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janeiro 28, 2007
PUXAR DA MOLESKINE

Robert Lambert
Ao domingo, o tempo ainda é nosso. Menos do que no sábado ou no serão de sexta-feira. Mas nosso. O acordar é tardio, aos poucos despedindo o matutino ramerrão da semana. Preguiçar, primeiro na cama, depois pela casa em trajo de dormir. Peparar aromático pequeno-almoço que o fim-de-semana permite. E o silêncio. Quebrá-lo mais tarde, quando a vigília chega inteira e escolhe forro musical ou noticiários. Mas é o apelo do espaço quieto a render-me seduzida. Depois, abrir a janela e receber no rosto o ar lavado e frio. Escrever, sabendo da cidade a quietude. As emoções fluindo para as teclas, transmitindo o possível. A natural reserva ocultando segredos e os mistérios privados. Desvendá-los seria ocisoso e deixaria moribunda a privacidade indispensável à vida.
Um duche voluptuoso. Cada milímetro de pele acariciado pelo gel perfumado em harmonia térmica com a água límpida. Um turco de trama espessa, felpudo, recebendo o corpo dolente e perlado de água. O creme que os dedos fazem correr dos pés às curvas e ninhos. A nuvem de perfume condensada no corpo nu. O roupão. Espreitar, de novo, o parque, a cidade ao longe, adivinhar o frio. Roupa confortável, ténis, blusão quente. Sair. Mergulhar na atmosfera quase líquida.
Não temos a tradição dos bancos memoriais que noutros países abundam. A Inglaterra, a Escócia, legitimam que nos lugares escolhidos por anónimos ou personalidades para fruírem do espaço, sejam colocados bancos de madeira. Ternamente, cada um possui placa alusiva à memória de quem o sítio preferiu. Por cá não os temos, dizendo-nos românticos e sentimentais. Talvez por o fado ser o luso escoadouro das mágoas e (des)amores, descuidámos outras expressões da memória. Quantas vezes, no caminhar de domingo, gostaria de parar, confortável, puxar da Moleskine e fazer registo duma peculiaridade...
Publicado por Teresa C. às janeiro 28, 2007 10:20 AM
Comentários
Querida Tati;
Vejo-a "admiradora" da fiel moleskine. Mesmo sem banco de madeira que a acolha, retire da cidade e da manhã, o pormenor que tão bem saberá registar nesse objecto com história que "acompanha" quem está atento(a) à vida.
Publicado por: Ela às janeiro 28, 2007 07:13 PM
Acordar tardio? Perguiçar na cama e pela casa? Não deves ter filhos :-) ou então sou eu que não sei levar a vida.
Publicado por: asdrubaltudobem às janeiro 29, 2007 03:29 PM
Acordar tardio? Perguiçar na cama e pela casa? Não deves ter filhos :-) ou então sou eu que não sei levar a vida.
Publicado por: asdrubaltudobem às janeiro 29, 2007 03:30 PM
Ela - minha querida, fiel, fiel, não é bem o caso, pois as malinhas fashion nem sempre contemplam lugar para ela. Este apelo do look é maleita que desisti de curar.
Asdrubal - tenho para mim que a disponibilidade é uma conquista interior.
Publicado por: Tati às fevereiro 1, 2007 06:04 PM