que o homem, não sendo flor a cheirar, foi na derrota republicana o mexilhão. Mais digo: o senhor não pode ser comparado ao Saddam ou a Bin Laden por razão simples, é pior. Estes são assassinos (in)confessos, mas Vossa Excelência é biltre encartado – forneceu-lhes meios e motivos para mergulharem na morte e no terror o mundo ocidental. Uma qualidade reconheço-lhe, Mr Bush: não discrimina Oriente e Ocidente na onda assassina que promove discriminadamente por actos e omissões.

Publicado por Teresa C. às 09:22 AM | Comentários (2)

novembro 12, 2006

SÓCRATES SECO E PECO

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Kenney Mencher

No congresso do Partido Socialista, Sócrates afirmou não existir classe média. Concordo. Ser pobre é uma condição social, mas ser classe média é um estado de espírito. Acusam-no ainda de não seguir o programa de governo. Ainda bem. Quem faz programa é puta.

Os divórcios amigáveis podem agora ser formalizados online. Compras, seguros, operações bancárias já eram possíveis em casa enquanto o lombo assava no forno. Estando o assado seco e peco, cansaço fumegando no ar, o fígado avinagrado, palavra puxa palavra e, num impulso, apetece o divórcio. Com o serviço online é dispensado dormir sobre o assunto – acabada a sobremesa, o formulário é preenchido e um clique para confirmar. Um despacho.

Macho humano que fale por dia quatro horas ao telemóvel, perde 25% dos espermatozóides. Outro que poderá acabar num gabinete minúsculo com um tubo de plástico na mão e uma revista pornográfica na outra; isto se quiser procriar. E é bom que queira. Os homens que foram pais são mais ambiciosos e competitivos. Como pássaros, pinguins e demais bicharada, a preservação da espécie é instinto de sobrevivência.

Publicado por Teresa C. às 09:25 AM | Comentários (4)

novembro 11, 2006

BENFICA: REI E POVÃO

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G. Koufay

Falar antes do tempo é pecha que procuro evitar. Sem sucesso, como adiante provarei. De resto, temperamento irreverente não é fácil de domar - o Olimpo é testemunha do meu continuado esforço para levar mais além a contagem dos segundos concedidos ao pensamento antes da boca abrir. Teclar era, até agora, acto isento de censura, por ser bonito o bom senso e prezar recomendá-lo – a mim, que aos outros nada tenho para ensinar, impor ou aconselhar.

Tudo isto vem ao caso de arenga antiga, por aqui alinhavada, sobre as tenTativas de feitos portuguesas - o maior pão com chouriço, o quilometrado bolo-rei ou a broa gigante - figurarem no livro dos recordes (comezainas são connosco!). Não nos candidatamos ao beijo ou caminhada ou campeonato de dança mais longo. De insensatos nada temos – actividade fisicamente esforçada não é sequer tentada. Ora bem!...

À sorrelfa, como quem nada pretende, o Benfica afinfa aos rivais com esta – o maior clube do mundo em números de associados. Clube do povo, dos pais de família, de mulheres e gentes de todas as condições e idades. Eusébio, Amália e Fátima, a trindade nacional, passa a polígono de quatro lados acrescentado num vértice o Benfica. Tão rubro como o Glorioso é o empenho do Luís Filipe Vieira e o Manchester United, agora relegado para segundo lugar. Clube do povão, dizem, esquecendo que de povão e príncipes todos temos muito ou pouco. No momento, o Benfica é rei no Guiness, e o povão que dele fez o maior foi guindado à nobreza com direito a papel passado e engasgada entrega em mão. Parabéns!

