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dezembro 31, 2006
DEDICATÓRIA
A todos os leitores desejo


Publicado por Teresa C. às 01:05 PM | Comentários (3)
dezembro 30, 2006
PRÉ-AMASSADOS

Kenney Mencher
“Vamos indo, que remédio, haja saúde e dinheiro para os gastos, por que cada vez há menos, isto vai de mal a pior e o dia de amanhã está incerto, mas que fazer?, nada!, e depois tristezas não pagam dívidas e a vida são dois dias e o amanhã a Deus pertence.” Arenga que familiar mercearia de bairro legitima. Ou o Teles da cafetaria ao enfiar no cartucho o pão que lhe chega pré-amassado e ele vende cozido e quente. No outro extremo do balcão, de pé, uma perna semiflectida sobre a outra, os isentos do exercício da profissão pela reforma ou desemprego usam semelhante palavrório partido em fatias e ditas vez-à-vez, quase simulando diálogo. Os demais condenados ao ócio esparramam-se frente ao aroma de um café ou de uma cerveja ou de um inesperado Martini. Lugares-comuns colados a preceito no discurso são como os pré-amassados do Teles - no forno ganham forma, textura e cheiro. Pão-quente no instante, saciando urgências sem hora.
A cada Dezembro em que assobia a pieira do ano moribundo, estafamos gestos puídos. Obrigamo-nos à felicidade-classe-média da noite de trinta e um. Brindamos lugares-comuns. Balanceamos. Como pequena ou média empresa que aproveita o aparvalhamento entre-festas para fazer o inventário e relacionar receitas com despesas. O país, mansamente, planeia réveillons. Em todas as áreas selecciona melhores e piores. Faz do espólio, inventário. “Como quem não quer a coisa”, aumenta um pouco(?) em tudo aproveitando a distracção geral. Primeiro o frio, depois esta humidade de estalar ossos, o fígado evaporando enjoos, regalias deslocadas para a Europa Norte e Central, ninguém seriamente espera que “isto vá a melhor e para pior basta assim. Ora bem!”
CAFÉ DA MANHÃ

Al Buell
Os caríssimos Comentadores que, generosamente, enriquecem este espaço, recebam o meu apreço e votos de um 2007 cheio de momentos felizes.
Publicado por Teresa C. às 11:06 AM | Comentários (3)
dezembro 29, 2006
CONFISSÃO A UMA GUITARRA

Mark Keller
Coxeava. Não o notaria um olhar de viés. Atentando, era desequilibrado o passo. Usava colete verde de sinalização de obras na via. Por isso parei – entupia uma saída da 2ª Circular. Pela frente, motores impacientes. Por segundos, fui a última da fila. Foi, então, que à minha frente atravessou. Rosto moreno, cabelo negro encarapinhado. Produto de cruzamentos que os genes caldearam. Bonito?, sim!, era. Não somente pelo exotismo ou pelo corpo esguio ou pela musculatura adivinhada.
Carregava massas informes, cimento?, com a dignidade de quem ganha o dia. Olhou-me ao passar. Vagamente. Devolveu ao passeio fronteiro a atenção. Pousou com cautela a carga transportada. Mais por ali se encarrapitava. A coluna de novo erecta, e retomou o afazer. Olhou a esquerda por onde condutor apressado, ou soberbo na condição de motorizado, o anónimo ignorasse. E a fila não desandava, crescia.
Um trabalhador afadigado? Nem por isso. Desempenhava serenamente a função. Como se numa agência bancária atendesse o cliente. Ou num hospital escutasse de um idoso o ritmo do coração. Inspiraria calma e interesse. Poderia pertencer-lhe qualquer papel que dignidade requeresse. Ele, eu, nós. Todos. Pouco nos distingue na essência. Muito o Fatum, deus do Olimpo, faz divergir. Vidas boas ou sofridas. Num fado, o nosso, dizia o poeta Amadeu do Vale – “As mágoas, que já não parecem ser tantas, se confessadas a uma guitarra.”
Publicado por Teresa C. às 10:46 AM | Comentários (5)
dezembro 28, 2006
ELES ÁMEN

Autor que não foi possível identificar
De Beauvoir e Sartre. Tecto nem sempre partilhado. Jamais como hábito ou modo ideal de viver um amor. Amor insolente o deles... Liberto da gaiola que soe unir – aprisionar? - quem conjuga a dois o verbo amar. Não chegando ao desaforo do “Eu amanda, Tu desamas, Ela amadora, Nós amamo-nos, Vós amargais, Eles ámen.” Ou talvez sim, que portas adentro e fora somente cada um sabe o que lá vai.
Jean-Paul Sartre e Simone De Beauvoir mantiveram um relação sólida e cúmplice por 50 anos. Construíram as vidas sobre as alegrias e os horrores da incerteza. Sem gaiola, mantiveram uma relação aberta a fugas amorosas com terceiros. Harmonia fecunda que conciliou liberdade individual e vida conjunta. “Não foi uma história de escândalos, mas do escândalo de uma excepcional busca pela felicidade”, li por aí.
Os mortais raramente configuram elos fora do uso comum. Posto o problema “na tua casa ou na minha?”, não passará da meia dúzia de vezes até ela, em casa dele, sugerir mudanças que ele não pediu, alinhar jornais, limpar o pó, mudar os turcos e ganhar alforria. Ele titubeia entre o “caraças, não é que são todas iguais?, estendemos um dedo e tomam-nos a perna!”, e o hábil “vem docinha, senta-te junto a mim” de quem desespera por levar adiante o programa: testar a resistência do sofá, da mesa, da banca da cozinha ou do lavatório. Ela, que esperava lençóis cheirosos e esticados, secretamente murmura – “Ai... ai, vamos lá ver se a competência ultrapassa o desarrumo! Apura-te, sim... mais..., ui... foi demais!, não pares!, continua!, ui... mais suave marmotinha, aiii... , humm... , estás óptimo! (pelo menos desse lado tapas o pavor de candeeiro)”
Publicado por Teresa C. às 09:57 AM | Comentários (2)
dezembro 27, 2006
LINGUAJAR
MÃOS

Lynn Randolph
Mãos como rostos. Como espelho de vidas amassadas na masseira do tempo. Infatigáveis, por isso rugosas e calejadas. Macias. Leves, sugerindo serenidade. E vida fácil, que a dureza ou o tempo carimbam registos.
A linguagem dos gestos tem código conhecido. Cada um engendra os próprios acrescentos a este modo de comunicar. Há os que desenham no ar movimentos acompanhando a fala. Os económicos na atitude, pela postura discreta, não são fáceis de descodificar. Nestes, as mãos jazem passivas sem vontade de linguajar.
Das mãos aprecio a forma. A textura da pele. O que me contam. A força que inspiram e são capazes de dar. O calor que esvoaçam. Preciso de tocar as do corpo amigo, de nelas deslizar as minhas até a ternura transbordar.
As mãos manchadas pelos anos e engelhadas pela laboriosa feitura da dádiva, são, pela obra implícita, as que me comovem mais.
Publicado por Teresa C. às 02:16 PM | Comentários (2)
dezembro 26, 2006
CACHAPORRADAS

