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dezembro 05, 2006
UM CLÁSSICO

Autor que não foi possível identificar
Fato de calça e casaco escuro, camisa branca como convém. Quiçá sumida jóia no pescoço, ou brincos recortando da orelha o delicado final. Dizia ele ser esta a imagem da mulher apetecida num breve cruzar de olhares. Divergiriam os caminhos, porém, a figura permaneceria até o tráfego ou o telefone ou as preocupações diárias lha varrerem do espírito. “Um clássico,” reconhecia, “que a uma mulher fica sempre bem.” Promessa de recato. A exclusividade como adicional apetite. A virgindade possível no pragmatismo actual.
Retorqui que nós, mulheres feitas, do homem não fantasiamos a descoberta primeira. Talvez nos idos juvenis, um mundo de novos sentidos explorado a dois ocupasse lugar modesto no cardápio sonhador. Talvez. Mas qual mulher remete a tempo tão distante a atracção pelo homem que, no presente, lhe arrepia a pele? Para eles sempre foi legítima a diversidade sexual. A mulher evita divulgar no amanhecer duma atracção a sabedoria acumulada. Do método anticoncepcional por ela usado, ele indagará. Preservativo sim, sugerido pelo homem; omisso o acto, somente com arte, ela assomará a questão. Quando assoma... Se a tanto não chegar a coragem(?), cederá à arriscada loucura, neles useira e vezeira. Ambos assim esquecendo que partilharão o acto com o lote inteiro dos amantes curriculares.
A vida é um produto descartável e perecível - verificar o prazo de validade, agitar bastante e consumir rapidamente. Tão simples quanto isto. Sem amanhã nem ontem. O hoje corrido, horizonte confinado aos limites do automóvel, da fenda aberta no breu do outro. E cruzamos fluidos despojados dos invólucros que inauguraram a atracção. Quando o desejo se esvai, chega o incómodo, possivelmente leve ruga de apreensão. “Mas não, tudo correrá bem.” “Afinal”, cada um para si ruminará, “foi uma vez e ele(ela) tem ar decente. Não é certamente acaso o distinto tailleur de calça e casaco ficar-lhe tão bem.”
Publicado por Teresa C. às dezembro 5, 2006 09:34 AM