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janeiro 31, 2007

DEDO COMPRIDO

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Jan Esmann

De onde me vem a aversão ao dedo comprido do Estado? Vestígios duma costela de anarquista romântico que idealiza povos governando-se sem Governos. Talvez acredite na humanidade e extrapole o gesto de tirar o jornal de uma pilha, deixando na caixa o dinheiro, sem olhos-vigais. Talvez porque sendo naïf, acredite que, um dia, esse gesto será extensível a todos os domínios da sociedade.

Na adolescência, queria levar para a cama as meninas bonitas. O Estado dizia que primeiro tinha de casar, a Igreja maculava o gesto com o pecado, a sociedade censurava-me os actos; abominei o Estado que tudo controla, a Igreja que mutila o prazer, as pessoas que, não fazendo, impediam que fizesse. Cresci. Notei que ao nascermos o Estado carimba-nos um nome e um número de registo ou de BI. Ao morremos, outro número no talhão da campa. Pelo meio, fica a Escola primária (obrigatória), o recenseamento (obrigatório), o cartão de eleitor, o nº de Beneficiário da Caixa de Segurança Social, o nº de Contribuinte, o nº mecanográfico na tropa, o nº da Carta de Condução, o nº de Polícia da casa onde moramos, o NIB, o nº disto e daquilo, o nº único. Uma vida reduzida a números para que o monstro frio do Estado assegure ter eu nascido, que a cada transacção comercial paguei o IVA, não ter escapado ao radar se ultrapassei o limite de velocidade; um número para ser preso em caso de crime, outro para o Estado, como a sífilis, me seguir até à quinta geração. A electrónica do cartão de débito ou crédito gravou onde comi, dormi, onde passei com o carro, onde urinei; pulseira electrónica que regista os preservativos ou o Viagra que comprar. Paradoxal é a invisibilidade feminina: entram num hotel, dormem, tomam o pequeno-almoço, saem sem nunca lá terem estado, somente porque o fizeram acompanhadas por um cavalheiro associado a um número registado.

De quem é a vida, afinal? E legisla-se o suicídio, o aborto, a prostituição, a pena de morte, a eutanásia, os direitos humanos, o racismo, a escravatura, a liberdade religiosa, os crimes de sangue e os crimes passionais (até há poucos anos a lei distinguia-os com leviandade). Tudo legislado, mesmo sabendo o legislador que, no absurdo, a lei existe para ser transgredida. Jamais um regime político erradicou a prostituição. Os Estados não admitem haver zonas cinzentas nas sociedades, tão pessoais e íntimas que lhe escapam ao domínio. Escondem os podres debaixo do tapete da Legislação. As Donas Mafaldas, parteiras diplomadas, continuarão a fazer abortos porque a menina de família lhe bate à porta acompanhada da mãe. Novos e velhos, enquanto a autonomia o permitir, continuarão a decidir a hora da morte. Haverá sempre a menina ou o rapaz que por desesperança, gosto ou sobrevivência, durante parte do dia é belle de jour. Persistirá a discriminação racial. Existirão sempre pais a fazer justiça pelas próprias mãos por acharem ultraje a prisão do violador da filha uma década depois. Irão persistir empresários seviciadores de imigrantes.

"Só sei que não vou por aí" dizia José Régio. Santa Democracia que tudo legitima! Eis porque não sou democrata: há demasiada rataria. Mesmo assumindo o paradoxo de ser preciso estar em Democracia para nos afirmarmos não-democratas. Acredito, sim, na mutação social e não ser perene esta democracia à americana, qual paz podre romana. Legislem, legislem à vontade se isso apazigua a vossa consciência. Legislem tudo e justifiquem o vosso poder. Chamem-lhe até Estado de Direito, por muito torto que escrevam. De nada adianta.

Um Leitor

Publicado por Teresa C. às 10:22 AM | Comentários (0)

janeiro 30, 2007

RACHAR LENHA

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Deborah Poynton

Alguém que guardo rente ao espírito, afirma abster-se no referendo sobre a descriminalização do aborto. Fundamenta: “tratando-se matéria de consciência que enreda íntimas questões éticas, votar é legitimar a interferência do Estado nos valores individuais. Ele que se informe, pondere, legisle e não aguarde pela anuência dos cidadãos.” Ponto de vista que contestei. Sendo estritamente éticas as decisões, mais decisivo se torna o veredicto de quem a cidadania leva a sério. Certamente, o povo ao eleger os representantes nas estruturas do poder decisório não lhes outorgou procuração com plenos poderes sobre a consciência individual.

Esgrimir argumentos pelo Sim ou pelo Não é, neste espaço e momento, ocioso. Outros, em diferentes escalas de demagogia e verdade – “quem está de fora racha lenha!” -, o têm feito. Interrogam-me, sim, os dados obtidos que apontam para maior abstenção das mulheres que dos homens. Não usarei o chavão de nos pertencer o útero que aloja o embrião. A vida não pertence a ninguém. Nem ao próprio. É bem que nos foi concedido e, querendo recto um caminho, cumpre-nos a obrigação dele fazer uso digno. Porém, numa gravidez, há três vidas a merecerem respeito. Dele depende o futuro da mais frágil, daquela que em silêncio multiplica células desde o instante da concepção.

Defendo o Sim por que, em consciência, recuso a hipocrisia - neste particular, nos amores, nas relações de trabalho. Na minha conduta em geral. Deslizes? Sim, tenho. À vulnerabilidade da humana condição não sou imune. Ainda bem. Anjos não me fazem o género, talvez pelo ar rubicundo, olhos em alvo e patéticas representações. Depois, há as asas. Seres alados apenas pousam em solo firme para descansar, buscar alimento e procriar. Básico proveito do muito que o planeta e quem nele habita tem para dar. Sem angélicos pios, voto Sim e digo Não à abstenção.

Publicado por Teresa C. às 07:30 AM | Comentários (4)

janeiro 29, 2007

AGORA, EU SEI

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Xavier Lorette

Sugestão: clique ali ao lado e ouça a voz inesquecível do Jean Gabin.

Quando era gaiata, com a altura de dúzia e meia de maçãs, falava convicta, para me terem por crescida. Dizia: “Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei.” Era o começo. Era, da Primavera, a iniciação. Chegada aos dezoito anos, disse: “Eu sei. Desta vez é a sério. Eu sei.” E hoje, para onde me volto, olho a terra onde me situo e continuo sem conhecer o mecanismo interior que a faz rodar.

Por volta dos vinte e cinco anos, julgava saber tudo: o amor, as rosas, a vida, os suportes. E sim, o amor. Dele fiz todo o circuito. Felizmente, como os amigos da mesma idade, ainda não tinha comido todo o pão que me estava destinado. Meia vida depois, aprendi coisa simples que poucas palavras descrevem: “O dia em que alguém nos ama é o mais bonito da semana, do mês, do ano. Não o posso dizer de outro modo – é o mais belo. No começo da segunda metade da vida é ainda o que me surpreende. Esquecidas foram as noites magoadas e tristes, jamais uma manhã de ternura.

Toda a vida quis dizer “Eu sei!” Simplesmente. Sem qualquer acrescento. Todavia, quanto mais o conhecimento procurava, menos sabia. Soaram, entretanto, muitas badaladas do relógio. Continuo à janela, olho e interrogo-me. Finalmente, eu sei. Eu sei que nunca soube nada. A vida, o amor, o dinheiro, os amigos, as rosas podem sê-lo ou não. Nunca é certo um ruído, o silêncio ou a cor das coisas. Isto é tudo o que sei. Mas isto, isto sim, eu sei!