Publicado por Teresa C. às 01:26 PM | Comentários (2)

novembro 10, 2006

CÉSIO 133

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Gleg Horn

O tempo só é tempo por existirem tempos diferentes. O tempo urbano é escasso, empanturrado, pouco apaziguador. O tempo rural é marcado pelas Avé-Marias que o sacristão anuncia com o sino, pela rega ou hora da fatia (refeição das dez quando a jorna começou pelas sete da manhã). O tempo social é diferente do tempo histórico e do tempo na arte. O primeiro é volúvel, o segundo lento, do terceiro o rolar não existe se a obra é preciosa .

Os portugueses têm com o tempo relação conflituosa e obscura. Mais comum é conceberem-no como meteorologia do que marcado a ritmo rigoroso pelos relógios atómicos – o segundo é a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133. Trocando por miúdos: fornecendo energia a um átomo de césio com a menor energia possível (estado fundamental), os electrões irão adquiri-la e passar para níveis mais energéticos. Então, sob a forma duma luz com dado período vibratório, os electrões perdem a energia recebida de uma só vez ou por partes minúsculas (níveis hiperfinos).

Só não tem tempo quem ignora como usá-lo. Dele fazemos queixas contraditórias – “não chega para nada” ou “nunca mais passa”. O atávico atraso social perante compromissos e encontros força os pontuais a perderem tempo, assim atrasando o uso do tempo daqueles que bem o sabem fazer. E se os relógios marcam o tempo, discordam entre si: impreciso o que o quartzo regista, fiel o dos relógios mecânicos que movem engrenagens de articuladas complexidades. Podem estes relógios ser obras de arte, assim acrescendo nova contradição – marcando o tempo com rigor, por eles o tempo não passa. Impávidos, registam-no em tiquetaque preciso.

Publicado por Teresa C. às 07:27 AM | Comentários (2)

novembro 09, 2006

SEGURO NO PREGO E TU MARTELAS

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Christine M. Griffin

A autoconfiança tem dias. Nos dias coloridos, tudo luz como ouro ou cobre polido ou crómio ou platina ou metal cuja oxidação não o embacia. A coisa fica definida logo pelo acordar - pescoço dorido, coluna amolgada, cabeça zonza ou mau fígado dão o tom ao dia. Se da véspera sobreveio enxaqueca ou sabor a papéis de música, pouco há fazer: um par de comprimidos com chá e(ou) esperar que passe.

Pardas e tristes são as matinas que regurgitam da alma negrume como o dos pulmões de mineiro nos intestinos do carvão. Piores ainda se a causa é imprecisa – neste particular, o inconsciente é perito em incomodar. Estas manhãs são as piores; o obrigatório parece condenação, o desejado perdeu sentido e mais apetece ficar em casa esparramado, centrando o olhar na caca de mosca por cima do quadro à esquerda, do que mexer uma pálpebra e desviar a atenção.

Sendo o amanhecer confiante, um arco-íris espoja-se na curvatura do céu. Pode trovejar, ventar, a chuva cair de roldão, que o aspecto, para os outros néscio, do «tasse bem» não enferruja. Passada segura, olhar em frente como se poça de água ou pedra solta da calçada ou buraco no pavimento dispensassem atenção, tão certa a certeza do malino nada atentar. Espiolhando razões para tais divinos amanheceres, das mulheres são os afectos a correrem pelo melhor (ele numa de segurar o prego e ela de martelar), dos homens as esperanças – “é hoje que a Sandra do escritório, ou, quem sabe a Zélia caída na rede, resolve, finalmente, dar uma cambalhota comigo. No mínimo, a Delfina tem de usar mini-saia e meias pretas para ver se o pernão é como as mamas. Ah!, e que o Liedson ferre a bola na baliza dos gajos e o parasita do Guedes arreie da sociedade; de caminho, o sacana do banco bem podia dar o aval. Que se lixem... Estão no papo. Todos!” Elas sonhadoras, eles pimpões.