James W Johnson
Vão a meio os testes anuais aos limites das classes B e A. Não bastava a digestão retardada pelos queijos de ovelha, do presunto e dos vinhos que pelo Natal abundantemente ofertam como as águas paradas fornecem mosquitos no verão, ainda a pituitária é agredida com o enovelado cheiro a frituras, a assados e bacalhau. O gosto baralha-se com a enxurrada de sabores e beijos e perfumes dos corpos. Arreganha-se com os doces e chocolates e digestivos. Chegado ao Cristal Roedrer, já o esófago arranha – distingui-lo dum Raposeira somente através do rótulo e pela certeza de marcharem quatro euros por cada gole.
Doses avantajadas de emoções e sentimentos empanturram também. Estou em crer que tanto amor e ternura e mimos e alegria e sorrisos e lágrimas e abraços e presentes concentrados em dois dias são como costeleta de vitela mirandesa após entradas e um sável frito com açorda. Por mim digo - não aguento! Devido a estas e outras, começo a recear sobrevivência equilibrada à época de todos os créditos e cachaporradas emocionais. As gentes engrenam na insanidade, rodopiam sem parança entre comezainas e gastos alarvejados, contaminam os afectos até ficarem febris. Da quadra que remata Dezembro falta metade. Um rapto vinha a calhar. Dispenso rituais comuns: máscaras, resgate, vendas, soporíferos que derrubem bois. Esconderijo acolhedor e quente basta. Cedo no Spa – disso tenho o ano inteiro. É um S.O.S. pensado. Existe por aí alguém, com sobras de boa-vontade, que salve do «já-visto» mulher em ressaca pós-Natal?
Publicado por Teresa C. às 12:21 PM | Comentários (4)
dezembro 25, 2006
TRABALHOS DE AMOR

Miriam
E porque o tempo é de Amor, palavras de quem as sabe usar.
I
Smile, For your lover comes. Prodigal, you have given me love – therefore I to you give love! O unspeakable passionate love.
Walt Whitman
II
“Os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves ...”
[F. Assis Pacheco] By Almocreve das Petas
III
“... A cada engano que Tamara descobre, exige como expiação mais um rubi, para aumentar o colar das fúrias e reconciliações. Porque espero que o senhor não acredite no mito da fidelidade. A minha amiga diz que a fidelidade no amor é uma invenção social.”
Pitigrilli
Publicado por Teresa C. às 12:30 PM | Comentários (2)
dezembro 24, 2006
SEM LAÇAROTES


…Mas com afecto especial destaco as duas mulheres que dos Adoçantes mais admiro e estimo: aquela que acorda assim e quem deste modo anoitece. Presenteio-as com duas imagens que busquei e embrulhei na minha gratidão.
A todos os mui queridos Adoçantes desejo um Feliz Natal.
Publicado por Teresa C. às 05:25 PM | Comentários (5)
OU AZEVIAS

Autor que não foi possível identificar
Gestos com ternura. Melhores que rabanadas. Ou filhoses. Ou sonhos. Mesmo até do que azevias. Que todos os leitores sintam a carícia dos afectos verdadeiros numa perfeita Consoada.
Publicado por Teresa C. às 10:35 AM | Comentários (0)
dezembro 23, 2006
AS ENGUIAS DA FHM

A mim própria havia prometido fazer deste blogue – dizer “do Sem Pénis” é feio nesta quadra – um espaço de paz, amor, azevinho em braçadas, sorrisos pueris, criancinhas aos pulos, barbas brancas e neve e renas e lareiras bruxuleando ouro. Pois foi. Era. Seria, não se desse o caso de quem disto dá conta ser irreverente até ao tutano – não me seja indagado onde alojo o tutano; conhecendo-lhe o cóio, cimentá-lo-ia até restar pequena fresta por onde o atrevimento dificilmente saísse.
A culpa foi da FHM. Não é que a malvada me desestabilizou os propósitos? É coisa que se faça, em vésperas do Santo Natal, fazer no coração de Lisboa campanha de sinalização rodoviária com os sinais de proibição de circular acima dos cinquenta quilómetros horários suportados por nádegas e coxas e seios de mulheres lindas e semi-nuas?
Os condutores nem sempre são flores cheirosas, é sabido. Todavia, penso imerecidas tentações acrescidas e malvadas. Vai um desgraçado ao volante acompanhado de rubicunda fêmea, farto de maçadas, com os bolsos esvaziados por via dos presentes para os sogros, pais, cunhada, sobrinhos, filhos e rubicunda. Merece ser castigado com mulherões fugindo como enguias das mãos?
Publicado por Teresa C. às 01:53 PM | Comentários (77)
dezembro 22, 2006
COM VAGAR

Coffin
Colecções. O prazer de ter. De enumerar. Classificar. Rever. Pela infância e começo da adolescência, embevecia-me o coleccionado. Primeiro, os cromos da Disney. “Mãe, mãe, compre por favor!”, implorava, apertando-lhe a mão. O saquinho como prémio de bom comportamento. Ansiedade crescente ao abri-lo – “Estes não são repetidos de certeza!” (sempre a teima em ver o copo meio cheio quando muitos o diriam vazio). Depois, foram as caixas de fósforos pequeninas enfeitadas por gatos em jardins de fantasia, meninas emolduradas por laços e flores. Mais tarde viria o fascínio por faróis e barcos.
Coleccionar postais e ordená-los ocupou-me anos da adolescência. Fotografias antigas. Atentar no sorriso cristalizado pela câmara, no olhar fixo, na pose e no cenário. Imaginar vidas. Dos vivos refazer a história. Identificar o ar zombeteiro do tio-avô no menino vestido de marujo da fotografia. Tão sério na postura... Vendo com mais atenção, sim!, lá estava o olhar vivo troçando da encenação.
Hoje, não colecciono objectos. Antes momentos. Felizes. De excepção. Como os Natais. Os dias que antecedem a consoada, procuro vagá-los. Sem tarefas em agenda. Isentos de pressas ou compra de presentes. Fruo do que lembre ou identifique ou encarreire quem sou. Mergulho na serenidade que invento. Treino-a no vagar. Na descomplicação do existir. Sobriedade. Dos momentos preservo registos de ocasião - um postal, uma imagem, um laçarote, um saco de papel. Mais guardo no álbum que oculto no coração.
CAFÉ DA MANHÃ
A toda a blogosfera, aos mui caros Adoçantes em particular, os votos de um Natal de infinita doçura que a memória saiba honrar.
Publicado por Teresa C. às 10:09 AM | Comentários (2)
dezembro 21, 2006
PEDRA DE SAL

