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fevereiro 28, 2007

BISAVÓ MARIA AUGUSTA

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Yang Ge

Segurava-me pelos folhos do vestido. Os olhos eram azuis, o cabelo branco enrolado ao alto. A pele tinha-a branca. Macia. As rugas, de tão finas, mal se viam. Envolta em névoa, vejo-a por detalhes. Como a luz que irradiava. Real, ou inventada pela curiosa pequenita de caracóis presos num laço que eu era. Como todas as crianças que crescem rodeadas de ternura e nada temem do vislumbrado para lá da janela recolhida por espessas paredes de granito. Por isso segurava a bisneta pelos folhos do vestido, não ousasse ela arroubo intempestivo perante a vastidão do mundo que a janela prometia.

Nada saberia da mulher em que a pequenita de dois anos se tornaria. Intrépida. Curiosa. Os pés fincados em afectos. O olhar preso às extremas do horizonte. E queria. E buscava. Assente, todavia, no protegido tapete da ternura. Sólido. Inquestionável. Como o futuro. Cedo abandonado. Trocado por presente de valores e responsabilidade. O amanhã? Sim, e depois? Se ainda hoje não adormeci...

A ausência de amanhã fez de cada dia uma urgência. Exigente. Com ela, primeiro. Pelo exercício da dádiva como aprendera em família e caracterizava o clã. Restrito. Pela ambicionada perfeição diária. Que não conseguia. E enchia de culpas um saco que atrás de si arrastava. Até pesar demais e tolher o passo. Parou para o remexer. Analisou cada culpa. Muitas arremessou no vazio para não mais as ver. Como seixos projectados em águas tumultuosas pelo degelo. Outras arrecadou e com elas constituiu modesto livro de sabedoria. “Para os gastos”, dizia rindo. Mesmo quando os olhos húmidos a desmentiam.


CAFÉ DA MANHÃ
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O Táxi que me apanhou – Lançamento dia 2 de Março às 21:30h na Livraria Bertrand do C.C. Vasco da Gama em Lisboa. Apresentação a cargo de Raúl Solnado.

Publicado por Teresa C. às 06:43 AM | Comentários (3)

fevereiro 27, 2007

DIÁRIO DE UM GIGOLÔ

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B Mont

Recebe este blogue a visita espaçada de um auto-proclamado Gigolô. Satisfatório ou medíocre na função, só ao próprio e à virtual clientela diz respeito. Inquestionável é ter verve humorada e discurso escorreito. Escreveu: “Não vale a pena pensar que ainda há uma ou outra que era capaz de, na dúvida, ficar com o bom rapaz. Isso só pode acontecer quando elas não se acham capazes de chegar ao sacana, ao engatatão de bom coração, ao criançola de nádegas firmes, ao caso perdido de olho azul. O corolário lógico desta tendência feminina é simples: se não se é bom c'mo milho, mais vale ser-se mau como as cobras.” E não é que o homem está pejadinho de razão? Adoramos casos quase perdidos – perdidos ma non tropo, o que justifica o malfadado «quase» feminil. Do papel de redentoras não prescindimos. É fatal a tendência do mulherio para cair de amores por sacanas, particularmente se estes souberem da poda, isto é, tiverem lábia e lábios ardilosos. Deveríamos merecer vacina atempada contra tais bichos-homens, estando reunidos marcadores de alerta – (in)seguras, donas-do-mundo, pouco habituadas a caretas da vida. Quando damos por ela, estamos presas como galinhas na capoeira. A Nicole Kidman que o diga, tadinha...

Escorregando o olhar para um texto mais abaixo, o generoso Gigolô avisa o mulherio naïf que se a fama de orgasmos fingidos é connosco, eles têm algum do proveito. Afirma: “enquanto que, na mulher, a alma condiciona o corpo e chega a tornar impossível o prazer, no homem, a alma reclama mas mete baixa, e o corpo continua a trabalhar em busca do alívio físico, que não é o mesmo que o prazer, embora às vezes possa ser.” Dixit. Neste particular, a ingenuidade está com ele. Meu caro, disso sabemos há muito. Optamos, práticas e gentis como somos, pelo ar vagamente apardalado, como se furado o pneu esperemos um incauto que nos livre do embaraço. Não raro, é eles tomarem-no por êxtase renovado. Um imbróglio na encenação sexual. Eles fingem, nós fingimos. É que entre a recapitulação mental da agenda para o dia seguinte, e justificar o desprendimento, uns ais e uis com respiração ofegante resolvem num suspiro o nem-ata-nem-desata. Como divulgou o F. J. V. e escreveu uma das 3 de Trinta: “Há mulheres que gostam de ter prazer sozinhas. Eu prefiro ter alguém a assistir.” Bem visto!


