« SIGNO DO CRISÂNTEMO | Entrada | EKBERG E ZÉ DO TALHO »
dezembro 10, 2006
POBRE-HOMEM-TRISTE

Jeff Cohen
Cinquenta e oito anos da Declaração dos Direitos do Homem a esmo atropelados. As “Máscaras de Salazar” de Fernando Dacosta vêm a propósito. Revelam não ter sido a cadeira responsável pela libertadora queda, mas a ausência dela. O barbeiro do Senhor Doutor contou a verdade: jornal da manhã na mão «atirou-se», como era uso ao sentar-se, para o sítio onde a cadeira soía estar. Senão: o lugar estava vazio. Vai daí, caiu e bateu com a fronte no que lhe estava à frente. A D. Maria, mulher de fúrias e platónico amor pelo patrão, morreria virgem coitada!, partiu a cadeira em pedaços e atirou-a ao mar. O pêlo na venta da governanta até ao patrão intimidava...
Era um pobre homem. Gostava de cinema, mas após umas sortidas ao discreto Cinebolso desistiu do incómodo da curiosidade pública para acto tão anódino. Pagava à D.Maria e às amigas as matinés. Ao serão, cobertos com mantinhas, as diligentes senhoras contavam tim-tim por tim-tim o filme. Privou muitos da liberdade, mas recluso foi ele toda a vida. Até nas doçuras voluptuosas e nos amores-românticos, que alguns teve, discretos, em certo hotel, suite e sombras na hora aprazada. Preferia mulheres diáfanas e esvoaçantes. Símbolos da feminilidade que, ao invés dele, tivessem mundo. Como os filmes, os usos recentes, as novidades tecnológicas, as fervilhantes correntes do pensamento que por esse tempo rompiam. Ávido de saber, medroso dos que se lhe opunham e intimamente admirava – Álvaro Cunhal é exemplo; facultava-lhe favores, porém, vê-lo pelas costas foi alívio. E ficava entre-muros, coberto com a mantinha, secretamente invejando quem partia. Um pobre-homem-triste. Cruel por estreiteza de vistas.
Publicado por Teresa C. às dezembro 10, 2006 11:35 AM
Comentários
Demorou anos a mais a se ir embora, mas ficaram outros ainda mais míopes que eu. pronto não lhes chamarei de miopes que eu ainda (sem oculos) vejo bem ao perto, perto de um palmo também (há coisas que me irritam). Pior não o é quem é burro, é quem é ignorante (a seu bel prazer, logo também parasita).
Publicado por: Sandro Franco às dezembro 11, 2006 07:22 PM
Pior que burro é quem de aprender não tem o gosto. Beijinho.
Publicado por: Tati às dezembro 12, 2006 03:34 PM