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janeiro 31, 2007

DEDO COMPRIDO

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Jan Esmann

De onde me vem a aversão ao dedo comprido do Estado? Vestígios duma costela de anarquista romântico que idealiza povos governando-se sem Governos. Talvez acredite na humanidade e extrapole o gesto de tirar o jornal de uma pilha, deixando na caixa o dinheiro, sem olhos-vigais. Talvez porque sendo naïf, acredite que, um dia, esse gesto será extensível a todos os domínios da sociedade.

Na adolescência, queria levar para a cama as meninas bonitas. O Estado dizia que primeiro tinha de casar, a Igreja maculava o gesto com o pecado, a sociedade censurava-me os actos; abominei o Estado que tudo controla, a Igreja que mutila o prazer, as pessoas que, não fazendo, impediam que fizesse. Cresci. Notei que ao nascermos o Estado carimba-nos um nome e um número de registo ou de BI. Ao morremos, outro número no talhão da campa. Pelo meio, fica a Escola primária (obrigatória), o recenseamento (obrigatório), o cartão de eleitor, o nº de Beneficiário da Caixa de Segurança Social, o nº de Contribuinte, o nº mecanográfico na tropa, o nº da Carta de Condução, o nº de Polícia da casa onde moramos, o NIB, o nº disto e daquilo, o nº único. Uma vida reduzida a números para que o monstro frio do Estado assegure ter eu nascido, que a cada transacção comercial paguei o IVA, não ter escapado ao radar se ultrapassei o limite de velocidade; um número para ser preso em caso de crime, outro para o Estado, como a sífilis, me seguir até à quinta geração. A electrónica do cartão de débito ou crédito gravou onde comi, dormi, onde passei com o carro, onde urinei; pulseira electrónica que regista os preservativos ou o Viagra que comprar. Paradoxal é a invisibilidade feminina: entram num hotel, dormem, tomam o pequeno-almoço, saem sem nunca lá terem estado, somente porque o fizeram acompanhadas por um cavalheiro associado a um número registado.

De quem é a vida, afinal? E legisla-se o suicídio, o aborto, a prostituição, a pena de morte, a eutanásia, os direitos humanos, o racismo, a escravatura, a liberdade religiosa, os crimes de sangue e os crimes passionais (até há poucos anos a lei distinguia-os com leviandade). Tudo legislado, mesmo sabendo o legislador que, no absurdo, a lei existe para ser transgredida. Jamais um regime político erradicou a prostituição. Os Estados não admitem haver zonas cinzentas nas sociedades, tão pessoais e íntimas que lhe escapam ao domínio. Escondem os podres debaixo do tapete da Legislação. As Donas Mafaldas, parteiras diplomadas, continuarão a fazer abortos porque a menina de família lhe bate à porta acompanhada da mãe. Novos e velhos, enquanto a autonomia o permitir, continuarão a decidir a hora da morte. Haverá sempre a menina ou o rapaz que por desesperança, gosto ou sobrevivência, durante parte do dia é belle de jour. Persistirá a discriminação racial. Existirão sempre pais a fazer justiça pelas próprias mãos por acharem ultraje a prisão do violador da filha uma década depois. Irão persistir empresários seviciadores de imigrantes.

"Só sei que não vou por aí" dizia José Régio. Santa Democracia que tudo legitima! Eis porque não sou democrata: há demasiada rataria. Mesmo assumindo o paradoxo de ser preciso estar em Democracia para nos afirmarmos não-democratas. Acredito, sim, na mutação social e não ser perene esta democracia à americana, qual paz podre romana. Legislem, legislem à vontade se isso apazigua a vossa consciência. Legislem tudo e justifiquem o vosso poder. Chamem-lhe até Estado de Direito, por muito torto que escrevam. De nada adianta.

Um Leitor

Publicado por Teresa C. às janeiro 31, 2007 10:22 AM

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