Publicado por Teresa C. às 07:31 AM | Comentários (4)

novembro 08, 2006

A MALDIÇÃO DE AZAEL

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Sorayama

O pastor Azael de Jericó vivia no Vale do Jordão. Pastoreava ovelhas mansas contrariando do pastor o gume da língua inoportuna. Não bastasse o desmando, dava uso ao cajado mal apanhava vítima a jeito. Pelo descomedido modo de estar era atazanado, e a razão do homem, de minguada, não entendia as aporrinhações. Emborcando umas quantas com cinco amigos, estendeu o cajado e, invocando poderes ancestrais, disse em aramaico: “Julgais-vos sabichões. Pois bem! Vós e filhos, e netos, e os filhos dos netos, e os netos dos bisnetos, e assim até o fim dos dias, serão dos sábios os maiores!”

Terminando o arrazoado a que não foi dado crédito – já antes rogara sem sucesso a mesma maldição -, caiu como cacho podre. Daquela vez, funcionou: todos os cinco amigos e os seus descendentes, até aos dias de hoje, carregam ilimitado saber e passaram para a história como "os filhos de Azael".

A semente dos “filhos de Azael” espalhou-se. Quando acordam o sono e pairam hirtos no escuro, irrompe, tirano, um saber irracional – ele(a) trai-me e possuo, há tempo, na testa garboso enfeite. Desejo ardente é o do engano: “que não, não pode ser isso”, tudo por dentro gritando o sim. As vítimas choram, imploram para estar erradas uma só vez. Uma só. Aquela e nunca mais. Mas não. Do sabido estão tão certos como da certeza de Deus, do logro do darwinismo e de serem inocentes os financiamentos das máquinas eleitorais. E os filhos de Azael renegam a maldição dos pressentimentos certos e imploram o dom da ignorância. Não consta que algum tenha sido atendido. É que maldições são casos bicudos: entranham-se como nódoas de tinta da china em alvo linho.

Publicado por Teresa C. às 06:44 AM | Comentários (0)

novembro 07, 2006

CORPOS NUM, SENDO DOIS

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Anthony Christian

Da noite vimos o cair molhado. No bairro antigo da cidade, marginavam a rua estreita, inclinada para cima de trinta graus, valetas como era uso ao tempo da construção. Por elas corria em levedas a água das torneiras escancaradas no céu. O som convocou a memória da aldeia Beirã nos rudes Invernos e nos estios em que, pelos regos, o zelador da água a encaminhava para os solos escalados para o dia. Tempos de volta na noite chuvosa à solta na rua de casas magras e fartas em domesticidade transbordando por algumas portas abertas. Não a nossa - essa fechámos ao subir rindo e apressados as escadas de madeira encerada. Foi a sacada rumando á sala que nos trouxe da majestosa queda o rumor. Interromperíamos depois o jantar para olharmos a cascata brotando das telhas escuras. Juntas todas as fontes da rua engrossaram o caudal que, desvairado, cantava ébrio pela fartura da bebida, galopando a rua. A tua. Nossa, às vezes.

Da cozinha vinha aroma da cozinha tradicional somado ao das castanhas que o forno assava, uma ou outra estalada com fragor. Haveríamos de as comer bebendo o vinho encorpado que acompanhara a refeição. Frente a frente – queria ver-te bem, lembras? -, não lado a lado como no restaurante fazemos, sorrindo ao funcionário, se a hora fez dieta em clientes. Lá fora gotejava a noite, perdido que fora o clamor da enxurrada.

Indo o serão crescido, o cansaço de uma semana prenhe de obrigações estendeu nas tuas coxas as minhas pernas. Que afagavas. Que boleavas. Que esculpias com as mãos. E adormeci. Acordada, mais tarde, para o prazer do deitar conjugado - em concha, corpos num sendo dois, sussurrando a fala como soe fazermos na intimidade mais íntima que a chuva da noite embalava. Adormeceríamos, depois.