“Quand j'étais gosse, haut comme trois pommes,
J'parlais bien fort pour être un homme
J'disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS

C'était l'début, c'était l'printemps
Mais quand j'ai eu mes 18 ans
J'ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS

Et aujourd'hui, les jours où je m'retourne
J'regarde la terre où j'ai quand même fait les 100 pas
Et je n'sais toujours pas comment elle tourne!

Vers 25 ans, j'savais tout : l'amour, les roses, la vie, les sous
Tiens oui l'amour ! J'en avais fait tout le tour!

Et heureusement, comme les copains, j'avais pas mangé tout mon pain :
Au milieu de ma vie, j'ai encore appris.
C'que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots:

"Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,
j'peux pas mieux dire, il fait très beau!

C'est encore ce qui m'étonne dans la vie,
Moi qui suis à l'automne de ma vie
On oublie tant de soirs de tristesse
Mais jamais un matin de tendresse!

Toute ma jeunesse, j'ai voulu dire JE SAIS
Seulement, plus je cherchais, et puis moins j' savais

Il y a 60 coups qui ont sonné à l'horloge
Je suis encore à ma fenêtre, je regarde, et j'm'interroge?

Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU'ON NE SAIT JAMAIS”!

La vie, l'amour, l'argent, les amis et les roses
On ne sait jamais le bruit ni la couleur des choses
C'est tout c'que j'sais ! Mais ça, j'le SAIS...!

Publicado por Teresa C. às 10:04 AM | Comentários (7)

janeiro 28, 2007

PUXAR DA MOLESKINE

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Robert Lambert

Ao domingo, o tempo ainda é nosso. Menos do que no sábado ou no serão de sexta-feira. Mas nosso. O acordar é tardio, aos poucos despedindo o matutino ramerrão da semana. Preguiçar, primeiro na cama, depois pela casa em trajo de dormir. Peparar aromático pequeno-almoço que o fim-de-semana permite. E o silêncio. Quebrá-lo mais tarde, quando a vigília chega inteira e escolhe forro musical ou noticiários. Mas é o apelo do espaço quieto a render-me seduzida. Depois, abrir a janela e receber no rosto o ar lavado e frio. Escrever, sabendo da cidade a quietude. As emoções fluindo para as teclas, transmitindo o possível. A natural reserva ocultando segredos e os mistérios privados. Desvendá-los seria ocisoso e deixaria moribunda a privacidade indispensável à vida.

Um duche voluptuoso. Cada milímetro de pele acariciado pelo gel perfumado em harmonia térmica com a água límpida. Um turco de trama espessa, felpudo, recebendo o corpo dolente e perlado de água. O creme que os dedos fazem correr dos pés às curvas e ninhos. A nuvem de perfume condensada no corpo nu. O roupão. Espreitar, de novo, o parque, a cidade ao longe, adivinhar o frio. Roupa confortável, ténis, blusão quente. Sair. Mergulhar na atmosfera quase líquida.

Não temos a tradição dos bancos memoriais que noutros países abundam. A Inglaterra, a Escócia, legitimam que nos lugares escolhidos por anónimos ou personalidades para fruírem do espaço, sejam colocados bancos de madeira. Ternamente, cada um possui placa alusiva à memória de quem o sítio preferiu. Por cá não os temos, dizendo-nos românticos e sentimentais. Talvez por o fado ser o luso escoadouro das mágoas e (des)amores, descuidámos outras expressões da memória. Quantas vezes, no caminhar de domingo, gostaria de parar, confortável, puxar da Moleskine e fazer registo duma peculiaridade...

Publicado por Teresa C. às 10:20 AM | Comentários (4)

janeiro 27, 2007

A FUMEGAR LÁ EM CIMA

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Autor que não foi possível identificar

Onde pára "esta Lisboa que eu amo, de mar a cada esquina, outrora ondulando no andar de uma varina? Cidade antiga, cidade amiga, modesta e bela, variando com as marés, que sabe ter aos pés o Tejo a chorar de amor por ela." Monumental, convive porta-a-porta com o rebuliço da vida e das vidas que se cruzam. Apressados, habituados ou embriagados ignoram a Lisboa que encarrapita os bairros e histórias conhecidas ou adivinhadas entre-janelas. Desconhecem a luz que a cidade reflecte pelos tons leves do casario, e a faz espreguiçar como lagarta ao sol. Jamais a viram num regresso do oceano, acolhidos pela barra e, depois, subindo o rio até ao Cais Marítimo de Alcântara. Não há porto europeu que lhe ganhe na luminosa e humilde beleza. Malta, ao entardecer e abordada pelo Mediterrâneo, fascina pelo ouro do adobe das antigas construções. Bastam curtos metros de costas para o cais e o desdouro acontece. Lisboa é o oposto – a cada passo que a penetre mais e mais revela e confirma.

Lisboa continua linda. Sem que pareça, o coração pulsa de amores pelos que acolhe ou nela fazem vida. A saga dos negócios infelizes e obscuros, os protagonistas menores da história recente não a deslutram. Seres medíocres, reizinhos de gentes gananciosas e cegas, conluiam para dela tirar proveito sabendo-a modesta e tímida. Desenganem-se. É vivaz. A muito assistiu nas subidas e descidas do Bairro Alto e da Bica. E se o desmantelamento do Parque Mayer e da Feira Popular penosos imbróglios causam, lembremos os projectos da Lisboa romântica dos anos 60 do século XIX que sonhavam a Ponte do Chiado a Almada, com um comboio a fumegar lá em cima.

CAFÉ DA MANHÃ

O excelente Aliciante é o meu adoçante mais recente. Ao Noites com Luar, Notas ao Café, A Ilusão da Visão e ao Atelier dos Mangueirinhas agradeço a gentileza das ligações para este blogue.

Publicado por Teresa C. às 11:36 AM | Comentários (4)

janeiro 26, 2007

O HOMEM NÃO CHORA

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Anthony Christian

“O homem não chora”, ouvimos ainda dizer. Em público, dele é esperado que contenha as emoções. Durante séculos, pelas ocupações que o afastavam do lar, não gozou a evolução dos filhos, não fruiu em plenitude da vida familiar nas miúdas tristezas e alegrias. Ao competirem-lhe o sustento da família, a luta pela pátria, além do seu governo, o adestramento da força física pelo desporto, orientou a sua mundividência criando a imagem da mulher subalterna, maternal e emotiva e a imagem do homem fisicamente superior, responsável e racional.

Durante tempo demais a mulher foi impedida de ser livre e inteira. Do mesmo modo, o homem foi impedido de conhecer uma parte de si mesmo. Elas e eles com a liberdade cerceada. António Damásio sublinhou a importância das emoções na identidade equilibrada da pessoa - homem e mulher. Desde tempos ancestrais que a sociedade foi injusta para a mulher – amputou-lhe a imagem e legou um estigma cultural que a minimiza -, e não foi mais justa para o homem. Este, enquanto detentor dos instrumentos de poder, auto-limitou-se. A história que subalternizou a mulher foi, afinal, a mesma que não glorificou o homem.

Publicado por Teresa C. às 07:22 AM | Comentários (7)

janeiro 25, 2007

"RANHOSOS, CHORÕES E COMICHOSOS"

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A publicidade é uma das artes da manipulação. Sedutora, puxa os cordelinhos do subconsciente de cada um, assim transformado em marioneta. Por mensagens subliminares vai directa ao que interessa – gerar associações mentais traduzidas, depois, numa necessidade. Servida por belos corpos, gestos depurados do ocioso que ao objectivo não interesse, serve-nos potenciais objectos de desejo. Daí a satisfazê-lo vai um passo. Nem trago à colação o machismo boçal enfeitado de glamour que vezes demais utiliza. Pior ainda o que daqui decorre – a concepção antiga dos papéis dos sexos está-de-pedra-e-cal e vende.

