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janeiro 13, 2007

QUASE NUA

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Daniel Bilodeau

Saíste de mansinho. Evitaste acender luzes espias da tua presença na casa dormida, como se foras amante esquivo. Deixaras em doce limbo, entre o sono e a vigília, um corpo quente que o teu amara, cujo calor, na noite fria, o teu ainda alimentava. O volante, no escuro rasgado pelos faróis, madrugada alta, sabia as voltas e o caminho. A estrada era tua. Poucos se afoitavam a quebrar a quentura da cama trocando-a pelo vazio da noite, salvo o trabalho ou uma urgência ou o acaso duma necessidade.

Forraste a calor e música a distância. De cor, revias momentos, a custo decantando os mais impressivos, de tal modo e tantos havias gravado. À mesa, pensavas, tinham sido o casal antigo de gestos familiares; ela voltara a ser menina, e nem escondia a alegria que lhe ruborizava as faces a coberto do rubi que o vinho refractava. Sentiste-a como a tua mulher, sem dizeres que era a tua mais nova namorada.

Enquanto o escuro deslizava, escolhias uma, a uma, as palavras como cerejas brilhantes e carnudas que, mais tarde e com a força da verdade, lhe dirias. “Tens os estímulos que me faltam e as pernas que desejo. Falas-me do que não sei e ouves-me como se eu fosse a própria novidade. Misturas o perfume com as palavras e serves-me, como a um príncipe, o cozinhado que aqueceste com ternura. Alinhas-me os chinelos à saída do banho e estendes-me os braços abrindo num só gesto a candura da toalha, da camisa e dos lençóis da tua cama. Não apanhes frio - dizes-me quase nua. E olho-te como se nunca te tivesse visto, perguntando-me o fiz, o que disse para a tua dádiva ser do tamanho da minha imaginação. Quero-te para te dar o que nunca te deram. Para descobrir e te dar o que, sem saber, tenho.”

Na serenidade do amanhecer, desperta, ela respondia à pergunta que noutro lugar, no mesmo instante, ele lhe fazia: “Queres-me?” – “Quero!” O silêncio das palavras foi testemunha.

Publicado por Teresa C. às janeiro 13, 2007 10:49 AM

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