Publicado por Teresa C. às 07:50 AM | Comentários (4)

novembro 06, 2006

MINORIA SEXUAL

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Terry Rodgers

Oprimida, perseguida, discriminada. Não são homossexuais, sodomitas, masoquistas ou necrófilos, mas sim polígamos por uma mulher não bastar e delas precisarem em profusão. Instabilidade emocional? Culpados por muito apreciarem fêmeas passarinheiras? Dureza (des)propositada das parte pudendas que deveriam permanecer, na extraconjugalidade, moles? Doença, desvio do comportamento, perversão?

Gays têm bandeira e dia próprio. Polígamos, nada! Vivem envergonhados, reclusos em garçonnières escuras e apertadas, apartamentos alheios, moteis pirosos de camas redondas e tectos espelhados, inventando reuniões e congressos internacionais. A poligamia arrebanha gente de nomeada - Bill Clinton, Pelé, Hugh Grant e muitas outras personalidades. Manifestação e palavras de ordem – “a tua, a minha, as nossas!” ou “femeeiros unidos jamais serão torcidos!” -, capuzes para protegerem identidades, são hipóteses a considerar. Um hino, talvez. Do ano reclamarem dia para celebrar.

M(a)i(n)oria sexual perseguida. Ofendidos pelas mulheres, sogras e vizinhas. Mal tratados pelos filhos. Levam unhadas e bofetões. Alvos certeiros de tampas e panelas e pratos e objectos contundentes que estiverem das respectivas à mão. Pela escolha sexual são vítimas de divórcios litigiosos e odiosa discriminação - roupas atiradas pelas janelas, expulsos das próprias casas e afastados das famílias. Poligamia merece prisão. É perseguição, sim, e das mais cruéis. Polígamo não é besta, é amante mal sucedido que merece respeito e consideração.

CAFÉ DA MANHÃ

À «mfba» agradeço a distinção, ao Nuno ter reconsiderado impulso aniquilador.

Publicado por Teresa C. às 09:35 AM | Comentários (8)

novembro 05, 2006

BICHA-PIRILAU

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Autor que não foi possível identificar

Fomos assaltados. Roubados. Espoliados do significado de termos que eram nossos até o português exportado do Brasil os ter censurado cá, por serem pejorativos lá. Bicha foi um deles. Fila passámos a dizer, não fossem os «bichas» - homossexuais, paneleiros, abafadores da palhinha na gíria portuguesa – ficarem numa espera confundidos. Bichas eles ou as gentes em carreira esperando a vez? As novelas brasileiras tiveram o (des)mérito de obrigar ao volteio do português escorreito. Banais acrescentos como lingerie, hobby, gays ou stress? Talvez, mas por pertencerem a língua comum falada em continentes diferentes, formiga dos termos a adopção.

Bichas há muitas – gatas e cadelas, “fila indiana”, “ficar como uma bicha” (fulo, danado), “ver se as bichas pegam” (tentar obter o desejado), bicha-pirilau. Esta é, de longe, a mais impressiva. Usada no mundo militar, é gritada por sargentos aos recrutas temerosos se alinhar é preciso. Um “bicha-pirilau” trovejado com voz de comando por arregimentado façanhudo, a uma mulher daria vontade de rir, aos mancebos magricelas e fardados soará como clamor dos Infernos. Mas faz sentido – homens formando linha direita, pirilaus erectos acompanhando o desenho. Duvido, porém, do estado hirto e firme dos atributos masculinos embrulhados nas fardas e alinhados em parada. Estivessem com bravura todos erguidos em carreira, e constituiriam, sem que prante a menor das dúvidas, espectáculo digno de ser visto.

CAFÉ DA MANHÃ

À Mad agradeço, penhorada, a preferência, e ao Sandro Franco as sugestões musicais. Obrigada.