CAFÉ DA MANHÃ

O primeiro Aniversário dos "Dedos" merece destaque. Muitos parabéns!

Publicado por Teresa C. às 07:19 AM | Comentários (4)

fevereiro 26, 2007

NA DOBRA DO SEIO

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Autor que não foi possível identificar

Da sociedade actual é dito ser de consumo. Avaliado o prazo de validade, o produto sai da prateleira para o carrinho. Avantajado na capacidade. Nele cabe sempre mais um – alimento, afecto, congelado de promessas recheadas de suculentos sabores. E o cartão paga, mesmo se o dono come do casco. Com as gentes o mesmo - validade curta, esticadas, enceradas, luminosas por via de aditivos adequados para que delas emane apetite imediato.

Recuso-me artifícios enxertados, aspirados, injectados ou cortados. Aceito no rosto leve paleta de cores. Os registos da vida preservo como louvor ao tempo em que fui e sou. Sem lamentos pelo passado ou piedade pelo presente. Enquanto erguida e sem vacilar, enfiar a meia de liga rendada que a coxa prende, o fio estreito não vincar a anca, calçar as botas de salto sem auxílio de encosto ou assento, o lápis não retiver na dobra do seio, e o pescoço não deturpar a ossatura do rosto, sou eu. Leque de finas rugas aberto no canto do olho que ri? Tanto melhor! É testemunho de milhões de instantes felizes.

Recear a nudez não me descreve. Temer o rosto lavado – “como suportas a minha cara de mete-nojo?” - é coquetterie a que cedo. A pele respira e agradece estar liberta para a doce intimidade. Fractura social e privado. Fim das normas, começo da (a)venturosa simplicidade – a espontaneidade como lei, o erotismo da verdade. E em que êxtases a verdade culmina quando sussurrada como fantasia!... A mentira da verdade, a verdade da mentira. O fio da navalha. A dúvida como brasa.

Publicado por Teresa C. às 09:04 AM | Comentários (3)

fevereiro 25, 2007

OLHA AQUI O CASALINHO!

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H. Sorayama

“Ó João, olha aqui o «casalinho»!...” E destinou-lhes a mesa mais apetecível. Nem ousou o incómodo de retirar talheres e pratos em demasia – já não os havia. A postura amante e iludida, de quem começa e acaba no outro o dia, isentava de dúvida o apertado laço que os unia. Quem o pudor desdizia, pelo olhar e sorriso e jovialidade, não carecia de entendedor subtil. Tudo exibido por via da proximidade dos corpos e pelo entrançado das mãos. Pelo olhar luzidio. Pelo fluido enamoramento que a olhares alheios parecia. Mas não era. Entendimento fundo de amantes que o amor (re)descobriram, sim. Descoberta do indizível, também. Fosse o que fosse, pertencia-lhes. Não amiudavam toques como soe em namorados de curta era. Não emudeciam como casal de histórico validado pelos anos. Seduziam. Primeiro, ao outro. Depois a quem os via. Pelo apertado laço. Pelas pontas visíveis.

Nem o João, nem o dono do espaço que os acolhia, imaginariam a sensata loucura em que o par se deitaria. O fugidio lar. O abrigo. Adequado ao indizível. Real. Espesso. Fluído nos corpos liquefeitos pelo desejo. Distantes da apertada teia onde não eram – existiam, somente, na campânula de cristal que os envolvia. E explodiam no prazer líquido que o corpo da mulher retinha. Sem dele se desfazer. Escorreria, depois, durante o abandonado sono. Pela manhã, do desejo satisfeito e da feitura do amor haveria vestígios. Por que repetido, não cuidavam da denúncia. Mais haveria. Não ali - novos abrigos comprariam. No último, não seria o João a cuidar do «casalinho». Desse não souberam o nome; bastou-lhes a atenção discreta e o frutado do vinho branco que desconheciam. Aroma bebido antes do líquido de ouro fino. O peixe, suculento após vagarosa passagem pela grelha incandescente, combinava com a salada de espargos verdes e cogumelos selvagens, pepinos e gourgettes fatiados, nacos de cebola e endívias. Tostados e subtilmente untados durante a assadura. O ar escaldava de risos e felicidade. Prolongados durante a luxuosa valsa nocturna. Um homem e uma mulher. Sólidos no amor. Líquidos no desejo.