Ossi Hiekkala
Dos fracos não reza a história. Injusto e baralhado dito por não valorizar os comedidos, confundindo os fortes com arrogantes e os fracos com medrosos, estes como sacos ambulantes de medos e dúvidas existenciais. O ideal seria personalidade sólida, isenta de arrogância, temperada pela contenção. Identificamo-nos com os fortes, mas quão inseguros e perdidos e receosos e tímidos nos sabemos... Rejeitamos a fraqueza, porém é a mais frequente inspiração dos comportamentos. Somos mistura de força e fragilidade. Como uma pedra de sal - poderosa nas ligações eléctricas que a unem, fracturando à mais leve tracção.
Na pujança dos castelos, gentes procuravam-nos como abrigo; sob as fundações buscaram refúgio, outros penaram nas masmorras negras. Das ameias abarcavam o horizonte e vigiavam, tementes, os agressores; por ali defendiam e atacavam. Duas portas ligavam o castelo ao exterior: a principal, vigiada e porventura servida por ponte levadiça, a segunda tradicionalmente conhecida pela «da traição». Dissimulada, era fácil de defender, todavia, vulnerável - bastava um espião ou traidores dentro do castelo. E que somos perante a encastelada personalidade que construímos, se não espiões e traidores do «ser» que, por artimanhas várias, tão zelosamente julgamos proteger?
CAFÉ DA MANHÃ
Acontece...

Autor que não foi possível identificar
Publicado por Teresa C. às 10:25 AM | Comentários (2)
dezembro 20, 2006
DE JUDAS A BARRABÁS

Kenney Mencher
Desventurados. Perseguidos. Manipulados. Dominados. Merecem compaixão. As agruras começam cedo. Infelizes desde tenra idade. O “porta-te bem” como passado, presente e futuro. “Arruma os brinquedos”, “come tudo”, “não te sujes”, “não faças isso”, “não é assim”, “não sejas criança”, “não comas porcarias”, “não sejas patife”, “não me desobedeças”. Não!, não!, não! E os pobres coitados habituam-se. Alguns resistem – às imposições fazem ouvidos de mercador. Ainda assim com matizes: rebelam-se e optam pelo estatuto de espírito de contradição (insuportáveis pelo mau-génio), ou fingem-se conformados enquanto a real gana comanda (danados para a brincadeira, gatinhos em casa).
Verdade é constituirmos para os homens miscelânea de mama e colo, madrastas, governantas temíveis, detectives a saldo da ovulação, preceptoras de vergasta em riste, leoas, santas milagreiras, amantes que lhes atendem a urgência de esvaziar o saco seminal, robôs competentes na conservação do lar, karma que os acompanha do nascimento à Santa Unção. Somente defuntos e enterrados encontrando paz. O reconhecimento dos méritos que aos finados sempre é devido, não podem os homens ter por certo - carpidos pelas viúvas doridas que, secretamente, não desculpam ao falecido o luto que lhes esmorece o tom da pele, ou desde a rigidez pós-mortem abonados com epítetos de Judas a Barrabás.
CAFÉ DA TARDE
Alguém tem a fineza de me explicar a febril subida do sitemeter a propósito do texto "Ela, Carolina"? Ressalvada a minha incoerência constitucional, existe alguma coisa que, a este propósito, eu deva saber? Dou alvíssaras.
Publicado por Teresa C. às 01:04 PM | Comentários (2)
dezembro 19, 2006
COM-PÉNIS-E-INVEJA

Autor que não foi possível identificar
Não diria vento, antes brisa de mudança sentida no país. O sem-rei-nem-roque da usança nacional parece, finalmente, estar debaixo de severo olhar do poder. As reforma «Socráticas» e as últimas iniciativas do Procurador Geral da República são esperançosas para quem do lodo nacional não via saída. Crocodilos e piranhas enchiam a pança até à indigestão. O cheiro putrefacto obrigava a apertar as asas do nariz, conquanto a necessidade de respirar as abrisse ao nojo do ramerrão português.
O método das restrições que Sócrates adoptou é curioso. A Wikipédia atribui a paternidade ao israelita Eliyahu Moshe Goldratt. Fundamentou-o em quatro questões: o que mudar?, para que mudar?, como provocar a mudança? O que traz a melhoria contínua do processo? Da eficácia do modelo ainda falta conhecer, mas da atamancada resposta à terceira pergunta não tenho dúvida (dar uma do Cavaco de antanho, injusta para o de hoje, é lugar-comum).
Maria José Morgado. Mulher que honra o género. Em pouco tempo, (des)arrumou a Polícia Judiciária como ninguém. Aprendam, magistrados timoratos, por que a pedagogia do exemplo é a melhor. A diáfana Carolina Salgado está bem entregue. A peneira da verdade e da mentira será fina. O machismo luso perdeu o tom socialmente correcto e regrediu ao descaro: zurziu ambas. Tivessem elas pendente no entre-pernas e os com-pénis-e-inveja levariam a sério o testemunho apitado pela segunda e a determinação responsável da primeira.
CAFÉ DA MANHÃ
Ao mui estimado Edgar agradeço, penhorada, a escolha.
Publicado por Teresa C. às 09:50 AM | Comentários (0)
dezembro 18, 2006
CATWOMAN

Hughe
“Heróis infantis? Tive. Quando vi o primeiro filme do super-homem foi o fascínio. Chegado a casa, atei uma toalha encarnada ao pescoço, trepei à janela do primeiro andar, e... catrapuz! Fiquei inteiro; da proeza ficou o braço partido. O meu pai esquecera-se de explicar a teoria da gravidade.” Sobre o mesmo herói outro depoimento: “saltei da mesa da sala embrulhado com o que encontrei mais parecido com a poderosa capa encarnada. Na queda bati numa esquina. Esta cicatriz na testa é o registo.”
“Uma amiga imaginária acompanhou-me a infância. Fiel e dada a cabriolices. Atrevida pestinha em contraponto com o pãozinho-sem-sal que eu era.” “As «barbies» princesa, enfermeira, fada e noiva. Lindas! Para quem estava a perder os dentes de leite e via no espelho um sorriso com falhas, as «barbies» eram heroínas.” “A «catwoman». Logo eu que receio gatos... A aventureira gata era magia. Mais expedita que as fadas, menos cruel que as bruxas.”
Na infância, a imaginação estende a realidade. Devaneios, frustrações, ideais ou medos são projectados no herói escolhido segundo o sexo e condição. Na vida adulta, a diferença não é muita. Mágoa funda, solidão não procurada, momentos de feliz exaltação e revelamo-nos meninos desprotegidos ou intrépidos com capa encarnada que saltam de um primeiro-andar. As mazelas? - Curam-se, como quase tudo na vida.
Publicado por Teresa C. às 12:13 PM | Comentários (3)
dezembro 17, 2006
MERCADORES DE SONHOS

