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dezembro 29, 2006
CONFISSÃO A UMA GUITARRA

Mark Keller
Coxeava. Não o notaria um olhar de viés. Atentando, era desequilibrado o passo. Usava colete verde de sinalização de obras na via. Por isso parei – entupia uma saída da 2ª Circular. Pela frente, motores impacientes. Por segundos, fui a última da fila. Foi, então, que à minha frente atravessou. Rosto moreno, cabelo negro encarapinhado. Produto de cruzamentos que os genes caldearam. Bonito?, sim!, era. Não somente pelo exotismo ou pelo corpo esguio ou pela musculatura adivinhada.
Carregava massas informes, cimento?, com a dignidade de quem ganha o dia. Olhou-me ao passar. Vagamente. Devolveu ao passeio fronteiro a atenção. Pousou com cautela a carga transportada. Mais por ali se encarrapitava. A coluna de novo erecta, e retomou o afazer. Olhou a esquerda por onde condutor apressado, ou soberbo na condição de motorizado, o anónimo ignorasse. E a fila não desandava, crescia.
Um trabalhador afadigado? Nem por isso. Desempenhava serenamente a função. Como se numa agência bancária atendesse o cliente. Ou num hospital escutasse de um idoso o ritmo do coração. Inspiraria calma e interesse. Poderia pertencer-lhe qualquer papel que dignidade requeresse. Ele, eu, nós. Todos. Pouco nos distingue na essência. Muito o Fatum, deus do Olimpo, faz divergir. Vidas boas ou sofridas. Num fado, o nosso, dizia o poeta Amadeu do Vale – “As mágoas, que já não parecem ser tantas, se confessadas a uma guitarra.”
Publicado por Teresa C. às dezembro 29, 2006 10:46 AM
Comentários
Textos fabulosos e poucos se atrevem a comentar ...ficará mal dizer que não me espanto?
Uma imagem,uma música(gosto tanto de Louis Armstrong!)e um texto que mais do que dizem nos conduzem para lugares de sentir e pensar bem na essência do que somos...esta que afinal pouco nos distingue.
A dignidade no desempenho é uma das coisas que me toca profundamente.
Mais do que o que fazemos somos como fazemos e eu nunca deixei de me prender, de olhos e sentir, por isso...sou uma observadora nata,dizem e eu confirmo,sorri,sobretudo do Homem em situação.
Considero-me uma mulher feliz,entre outras coisas ,por ter podido brincar e crescer no meio de meninos de todas as cores que me ensinaram a ver um mundo bem mais por uns olhos grandes e cheios de brilho do que pelas cores que nos envolvem ou pelos binóculos de um estatuto
O trabalho é uma forma maior de se ser social,dignificante e promotor dos valores individuais e de grupo,uma dimensão fundamental da integração e realização individuais ...longe irão os tempos do tripallium romano,condenação!
Sou uma convicta defensora da igualdade de oportunidades e uma trabalhadora de todas as horas naquilo que julgo ser uma tarefa de todos-sentir que todos nós contamos e que o saber fazer e com dignidade é a melhor de todas as riquezas .
Afinal a maior das tarefas e comum é o ser homem,igual e solidário,em cada gesto.
Um abraço.