“Os ranhosos, chorões e comichosos têm os dias contados.” Fiquei arrepiada. Já a página volvera, e voltei atrás. Teria lido bem?, inquietei-me, não fosse a distracção a culpada. Mas não!, lá estava, verde escuro no claro. No formato A4, a frase ocupava o meio. Somente abaixo, no canto inferior direito, o verde escuro registava: Levrix. Para as três desgraças servir, era, pela certa, medicamento. Antihistaminico. Um Zyrtec de última geração, ou seria erro o investimento. Para quem aos químicos diz “não, obrigada!”, mais informo: sendo pingona a constipação, por tal fazendo de palhaço o nariz, uma pílula daquelas e a fonte seca. Adeus rolo de papel higiénico, já que lenços de papel só às resmas.

Voltando aos “ranhosos, chorões e comichosos”. Quantos deles, perante tamanha ignomínia, comprará a droga? Eu jamais o faria. Se o pingo crónico é triste, o lacrimejar constante incompatível com maquilhagem, e a coceira deselegante, configurem ver resumido naquela nojenta frase de página inteira o retrato! Vá-se lá entender o que passou pela cabeça do publicitário e do laboratório que aceitou a campanha. Fosse o veículo a televisão, entendia melhor – há, invariavelmente o ar sofrido do antes e o radioso do depois no cliché conhecido. Mas a seco? As palavras escritas numa letra manhosa? Assim, sem mais? Não me espanta que o desgraçado leitor que encapucha a descrição, da alergia tenha crise e, de imediato, caia na cama. Aí sim!, fica claro o tino de quem o anúncio engendrou.


CAFÉ DA MANHÃ

Tenho novas revelações sobre o caso Rute Monteiro. Muito se tem escrito sobre o caso e nem sempre de modo esclarecido. O que sei impede-me, para já, de responder. Aos amigos jornalistas que me têm contactado, apenas peço que compreendam a reserva com que comuniquei o que está em causa. Afinal também sou jornalista e sei o que é a deontologia. A seguir atentamente.

Publicado por Teresa C. às 08:48 AM | Comentários (4)

janeiro 24, 2007

O CABRITO DAS QUINTAS-FEIRAS

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Antohny Cristian

Dizem eles: “Aos vinte, cuidamos do cabelo, do visual da moda, abortamos borbulhas residuais. Com os trinta anos aprendemos a apreciar um bom vinho. Chegados os quarenta, uma refeição de excelência enche o palato e afirmamo-nos hedonistas. Nos cinquenta, vamos de propósito a Folgozinho comer o cabrito das quintas-feiras. Esta é a altura em que aos homens o sexo trepa à boca.”

Mal abrimos, pela primeira vez, os pulmões e, com gritos dolorosos, engolimos ar às golfadas, inaugurámos o envelhecimento. Das células, logo ali, umas reproduzem-se e doutras há mortandade. O ser humano cresce rumo à morte. Saudavelmente, racionamos pensamentos negros e vivemos o presente. De modo intenso, eu, que aprendi a expensas próprias fruir do momento que passa isento de sombras passadas ou futuras. Apenas sei da paixão fazer vida – pela família, pelo que faço, pelos amigos, pelas pessoas em geral, pelo planeta. Ainda assim, às ratoeiras de mágoas ociosas, dos amores idiotas não escapei. Vale a fortuna ter sobre mim capa longa – municiou-me de um interruptor afectivo que, perante o rebate do sino da sobrevivência exigente, desligo. Como deixar de fumar: parei como comecei, num ápice! O espírito fica lavado. Em paz. Pronto para outra. Sem renegar erros, por que com a asneira pessoal quem quer aprende. Eu quero. Aprendo.

Cuido que alguns homens lidam tão mal com o envelhecimento como é suposto acontecer nas mulheres. A barriga proeminente, os músculos amolecidos, a investida sexual mais espaçada e curta, os brancos que rondando os trinta nascem como coelhos enquanto os da cor de origem caem sem despedida, atemorizam. Eles, coitados, ainda nos primórdios dos nossos subtis disfarces, caem em si. Em que pensam se o emprego estiver garantido? Sexo! E dispersam o desejo numa peregrinação triste por capelas que visitam apenas por terem a porta aberta. A reza do ego erguido neles associada à ressurreição da carne. A nossa mais simples(?) e resumida à resposta afirmativa a uma pergunta – amo?

Publicado por Teresa C. às 06:27 AM | Comentários (7)

janeiro 23, 2007

A DAR-A-DAR

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Rob Gonsalves

Cheirava a sardinhas. Pela uma da tarde, na parte nobre do coração da cidade, a assadura dos peixes era certa. Normalidade sem merecer reparo, não fosse o caso de mear Janeiro, estar o dia inadequado para actividades de ar livre e magras as sardinhas. Ora, dada a conjuntura, reneguei o cheiro com o ar de quem lhe foi servido uma capilé morno ou forçaram a usar chapéu de palha. Não dava a bota com a perdigota, e a estas coisas também sou sensível.

Sardinhada, bacalhau com grelos ou couve tronchuda, bem como o cozido à portuguesa são gostos que partilho. Como os cafés antigos propícios à fantasia de tertúlias de outras eras e de hoje. Como o empedrado manhoso que nas urbes subsiste. Como as ruelas estreitas que por entre curvas apertadas espreitam o rio. Como o granito do Norte e a brancura Algarvia.

Que o meu pé puxa à chinela, não duvidava; mais para os tamancos que nunca usei nem vi usar e me fascinam. Sentir o pé dar-a-dar é liberdade que prezo. Aliás, de sentir o corpo despojado não prescindo. Mas, lá está, melhor no Verão do que agora. Os cafés de antanho, esses, ao menos, são prazer legítimo em qualquer estação. O Martinho da Arcada, o Majestic no Porto, o Santa Cruz em Coimbra, o café Vianna em Braga. Mais haverá que na memória não retive. Certo é serem os cafés, bibliotecas e as livrarias delatores da vida e história de uma cidade. A bem dizer, pela constância, são o oposto do cheiro a assadura de sardinhas.

Publicado por Teresa C. às 09:20 AM | Comentários (2)

janeiro 22, 2007

DURA NA CAMA

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Warwick Beecham

“Tenra na mesa, dura na cama”, a carne claro. Dito brejeiro do povo, bendito seja, que as papas-na-língua recusa. Fartos do “socialmente correcto” - abomino a expressão por dela escorrer insidiosa censura – estamos todos. Não foram estes e outros chistes, mais a irreverência pingada de sensatez que tanto prezo, e as franjas da vida seriam temíveis maçadas.

A candura destas máximas populares tem que se lhe diga. Analisemos a frase em epígrafe. Se a tenrura da carne à mesa merece consenso, a dureza da que na cama é servida, nem sempre. Das razões, aponto a primeira: bíceps invejáveis, rabiosque rijo, coxas de ferro, como soe até por volta dos trinta, não acarretam, necessariamente, bandeira erguida. E mesmo se da arrogância do atributo não houver dúvida, o que fazer com ele requer sabedoria. São inúmeras as queixosas do “não-ata-nem-desata” prolongado à exaustão, frequentemente rematado por artesanato puro. Outras lamentam a falta de imaginação dos utentes dos garbosos mastros – narcísicos, miram-no e remiram-no quando era suposto serem dois os anfitriões da festa.

Entre os de músculos de ferro e outros pior aviados, porém senhores de localizada rijeza na dose certa e cabeça sábia, a superior seja notado!, preferimos os segundos. Com estes, é sabido, o trem rumo ao paraíso raramente descarrila. Sejamos práticas: é como escolher entre um prato contrafeito da nouvelle cuisine e o confeccionado por um gourmet et gourmand. apurado no ofício.