Alberto Pancorbo
“Conheceram-se na Net”. Sítio como outro qualquer para travar conhecimentos, dizem. Não é verdade no mercado das frustrações. Se a quebra do salto ou as compras da semana ou o pequeno-almoço apressado ao balcão no quotidiano dito útil cruzar alguém com outrem, quem sabe, aquele há muito e intimamente esperado, foi (des)acerto do acaso, ajuste de contas do destino - conceito vago a que fica remetido o acidental. Muito diferente de quem, estático, não fora o movimento dos dedos no teclado, espera ser encontrado. Bastas vezes casado. Desespera do quotidiano que entende pobre, e teima. Do lado de lá, aguarda-o alguém semelhante ou não estaria ali. Vezes sem fim até ficar adicto. Como o queixoso do anúncio das botijas Pluma – “veio o Mário, o Serginho, o Celsão!”, mas a tal, a sebastianística figura, a das pernas longas, boa como milho maduro, pura adrenalina sexual, cocaína emotiva, viste-a!
Quem assim espera, sentado, incluindo os entertainers do tédio, espera licitação. Julga ludibriar as barreiras pessoais que aos seus olhos o diminuem. Insegurança, descrença, voyeurismo sem binóculos e vizinha da frente. Magoados por sina ou convicção. Que escondem. Do espelho odiando o simétrico que exibe.
Anonimato. Mistério. Liberdade. Exposição do que importa – o espírito. Semi-verdades, logo, mentiras. O que remanesce das horas tecladas e das fotografias retocadas são inquietações comuns - quem sou? Que representação têm os outros de mim? Sou aceite? O meu corpo é obstáculo à concretização dos meus sonhos? Nada de novo nas histórias individuais. O que distingue estes mercadores de sonhos da pessoa comum é o medo. Pior – o terror de se fazerem à vida sem armadura de aço ou manto mágico que lhes oculte fraquezas. A isto há quem chame cobardia.
CAFÉ DA MANHÃ
Não conheço a canção, porém, após a leitura do excelente Feitiço, vou à FNAC antes que a gentiaga cresça. É que é já a seguir!...
Publicado por Teresa C. às 10:46 AM | Comentários (2)
dezembro 16, 2006
“LIGA-ME. BEIJO.”

Jan Esmann
Noite fria. Densa. Como coque que espera combustão. Lá fora e dentro dela. Mãos arrefecidas que o calor caseiro não amornava. Gelado o coração. Saudade impetuosa como relâmpago que rasga o céu. A alma. A carne. O breu. O Outono moribundo. A desesperança. Os outros como matéria inerte. Cristalizados. Respiração dormida. Gente hibernada. Não ela.
Foi breve. “Liga-me. Beijo.” Minutos parados. Ligou. Era o modo dele mostrar a profundidade do laço rematado, anos atrás, no café do Monumental. Ela descendo a escada rolante, ele, em baixo, olhando-a. Amara-a na descida. Quando trouxera os cafés. Quando lhe vira baixar as pálpebras para omitir o que temia expor. Que ele sabia sem ela saber. Ou sabia e não estava pronta para admitir. Reconhecer seria estender a ponta da fita de que o laço precisava para existir.
Uma hora, duas? Que importava?!... Um homem e uma mulher que se inauguram. Diferentes a partir daí. Iguais para os cristalizados, os de respiração entubada. Dos instantes que duram anos, sabiam. Recuar era possível. Ainda. Enquanto bebericavam o café. A água. O castanho líquido dos olhos dele. Dela. Houve uma mão estendida em cima da mesa como fita. O laço que sem outra mão, a ponta da fita que faltava, não o seria. Mas veio. E ficou. Enlaçados os dois.
Desceram para o estacionamento. Ele acompanhou-a ao carro. Se houve hesitação, e foi certa!, não a ponderaram. Entraram os dois. Longe dos cristalizados de respiração entubada, puderam, enfim, murmurar. “Se pudesses, ficavas hoje comigo,?” – “Ficava!” Rostos próximos, perfumes voláteis encorpando o ar. Ele saiu. Ela arrancou.
CAFÉ DA MANHÃ
Contra a TLEBS circulam aqui e aqui e ali. petições on-line. A leitura das razões esclareceu as minhas dúvidas. Apoio incondicionalmente.
À doentinha desejo rápidas melhoras. Se bem a conheço, ao tomar o antibiótico, dirá – “em vez de água dá-me uma caña para engolir isto!”
Publicado por Teresa C. às 11:02 AM | Comentários (2)
dezembro 15, 2006
SOFRER DE MULTIDÃO

Armando Huerta
Neste mundo cheio de gente, há quem sofra de solidão. Eu, coitada, sofro de multidão. E fujo, recolho-me em casa, em lugares insuspeitos, desligo o mundo e centro-me na mansa alegria do silêncio. Na distribuição de qualidades e privilégios não foi ideal a minha posição na fila divina; devo, como soe acontecer, ter sido pontual, todavia distraída com a lonjura do horizonte e as fofas nuvens. Somente quando o assalto às divinas benesses serenara, me devo ter postado na cauda da bicha.
Dos meus defeitos o menor não é a contradição. As pessoas e o desafio do seu entendimento atraem-me como mel a bicho guloso. Trabalho rodeada de mui e variegada gente. Observo, intuo, desminto o intuído, recomeço, identifico beleza no todo, aqui ou ali. Na rua, desconhecidos abeiram-se indagando o precisado, com ar de quem tomará por certo o que disser. Presumo ter ar fiável – tinha-o por amável -, o que muito me pesa por que, engano cruel, tão aérea e apressada julgo ser.
Se a fundo mergulhando nas gentes em montões, falta-me escafandro com tubo erguido que receba ar isento de cacofonia. O excesso de pés por metro quadrado anula a distância mínima para percepcionar o outro. Como se o ar recuasse perante os roldões de loiras, em tudo iguais, até no silicone dos lábios. Suponho até que os beiços inchados engolem a minha parte do ar.
CAFÉ DA TARDE
Nada me ocorrendo contra – por princípio desconfio das rejeições imediatas ao que é inovador -, decidi levar em conta opiniões dos mais sabedores contra a designada TLEBS. Deixo o registo. simbólico.
Publicado por Teresa C. às 03:40 PM | Comentários (0)
dezembro 14, 2006
HOMENS MEUS...