Publicado por Teresa C. às 11:21 AM | Comentários (2)

fevereiro 24, 2007

NUM DIA ASSIM

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Mark Keller

Desapareceu a voz, a insubmissão e a sensibilidade. Há vinte anos, num dia assim. Húmido, anónimo até aí. A data ficaria gravada com tinta de esperança e mágoa. Cantar a consciência colectiva e dela fazer poema como arma, rareia nas gerações. Afrontar dos portugueses os receios e a cobardia, o limitado horizonte e os silêncios. Devolver honra e sentido à bolha de fé num futuro diferente.

Dos medos humanos, a solidão é o medo dos medos. No entanto, pessoas há que se escondem e outros que desafiam, triunfalmente, a solidão individual e de um povo. As distâncias cavam-se em ressentimentos e silêncios. Alguns reclamam que Deus faça aquilo que parece gigantesco à dimensão dos caprichos humanos – que afaste de vez o que nos assusta e garanta a felicidade. Porque Deus não está de passagem como nós, porque não se distrai com as comédias de enganos pelas quais pretendemos sossegar os nossos medos.

Pela pena e voz de Zeca Afonso, as grades espessas através das quais um povo via o quotidiano e o mundo amoleceram. O calor que transmitiu à alma portuguesa foi chama teimosa. E a força colectiva aumentou. O aço das grades foi minguando até mais não ser do que arame enferrujado caído ao chão. Ficou a memória e a voz, desaparecido o Homem. Num dia assim.

Publicado por Teresa C. às 11:47 AM | Comentários (4)

fevereiro 23, 2007

RAPIDINHA

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Driben

Se não pequei além do habitual, não enfeei, não engordei, nem amuei, por que diacho a Weblog recusou durante seis dias os comentários neste blogue? Vai uma aposta em como nesta «rapidinha» já funcionam?

Publicado por Teresa C. às 07:44 PM | Comentários (2)

PROFECIAS DE RASPUTIN

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James W Johnson

O homem não era boa rês, é sabido. De tudo afirmava saber por artes próprias ou do demo. Iluminado, mágico, santo, funesto, insuportável. Por muitos cultuado. Li por aí algumas das suas intuições (profecias?). A «modos que» as acho próximas dos horóscopos – cada um enfia a desejada carapuça.

“Antes que O meu corpo se converta em cinzas, cairá a águia santa. Será seguida da águia soberba.” - Por esta profecia foi entendida a queda do império russo, poucos anos após a morte de Rasputin, e a chegada do comunismo.

“As trevas cairão sobre São Petersburgo. Quando mudar o seu nome o império terá acabado.” - Com a chegada do comunismo, São Petersburgo passou a chamar-se Leninegrado. Perdeu a condição de capital em favor de Moscovo.

“Maldito o dia em que se faça comércio com o útero materno. Neste dia os homens deixarão de ser criaturas de Deus para se transformarem em criaturas da ciência.” - Referência ao aparecimento dos úteros de aluguer.

“O mar entrará nas cidades e nas casas. Os campos ficarão salgados. O sal entrará nas águas. Não haverá água que não seja salgada.” - O aquecimento global e o derretimento da camada polar fazem aumentar o nível dos mares. Muitas cidades costeiras correm o risco de desaparecer.

“Quando Sodoma e Gomorra aparecerem de novo na terra e os homens se vestirem de mulher e as mulheres de homem, vereis passar a morte cavalgando sobre a peste branca.” Interpretada como referência ao HIV, considerando a promiscuidade sexual como causa da disseminação do vírus.

“Chegará um tempo em que o Sol chorará sobre a terra. Suas lágrimas cairão como chispas de fogo que abrasarão as plantas e queimarão os homens.” - Possível referência à destruição da camada de ozono e respectivas consequências.