Publicado por Teresa C. às 11:50 AM | Comentários (0)

novembro 04, 2006

ATÉ AO TUTANO

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Olívia de Berardinis

Sinal dos tempos – exaurir realidade geradora de êxito e dinheiro. Sacar o possível, fabricar o impossível a partir de fórmula criativa a que o povo tenha, entusiasticamente, aderido. Os cantores ditos pimba, as novelas, o Herman José, pintores comerciais, revistas de banalidades assim fizeram. Ganha(ra)m rios de dinheiro pouco importando se o produzido é bom ou mau. Vender, vender cada vez mais, os zeros à direita da conta bancária em crescimento exponencial. Chegar, quiçá, ao cúmulo da fama nacional – anúncios na rádio e televisão. Assim fizeram o Herman, o Mourinho, a Mariza e o Scolari. O prestígio consequente pouco lhes acrescenta por serem consensuais e indiscutíveis os méritos anteriores.

Os Gatos Fedorentos foram lufada de ar fresco no humor que, até eles, estava a cargo dos talentosos Zé Pedro Gomes, António Feio e Maria Rueff. A originalidade e a harmonia crítica dos Gatos caricaturaram com graça nova esta coisa de ser português. Todos aplaudimos, amesendados nos sofás, as vozes monocórdicas nas rábulas que os danados inventam e nos deixam com a barriga dorida de tanto rir.

O que lhes sabotou o êxito recente foi a prodigalidade das intervenções. Eles estão por todo o lado. Omnipresentes na publicidade de produtos vários. Acordamos com eles na rádio, anoitecemos com eles nas televisões, mais os imitadores que a fórmula adoptaram. Como o Marco Paulo, o Toy, o Tony Carreira e o Emanuel-não-sei-que-mais. Como o Pão Rico e o Bimbo e mais meia dúzia de marcas de pão fotocopiado. Como as duplicações chinesas dos detergentes e toalhitas de limpeza. Tudo banalizado pela ganância do lucro. Por apelo corriqueiro ao consumo.

Os Gatos Fedorentos mereciam que o tutano dos talentos reunidos fosse preservado. Eles que fazem? Roem-no até do tutano pouco sobrar. Talvez a recordação.

Publicado por Teresa C. às 03:26 PM | Comentários (2)

novembro 03, 2006

HOMEM DO NORTE, CARAGO!

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Auto rue não foi possível identificar

O homem não pára. A genica invejável poderá estar inscrita no ADN, ser fruto da educação ou articulado reactivo de defesas individuais. Assim sendo com todos, do mesmo o homem não escapa. E aí o temos abrindo telejornais, cabeçalho de notícias impressas, mote de comentários de observadores especializados, da população em geral. O homem é Amazónia – cruel pela dureza do trato aos humanos que nele julgam assentar arraiais, mito para quem lhe conhece proezas através do disse-que-disse nacional.

“É homem do Norte, carago!”, soe ouvir-se à laia de explicação, como se dos nortenhos fossem exclusivo o pêlo na venta, arrogância, atitudes burgessas, a inteligência e dedicação a uma causa. O reizinho da Madeira é em tudo semelhante, salvo no imbatível burlesco. Fisicamente, as células têm idade próxima, possuem abdómens aumentados e carecas banais. Os dois sofrem de ego inchado e flatulência opinativa. Ambos beneficiam do desconto caridoso que os portugueses reservam aos bobos ou aos néscios poderosos.

Entre o homem do Norte e o reizinho da Madeira separa-os Atlântico sentimental. O ilhéu segue com a mulher de sempre. Cedo entendeu que outra para o aturar como aquela não havia - a fábrica fechou e o molde foi destruído. O primeiro não pára. Borrega de mulher em mulher como macaco de galho em galho. Tem a 1ª ex, a 2ª ex, a 3ª quase ex, a 4ª que esteve para ser e não foi ex. Dizem as más-línguas que se prepara para voltar de rabinho-entre-as-pernas para a ex nº 2. A Maria Elisa, deixou a bruma londrina que o romance embalou e olha sozinha navios no Alto de Santa Catarina.