CAFÉ DA MANHÃ

Esta escriba pasmou, leu, releu e mal podia crer. Mas estava ali, numa coluna da revista “Única” do Expresso, escarrapachado o nome, o texto e a imagem deste blogue no dia 15 de Janeiro. Ainda por cima, aí sim!, babei com a elegância possível ao ler o comentário da Rita Ferro Rodrigues. Algum dia me ocorreu que fora os notáveis que conheço, alguns amigos – querida Carla, muitos parabéns pelo magnífico “Take One”, que o das onze da manhã, hoje, na Antena 1, não perco –, outras personalidades públicas me lessem? Nunca! Jamais! Mas venham, voltem sempre, que da abundância não apresento queixa. À Rita Ferro Rodrigues digo - obrigada, muito obrigada pela preferência.

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Chris Achilleos

Publicado por Teresa C. às 09:00 AM | Comentários (5)

janeiro 21, 2007

NEVOU EM MALIBU

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Peter Driben

Pela primeira vez, nevou em Malibu. Os telhados das celebridades, que por ali abundam como por cá agriões numa mina, ficaram cobertos de neve. A terra das palmeiras, plantações de laranja, morangos e abacates arrepiou. Encaneceu. Como sincelo em Aguiar da Beira cobrindo telhados e verdes, porém esquecido da terra. Gelo pendente nas goteiras e muros. Nevoeiro grosso como manta fria que até ao encurtado horizonte tudo embrulha. Meteorologia confundida. Baralhada. Como objectos ao molho nos contentores das lojas. Em saldo.

Por tudo, não me apetecem os saldos. Nem as lindíssimas botas da Rita a contas com guarda-roupa assinado - acompanho-te, minha querida, nas vertigens e palpitações e cartão em riste e olhar luzido perante tesouros de cheiro a novo – motivam peregrinações, ainda que online. Corre o tempo dos saldos perenes. Abaixado anda o preço das bugigangas, fatiotas, consciências e princípios. Sem saison respeitada. Foram-se as filas madrugadoras para arrebanhar em primeira mão peças vistosas. Sumiu a compita, o puxão da peça em trouxa no braço, o verbo fácil no agarra-que-tem-de-ser-meu. Os saldos das coisas tornaram-se bem comportados. Em contrapartida, os saldos do espírito e da atmosfera espantam pelo descaro quem, como Sá de Miranda, hoje confessa: “...M’espanto às vezes, outras m’avergonho.”

Publicado por Teresa C. às 10:34 AM | Comentários (4)

janeiro 20, 2007

NA TUA ANCA

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Silvia Maier

“Há quem beije ao terceiro encontro, quem ame ao fim de um mês. Demorámos três anos para dormir juntos, e condensámos nessa só noite de terna guerra mil e uma noites de paz adiada. Para adormecer, tenho agora de sentir os teus pés, as tuas curvas preenchendo o meu colo; as minha mãos devem passear pelo teu ventre. Pousar a mão direita, finalmente, na tua anca. Aí sim, aí durmo e deixo dormir. Sei que o cansaço que nos afundou irá ainda extenuar-nos. A batida dos amantes, mais alto do que qualquer despertador, deverá acordar-nos.”

Semanas atrás, “ansiara-a como a uma flor no deserto. Esperou-a até aparecer, por fim, luminosa. Desenhariam, depois, suave caminhada, lambidos pelo Sol de Inverno. Aquecer-lhes-ia a alma, já de si vibrante e grata pelo esplendor das cores do meio dia da vida. Seria dela o gesto de lhe ajeitar o nó da camisola sobre os ombros e dele o comentário íntimo e preciso que reforçou o aperto do nó das suas vidas. Por isso te digo - nem sei o tamanho do amor que, por ti, tenho.” “Temos”, acrescentaria ela num murmúrio.


CAFÉ DA MANHÃ

Com inquietação, li ontem aqui a notícia do rapto de uma jornalista portuguesa no Líbano. Mais uma vítima a contabilizar pelo "Doomsday Clock"?

Publicado por Teresa C. às 09:51 AM | Comentários (6)

janeiro 19, 2007

RELÓGIO DO JUÍZO FINAL

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Luis Royo

Desde 1947 que o "Doomsday Clock" avalia o intervalo de tempo que medeia até à eclosão de um desastre nuclear que abale o mundo. O Conselho de Patrocinadores do "Bulletin of Atomic Scientists", fundado pelos cientistas que conceberam a primeira bomba atómica, inclui 18 laureados do Prémio Nobel. Atentando nos indicadores do presente, decidiram adiantar, na última quarta-feira, dois minutos tão peculiar relógio. Quanto mais próximo das 00:00 estiver, maior será a possibilidade de uma guerra com proporções inimagináveis.

Na inauguração, o relógio marcava 23:53h. Em 1953, quando os EUA fizeram o primeiro teste da bomba de hidrogénio, chegou a marcar 23:58h. Após o fim da Guerra Fria, em 1991, os ponteiros recuaram para 23:45h, dando ilusão de uma paz possível. Em 1998 parou nas 23:51h. Após o atentado de 11 de setembro de 2001, avançou 2 minutos e os ponteiros registaram 23:53h, antecipando que o ataque às torres do World Trade Center seriam o início de gravosas mudanças. Marca, desde anteontem, 22:55h.

Aproximamo-nos da hora fatal. O perigo nuclear e o aquecimento global gritam-no. Reduzir o número de ogivas nucleares, impedir a disseminação de materiais nucleares, controlar a produção de combustível nuclear e comprometer os EUA, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte no tratado que proíbe testes atómicos, é imperioso. A realidade prova que a administração Bush não deu passos significativos na política dos alvos nucleares, há sério risco de atentados terroristas utilizando armamento atómico e de uma guerra entre a Índia e o Paquistão. Não é assim que cuidamos do nosso quinhão do Universo, um planeta transformado numa mina pronta a detonar em qualquer momento. As vítimas das insanidades seremos nós, pessoas que nos dizemos de paz. Seremos?

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Publicado por Teresa C. às 07:16 AM | Comentários (1)

janeiro 18, 2007

RONCOS E BRUXISMO

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Autor que não foi possível identificar

Para adormecer e chegar ao R.E.M. (Rapid Eye Movement) a face deve atingir os 27º Celsius. Correndo um Janeiro suave, atingi-los parece acessível, mais ainda se do leito houver partilha. Certo é ser leve esse estádio de sono com actividade cerebral próxima da vigília, e propício a sonhos vívidos. Tudo bom, por à maioria das gentes ser difícil sonhar acordado. Não eu. Tão bem me aninho nos braços de Oniro desperta como adormecida.

Ao dormir, afirmam entendidos, os sentidos desvanecem-se na seguinte ordem: visão, paladar, olfacto, audição e tacto. Este último faz o favor de despertar ao mais leve toque da pele – daí estar convencida da pele falar tão alto como a produzida na garganta – e é apelidado de vigia do corpo adormecido. Ao despertar, os sentidos voltam por ordem diferente: tacto, audição, visão, paladar e olfacto.

Está registado ter sido de onze dias o período mais longo que um humano permaneceu acordado. Em muitos casais a tanto não chega a paciência. O bruxismo, que obriga o dormido a ranger os dentes, e o ronco com volume de som no máximo são causa de penosos desarranjos conjugais, alguns terminando em divórcio (19% das mulheres e 30% dos homens ressonam intensamente). É que se Napoleão Bonaparte dormia quatro horas por noite, já Albert Einstein precisava de dez horas de sono. No que me respeita, o deus Hipnos e o deus Oniro devem reger do meu dia, no mínimo, oito horas.


CAFÉ DA MANHÃ

Ao Nau da Índia, ao Fotos do Tempo e ao Lilás com Gengibre agradeço a simpatia de terem estabelecido ligações para este blogue.

