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fevereiro 28, 2007

BISAVÓ MARIA AUGUSTA

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Yang Ge

Segurava-me pelos folhos do vestido. Os olhos eram azuis, o cabelo branco enrolado ao alto. A pele tinha-a branca. Macia. As rugas, de tão finas, mal se viam. Envolta em névoa, vejo-a por detalhes. Como a luz que irradiava. Real, ou inventada pela curiosa pequenita de caracóis presos num laço que eu era. Como todas as crianças que crescem rodeadas de ternura e nada temem do vislumbrado para lá da janela recolhida por espessas paredes de granito. Por isso segurava a bisneta pelos folhos do vestido, não ousasse ela arroubo intempestivo perante a vastidão do mundo que a janela prometia.

Nada saberia da mulher em que a pequenita de dois anos se tornaria. Intrépida. Curiosa. Os pés fincados em afectos. O olhar preso às extremas do horizonte. E queria. E buscava. Assente, todavia, no protegido tapete da ternura. Sólido. Inquestionável. Como o futuro. Cedo abandonado. Trocado por presente de valores e responsabilidade. O amanhã? Sim, e depois? Se ainda hoje não adormeci...

A ausência de amanhã fez de cada dia uma urgência. Exigente. Com ela, primeiro. Pelo exercício da dádiva como aprendera em família e caracterizava o clã. Restrito. Pela ambicionada perfeição diária. Que não conseguia. E enchia de culpas um saco que atrás de si arrastava. Até pesar demais e tolher o passo. Parou para o remexer. Analisou cada culpa. Muitas arremessou no vazio para não mais as ver. Como seixos projectados em águas tumultuosas pelo degelo. Outras arrecadou e com elas constituiu modesto livro de sabedoria. “Para os gastos”, dizia rindo. Mesmo quando os olhos húmidos a desmentiam.


CAFÉ DA MANHÃ
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O Táxi que me apanhou – Lançamento dia 2 de Março às 21:30h na Livraria Bertrand do C.C. Vasco da Gama em Lisboa. Apresentação a cargo de Raúl Solnado.

Publicado por Teresa C. às fevereiro 28, 2007 06:43 AM

Comentários

A recordação das minhas avós é das mais ternas que guardo no meu baú das memórias. Ao lê-la, e porque já sou avó, pensei que gostaria que o meu neto um dia pudesse recordar-me assim. Por enquanto sou aquela que olha, ama, protege educa mas também aquela que ainda sonha com o futuro deste menino. Queria eu lá estar!

Resto de uma boa noite

Publicado por: Gi às fevereiro 28, 2007 07:09 PM

Só "tive" uma avó e por demasiadamente pouco tempo. O suficiente, porém, para não esquecer nunca a canção de Natal que me ensinou:

Ó meu Menino Jesus,
boquinha de requeijão.
Quem vo-la comera toda
com um bocadinho de pão.

Era a minha avó Fortunata!

Publicado por: j às março 1, 2007 08:38 PM

Gi e J - uma memória feliz, minha, que desencadeou outras igualmente preciosas nos dois. Foi bom sentir-vos assim.

Publicado por: Tati às março 4, 2007 07:08 PM

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Recordar-me?