Como a maioria das profecias, as de Rasputin também deixam previsões de vida plena e abundante para a humanidade. Infelizmente, apenas após o caos que construímos. Uma coisa tenho por certa: odeio profetas!

Publicado por Teresa C. às 09:03 AM | Comentários (3)

fevereiro 22, 2007

AO VIGÉSIMO NONO DIA

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Autor que não foi possível identificar

"Trinta dias traz Setembro, com Abril, Junho e Novembro. Vinte e oito só traz um e os demais trinta e um”. Do mesmo outra versão: “"Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro. Fevereiro Vinte e oito tem. Se for bissexto, mais um lhe dêem. E os mais que sete são, trinta e um todos terão". Outras regras mnemónicas existem como a do punho cerrado e a contagem dos dedos os nós. Todas com objectivo simples: atinar com os dias de cada mês e com os anos bissextos em que Fevereiro estica.

Se o mês lunar corresponde ao intervalo de tempo entre duas lunações de valor aproximado de 29,5 dias, o ano solar é o intervalo de tempo decorrido para completar um ciclo de estações. O ano solar médio tem a duração de aproximadamente 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos (365,2422 dias). Um calendário dessincronizado das anteriores concepções é dito arbitrário. Assim era o calendário Juliano, concebido pelo astrónomo alexandrino Sosígenes e instituído por Júlio César no ano 46 a.c. Usado durante 1600 anos, ainda vigora nalguns países ortodoxos, como a Rússia, e desfasa das efemérides as datas.

O calendário Gregoriano usado pela maioria do ocidente - promulgado pelo Papa Gregório XIII - é o actualmente usado. Segundo a Wikipédia, é distinto do Juliano por:

• omitir dez dias (5 a 14 de Outubro de 1582);
• corrigir a medição do ano solar;
• começar cada novo ano a 1 de Janeiro;
• instaurar anos bissextos - aqueles que são divisíveis por 4 e não terminem em duplo zero, excepto os divisíveis por 400. Deste modo, evita-se o atraso de um dia em cada quatro anos. O ano bissexto ocorre a cada quatro anos após o último. O primeiro ano bissexto do século XXI foi 2004.

Decorre que o vigésimo nono dia de Fevereiro não é capricho do Universo. No que aos humanos interessa, para que serve, afinal? Nada. Só empata. Os nados em tal data têm o aniversário desarrumado durante um ror de anos, assim lhes dure a vida. Mais um dia de trabalho, gastos em comida, serviços básicos e gasolina. Não fora o desacerto na contagem da órbita terrestre e o desconchavo na datação das estações do ano, impor-se-ia, pura e simplesmente, extingui-lo.

Publicado por Teresa C. às 07:45 AM | Comentários (0)

fevereiro 21, 2007

SEM CULPA, NEM PECADO

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Autor que não foi possível identificar

Ténis ou sapatilhas. Muda o nome de Norte para Sul. Ao esquecer os saltos e calçar uns ténis para o lazer de fim de semana ou para uma fuga ao quotidiano, o agrado dobra. Ligeiros, ágeis, rentes ao solo e à segurança. E posso ir por aí, caminhar pela montanha, enterrar os passos na areia molhada, descobrir cidades ou perder-me em (re)cantos de paz.

O discurso colectivo congestionou de bitolas e critérios sobre o bem e o mal. Vida ou não-vida. É trágica a compita em matéria de valores. Competir para alcançar os propósitos que nos movem, admito. Connosco e com os outros. Por isso competimos desde a mais tenra à mais vetusta idade. E avaliamos. Pensamos os métodos e os resultados, purgando a introspecção de bluff ou de close-up frívolo. Acto sério que pode mudar vias e vidas.

“Um dos meus piores pesadelos foi o de protagonizar o Dia do Juízo Final. Vi Deus num trono e eu sentado num mocho com a história da minha vida aberta entre mim e Ele. A consciência parecia de chumbo. Audiência atenta, olhando para a minha vida exposta e aberta.” Temor a que ninguém escapa. Por que vidas imaculadas não temos, melhor é aceitar o erro e aprender e enviesar o caminho. Adquirir segurança nos propósitos valorosos. Calçar sapatilhas. Espreitar o rio. Sem culpa, nem pecado.