Philippe Martez
Homens que me tiram do sério. Que me atiçam o olhar. Me varrem do espírito as precárias ideias. Que a língua me entaramelam. Me fazem regredir à garota que um adulto admira e quer impressionar. Não sabendo o que dizer, balbucia desconchavos e substitui a fala falada pela que do rosto flui. Não são muitos e com alguns nem sequer privei. Habitam, todavia, o meu secreto jardim das delícias intelectuais. Vicente Jorge Silva, António Lobo Antunes, Rodrigo Leão, Francisco Simões, Luís Miguel Cintra e Manuel Graça Dias cirandam nele a meu bel-prazer.
Homens que me deixam séria. Me abalam comportamentos. Que me obrigam a rever as prioridades de fio a pavio. Que pela dedicação a uma causa questionam o meu caminho. Me fazem renascer a esperança na humanidade. Para eles reservo miradouro de amplo horizonte. António Nobre e Frei Bento Domingues recorto-os em exemplar contraluz.
Homens que me fariam mandar a pouca seriedade às malvas. Espicaçariam loucuras, assim os apanhasse a jeito. Fermentam fantasias. Me dobram o atrevimento. Elevam ao cubo emoções. Arrepiam. Me deixam trémula. Júlio César, Joaquim Monchique, Emanuel e Nuno Melo. Com estes não daria tréguas - seria mesmo a eito. Amordaçava o primeiro, depois de lhe rapar o cabelo com máquina zero. Ao segundo enfiava-lhe, cabeça abaixo, balde de gelo misturado com cinza e bomba de mau-cheiro. Ao terceiro prantava-lhe asas com motor acoplado, cujo voo o longe aparasse. O quarto merecia, tão somente, uma mordaça. Aparar-lhe o cabelo seria um extra.
Publicado por Teresa C. às 08:41 AM | Comentários (4)
dezembro 13, 2006
ELA, CAROLINA

Alain Aslan
A Carolina abriu-se. De novo. Publicamente, quero dizer, por que aberturas privadas só a ela dizem respeito. Como pessoa abandonada melhor fora sofrer em silêncio e com dignidade. Dá-se o caso da imperfeição ser humana e patrocinar sentimentos menores – no cimo do rol, ressabiamento e vingança. Macumbas, prego desenhando raiva no capot do carro ou purgante na bebida do fugitivo - “a última, a despedida. Se não vieres, mato-me!” – constituem expedientes conhecidos. A D. Carolina, não esteve de modas: em livro expôs fedores alternados.
As baforadas da cândida loura poderiam ter ficado pelo impresso. Não!, não ficaram. O Procurador Geral da República está a ler a «obra» e, pelo final da semana, diz de sua justiça. Com esta não contava! Então o nosso sistema judicial necessita que uma dama regurgite poucas-vergonhas para empurrar um processo?
Razão tem o Ministro Mariano Gago ao propor benefícios fiscais para estudantes universitários que, em simultâneo, trabalhem por conta própria ou alheia. Dinheiros suados é lição recomendada. Os «psis» reconhecem que gestão de dinheiros e afectos tem matriz semelhante. Dando crédito a um e outros, com impostos suaves sobre os rendimentos de mulher-a-noites, a Carolina poderia ter batido-perna numa qualquer faculdade. Frequências, exames, caloirices, quem sabe o Pinto da Costa não chegava a conhecê-la e nos livrava da purga noticiosa?!...
Publicado por Teresa C. às 10:56 AM | Comentários (6)
dezembro 12, 2006
CASCA DE BANANA

Zoe Mozert
Este blogue está excluído dos que podem ser abertos em sítio anódino por culpa da(s) descarada(s) que ousa publicar. Imagens irreverentes fazem do “Sem Pénis, Nem Inveja” misto de casca de banana e gelado onde calha escorregar. Pudendo comportamento de homens e mulheres que, à sorrelfa, gozam como podem, Deo Gratias!, as vidas. Como explicar aos filhos e à mulher e ao chefe e ao espião do computador ao lado no espaço aberto do escritório a página online destemperada no arrojo? Entendo o embaraço. Nem posso desculpar-me com falta de berço, polimento ou amoralidade na matriz. Sou irreverente, sim. Contida, é certo, na família, em sociedade e na profissão. Porém, quando pitada de provocação não me condimentar o dia – seja no visual ou no modo de estar – preparem o esquife ou internem-me.
Por tudo, foi surpresa ver este blogue seleccionado entre os melhores no feminino. Pela eleição do Geração Rasca lembro Outubro de 2003 - trinta e dois visitantes diários era insanidade do Site Meter por desajuste à dúzia de leitores que davam conta disto. Então, como hoje, esta humilde «piquena» perorava, atrevida, sobre o que lhe caísse na alçada. A pintura persiste; mais do que ilustração é usada para revelar as várias faces da mulher. Ao corpo feminino afectei o simbólico do costume – diferença matricial entre homens e mulheres. No mundo, uns e outros conjugados garantem evolução em harmonia. Assim vejo a humanidade, assim me sinto, deleitada, mulher. A querida Rititi sabe-o bem. Obrigada, Rita pelo prémio Rosa-Cueca 2006 - Gagedo com um Par
Publicado por Teresa C. às 03:18 PM | Comentários (3)
dezembro 11, 2006
EKBERG E ZÉ DO TALHO

Ludlow
Uma leitura peregrina alinhavava costura de ideias bem pensadas: possuir o mundo coisas belas em demasia, e que coisas tão belas só podem ter saído das mãos de Deus. Um silogismo seria: a existência de coisas belas pressupõe a existência de Deus; Anita Ekberg existiu e era bela, logo Deus existe. Ponto de vista amiudado na opinião das gentes. Demarco-me.
A premissa cimeira é absurda. Coisas belas nada pressupõem, salvo a opinião de cada Zé da Esquina, habituado a meter em tudo o bedelho e dar como absoluto o opinado. Fantasio-lhe a «patroa» anafada, dando dias por profissão, extasiada perante os figurões das novelas que lhe aquecem a noite a parde do ferro em vai-e-vem diligente, desengelhando coração e resma de roupa. Num suspiro, remeteria os calores para o Zé do talho e, antes da deita bem como no culto semanal, elevaria às alturas a alma crente no Deus que tais adónis lhe criou para deleite. Motivadora polémica estético-metafísica: a existência de Deus debatida através do reconhecimento da beleza daquele que à patroa do Zé da Esquina sabe agitar as carnes ou dos heróis que lhe enfeitam o serão.
A segunda premissa não é melhor. O Zé do talho é feio, isso é certo, mas seria a Ekberg bela? Às vezes parece azeda, outras angustiada. Pergunto: por que Deus não gostaria de fazer coisas muito feias? Terá infalivelmente bom gosto? Penso que não, ou o Zé do talho não existia. Acreditar em Deus fica mais fácil por que o talhante vive. O acaso, que tende ao meio-termo, não seria capaz de tal atrocidade.
CAFÉ DA MANHÃ
... E os vencedores foram:
- Melhor bloguer: Francisco José Viegas
- Melhor Blogue: Blasfémias
- Melhor Blogue Temático: Foram-se os Anéis
- Melhor Blogue Colectivo: Blasfémias
- Melhor Blogue Masculino: Estado Civil
- Melhor Blogue Feminino: Miss Pearls
Parabéns a todos e ao Geração Rasca pela bem sucedida iniciativa. Sinto-me orgulhosa e grata a todos aqueles que me atribuíram um exageradíssimo sétimo lugar na categoria de melhor blogue feminino. Há exageros que sabem tão bem...
Publicado por Teresa C. às 09:43 AM | Comentários (3)
dezembro 10, 2006
POBRE-HOMEM-TRISTE

