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dezembro 16, 2006
“LIGA-ME. BEIJO.”

Jan Esmann
Noite fria. Densa. Como coque que espera combustão. Lá fora e dentro dela. Mãos arrefecidas que o calor caseiro não amornava. Gelado o coração. Saudade impetuosa como relâmpago que rasga o céu. A alma. A carne. O breu. O Outono moribundo. A desesperança. Os outros como matéria inerte. Cristalizados. Respiração dormida. Gente hibernada. Não ela.
Foi breve. “Liga-me. Beijo.” Minutos parados. Ligou. Era o modo dele mostrar a profundidade do laço rematado, anos atrás, no café do Monumental. Ela descendo a escada rolante, ele, em baixo, olhando-a. Amara-a na descida. Quando trouxera os cafés. Quando lhe vira baixar as pálpebras para omitir o que temia expor. Que ele sabia sem ela saber. Ou sabia e não estava pronta para admitir. Reconhecer seria estender a ponta da fita de que o laço precisava para existir.
Uma hora, duas? Que importava?!... Um homem e uma mulher que se inauguram. Diferentes a partir daí. Iguais para os cristalizados, os de respiração entubada. Dos instantes que duram anos, sabiam. Recuar era possível. Ainda. Enquanto bebericavam o café. A água. O castanho líquido dos olhos dele. Dela. Houve uma mão estendida em cima da mesa como fita. O laço que sem outra mão, a ponta da fita que faltava, não o seria. Mas veio. E ficou. Enlaçados os dois.
Desceram para o estacionamento. Ele acompanhou-a ao carro. Se houve hesitação, e foi certa!, não a ponderaram. Entraram os dois. Longe dos cristalizados de respiração entubada, puderam, enfim, murmurar. “Se pudesses, ficavas hoje comigo,?” – “Ficava!” Rostos próximos, perfumes voláteis encorpando o ar. Ele saiu. Ela arrancou.
CAFÉ DA MANHÃ
Contra a TLEBS circulam aqui e aqui e ali. petições on-line. A leitura das razões esclareceu as minhas dúvidas. Apoio incondicionalmente.
À doentinha desejo rápidas melhoras. Se bem a conheço, ao tomar o antibiótico, dirá – “em vez de água dá-me uma caña para engolir isto!”
Publicado por Teresa C. às dezembro 16, 2006 11:02 AM
Comentários
Inspirador este teu texto a pedir um contraponto a duas mãos como Bianca Garufi fez com Cesare Pavese em Fogo Grande:
Amava-a sem ela saber. Nem ele. Inventara-lhe os calcanhares a chinelar por casa. Escreveu-lhe uma história, que se tornou conto, que se tornou "eles". Anteviu-a. Ficcionou-a e ela encarnou o papel. Foram o que tiveram de ser e a vida, sempre ela, pôs a razão ao serviço emoção...fazendo o amor viver da espuma dos dias, como acontece com o que fica depois de termos esquecido o que aprendemos e a que chamamos de cultura; como uma pedra lançada num lago que abre círculos que se alargam e se perdem... renovados a cada pedra.
Publicado por: JG às dezembro 16, 2006 03:49 PM
É bom sentir que, de quando em vez, pousas por aqui. Beijinhos.
Publicado por: Tati às dezembro 24, 2006 04:18 PM