Publicado por Teresa C. às 08:24 AM | Comentários (3)

janeiro 17, 2007

TENROS INFANTES

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Jan Bollaert

Arengar ao arrepio de vozes respeitavelmente sabedoras, é incómodo. Sendo o tema de somenos, nem os ombros encolho. Não é o caso, e, vai daí, boto acha na fogueira onde arda a divergência. Desculpar-me com a herança da mãe natura seria fácil, por andar longe do estereótipo da «piquena» que engole e cala; opiniões, quero dizer, porque engolir e calar é coisa demasiado íntima e prazenteira para alardear por aqui. Antes que me emperre o sistema de biela-e-manivela racional com tão vívidas lembranças, mude de assunto e acabe o texto ilustrado por mais uma menina nua, volto aos incómodos arrepios.

A figura do Professor-Tutor, ou generalista, que, por ora, o Governo defende para o segundo ciclo, tem a minha simpatia. Faz tempo demais que condeno a passagem dos tenros infantes das mãos de um único professor no primeiro ciclo para dez, é verdade!, dez professores. Coisa extraordinária, por ser evidente que os conhecimentos a transmitir no 5º e 6º anos de escolaridade são gerais e de iniciação no que às Ciências concerne. Não faz o menor sentido um professor de Matemática deixar a cargo de outrem Ciências da Natureza, um de Língua Portuguesa alheado da Língua Estrangeira, ou um de História que a leccionar Geografia resista. As competências já existem. Sejam aperfeiçoadas as estratégias pedagógicas para a maior abrangência dos conteúdos a leccionar, e a criançada não terá de rodar entre dez desorganizadas vontades e caras e métodos e manias. Vantagem acrescida é os docentes-tutores conhecerem melhor as necessidades individuais dos alunos.

À estimada Leonor Barros diria provado que a dezena de professores por ano e aluno não foi eficaz – a ignorância dos adolescentes ao iniciarem o Secundário atesta-o. Argumenta no “Olha que Lindo!” que as crianças chegadas ao 2º ciclo são tábuas rasas nos saberes mínimos. Aceito. E nos dois ciclos seguintes, o que foi feito para inverter a calamidade? Se dez nada remedeiam, não será altura de aplicar novas e sensatas estratégias?


CAFÉ DA MANHÃ

Ao mui estimado Edgar envio os merecidos parabéns pelo excelente The Sock Gap que hoje perfaz um ano. A imagem seguinte é o meu presente.

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Peter Driben

Publicado por Teresa C. às 06:47 AM | Comentários (6)

janeiro 16, 2007

KUCHE, KIRCHE UND KINDER

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Elvgren

É conhecida da doutrina nazi a teoria dos «três Ks» - à mulher pertenceria o governo da «Kuche, Kirche und Kinder» (cozinha, crença religiosa e crianças) -, razão suficiente para afastar a mulher das supremas decisões do Estado. O discurso do poder continua a ser um discurso no masculino. Como se o exercício do poder não fosse uma tarefa que a todos interpela e todos compromete, ao coincidir com a defesa da dignidade humana, concretizada no homem e na mulher. A poética de Aragon – “...a mulher é o futuro do homem” não é, ainda, paradigma.

Por muito tempo, na lei e nos livros da escola primária, a autoridade do pai surgia na função de angariador dos meios de subsistência, e a da mãe no governo do lar e na gestão dos afectos. Somente a alteração do Código Civil de 1977 pôs fim a normativo tão injusto. Aliás, o adultério masculino apenas era reconhecido se fosse «com escândalo público ou completo desamparo da mulher, ou com concubina teúda e manteúda no domicílio conjugal». O princípio do salário igual para trabalho igual só lei de 1969 consagrou, e o direito do marido abrir a correspondência da mulher terminou por decreto de Junho de 1976.

Confio ser este o século em que o tempo do poder e do direito é o tempo da pessoa. Hillary Clinton e Ségolène Royal poderão vir a ser Presidentes dos Estados Unidos e da França, respectivamente, a par de outras mulheres que na Alemanha e no Chile ocupam cargos semelhantes. Todo o tempo é tempo de (re)começar ou continuar a luta pelo direito à igualdade entre os humanos. “Se os mortos são os donos do destino dos vivos”, como disse Thomas Paine a propósito da eternização do sistema político britânico, rompamos com o passado e, na fragilidade e insignificância das nossas acções que, no conjunto, são a nossa força, sejamos partícipes da construção de uma herança de justiça e liberdade.

Publicado por Teresa C. às 01:32 PM | Comentários (5)

janeiro 15, 2007

SÉMEN AO MILILITRO

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Arkadiusz Walerczuk

“Os doadores dinamarqueses de esperma terão de declarar às Finanças os rendimentos das suas «doações» e pagar o respectivo imposto” – isto dizia o Portugal Diário. Assim, à primeira vista, nem parece mal, não se desse o caso dos vendedores de sémen serem envergonhados. De facto, entregar nas Finanças lá do sítio o montante obtido pela produção de espermatozóides pode ser complicado. Quem não garante que o vizinho do lado produza mais e melhor? Matéria delicada, visto que ao tamanho e quantidade o homem é por demais sensível.

O director do Cryos, o banco de esperma dinamarquês, um dos maiores no mundo, afirmou: “Um inquérito junto dos nossos doadores mostrou que apenas sete por cento aceitaria continuar se tivesse de declarar os seus ganhos às finanças e deixar de ser anónimo.” Logo o ministro liberal Lars Loekke Rasmussen sublinhou que “o serviço dos impostos não deve e não pode anular o princípio do anonimato”. O fisco contrapõe pretender, tão somente, que os doadores de esperma declarem, como todos os outros cidadãos, os seus rendimentos.

Pelo sim, pelo não, o banco de esperma dinamarquês vai abrir uma filial em Nova Iorque em busca de outros fornecedores, caso os stocks made in Denmark venham a esvaziar-se. E em Portugal? Por que não? Estamos precisados de novas formas de rendimento. Não se dizem os portugas danados para a brincadeira?

CAFÉ DA MANHÃ

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A Petição Contra a TLEBS entra esta semana na recta final. Estes dias serão decisivos para a Petição. Conto convosco.

Publicado por Teresa C. às 09:32 AM | Comentários (0)

janeiro 14, 2007

AMÁ-LA OU ODIÁ-LA

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Autor que não foi possível identificar

"Índia: pode amá-la ou odiá-la, mas jamais permanecerá indiferente." É usual subestimamos os indianos instalados em Portugal; temo-los por vendedores de bugigangas e rosas murchas em cones de celofane. Muitos chegaram empurrados de Moçambique pela tempestuosa descolonização. Pobres, ou afortunados, foram arribando e assentaram arraiais num país que os via exóticos, manhosos, pela postura melíflua vendedores de banha-da-cobra.

Da Índia é sabida a lonjura, o gigantismo, a pobreza, o caos, os ícones turísticos, os filmes destilando mel, compota e caramelo. O desenvolvimento tecnológico e ascensão a empório comercial misturam-se com a miséria e os proventos multiplicados por milhões. Do secular domínio britânico ficaram, entre o mais, os comboios. Conhecer a diversidade social requer vagões e ferrovias - no interior são aprendidas as primeiras palavras em hindi para comunicar com os passageiros distribuídos por cinco classes. Os expressos Rajdhani, Shatabdi, ou o luxuoso Decann Odissey, permitem conhecer a essência daquela civilização milenar a anos-luz da visível na capital Delhi. É clássico visitar o Taj Mahal para o ver acordar - o mármore branco, incrustado com pedras semipreciosas, surge na bruma da manhã, tinge-se de cor-de-rosa e comove pela magia.