Jeff Cohen
Cinquenta e oito anos da Declaração dos Direitos do Homem a esmo atropelados. As “Máscaras de Salazar” de Fernando Dacosta vêm a propósito. Revelam não ter sido a cadeira responsável pela libertadora queda, mas a ausência dela. O barbeiro do Senhor Doutor contou a verdade: jornal da manhã na mão «atirou-se», como era uso ao sentar-se, para o sítio onde a cadeira soía estar. Senão: o lugar estava vazio. Vai daí, caiu e bateu com a fronte no que lhe estava à frente. A D. Maria, mulher de fúrias e platónico amor pelo patrão, morreria virgem coitada!, partiu a cadeira em pedaços e atirou-a ao mar. O pêlo na venta da governanta até ao patrão intimidava...
Era um pobre homem. Gostava de cinema, mas após umas sortidas ao discreto Cinebolso desistiu do incómodo da curiosidade pública para acto tão anódino. Pagava à D.Maria e às amigas as matinés. Ao serão, cobertos com mantinhas, as diligentes senhoras contavam tim-tim por tim-tim o filme. Privou muitos da liberdade, mas recluso foi ele toda a vida. Até nas doçuras voluptuosas e nos amores-românticos, que alguns teve, discretos, em certo hotel, suite e sombras na hora aprazada. Preferia mulheres diáfanas e esvoaçantes. Símbolos da feminilidade que, ao invés dele, tivessem mundo. Como os filmes, os usos recentes, as novidades tecnológicas, as fervilhantes correntes do pensamento que por esse tempo rompiam. Ávido de saber, medroso dos que se lhe opunham e intimamente admirava – Álvaro Cunhal é exemplo; facultava-lhe favores, porém, vê-lo pelas costas foi alívio. E ficava entre-muros, coberto com a mantinha, secretamente invejando quem partia. Um pobre-homem-triste. Cruel por estreiteza de vistas.
Publicado por Teresa C. às 11:35 AM | Comentários (2)
dezembro 09, 2006
SIGNO DO CRISÂNTEMO

Autor que não foi possível identificar
Com a Ségolène Royal foi imediata a empatia. Acolha-a o Eliseu e a França terá bem mais que um belo rosto para Marianne. A "Campanha do Sim" ganhou o envolvimento das mulheres socialistas francesas com Ségolène por rosto. Soube ainda termos nascido sob o signo do Crisântemo. Mau!, pensei, preparando o pior. Da flor não gosto - remete para afectos defuntos, para cheiro de velas e vasos floridos em excesso, para a naftalina das roupas nos cemitérios, para Novembro inaugurado de modo solene e pungente. Como se o Inverno arribasse um mês antes. Como se o ano fizesse prematuro balanço. Como se fora verdade que todo o recomeço enterra o velho. Como se.
“A justiça e a nobreza são os atributos associados ao crisântemo. Quem sob o signo desta flor nasce é justo e deseja harmonia. Aprecia a beleza, a organização, o equilíbrio estético e o requinte. É elegante, modos discretos e tem encanto. Moderasse a tendência para mofificar os outros e seria perfeita. Árvore associada: bambu. Conceito-chave: flexibilidade. Planeta: Vénus. Rege a deusa Maat.”
Mais à frente, a pergunta: “Quantos librianos são necessários para trocar uma lâmpada que fundiu? - Vejamos: um para a rodar, um para anotar quando queimou e a data em que a nova foi comprada, outro para decidir o culpado, dez para remodelar a casa enquanto o resto troca a lâmpada.”
Justa premonição do arrazoado me ser contrário. Pois se de Vinícius já sabia o desfavor!...
Não tem muita fibra
Mas vibra.
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de libra
Balança mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusina.
Vinícius de Moraes
CAFÉ DA MANHÃ
Um novo adoçante: O Miniscente do Luis Carmelo. Era falta de peso. Ao mundo na sabedoria colectiva da ignorância individual do Pangeia agradeço a nomeação para melhor blogue feminino.
Publicado por Teresa C. às 11:19 AM | Comentários (2)
dezembro 08, 2006
MITOS URBANOS

Jennifer Janesko
Eram cinco. Rostos erguidos, nariz praticamente na vertical. A isso os obrigava a pouca altura. Na curva do passeio empedrado entre dois acessos a vias rápidas, destacavam-se. E olhavam. Miravam e comentavam. Remiravam depois. Das alturas não arredavam a contemplação. Parada no semáforo atrás deles, pertencia-lhes a minha atenção. O conjunto contemplativo era excepção à pressa urbana. A tarde adormecia e, implacável, a hora de ponta cadastrava quem não lhe cumpria o ritmo. Como eles. Como eu.
Cinco miúdos adolescentes – treze, catorze anos, não mais. Gangas descaídas, polares com capuz, mochilas como corcunda incómoda. Entremeavam silêncio e fala. Embasbacados, comentavam o gigantesco outdoor publicitário. Por isso esticavam a coluna e inclinavam para trás a cabeça. Lá em cima, como divina aparição, uma mulher reclinada com langor e sumária lingerie. Encarnado – cor voluptuosa sugerindo transgressão, em hipótese última talvez o Natal. O branco na grinalda que enfeitava comprido e loiro cabelo, nos pompons dos chinelos provocadores. E os projectos de homens, cá em baixo, apreendendo a lascívia que da mulher emanava e fazia caldo ebuliente com as hormonas juvenis.
Deliciosa aparição interrompendo a, dos outros, corrida tardia. Um outdoor revelando publicamente o fascínio de uma mulher. Sugerindo ideal adulto, desejo de aprender e crescer e ser homem que a tivesse nos braços, com ela aprendendo na quentura da carne a concretização do desejo sexual. Nos veículos parados, poucos na figura elevada se detinham – aos mitos urbanos estavam habituados e sabiam quanto deles a vida os afastava. Os miúdos não. Ali, num empedrado da cidade a tarde e o futuro eram deles.
Publicado por Teresa C. às 01:37 PM | Comentários (0)
dezembro 07, 2006
GIGOLÔ