Publicado por Teresa C. às 08:40 AM | Comentários (0)

fevereiro 20, 2007

ROSTO DE SAFADA

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Anthony Christian

Não engana. Atentando no olhar, no sorriso adivinhado, nas faces e peito cheios, a volúpia está presente. Retratada aos vinte e cinco anos por moço talentoso, pouco mais novo, íntimo da casa, foi linear o mútuo fascínio. Ela mulher de curvas fecundas por ter dado à luz dois filhos, ele seduzido pelo mistério das profundezas sonhadas lascivas.

Afirmaram-na vizinha de Leonardo em Florença. Casada com um abastado comerciante florentino, Francesco del Giocondo. A família da Vinci e família Giocondo conviviam, propiciando devaneios que emergem no olhar falsamente sereno e nos polposos lábios. Após ter dado à luz pela segunda das cinco vezes em que o faria, sobrevinha o rosto de bolacha indiciando maternidade recente. O jovem pintor, disposto a descobrir da vida o tutano, iniciou a transcrição para a tela do emaranhado encanto, dos sentimentos e apelos da carne inspirados pela Mona Lisa. Inquieto, exigiu à sua arte excelência e justiça ao indizível elo entre autor e musa. Durante três anos somou finíssimas velaturas, espessando o sereno mistério que da obra flui.

O ar de safadice, a custo arredado da pintura, estaria de acordo com o estatuto de ser Mona Lisa - outra, não a vizinha - amante de Giuliano Medici. Dizem muitos nunca ter existido tal mulher. Estas são algumas das teses sobre a famosa Gioconda. Reza uma delas ser a pintura subtil auto-retrato de Lo Leonardo. Dissecando as sucessivas camadas de pigmentos por via de radiografias tridimensionais, surge um possível rosto masculino, distante do balofo ideal de beleza da mulher renascentista. Como diria o Abelaira, se a mulher existiu e com quem «teve partes» nunca saberemos. Uma tese defendo: a cara de contida libertina nem o enquadramento bucólico ou as sábias velaturas tiram.


SERPENTINA

A índia selvagem vai bem comigo, porém o salero encanta-me. Alé do mais há o frio. Depois verei.

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Al Moore

Publicado por Teresa C. às 11:51 AM | Comentários (1)

fevereiro 19, 2007

FRIVOLIDADES GOSTOSAS

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Alain Aslan

Numa semana propícia a fugas, copos, folguedos e ressacas, as frivolidades gostosas vêm a calhar. Look é tema adequado. Das cores ou ausência delas, o preto, os castanhos, azuis ou verdes profundos quero-os para o frio clareado por sol entre nuvens ou desavergonhado no brilho. Vão bem com tez iluminada. Pingão ou cinzento o dia, escolho o branco; branco-pérola, para os precisos. À noite, o arco-íris do humor faz a escolha – se tristonho e neutro, será a cor vibrante a surgir atrevida, impante de jovialidade. Esfusiante o espírito, é o negro que me desafia. Antiga esta minha opção – necessidade? – de contraciclo da psyche em relação ao que visto. Como se o imperioso ajuste ao momentâneo apelo da vida rejeitasse deserções.

Não julguem que o tido por fashion me merece desdém. Nem um pouco! Há futilidades que prezo. Sentir a harmonia entre o que sou e envergo, é uma delas. A busca de um acessório ou de um vintage que a fantasia desenhou e a realidade esconde é gosto que me obstina. Por ele e para mim peregrino por redutos ignotos. Sem mais que me tente ou permute o objectivo. Nunca por tempo em demasia. Uma hora é o que me concedo. Mais é cansaço imerecido.

Uma imagem que me descreva de modo coerente, obtida bem cedo na manhã para enquadrar o dia, é mimo que me concedo. Libertador, ao permitir-me, depois, a entrega absoluta ao mais que compõe a vida.

Publicado por Teresa C. às 10:21 AM | Comentários (0)

fevereiro 18, 2007

COMO QUEM CHAMA UM TÁXI

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Autor que não foi possível identificar

Da vida é dito ter artes de malvadez. “Ninguém diga estar bem”, “não digas desta água não beberei”, “a desgraça vem ser chamada”, “a fortuna é como o vidro: — tanto brilha, como quebra”, são alguns dos avisos populares. A roda incerta da fortuna, - sorte, entenda-se – prega partidas mais depressa que um piscar de olhos. E ao guinar do eixo não escapam ricos e pobres.