Nascer ali mulher, configura humilhações futuras - dote pago pelo pai da noiva ao homem que a leiloe, violações sem queixa, abortos provocados pelo temor de ser o embrião feminino, vírus HIV disseminado em aterradora escala. Por tudo não invejo a pragmática comitiva presidencial - seriam bem diferentes os horizontes que me despertariam.

Publicado por Teresa C. às 11:02 AM | Comentários (0)

janeiro 13, 2007

QUASE NUA

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Daniel Bilodeau

Saíste de mansinho. Evitaste acender luzes espias da tua presença na casa dormida, como se foras amante esquivo. Deixaras em doce limbo, entre o sono e a vigília, um corpo quente que o teu amara, cujo calor, na noite fria, o teu ainda alimentava. O volante, no escuro rasgado pelos faróis, madrugada alta, sabia as voltas e o caminho. A estrada era tua. Poucos se afoitavam a quebrar a quentura da cama trocando-a pelo vazio da noite, salvo o trabalho ou uma urgência ou o acaso duma necessidade.

Forraste a calor e música a distância. De cor, revias momentos, a custo decantando os mais impressivos, de tal modo e tantos havias gravado. À mesa, pensavas, tinham sido o casal antigo de gestos familiares; ela voltara a ser menina, e nem escondia a alegria que lhe ruborizava as faces a coberto do rubi que o vinho refractava. Sentiste-a como a tua mulher, sem dizeres que era a tua mais nova namorada.

Enquanto o escuro deslizava, escolhias uma, a uma, as palavras como cerejas brilhantes e carnudas que, mais tarde e com a força da verdade, lhe dirias. “Tens os estímulos que me faltam e as pernas que desejo. Falas-me do que não sei e ouves-me como se eu fosse a própria novidade. Misturas o perfume com as palavras e serves-me, como a um príncipe, o cozinhado que aqueceste com ternura. Alinhas-me os chinelos à saída do banho e estendes-me os braços abrindo num só gesto a candura da toalha, da camisa e dos lençóis da tua cama. Não apanhes frio - dizes-me quase nua. E olho-te como se nunca te tivesse visto, perguntando-me o fiz, o que disse para a tua dádiva ser do tamanho da minha imaginação. Quero-te para te dar o que nunca te deram. Para descobrir e te dar o que, sem saber, tenho.”

Na serenidade do amanhecer, desperta, ela respondia à pergunta que noutro lugar, no mesmo instante, ele lhe fazia: “Queres-me?” – “Quero!” O silêncio das palavras foi testemunha.

Publicado por Teresa C. às 10:49 AM | Comentários (0)

janeiro 12, 2007

QUECA HOMÉRICA

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Sorayama

Ela passou ontem por aqui e comentou: “nada melhor para curar um amor platónico que uma queca Homérica.” Ora aqui está mais uma das muitas pérolas da sabedoria feminina. Daquelas que partilhamos quando certas de não rondarem ouvidos masculinos. Quem julga ser a curiosidade atavismo feminino, desengane-se – eles alongam as orelhas e o pescoço, inclinam a cabeça, dão um passo para o cochicho com a bendita (in)discrição que os caracteriza. Os homens são uns queridos, mas, perante a nossa argúcia, denunciam-se em menos de um suspiro. Mulher que é mulher simula indiferença, não censurem eles as esparrelas. Dia virá, em adequada conjuntura, para um breve sublinhado nosso os deixar como barcaça à deriva – por que artes do demo a gaja soube? E nós naquela de inocente que o Divino escolhe para visita. Deliciosas cenas que evitamos perder uma. Meus queridos, convençam-se: as vossas pueris manobras são tão simples para nós como saber para que lado abre uma torneira. E mais digo: acautelem-se, porque homem distraído do bem que julga seu, cedo ou tarde fica sem ele.

Uma queca homérica faz milagres. Não abundam como os pombos na rua. Nada disso. Requerem conjunção de inexcedível apetite e prato soberbo que implore: “come-me, come-me que para isso hoje sirvo!” É refeição para horas, longe da sandocha que, após dentada farta, empanturra. A meio, ainda o palato e as mãos e o resto que é sabido gritam de insatisfação. Repasto acabado, não se afasta a companhia - é quase certo haver lugar para mais umas dentadinhas. Chegado o sono que o papo-cheio suplica, foi-se Platão e ficou Homero. E não adianta argumentar com a hipótese do poeta épico ser lenda ao não lhe ser conhecida a terra onde largou os primeiros vagidos. Homero existiu e existe. Quem refeições à moda dele experimentou, não duvida.

Publicado por Teresa C. às 08:51 AM | Comentários (7)

janeiro 11, 2007

CARÍSSIMA SOFIA

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Anthony Christian

Caríssima Sofia,

De repente só me ocorre dizer-lhe isto: tirou-me as palavras da boca, fora eu mulher para profundas verdades dizer de uma assentada. A hipocrisia e conservadorismo bacoco, mais a teimosia no erro e os espíritos avessos a fazerem pela vida elaborando o que julgavam definitivo, causam-me urticária mental sem Zyrtec que a acalme ou pomada que cure.

Noticiários e jornais publicitam a cada dia crianças abandonadas, maltratadas, violadas, desprotegidas, institucionalizadas, desamadas. Concepções de ocasião, ou por sorte omissa na data em que o rancho de espermatozóides entrou útero acima, que não desagúem em antecipado amor ainda a criança não saiu da barriga, são presságio negro. Se do aborto é sabido o dramatismo e as nefastas garras no (sub)consciente da mulher que o pratica, há que evitá-lo. A educação sobre o corpo e comportamentos sexuados, neste particular, fariam milagres, assim fosse abrangido todo o povo e os Centros de Saúde assumissem as responsabilidades em matéria tão delicada. Enquanto inchada fatia da população não tiver médico de família, a escola andar arredia e as televisões venderem pechisbeque, o drama continua.

Do respeitado e respeitável Professor Gentil Martins, que apelou a todos os médicos para alegarem objecção de consciência à colaboração num aborto, ouvi: “Se para uma mulher casada alienar um bem de família precisa da assinatura do marido, por que deve pertencer em exclusivo à mulher a decisão de interromper uma vida?” Homessa! Não é apoucar a vida humana compará-la a quintarola? Sendo o casal responsável, quem garante não ser partilhado o peso da decisão? Não se tratando de um par que a responsabilidade caracteriza, qual de nós endeusou, deixou crescer longas e alvas barbas, usa espada afiada que decepe as vítimas ou os culpados por decisões erradas?

Também pela sua lucidez , querida Sofia, a admiro

Publicado por Teresa C. às 08:28 AM | Comentários (5)

janeiro 10, 2007

O QUADRADO DOS CORNOS

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Brown

“Mais vale uma relação platónica do que uma pitagórica” , diz, com graça, um amigo. E tem razão, conquanto o senso bastante não o impeça de asneirar e ser afoito. Assim gosto, assim é, assim sou, salvo na abastança do senso.

Isto de sermos avessos à matemática, à geometria em particular, carece de explicação que ao dito favoreça a compreensão. Pitágoras, lembram-se? O do teorema. O do triângulo. Ainda não? Então cá vai a lengalenga: num triângulo rectângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Este era daqueles que, a par da fórmulas químicas da água e do ácido sulfúrico, assentavam arraiais na memória e para as cábulas não iam.

Voltando ao chiste. Se um relação platónica é afecto ensonado, nem amizade, nem amor a sério, uma relação pitagórica é triangular. Em português claro – a relação em que alguém encorna alguém. Logo, um triângulo de cornos. A hipotenusa é o que encorna, os catetos são os encornados. Teimando no vernáculo relacional, o famoso teorema ficaria assim – «o quadrado do que encorna é igual à soma dos quadrados dos encornados». Resumindo: todos quadrados. Tapados. Cegos. E nisto de encornar há sempre lugar para mais um. Felizmente!