Kenney Mencher
Ele há coisas! Não é que pertenço ao exclusivo(?) lote de 1% da população mais rica do mundo?!... Isto à conta de pouco esforço, ainda menos mérito, de umas casitas e outras tantas courelas. Dá que pensar. Resmoneava contra a condição de pelintra que nem uma pasta Montblanc – à séria, nada de uma alforreca de contrafacção! - me posso sensatamente oferecer no Natal, e saem as agências noticiosas com esta. Estou piurça, fula contra o que só pode ser aleivosia. As consequências são danosas :
1º - sendo rica sem saber, quantos remediados passam à condição de pobres?
2º - agora, nem o sonho da Montblanc me é permitido sem a culposa má-consciência de não ser solidária;
3º - até me refazer do choque, adeus joalharias, agências de viagens e os cavernas de Ali Babá onde os quarenta ladrões marcam o preço das roupitas que gosto;
4º - agenda semanal contemplando de horas de voluntariado; sobrará tempo para o ginásio, chás com amigas, cabeleireiro, pedicure, blogue, galerias de arte, jantares preguiçosos e serões esticados no bem-bom-entre-portas?
Não bastava numa época de excessos ser cruelmente chamada à contenção, dou conta de me ter incluído nas ligações um gigolô encartado. Fiquei honrada, claro, mas será que a notícia do um por cento corria já? É que este, pelo encadear de palavras parece-me bem, muito bem, e num jantar divertido não deve sair-se mal. Dilema: encontrei o gigolô, tenho recursos que desconhecia, e o respeito pela pobreza obriga-me à conjuntura dizer nada. E eu que sempre achei fantástica a cena da dama que contrata bajulação à hora... Há a possibilidade de negociação se o regateio me fizesse o género. Dispenso o acto simples ou guarnecido (chantilly, chocolate líquido ou leite condensado). Qual o desconto? Pode vir de jeans, casaco inglês, sapatos Parkerson-Maraolo castanhos e camisa azul forte. Pelo visual simples dispenso-o de gravata e dos nós clássicos - four in hand, half Windsor e Windsor. Vá lá, atenda à solidariedade com os necessitados e modere a factura!...
CAFÉ DA MANHÃ
Ao Foleirices agradeço a ligação e ao RedTuxer a selecção para melhor blogue feminino.
Atentar no “No Words” de ontem. Demais!
Publicado por Teresa C. às 08:39 AM | Comentários (5)
dezembro 06, 2006
(DES)CRÉDITOS

Greg Hildebrandt
- No Iraque, quatro em cada cinco iraquianos querem expulsar os americanos, e três em cinco desejam vê-los mortos. Estou lerda ou foi suposta a salvação dos iraquianos do jugo de um tirano?
- Homens mais altos são melhor sucedidos na vida. Nos States, por vinte e uma vezes foi eleito o candidato mais alto e somente quatro vezes o candidato mais baixo. É reconhecido o atavismo nacional da importação dos piores exemplos alheios. Partindo desta premissa, o Marques Mendes está do poder arredado. Coitadito...
- Com eles ao volante, imprevisíveis obstáculos vêm parar-lhes à frente. Nós batemos. Pura e simplesmente. Nem de outro modo os condutores masculinos, parceiros do acidente, admitiriam que fosse. Curioso é nada dizer aos homens a menor percentagem de acidentes causados por mulheres. Para cúmulo, arrasando displicentemente qualquer raciocínio lógico, argumentam que de condutoras há menos. A matemática faz muita falta!
- Abundam cursos de dança do varão. Além do ensino das contorções usuais, rematam com uma visita de estudo ao clube Champanhe. Como trabalho de casa recomendam o treino, muito treino. Não servindo o cabo da esfregona, é aconselhada a compra do varão (cerca de 200 euros) ou o respectivo aluguer. E dos sapatões de plataforma, das purpurinas para o corpo, dos vestidos-despidos mais espectador que não adormeça a meio, fazem orçamento? Pagamento com Visa? A entrega é ao domicílio, please.
Publicado por Teresa C. às 06:39 AM | Comentários (0)
dezembro 05, 2006
UM CLÁSSICO

Autor que não foi possível identificar
Fato de calça e casaco escuro, camisa branca como convém. Quiçá sumida jóia no pescoço, ou brincos recortando da orelha o delicado final. Dizia ele ser esta a imagem da mulher apetecida num breve cruzar de olhares. Divergiriam os caminhos, porém, a figura permaneceria até o tráfego ou o telefone ou as preocupações diárias lha varrerem do espírito. “Um clássico,” reconhecia, “que a uma mulher fica sempre bem.” Promessa de recato. A exclusividade como adicional apetite. A virgindade possível no pragmatismo actual.
Retorqui que nós, mulheres feitas, do homem não fantasiamos a descoberta primeira. Talvez nos idos juvenis, um mundo de novos sentidos explorado a dois ocupasse lugar modesto no cardápio sonhador. Talvez. Mas qual mulher remete a tempo tão distante a atracção pelo homem que, no presente, lhe arrepia a pele? Para eles sempre foi legítima a diversidade sexual. A mulher evita divulgar no amanhecer duma atracção a sabedoria acumulada. Do método anticoncepcional por ela usado, ele indagará. Preservativo sim, sugerido pelo homem; omisso o acto, somente com arte, ela assomará a questão. Quando assoma... Se a tanto não chegar a coragem(?), cederá à arriscada loucura, neles useira e vezeira. Ambos assim esquecendo que partilharão o acto com o lote inteiro dos amantes curriculares.
A vida é um produto descartável e perecível - verificar o prazo de validade, agitar bastante e consumir rapidamente. Tão simples quanto isto. Sem amanhã nem ontem. O hoje corrido, horizonte confinado aos limites do automóvel, da fenda aberta no breu do outro. E cruzamos fluidos despojados dos invólucros que inauguraram a atracção. Quando o desejo se esvai, chega o incómodo, possivelmente leve ruga de apreensão. “Mas não, tudo correrá bem.” “Afinal”, cada um para si ruminará, “foi uma vez e ele(ela) tem ar decente. Não é certamente acaso o distinto tailleur de calça e casaco ficar-lhe tão bem.”
Publicado por Teresa C. às 09:34 AM | Comentários (0)
dezembro 04, 2006
GRISCHA PARA OS AMIGOS


