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fevereiro 17, 2007
DILEMA DO PRISIONEIRO

Jacques-Louis David
Aventurando-me a perorar sobre temas em que é abissal a diferença entre o que sei e há para saber, a escrita surge como registo do raciocínio de quem está disponível para saber mais. Ora, acompanha-me a consciência de ser mulher de sorte. Prova-o leitor atento que não deixou passar, erros, ambiguidades e conclusões apressadas no texto “Quando a maçã caiu”. Com autorização do autor, transcrevo o comentário/correcção.
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1. A idade da Terra é 15 mil milhões de anos, pelo que ficaram a faltar 3 zeros;
2. O altruísmo é um problema muito interessante, porque parece desafiar a teoria de Darwin, com implicações muito fortes para a nossa vida social. Peguemos num exemplo conhecido: como justificar a possível natureza genética da homossexualidade? Quer dizer, como é que um possível gene associado à homossexualidade poderia "sobreviver" quando ele, a existir, faria, claramente, diminuir a probabilidade de propagação dos genes do indivíduo?
Ao longo do tempo, seria natural que ele desaparecesse. A não ser que esse gene tivesse outras "funções", não tão óbvias. (Note-se que não estou a dizer que a atracção é justificável, no todo, ou sequer na parte, pela componente "nature", apenas me debruço sobre essa hipotética componente, relevante para este contexto).
Embora esta questão - da questão da sobrevivência dos genes do indivíduo (e não das causas da homossexualidade, que vêm para aqui meramente como exemplo) - não seja pacífica, actualmente são poucos os que reduzem a questão a termos puramente individuais, e por uma questão simples: é que cada indivíduo partilha alguns dos seus genes com outros. Os nossos irmãos, pais, avós, primos, etc, partilham - em graus diferentes, claro - parte do nosso património genético.
Por exemplo, um irmão e um pai têm 50% dos nossos genes, um tio 25% e um primo 12.5%. O altruísmo ao nível das relações familiares de consanguinidade fica explicado em termos "puramente egoístas", se quisermos, porque cuidar de quem partilha parte dos nossos genes é também assegurar que os nossos genes sobrevivem com maior probabilidade.
Quanto ao altruísmo relativo a não familiares - e falo em termos puramente biológicos, mais uma vez, não digo que a biologia seja, de modo algum, suficiente para compreender o comportamento humano -, à "comunidade", a verdade é que uma certa "cooperação" pode ajudar a aumentar a possibilidade de sobrevivência do próprio. A "reciprocidade" prospera, entre outros motivos - sociais, morais, etc. - também por isto. Não devemos ter medo de explorar a componente genética em toda a sua extensão.
No exemplo que propus, a homossexualidade - ou, talvez melhor, a homossocialidade e, eventualmente, a homoeroticidade - seriam formas de tornar uma comunidade menos agressiva, diminuindo as fricções entre os "machos" (falo do mundo animal em geral), fazendo, mais uma vez, com que a espécie fosse mais bem sucedida como um todo, ainda que "sacrificando" a propagação (dos genes) de um indivíduo em particular. Há quem tenha visões diferentes sobre isto, deixo apenas algumas pistas. Repare-se que a prevalência da homossexualidade no reino animal é hoje um facto que alguns desdenham - como se adivinha - por razões ideológicas. (Pesquise-se "Against nature?" no Google para mais informação sobre isto).
Um aspecto particularmente interessante relativo a possíveis explicações biológicas/genéticas do altruísmo tem que ver com a possibilidade de alguns comportamentos altruístas não serem necessariamente frutos de uma decisão "moral", mas quiçá de uma decisão "estratégica". Isto é um desafio enorme à nossa sociedade, por razões óbvias. Entre outros, Thomas Schelling falou brilhantemente sobre isto, como cito aqui
3. Quanto ao "dilema dos prisioneiros", a ideia, embora apele ao "egoísmo" vs "altruísmo", não tem directamente - ou pelo menos fundamentalmente - que ver com isso. O que acontece é que se o prisioneiro for "racional" e "inteligente", independentemente do que o outro prisioneiro fizer (escolhas que ele não observa, mas que pondera, no cálculo da sua "escolha óptima"), ele ficará sempre melhor se optar por "confessar".
