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janeiro 08, 2007
CAÇADEIRAS E MERCANTÉIS

Ricardo Casal
Sussuraste: “pequenina, está na hora de acordar. Bom dia!” Esvoaçavas beijos pelo meu rosto e pelo cabelo espreguiçado na almofada. Estremunhada, nem sei o que respondi. Contarias depois a ansiedade na pergunta que o sono respondeu - “Que horas são? É muito tarde? Bom dia!” A banalidade de um casal antigo que o carinho preservou legitimaria os murmúrios e as carícias inaugurando o dia meado. Somente a nossa intimidade soluçada falaria assim, omisso o hábito, desfraldada a novidade.
A tua pele cheirosa, o teu corpo arrumado descrevia o acordar que falhei. Madrugaras. Nem olheiras no rosto ou cansaço da pele denunciavam o resumido par de horas de sono fundo. Água fria e creme devolveram-te a face e o olhar luzidos. Retiveras a doçura e a meiguice e a intenção de cada gesto teu. Como sempre. Como a perspicácia do teu ver que, num ápice, tudo lê de mim. Como o cuidado em ocultares o que me adivinhas - sigilo precário o meu, num qualquer momento revelado, daí a um instante, ou a um mês ou noutro tempo que respeitas sem pressionar.
O tempo. A data. O contexto. A harmonia no ar. O idílico horizonte. O verde manso. A areia nos pés. As caçadeiras e os mercantéis no rio. A descoberta. A espera compensada. Um lugar. Nós. Enfim.
CAFÉ DA TARDE
Publicado por Teresa C. às janeiro 8, 2007 10:16 AM