Homens: ponde os olhos no Pinto da Costa. Quereis acabar como amantes peregrinos? Gastando rios de dinheiro para fechar os bicos das ex e manter os respectivos filhos? Dar uma volta com a Maria Elisa? Sejam os vossos desejos cumpridos. Não digam, depois, que vos faltou aviso.

Publicado por Teresa C. às 07:30 AM | Comentários (2)

novembro 02, 2006

BOLINHOS E BOLINHÓS

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Autor que não foi possível identificar

Há muito não escutava a Senhora Deputada Zita Seabra. A versão revista e actualizada num debate sobre o aborto merece alinhamento de emoções. Nas horas seguintes ao que vi, limitei-me a curar o enjoo. Mais tarde sobreveio asco, e, sob esse incómodo, um comentário pecaria por subjectividade excessiva. Passado o dia em que a pretexto da morte dos amados falecidos honrei memórias e reavaliei prioridades da vida, as posições da Zita Seabra não passam de amendoins de má qualidade.

A Senhora deu as cambalhotas políticas e pessoais que quis. Mudou o cabelo, a maquilhagem, esticou ou encheu ou cortou da face o que pretendeu. Veste Chanel, assumiu ar composto de mistura-fina, deu polimento ao trato superficial. Até aqui, nada a apontar. A náusea e a repulsa advêm das posições sobre o aborto moldadas em barro fingindo ser lioz. Repugna-me sobre matérias graves e de consciência a ausência de humanidade. Tolerância. Brandura. Gritar argumentos polémicos e cacarejar inconsequências como beata histérica à cata de conversões, é repulsivo. Assim foi a intervenção da senhora(?).

Não encadeio raciocínios que alicercem o meu acordo com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas. A ciência evoluiu, a sociedade portuguesa mudou, os direitos humanos foram consignados. Permaneceu o Juramento de Hipócrates e das pessoas a consciência. A minha dita o sim. Isento de gritos ou redundâncias.

E porque é dia de Fieis Defuntos, respeito a tradição Coimbrã – “bolinhos e bolinhós” pedem há décadas as crianças em bandos. A quem nega as doçuras, como a deputada Zita Seabra, os miúdos cantarolam: “esta casa cheira a alho, vive aqui um espantalho.”

Publicado por Teresa C. às 09:16 AM | Comentários (3)

novembro 01, 2006

SANTOS E FIEIS DEFUNTOS

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James Knowles

Dia 1 e dia 2. Novembro começa celebrando os mortos. Santos ou nem por isso. Presentes na memória de alguns. Amados, maltratados em vida, exaltada a lembrança pelos que ficam e marcam presença no velório. Dias, semanas, meses e anos passados, a lembrança assídua fica resumida a visita anual da memória. Flores aos molhos, velas suportadas por plástico encarnado, esfregão molhado, limpam e enfeitam pedras tumulares, de caminho espanejando culpas pelo esquecimento dos falecidos.

Todos os Santos a um, Fieis Defuntos a dois. Dia Santo de Guarda celebrado com salmos nos cemitérios, Dia dos Mortos a seguir com missas de hora a hora. Se lá de cima onde afirmam conjugarem-se as coordenadas do Além os defuntos assistem à afadigada romaria dos deixados cá em baixo, devem pasmar com as mordomias. Não tendo beneficiado em vida do esmero de trato, não serão os crisântemos de cheiro acre a compensá-los do desamor terreno. As viúvas, os filhos, irmãos, cunhados e genros persignam-se num alinhavo frente à tumba, ajeitam uma haste florida e regressam à santa vidinha com o conforto do dever cumprido.

Não sei o que será feito do despojo físico que um dia foi meu. Fosse ouvida a minha vontade e diria – “vão para dentro e não se macem. Velas, candeias iluminadas, dizeres dourados, tumba pesada, flores de plástico ou crisântemos de estufa jamais foram comigo. Sorriam, amem e sejam felizes. Prefiro.”

Publicado por Teresa C. às 08:41 AM | Comentários (2)