Se o outro confessar e eu não confessar, eu apanho 3 anos de prisão. Se o outro confessar e eu também confessar, levo com 2 anos. Como 2 anos são melhores que 3 anos, eu prefiro "confessar" quando imagino que o outro vai confessar.
Se o outro não confessar e eu também não confessar, ambos levamos 1 ano de prisão. Se o outro não confessar e eu confessar, eu levo 0 anos de prisão. Como prefiro 0 anos a 1 ano de prisão, eu prefiro "confessar" quando imagino que o outro não vai confessar.
A conclusão é que eu, sendo racional e inteligente, prefiro sempre confessar, independentemente do que o outro faça. Tecnicamente, "confessar" é uma "estratégia dominante" para mim. Como o "jogo" é simétrico, é também uma estratégia dominante para o outro. O resultado é que ambos vão confessar e apanhar 2 anos.
O "dilema" está em que ambos poderiam ficar melhor se não confessassem - apanhando 1 ano de prisão apenas cada um. Contudo, não existe forma de eles se "coordenarem". Mesmo que eu conseguisse comunicar à Tati "Não vou confessar, não confesse a Tati também, por favor", se a Tati de facto acreditasse em mim, iria, não obstante, perceber que, dado isso, o melhor era confessar, já que, uma vez que eu (por hipótese) não confessava, a Tati ficava com 0 anos de prisão caso confessasse. Simplesmente, não há volta a dar quando falamos de "estratégias dominantes" neste tipo de cenário.
E o cenário é de um jogo que acontece apenas "uma vez". Quando o jogo é "repetido" - como acontece na vida real, humana e animal -, é possível existir coordenação em jogos que são "dilemas de prisioneiro" num jogo isolado.
As características duma situação de "dilema de prisioneiros" são duas:
i) todos os jogadores têm uma estratégia dominante;
ii) o resultado da escolha racional dos jogadores - que só pode ser um, porque todos só podem, racionalmente, optar pela sua estratégia dominante - é inferior a outro resultado possível, para todos os jogadores.
Ou seja, todos os jogadores poderiam ficar melhor se fosse possível evitar o resultado "trágico" proporcionado pela escolha das estratégias dominantes num jogo do tipo "dilema dos prisioneiros". O problema é que esse outro resultado é possível - à partida - mas muito expectável num só jogo. Claro que um prisioneiro muito estúpido pode optar por "não confessar", sem perceber que isso é irracional.
As considerações morais podem mudar um pouco isto, mas apenas (ou quase apenas, para não ser absoluto) em jogos repetidos. Aí, poderíamos ter estratégias de "punição", que podem fazer com que os jogadores se "portem bem". Uma das estratégias mais conhecidas dá pelo nome de "tit-for-tat", espelhando a ideia de reciprocidade: começa-se cooperando e depois disso imita-se o que o opositor tenha feito na jogada anterior. Assim, pune-se um "desvio", mas permiti-se perdoar esse desvio caso o opositor se redima e volte a cooperar.
Quando escreve “Como pode um gene perpetuar-se se abdicar de si em favor de outrem, quiçá provocando a própria morte? Problema conhecido por "dilema do prisioneiro", embora perceba a "analogia", julgo que a aplicação do conceito (mesmo se bem entendido) de "dilema de prisioneiro" não será a mais correcta aqui. É um problema - o que a Tati propõe -, de facto, de "altruísmo", todavia o dilema de prisioneiro não é, em primeira análise, um problema de altruísmo, mas de impossibilidade de coordenação no resultado que seria melhor para todas as partes, simplesmente porque os incentivos individuais impelem cada jogador a escolher de forma diversa. Note-se que falar de "incentivos individuais" não é o mesmo que falar de "egoísmo", mas não me alongo mais aqui.
Tiago Mendes
Publicado por Teresa C. às fevereiro 17, 2007 11:09 AM