Publicado por Teresa C. às 06:39 AM | Comentários (3)

janeiro 09, 2007

DA TERRA, O QUEIXUME

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Hayao Miyazaki

Dois vultos abrigados sob a pérgula rente à água. Céu entaramelado de cinzas. Indeciso. Verdes sombrios temendo desafiar o Inverno. Alguns dos cedros-criança empalidecidos num esvaído torpor. Intactos os tufos de alfazema e de outros arbustos miúdos, alinhados em conchas invertidas na terra. Por isso, ou pela natureza, conservando a forma que os ventos aos salgueiros roubaram e às majestosas palmeiras despentearam. Folhas apodrecidas jaziam no chão, na relva parda e na calçada dos atalhos. Que não trilhava.

Sob os meus pés estalava o cascalho, a cada passo gemiam os seixos. Suavizei o andar – era insuportável sentir-lhes o queixume - e preferi o empedrado. Com vagar, quase como gato de pêlo calçado, aproximei-me das duas mulheres sentadas. Raça negra, rosto que os anos curtiram, grossos casacos, lenços na cabeça atados atrás de modo tribal. O dialecto da fala amorteceu-me a curiosidade. O que diriam naquele jeito íntimo que somente as mulheres possuem quando o falado monopoliza a atenção?

Com elas éramos três a buscar no parque o refúgio. Alarguei o olhar às fronteiras que alcançava – ninguém mais havia. Continuei. E remirei dos verdes as minudências. Da água escutei o correr. Os sons da cidade abafados pela distância. Cruzei-me numa vereda com as duas mulheres. Meias de lã, sapatos de casa, sobre as saias mantas largas atadas à cintura como soíam usar na África(?) que as vira nascer. Tão exóticas no ocidente padronizado como os pingos de violeta e encarnado desafinando nos ramos murchos. Ergui o queixo e ao alto o olhar. Sorri - a maravilha da diferença persiste em brotar.

CAFÉ DA MANHÃ

Agradeço a gentileza das ligações aos blogues:
- Entre o Sol e as Brumas
- Em Semicírculo
- Sortido Fino
- Ferro com Fogo é Faísca
- Sol Infinito

Publicado por Teresa C. às 07:15 AM | Comentários (0)

janeiro 08, 2007

CAÇADEIRAS E MERCANTÉIS

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Ricardo Casal

Sussuraste: “pequenina, está na hora de acordar. Bom dia!” Esvoaçavas beijos pelo meu rosto e pelo cabelo espreguiçado na almofada. Estremunhada, nem sei o que respondi. Contarias depois a ansiedade na pergunta que o sono respondeu - “Que horas são? É muito tarde? Bom dia!” A banalidade de um casal antigo que o carinho preservou legitimaria os murmúrios e as carícias inaugurando o dia meado. Somente a nossa intimidade soluçada falaria assim, omisso o hábito, desfraldada a novidade.

A tua pele cheirosa, o teu corpo arrumado descrevia o acordar que falhei. Madrugaras. Nem olheiras no rosto ou cansaço da pele denunciavam o resumido par de horas de sono fundo. Água fria e creme devolveram-te a face e o olhar luzidos. Retiveras a doçura e a meiguice e a intenção de cada gesto teu. Como sempre. Como a perspicácia do teu ver que, num ápice, tudo lê de mim. Como o cuidado em ocultares o que me adivinhas - sigilo precário o meu, num qualquer momento revelado, daí a um instante, ou a um mês ou noutro tempo que respeitas sem pressionar.

O tempo. A data. O contexto. A harmonia no ar. O idílico horizonte. O verde manso. A areia nos pés. As caçadeiras e os mercantéis no rio. A descoberta. A espera compensada. Um lugar. Nós. Enfim.

CAFÉ DA TARDE

Adorável Joana: que o tempo seja leve e o «piolhinho» cresça bem. O teu blogue? – Uma deliciosa fuga que voltará a mexer. Adorei!

Publicado por Teresa C. às 10:16 AM | Comentários (0)

janeiro 07, 2007

QUEM TEM UM OLHO

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Alain Aslan

No Portugal de hoje, pejado de Marias, Vanessas, Sónias e restos de Albertinas, de mechas vermelhas no cabelo delas, brincos nas orelhas deles, boinas na cabeça e capotes transmontanos residuais, de «inhos» e «inhas», de mau-olhado sobre a novidade, quem tem olho afilado ou é administrador de empresa pública ou político ou dirigente de futebol ou comentador na televisão. E se com os de olho vazado podemos nós bem, os finórios entopem o gorgomilo até o vómito chegar.

O Mariano Gago, os chefes dele, os doutorados em nada com mérito mas que botam faladura na televisão, dizem, à boca cheia, haver falta de licenciados que, quais escravos de antanho, à vergastada, empurrem o país prà frente. Olimpo que exista nos livre de tamanha maldição - seria multiplicar por milhares os analfabetos munidos de canudo que por aí se reproduzem como pés de feijão.

Universidade que não conjugue saberes especializados com humanidades, economia, artes e pensamento organizado presta mau serviço ao povo. A pobreza encoberta que mitiga nos supermercados e passeios tristes a desesperada condição, paga o ar condicionado, os gabinetes e os licenciados que saem de olho vazado como eles. Disto temos fartura; não precisamos de mais. E em vez de postas de pescada largadas na comunicação social sobre o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e respectiva intervenção como santo milagreiro em Portugal, sigamos os exemplo da reputada instituição – dali não sai diplomado sem conhecimentos diversificados com alicerces sólidos. Estou em apostar que raros serão políticos de meia-tigela ou comentadores nas televisões – a espírito vivaço e animoso falta vontade para disparates.

CAFÉ DA MANHÃ

À Luna um duplo beijo de parabéns. Ao Nem Meh Nem ½ Meh e ao Deep, the Silence
agradeço a gentileza das ligações.

O Martinho da Arcada comemora dois séculos e um quarto. Por esta e outras gosto de ser portuguesa.

Publicado por Teresa C. às 11:39 AM | Comentários (4)

janeiro 06, 2007

NEM CHUS, NEM BUS

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Henryk Fantazo

O país às cambalhotas e eu perorando sobre o que não cavalga a crista da onda da maré nacional. Nem uma palavra sobre o Bagão Félix perfilado no não à descriminalização do aborto, qual economato de convento regateando preço das arrobas de batatas. Total omissão às subtilezas – em que consistiram afinal? – do último discurso do Presidente Cavaco e à crueldade exercida sobre crianças abandonadas, maltratadas. Morreram pescadores a vinte metros da costa e nem uma palavra de solidariedade às famílias ou de condenação aos meios de salvamento registei. O João Pinto surripia 3,2 milhões de euros ao fisco e eu nada! Nuno Assis, o presumido dopado, fica sem pisar a relva num jogo que não seja a feijões e... moita carrasco. Teni sian langon en la buŝo o que em esperanto é igual a não dizer chus nem bus. De outro passo: não tugi, nem mugi. Andei por aí entre flutes de Veuve Clicqout numa embriagada felicidade e só hoje aterrei no 2007 do meu país.

A deputada europeia Ana Gomes teve o condão de me fazer aterrar a pique. A excelsa dama deu fé retroactiva de prisioneiros acorrentados num entre-e-sai de aviões da CIA nos aeroportos dos Açores. Onde estaria a deputada? Poisada nos ramos de uma azinheira com fofas e azuis nuvens almofadando-lhe os pés? Ana Gomes que me desculpe, mas o seu empenho na investigação dos presumidos voos clandestinos a caminho de Guantánamo carece de exorcismo a preceito. Dela não esqueço a bravia ajuda à libertação de Timor. Admiro-lhe a coragem que o status quo não amocha. Gosto de lhe ouvir a vibração apaixonada na voz. Todavia, a paixão não é propícia à serenidade que as responsabilidades públicas exigem. Omitirei o incidente nos Açores como momento infeliz. O respeito que me merece a tal obriga.