Quem menos tem aspira aos recursos dourados que trariam felicidade sem igual, os abastados (per)juram que o dinheiro não conduz à beatitude - para dentro acrescentando ajudar muito. Uns desdizendo o possuído, outros ambicionando-o. “Verdade, verdadinha”, como era uso dizer na Beira, todos nos damos por insatisfeitos. Má sina esta, a de somente valorizarmos um bem após ter “ido à viola.” Vale-nos a vida “dar com uma mão o que tira com a outra”, e – que bom para mim! – normalmente dá melhor. Fico, portanto, caladinha, dispenso críticas à sorte por, até ao momento, não me dar razões de queixa. Pelo sim, pelo não, ambiciono saúde e mais não peço. O comedimento costuma ser avisado.

Inops, potentem dum vult imitari, perit - a desgraça do pobre é querer imitar o rico. Que o digam os endividados até ao gasganete, não raro e à conta das fraquezas, conduzidos à vilania. Aquela do grupo de amigos endinheirados na esplanada de um restaurante da Riviera francesa prova andar a felicidade arredia do dinheiro. Qualquer coisinha por ali mastigada custa os olhos da cara - uma merenda de fim de tarde estival composta por ostras e um genuíno champanhe limpou ao quarteto uma infamante quantia. Assim, numa penada! E já lá vão uns anos... Voltando à confraternização falada: acabado o repasto, ordenam alguns presentes, como quem chama um táxi, que o helicóptero privado os recolha. A máquina vem, pega nuns tantos, atrapalha-se e cai sobre os restantes. Uma desgraça. Ai triste sina que a todos endromina... “A hora é incerta, mas a morte é certa — morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora.


SERPENTINA

Para hoje, o careto que escolhi é este. Terça-gorda outro será.

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Donald Rust

Publicado por Teresa C. às 11:08 AM | Comentários (0)

fevereiro 17, 2007

DILEMA DO PRISIONEIRO

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Jacques-Louis David

Aventurando-me a perorar sobre temas em que é abissal a diferença entre o que sei e há para saber, a escrita surge como registo do raciocínio de quem está disponível para saber mais. Ora, acompanha-me a consciência de ser mulher de sorte. Prova-o leitor atento que não deixou passar, erros, ambiguidades e conclusões apressadas no texto “Quando a maçã caiu”. Com autorização do autor, transcrevo o comentário/correcção.

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1. A idade da Terra é 15 mil milhões de anos, pelo que ficaram a faltar 3 zeros;

2. O altruísmo é um problema muito interessante, porque parece desafiar a teoria de Darwin, com implicações muito fortes para a nossa vida social. Peguemos num exemplo conhecido: como justificar a possível natureza genética da homossexualidade? Quer dizer, como é que um possível gene associado à homossexualidade poderia "sobreviver" quando ele, a existir, faria, claramente, diminuir a probabilidade de propagação dos genes do indivíduo?

Ao longo do tempo, seria natural que ele desaparecesse. A não ser que esse gene tivesse outras "funções", não tão óbvias. (Note-se que não estou a dizer que a atracção é justificável, no todo, ou sequer na parte, pela componente "nature", apenas me debruço sobre essa hipotética componente, relevante para este contexto).

Embora esta questão - da questão da sobrevivência dos genes do indivíduo (e não das causas da homossexualidade, que vêm para aqui meramente como exemplo) - não seja pacífica, actualmente são poucos os que reduzem a questão a termos puramente individuais, e por uma questão simples: é que cada indivíduo partilha alguns dos seus genes com outros. Os nossos irmãos, pais, avós, primos, etc, partilham - em graus diferentes, claro - parte do nosso património genético.

Por exemplo, um irmão e um pai têm 50% dos nossos genes, um tio 25% e um primo 12.5%. O altruísmo ao nível das relações familiares de consanguinidade fica explicado em termos "puramente egoístas", se quisermos, porque cuidar de quem partilha parte dos nossos genes é também assegurar que os nossos genes sobrevivem com maior probabilidade.

