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fevereiro 15, 2007

A CURVA DO TEU NARIZ

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Alba e Alexandra Quinn

Foi um acaso ter-te visto. Bisei o olhar, à cautela, não fosse miragem ou semelhança logo desvanecida. Mas não. Eras tu. O fato, o corpo e a falta de pose conhecidos. Entretido como estavas, era diminuto o risco de me veres. Ousei a indiscrição. Percepcionei melhor. Os movimentos automáticos eram os de sempre – a matriz do comportamento não muda assim. Atentando, talvez escoasses incerteza e preocupação. Fora-se a plasticidade emotiva. No rosto havia agora metal. Surpreendeu-me o nariz. Afilava, após curva mal-jeitosa. Curioso, pensei, nunca ter reparado nela. Dos olhos-nos-olhos em que nos deleitávamos, a proximidade devia esborratá-la. Prova da cegueira amorosa? Julgava-a limitada ao espírito e, além do mais, corpo é corpo, portanto objectivo nas minudências.

Parcos minutos, segundos?, e foste. Aconcheguei-me no assento. Dei reposta distraída, de prestes sublinhada. E ri. A conversa prosseguiu. Isenta do ruído que a tua imagem fugitiva poderia ter causado. Ficaram a presença e o diálogo que até ali me levaram. Horas passadas, voltei a ti. Quando te amava, em que lugar escuso guardei a curva do nariz? Ao ver-te, onde estava a nostalgia? A pressa do coração? O carinho? A grilheta do espírito? À pergunta de Telmo que me fiz, “Quem és tu?, respondi como o romeiro de Garret – “Ninguém!”


CAFÉ DA MANHÃ

O António Trindade honrou-me com o destaque do texto “Já P’ra Casa”. Antes, descobrira este espaço por uma amiga. Obrigada também, “Amiga”!

Publicado por Teresa C. às fevereiro 15, 2007 08:08 AM

Comentários

Por mais que uma vez me tenho perguntado, ao longo da vida, quel o real significado desse "Ninguém", do romeiro do "Frei Luis de Sousa".
Ninguém?! Somos sempre alguém, ainda que de somenos importância, ou de valia muito reduzida pelo desgaste do Tempo.
Ninguém?! Todas as pessoas com quem nos cruzámos em algum lugar/tempo da nossa vida permanecerão para sempre presentes neste nosso irrequieto espírito. Não nascemos com algo parecido com um botão de reset que nos permita apagar memórias (tanta falta me tem feito tal possibilidade, ao longo dos tempos...).
Por isso, querida Amiga, não creio muito que a curvatura nunca perscrutada daquele nariz se tenha desvanecido com o tempo. Ela está lá e está cá, no fundo da alma, à espreita...

Aqueles olhos negros, num corpito pequeno tão mais pequeno que o meu, nunca mais me largaram até hoje!

Publicado por: j às fevereiro 15, 2007 05:57 PM

Pois é ....
Neste curioso texto da Tati e na resposta do J parece que está a prova de que depois de se trocarem dois olhares seguidos "ninguém" poderá continuar a ser "ninguém" por mais que o queiramos afirmar.

Será que estamos perante a situação de "amores" que finaram mas ainda não acabaram?!

Pelas leituras que a TATI nos tem deliciado julgo que é mulher para isso ...

E boa viagem a Paris

CC2CC

Publicado por: cc2cc às fevereiro 16, 2007 06:47 PM

Caríssimos J e cc2cc - Um esclarecimento: não vou para Paris. Seria gostoso o regresso, mas não é o caso. Quanto a amores mal-resolvidos não sou «piquena» para isso. Para desamores ainda menos. Quero intacta a paixão pela vida. Por isso o «Ninguém». Fica a curvatura do nariz e já é muito, nada mais havendo a recordar. É bom enquanto dura. «Depois» não faz parte do meu léxico amoroso, salvo quando sobrevem a amizade terna que os merecimentos do outro e o histórico de ambos justificam.

Publicado por: Tati às fevereiro 16, 2007 08:01 PM

Salvaguarda alguma situação anómala, lá está, querida Tati! Algum merecimento ficará, a justificar alguma ternura.
Não lhe parece bem a subentendida viagem a Paris?!?! (estou a rir-me, como já há muito não me acontecia...)

Publicado por: j às fevereiro 20, 2007 04:09 PM

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Recordar-me?