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fevereiro 16, 2007
ANTENA HIFI E LEITOR DE CD

Susan Rios
É assim desde que ousamos a fala. Mais cedo e melhor que eles. De argúcia não temos falta, e se nos acusam de arredondarmos o discurso é por sabermos bem demais o que há a dizer e de algum entendimento masculino processar lentamente o óbvio. Aliás, há proporcionalidade directa entre a dificuldade de aquisição deles perante evidências que lhes confundem as práticas, com o feminil rodear das questões. Tememos que os nossos homens entupam os meandros racionais e se fiquem por reacções primárias se for curta e incisiva a nossa intervenção. Daí elaborarmos. Peregrinarmos em subtilezas várias. Tendo sido leve o dia, assim procedemos. Se a Joaninha vomitou quando já tínhamos a pasta na mão, os papéis e os e-mails rodopiaram em carrocel, foram rejeitados projectos que nos levaram ror de tempo e cenho carregado e os inerentes telefonemas queixosos às cúmplices de sempre, o caso muda de figura. Chegadas a casa, uma de duas: ou optamos pelo silêncio, ou “aí vai água e abriguem-se os incautos.”
As parábolas que engendramos para comunicar com eles merecerem nomeação para qualquer Golden Prize mundial. Um exemplo: o diâmetro do abdómen dele esticou, é visível a desorientação do tente-não-caias muscular, as bochechas ameaçam confundir rosto com pescoço. Que fazemos? Confrontar o amado e rotulá-lo como «pote»? Jamais! A auto-estima lubrifica a conjugalidade. Resta fabular. Serenando a intimidade, com doçura (re)mexer e beijar (não adormeça), sussurrando: “Hummm... estás cada vez melhor (verdade após a saciedade), enlouqueces-me (verdade no desarranjo da roupa e na indisciplina de horários), quero-te tanto, tanto... Adoro-te homem (verdade no momento em questão)! Sabes, descuidámos a alimentação – molhos a mais, fritos, legumes e fruta a menos. Ah!, e umas caminhadas a dois; coisa pouca (verdade, mas só no começo – depois verás o que te espera!). Namorávamos mais... Humm... Ainda era melhor... Que dizes «coquinho»?”
E o «coquinho» cede. E dorme. E acorda. E vai trabalhar. E chega para jantar. A cada dia uma novidade: sopa verde-carregado, peixe na grelha, omissão de molho, refeição acompanhada a água e por uma batata-berlinde mais verdes misturados. Óptima altura para constatarmos se ele é mesmo «coquinho» ou um Ares disfarçado. Por mim falo: não tendo para a estratégia descrita vontade e paciência, antes anafado do que para mim tal fado.
CAFÉ DA MANHÃ

Publicado por Teresa C. às fevereiro 16, 2007 07:12 AM