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fevereiro 18, 2007
COMO QUEM CHAMA UM TÁXI

Autor que não foi possível identificar
Da vida é dito ter artes de malvadez. “Ninguém diga estar bem”, “não digas desta água não beberei”, “a desgraça vem ser chamada”, “a fortuna é como o vidro: — tanto brilha, como quebra”, são alguns dos avisos populares. A roda incerta da fortuna, - sorte, entenda-se – prega partidas mais depressa que um piscar de olhos. E ao guinar do eixo não escapam ricos e pobres.
Quem menos tem aspira aos recursos dourados que trariam felicidade sem igual, os abastados (per)juram que o dinheiro não conduz à beatitude - para dentro acrescentando ajudar muito. Uns desdizendo o possuído, outros ambicionando-o. “Verdade, verdadinha”, como era uso dizer na Beira, todos nos damos por insatisfeitos. Má sina esta, a de somente valorizarmos um bem após ter “ido à viola.” Vale-nos a vida “dar com uma mão o que tira com a outra”, e – que bom para mim! – normalmente dá melhor. Fico, portanto, caladinha, dispenso críticas à sorte por, até ao momento, não me dar razões de queixa. Pelo sim, pelo não, ambiciono saúde e mais não peço. O comedimento costuma ser avisado.
Inops, potentem dum vult imitari, perit - a desgraça do pobre é querer imitar o rico. Que o digam os endividados até ao gasganete, não raro e à conta das fraquezas, conduzidos à vilania. Aquela do grupo de amigos endinheirados na esplanada de um restaurante da Riviera francesa prova andar a felicidade arredia do dinheiro. Qualquer coisinha por ali mastigada custa os olhos da cara - uma merenda de fim de tarde estival composta por ostras e um genuíno champanhe limpou ao quarteto uma infamante quantia. Assim, numa penada! E já lá vão uns anos... Voltando à confraternização falada: acabado o repasto, ordenam alguns presentes, como quem chama um táxi, que o helicóptero privado os recolha. A máquina vem, pega nuns tantos, atrapalha-se e cai sobre os restantes. Uma desgraça. Ai triste sina que a todos endromina... “A hora é incerta, mas a morte é certa — morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora.
SERPENTINA
Para hoje, o careto que escolhi é este. Terça-gorda outro será.

Donald Rust
Publicado por Teresa C. às fevereiro 18, 2007 11:08 AM