Autor que não foi possível identificar
Vladimir Putin. À primeira vista parece um pão sem sal. Desenganem-se os incautos - foi director da KGB para os assuntos externos, é presidente da Rússia de conhecida tradição em venenos. Putin não é menino de coro, mas dos cianetos de antanho surpreende a inocente e directa troca por polónio 210. É uma questão de rasto, porque a morte dos desgraçados que o ingerem à mesma sobrevem. Lenta e espalhafatosa pelo isótopo do elemento 84 da Tabela de Mendeleiev, rápida e discreta pelos sais de cianeto.
Rasputin, Gricha para os amigos, desmentiu a eficácia do então designado cianureto de potássio, engolido entre doces e vinho da Madeira. Não admira: habituara-se à existência em vinha d’alho e, possuindo genitália de 28,5cm, excessos para os outros eram norma para ele. Bebia, comia e fodia com alarvice. Desde camponesas a monjas, passando pela czarina e damas da corte, nada o satisfazia. Juntava à gula e lascívia dons sedutores, malvados, visionários, milagreiros e divinatórios. Mesmo depois de ter sido envenenado com cianeto, alvejado no pescoço e em vários lugares do corpo, Rasputin foi enterrado vivo. Só o frio o mataria. O fim de Rasputin - em russo significa depravado - ajudou à queda do Império Romanov a par da primeira guerra mundial e da opressiva miséria do povo.
Ainda hoje, os russos a cada ceia chamam a última. Eles lá sabem. O presidente ucraniano por pouco não devolveu a alma ao criador por indigesto veneno. A jornalista Anna Politkovskaya marchou deste mundo para outro que espero melhor. Ao ex-espião russo Alexander Litvinenko coube-lhe num sushi pitada de polónio radioactivo e foi o que se viu. O misterioso Scaramella padece do mesmo. Elemento inocente que deve a Marie Curie o nome como homenagem à Polónia natal, tem variedade emissora de partículas alfa – núcleos de hélio, de entre os gases inertes o menor. Por via destes núcleos, o trajecto da substância é mais preciso que o registado por GPS. Afadigam-se agentes secretos, polícias e diplomatas. Nisto, como em quase tudo, a tradição já não é o que era. Cianeto, deixemo-nos de modernices, é melhor.
Publicado por Teresa C. às 10:19 AM | Comentários (3)
dezembro 03, 2006
SEM HISTÓRIA

Mark Keller
A tepidez. O escuro. A lassidão do primeiro gesto. Os olhos que se entreabrem. A fímbria de luz atrevida sob a porta. Pálpebras de novo descidas. Fruir do silêncio, da maciez dos lençóis, do sereno espertar. A coluna, os membros que dilatam e, no deslizar, devolvem energia a cada músculo. O estado de vigília acentuando a respiração. Como se célula a célula o dia acordasse. A doçura tranquila que anuncia o domingo.
Aberto à luz, o espaço caseiro é cenário afectuoso. Nada diz, mas conheço-lhe a precisão de respirar. Janelas abertas, o ar limpo devolve cor e lustro ao palco da minha intimidade. Mas é para o exterior que me viro. Para a morrinha da chuva. Para os verdes mansos e perenes que o Outono não desfolha, apenas escurece o tom. Para o horizonte amplo. Para o vigor da frescura que a face reanima. O espírito, esse, ingere suculento pequeno-almoço por via da contemplação do parque espojado a meus pés.
Um aroma forte. Um café. Chávena verde-lima na mão. Vapor cheiroso que inaugura o dia. Depois bebericar. Parada a chuva, a luz espevita, afasta a neblina espessa e surge o azul. O sol é tímido, mas como alterou as cores! Vivificou-as, devolveu-lhes brilho e à cidade desejo de acordar. Domingo sem história prometida. No anonimato dos dias nada o lembrará. Porém, hoje é o domingo da minha vida. O último. Jamais é sabido qual será o amanhã.
CAFÉ DA MANHÃ
No excelente blogue Estranho Amor figura o Sem Pénis, Nem Inveja nomeado para melhor blogue feminino. À Principessa agradeço as visitas.
Publicado por Teresa C. às 11:33 AM | Comentários (2)
dezembro 02, 2006
UMA NÓIA!

Pino Daeni
Frívolo – que não dá a atenção devida a coisas sérias. E o que são assuntos sérios? Os grandiloquentes. Os que se escrevem com maiúsculas – Ocidente e Oriente, A História das Religiões, O Fenómeno Sócrates, A Moderna Literatura Portuguesa, Filosofia e Racionalismo. Profundo é quem leu o publicado sobre o sério, ou, se não leu, bastaram-lhe as «gordas» e os artigos da opinião para informado parecer. Sendo que na sociedade actual o que parece é, somente penas e falas sérias contam. Sério como sisudo, intelectual, cabelo ralo ou convenientemente encanecido; pele alva, sepulcro em vida. Intelectual. Chato. Pretensioso. Uma nóia!
Do profundo e sério fica excluído o que de facto interessa – O Meu Arroz de Pato, A Argúcia desta Deliciosa Mulher que cumpriu três anos de blogue, O Tinto Granja-Amareleja de 1999, A Mala Prada, O Presente de Natal para o mais-que-tudo, Os Sapatos Miu Miu, A Secção Gourmet do El Corte Inglés, O Mundo Particular que criei feito de bocadinhos daqui e dali, embelezado pelas cerâmicas, telas e esculturas de artistas que idolatro, inundado de livros e afectos e ternura e mimos e gozos. Reuno o melhor de cada lado e, quando me refiro ao melhor, não é o mais caro, é o menos sério. Serei uma autista de bom-gosto, uma viciada de pequenos prazeres. Não levar o dinheiro a sério ajuda e não amar a arte ou a literatura a ponto de me tornar uma crítica insuportável, também. Desejo, tão somente, tornar bonito o meu precário trajecto na Terra. Neste sentido sou frívola, sim, mas frivolamente feliz.
CAFÉ DA TARDE
Ao FotoBen um especial agradecimento pela nomeação para melhor blogue feminino.
Publicado por Teresa C. às 12:39 PM | Comentários (3)
dezembro 01, 2006
ASPÉTOS DA MULHER

Matthew_Stawicki
Ou a Mulher Considerada Debaixo Dos Seus Principais Aspétos
(J. J. Lopes Praça, 2ª edição, 1872)
Exame comparativo das faculdades do omem e da mulher
A força, a robustez, a energia são predicados do corpo do omem; como as graças, a beleza e a delicadeza são qualidades predominantes nos individuos do sexo feminino. As funções de relação no homem exercitam-se de uma modo mais possante do que na mulher. Suas pernas são mais vigorosas, seus braços mais enérgicos, seu peito mais robusto e válido. O omem precisa de mais alimento. O seu estomago é mais exigente.
Nas funções de reprodução coopera activamente com a mulher, cabendo à última uma parte gravosa e difícil, queremo-nos referir à gestação e amamentação. O que tudo nos indica que a mulher deve ser rodeada de menos dificuldades e escolhos e de maior recato e quietação.
Nas funções da relação a mulher excede o homem na formosura e na facilidade de exprimir-se. A este respeito diz um escritor dedicado ao belo-sexo: «o omem tem dez olhares, a mulher tem cem; o omem um sorriso, a mulher mil. A voz sobre tudo em nós que é sonora, mas grosseira, abunda na mulher em semi-tonos, quartos de tom, que reproduzem como outros tantos ecos as vibrações do coração e do sentimento.
Publicado por Teresa C. às 08:38 PM | Comentários (0)