Publicado por: M às dezembro 29, 2006 02:01 PM
:-D ainda há uns tempos passei dias a fio a colar etiquetas entre prateleiras e estantes, usando as unhas para arrancar etiquetas mais antigas. As tarefas repetitivas podem ser muito agradáveis. Quando aperfeiçoamos um gesto, porque reconhecemos nos pormenores que já fizemos muitas vezes o que que se torna fluído, a cabeça torna-se mais limpa. Quando carregava sacos de de cimento ou baldes, ou enchia, na estiva, os camiões para seguirem viagem, o corpo tornava-se grato por funcionar melhor à medida que ia aprendendo a ser eficaz. E ter companheiros que partilham o cansaço, a satisfação de ver o último bocado de trabalho a acabar-se, companheiros que dizem, no início, antecipando o que todos pensam ou queriam pensar, "vamos lá", é muito bom. A parceria num trabalho físico é algo muito bom. Tenho descoberto e procurado desenvolver mesmo nas tarefas mentais que também são repetitivas o que tinha quando fiz trabalhos físicos. Imagino-me perfeitamente sem trabalhar, no sentido produtivo mais convencional que existe na sociedade que temos. Mas funciono e enquadro-me bem no quotidiano trabalhando, sou feliz. Porque não é o trabalho que faço que esgota nem aponta nem é o horizonte das minhas perspectivas de realização pessoal. E isto é muito importante para me definir. Costumamos definir uma pessoa pelo seu emprego e pelas perspectivas que tem em relação ao emprego ou em relação ao que quer fazer profissionalmente. Eu olho para o emprego como o meu sustento. Nos moldes em que vivo actualmente. É no conjunto do meu dia, e é principalmente pelo equilíbrio emocional e pela forma como me relaciono com as pessoas, por um lado religioso (que não explico em poucas palavras) que eu me realizo e me projecto. O emprego que tenho é algo que estimo, é verdade. Mas que tem uma importância circunstancial. Cada tarefa faço-a com dedicação. Mas procuro fazer tudo assim na minha vida. Não quero que em nenhum momento o emprego seja um factor de desequilíbrio nos meus dias ou na minha vida. Se sobreponha ao resto. Cada minuto e cada relação pessoal que tenho com os meus colegas é uma oportunidade para trabalhar no que realmente importa. Mas quanto ao que faço agora pode ruir a qualquer momento. Podem despedir-me. Não perco sono nem sofro pelo emprego. Vou trabalhar feliz, pela manhã, todos os dias. Quanto à palavra trabalho. Eu podia ser feliz sem trabalhar no sentido convencional, sem ser produtivo. Fazendo trabalho voluntário, ou vivendo de forma comunitária, ou ainda viajando. Não preciso de uma noção de carreira, de que evoluo dentro de um trajecto moldado, não preciso de olhar para trás, de fazer uma retrospectiva e sentir que subi, que estou num degrau mais alto naquilo que escolhi fazer. Não sou assim. Não preciso sequer de sentir que sou um elemento produtivo da sociedade, segundo o que é costume achar-se, embora eu trabalhe e desconte para a segurança Social há uns anitos. Não acho que isso seja o mais importante. O que preciso é de sentir que durante o meu dia tratei bem as pessoas. Que não vivo virado para dentro. Quero saber que não vivo em função do meu ego. Só isso é verdadeiramente importante. Por dentro e mesmo por fora somos feitos do mesmo, sim.
Um abraço, nuno.
Publicado por: troblogdita às dezembro 29, 2006 04:01 PM
Aqui venho praticamente todos os dias.
Fico-me pelo silêncio que é a forma mais sublime de comentar o que, normalmente, me arrebata...
...
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
...
Como David Mourão Ferreira, não quero desarrumar a tua casa, nem quebrar o silêncio que nela habita.
Muito singelamente, desejo-te um novo ano cheio de Alegria.
Publicado por: j às dezembro 29, 2006 06:16 PM
Rosto moreno, cabelo negro encarapinhado,um deus, um chefe, um homem bonito de uma raça e de um país diferente onde os pôr de sol têm outra cor e a terra é vermelha.Como escreve bem e ilustra bem. Fico sempre maravilhada com a descrição que faz. Venho aqui todos os dias,quase se tornou um vício, e encontro em cada dia algo que cala dentro de mim.Está no meu blog http://solinfinito.spaces.live.com/ e lista personalizada e está em meu coração.
Um Novo Ano cheio de felicidades e de realizações pessoais.
MARIA
Publicado por: MARIA às dezembro 30, 2006 07:04 PM
Amigos: sentir-me entendida por leitores exigentes é mais do que mereço enquanto escriba anónima e modesta. Estes vossos textos de amantes da escrita, vê-se bem!, dão-me colo intlectual onde me aninho, pequena e frágil, como quem a palavra respeita mas usa para brincar. Ou talvez não...
A minha gratidão e um 2007 que vos satisfaça a necessidade de ser Pesssoa.
Publicado por: Tati às dezembro 30, 2006 10:52 PM