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janeiro 30, 2007

RACHAR LENHA

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Deborah Poynton

Alguém que guardo rente ao espírito, afirma abster-se no referendo sobre a descriminalização do aborto. Fundamenta: “tratando-se matéria de consciência que enreda íntimas questões éticas, votar é legitimar a interferência do Estado nos valores individuais. Ele que se informe, pondere, legisle e não aguarde pela anuência dos cidadãos.” Ponto de vista que contestei. Sendo estritamente éticas as decisões, mais decisivo se torna o veredicto de quem a cidadania leva a sério. Certamente, o povo ao eleger os representantes nas estruturas do poder decisório não lhes outorgou procuração com plenos poderes sobre a consciência individual.

Esgrimir argumentos pelo Sim ou pelo Não é, neste espaço e momento, ocioso. Outros, em diferentes escalas de demagogia e verdade – “quem está de fora racha lenha!” -, o têm feito. Interrogam-me, sim, os dados obtidos que apontam para maior abstenção das mulheres que dos homens. Não usarei o chavão de nos pertencer o útero que aloja o embrião. A vida não pertence a ninguém. Nem ao próprio. É bem que nos foi concedido e, querendo recto um caminho, cumpre-nos a obrigação dele fazer uso digno. Porém, numa gravidez, há três vidas a merecerem respeito. Dele depende o futuro da mais frágil, daquela que em silêncio multiplica células desde o instante da concepção.

Defendo o Sim por que, em consciência, recuso a hipocrisia - neste particular, nos amores, nas relações de trabalho. Na minha conduta em geral. Deslizes? Sim, tenho. À vulnerabilidade da humana condição não sou imune. Ainda bem. Anjos não me fazem o género, talvez pelo ar rubicundo, olhos em alvo e patéticas representações. Depois, há as asas. Seres alados apenas pousam em solo firme para descansar, buscar alimento e procriar. Básico proveito do muito que o planeta e quem nele habita tem para dar. Sem angélicos pios, voto Sim e digo Não à abstenção.

Publicado por Teresa C. às janeiro 30, 2007 07:30 AM

Comentários

Apenas um pensamento me levou a ainda não tomar uma decisão. O medo que a banalisação do aborto leve a que muitas mulheres (e homens poruqe os homens também têm responsabilidades) passem a usar o aborto como método anticoncepcional. E olha que eu acho que é uma hipótese bem real.
Tenho pena que no meio desta discussão toda, com insultos à mistura que demontram bem o quanto impreparados nós somos para viver em democracia, ninguém apresente planos reais e efectivos de planeamento familiar e educação sexual.

Publicado por: asdrubaltudobem às janeiro 30, 2007 02:33 PM

A minha opinião ja conhece.

Deixe-me dizer uma coisa, que já devia ter dito há muito: ainda bem que encontrei este blogue :)

Publicado por: Sandro Franco às janeiro 30, 2007 10:23 PM

O conceito de vida digna deixa-me perplexo.
Mas se existe vida digna, existe vida indigna. Ora aí está um conceito, que me deixa ainda mais perplexo.

Publicado por: vento às janeiro 31, 2007 10:54 PM

Asrubal - concordo consigo. Entre o anterior referendo e este nada foi feito no sentido de, com maior eficácia, informar a população sobre a sexualidade, métodos anticoncepcionais, ou apoio às mães sós.

Sandro Franco - é um doce! Obrigada.

Vento - entendo o que pretende dizer, julgo. Qualquer vida é digna, decerto, porém, o modo como ela é vivida nem sempre respeita as condições mínimas para uma sobrevivência honrada.

Publicado por: Tati às fevereiro 1, 2007 06:10 PM

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