Publicado por Teresa C. às 11:21 AM | Comentários (3)

janeiro 05, 2007

O SEGUNDO SEXO

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Bruno di Maio

“On ne naît pas femme, on le devient” (ninguém nasce mulher, torna-se mulher) escreveu Simone de Beauvoir na abertura da segunda do “O Segundo Sexo”. Não quis, ou esqueceu dizer, que ninguém nasce homem. Torna-se homem. Assim é, conquanto o poder e os privilégios sociais tenham deturpado a posição cultural do sexo masculino. A mulher, aparentemente limitada por convenções e dominação, fruiu de maior liberdade interior. Colocou-a ao próprio serviço, na educação dos filhos e na manipulação do homem por via do lar e da estruturação da família.

Indirectamente, tem vigorado um sistema matriarcal que as novas gerações, julgo, se aprestam a mudar. De pequeninas nos sabemos livres para expressar meiguices, amuos, ternura, amor e precisão de mimos. Crescemos isentas de dolorosos espartilhos na exposição das emoções. Aprendemos cedo o poder da beleza, da suavidade dos gestos, a dádiva no amor. Todas as parcelas somando o mesmo: sedução. Quando adultas, aprimoramos a feminilidade compatibilizada com os projectos pessoais. Incoerentemente limitadas nalgumas fatias residuais da vida social, libertas no íntimo e na comunidade. Não são de prata ambas as faces da lua. O lado negro existe e tem risco: a clonagem do que nos homens condenávamos pela ambição de destaque económico e do poder que daí decorre.

E quanto prazer confere sentirmos que é nossa, muito nossa, a liberdade duma intimidade desempoeirada, do uso do encanto sem jargões redutores, da felicidade maior – a entrega de um corpo que docemente se abre e acolhe o amor de um Homem que deseja, não qualquer, mas uma Mulher!...

Publicado por Teresa C. às 08:12 AM | Comentários (4)

janeiro 04, 2007

(RE)CONTAR O PASSADO

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Greg Horn

“A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.” Isto disse Gabriel Garcia Márquez, e acertou.

Dos factos de uma vida, a maioria é esquecida e os importantes emoldurados por afectos que torcem a descrição. Quem ouve nunca pode ter a presunção de saber, pelo relatado, o acontecido. Ficará com a leitura do interlocutor, necessariamente emocionada ou colorida pela nostalgia. Os matizes suprimidos pelo emissor estarão para o ouvinte definitivamente perdidos. Os que, sobrando, dão vida ao contado, esses sim!, são delatores. Falam das razões que levam alguém a emocionar-se, a assestar os holofotes da memória numa dada direcção e não noutra qualquer.

Nem sempre quem conta espera ser compreendido pelo interlocutor. Frequentemente, o desejado é uma nova oportunidade de olhar para as funduras do respectivo espírito ao (re)contar o passado. A memória é cozinheira sabedora – condimenta, prova, corrige o tempero, prova de novo. E são os temperos a mais dizerem de quem os usa. Denunciando do íntimo as covas negras ou os alcantilados Hermínios.

Publicado por Teresa C. às 08:50 AM | Comentários (3)

janeiro 03, 2007

CARPIDEIRAS DE XAILE NEGROS

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Bo Bartlett

Carolina Beatriz Ângelo – a primeira mulher a exercer medicina em Portugal. Corria o ano de 1911, e o direito ao voto era bem concedido a poucos. A lei previa que num povo iletrado e economicamente desprotegido os votantes soubessem ler e escrever, tivessem rendimentos próprios aceitáveis e encabeçassem família. À época, a Constituição da República Portuguesa consagrava o princípio da igualdade entre homens e mulheres. Ardilosamente, pressupunha, pelos quesitos necessários ao exercício do voto, deste estarem arredadas as mulheres - não tinham independência económica ou família a cargo, a instrução era mínima ou inexistente. A viuvez e os filhos a cujas necessidades atendia, conferiam à médica o estatuto de chefe de família, que, a par da instrução elevada e vencimento próprio, legitimavam-lhe participação na vida sociopolítica através do voto. Assim o fez após sentença judicial que lhe reconheceu o direito. Votou na eleição para a Assembleia Constituinte de 28 de Maio de 1911. Após o acto isolado e audacioso no ambiente cultural reinante, o poder político decidiu em 1913 excluir expressamente as mulheres do exercício do voto.

Do arrojo dos portugueses provêm mudanças sociais que são impostasao poder político inconsequente, cabotino ou arrogante. “Esconder a cabeça na areia,” “chorar sobre leite derramado” ou “lamuriar de véspera como o peru” que acaba recheado no forno diz, sensato, o povo de nada adiantar. Intervir, erguer orgulhosamente o queixo, não ceder os devidos direitos e cumprir deveres, é oleada rampa para a projecção de um povo responsável e de um país melhor. Havendo muitas Carolinas, seja seguido o exemplo da Beatriz Ângelo. Recusemos a humilhante condição de carpideiras embrulhadas em xailes negros ou de falsos gatos-pingados. Merecemos melhor - partisans que fazem a diferença.


CAFÉ DA MANHÃ

Agradeço ao Nau da Índia a ligação, ao Vida das Coisas o destaque, o destaque de um excerto do texto do dia 30 de Dezembro, malgré a designação de blogue estranho com nome esquisito e aos Filhos de um Deus Menor recomendo vivamente a visita.

Publicado por Teresa C. às 06:57 AM | Comentários (0)

janeiro 02, 2007

CIRANDA DA BAILARINA

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Autor que não foi possível identificar

Procurando bem, todos temos chagas, cicatrizes, um dedo torto, verruga, pé maior que o outro ou unha roída.

Futicando bem, não nos livramos de remela, do cabelo desalinhado, das olheiras ao acordar, dos pêlos como antenas fora da linha das sobrancelhas, da picada de um mosquito, da pestana virada para dentro do olho, comichão na pele e dores no pescoço.

Reparando bem, toda a gente tem medo de cair e ficar magoada, medo do escuro, medo de não ter colo, receio de ser mal-amada, pavor de se enganar e não ter remédio. Que tem.

Confessando bem, cada um esconde pecados e pecadilhos, foi incoerente, infiel, ignora as três Marias da constelação Orion, os segredos do motor turbo, a química da vida, tem angústia, pesadelos, desgosto com parte do corpo, histórias tristes que resistem à memória vã.

Só os outros não têm o que têm como todos. Da bailarina julgamos e dizemos não ter. Mas tem. A bailarina, envolta em musselina ou com folho de tule engomado torneando a cintura, ciranda no ar e toca o chão roçando, num sussurro, a ponta dos pés. Ciranda com os braços em arco e a vertigem do movimento das pernas cega da bailarina as imperfeições. Que os outros não vêm e, por isso, invejam. Idealizam. Mas tem. E se a bailarina não somos, pacifiquemos o estar com leveza na fala do corpo, postura erecta, flexibilidade, suavidade nos gestos e sensibilidade. Como a bailarina.

Baseado no poema de Chico Buarque e Edu Lobo que aqui ao lado passa na voz da Adriana Calcanhoto

Publicado por Teresa C. às 10:24 AM | Comentários (0)

janeiro 01, 2007

A GRANDE COISA

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Dinh Dang

«Este século produziu apenas uma grande coisa, a liberdade, e produziu apenas um grande homem, Napoleão. Não temos mais um grande homem. Tentemos ao menos manter a grande coisa.»

Victor Hugo

Publicado por Teresa C. às 09:27 PM | Comentários (0)