Quanto ao altruísmo relativo a não familiares - e falo em termos puramente biológicos, mais uma vez, não digo que a biologia seja, de modo algum, suficiente para compreender o comportamento humano -, à "comunidade", a verdade é que uma certa "cooperação" pode ajudar a aumentar a possibilidade de sobrevivência do próprio. A "reciprocidade" prospera, entre outros motivos - sociais, morais, etc. - também por isto. Não devemos ter medo de explorar a componente genética em toda a sua extensão.

No exemplo que propus, a homossexualidade - ou, talvez melhor, a homossocialidade e, eventualmente, a homoeroticidade - seriam formas de tornar uma comunidade menos agressiva, diminuindo as fricções entre os "machos" (falo do mundo animal em geral), fazendo, mais uma vez, com que a espécie fosse mais bem sucedida como um todo, ainda que "sacrificando" a propagação (dos genes) de um indivíduo em particular. Há quem tenha visões diferentes sobre isto, deixo apenas algumas pistas. Repare-se que a prevalência da homossexualidade no reino animal é hoje um facto que alguns desdenham - como se adivinha - por razões ideológicas. (Pesquise-se "Against nature?" no Google para mais informação sobre isto).

Um aspecto particularmente interessante relativo a possíveis explicações biológicas/genéticas do altruísmo tem que ver com a possibilidade de alguns comportamentos altruístas não serem necessariamente frutos de uma decisão "moral", mas quiçá de uma decisão "estratégica". Isto é um desafio enorme à nossa sociedade, por razões óbvias. Entre outros, Thomas Schelling falou brilhantemente sobre isto, como cito aqui

3. Quanto ao "dilema dos prisioneiros", a ideia, embora apele ao "egoísmo" vs "altruísmo", não tem directamente - ou pelo menos fundamentalmente - que ver com isso. O que acontece é que se o prisioneiro for "racional" e "inteligente", independentemente do que o outro prisioneiro fizer (escolhas que ele não observa, mas que pondera, no cálculo da sua "escolha óptima"), ele ficará sempre melhor se optar por "confessar".

Se o outro confessar e eu não confessar, eu apanho 3 anos de prisão. Se o outro confessar e eu também confessar, levo com 2 anos. Como 2 anos são melhores que 3 anos, eu prefiro "confessar" quando imagino que o outro vai confessar.

Se o outro não confessar e eu também não confessar, ambos levamos 1 ano de prisão. Se o outro não confessar e eu confessar, eu levo 0 anos de prisão. Como prefiro 0 anos a 1 ano de prisão, eu prefiro "confessar" quando imagino que o outro não vai confessar.

A conclusão é que eu, sendo racional e inteligente, prefiro sempre confessar, independentemente do que o outro faça. Tecnicamente, "confessar" é uma "estratégia dominante" para mim. Como o "jogo" é simétrico, é também uma estratégia dominante para o outro. O resultado é que ambos vão confessar e apanhar 2 anos.

O "dilema" está em que ambos poderiam ficar melhor se não confessassem - apanhando 1 ano de prisão apenas cada um. Contudo, não existe forma de eles se "coordenarem". Mesmo que eu conseguisse comunicar à Tati "Não vou confessar, não confesse a Tati também, por favor", se a Tati de facto acreditasse em mim, iria, não obstante, perceber que, dado isso, o melhor era confessar, já que, uma vez que eu (por hipótese) não confessava, a Tati ficava com 0 anos de prisão caso confessasse. Simplesmente, não há volta a dar quando falamos de "estratégias dominantes" neste tipo de cenário.

E o cenário é de um jogo que acontece apenas "uma vez". Quando o jogo é "repetido" - como acontece na vida real, humana e animal -, é possível existir coordenação em jogos que são "dilemas de prisioneiro" num jogo isolado.

As características duma situação de "dilema de prisioneiros" são duas:

i) todos os jogadores têm uma estratégia dominante;

ii) o resultado da escolha racional dos jogadores - que só pode ser um, porque todos só podem, racionalmente, optar pela sua estratégia dominante - é inferior a outro resultado possível, para todos os jogadores.

Ou seja, todos os jogadores poderiam ficar melhor se fosse possível evitar o resultado "trágico" proporcionado pela escolha das estratégias dominantes num jogo do tipo "dilema dos prisioneiros". O problema é que esse outro resultado é possível - à partida - mas muito expectável num só jogo. Claro que um prisioneiro muito estúpido pode optar por "não confessar", sem perceber que isso é irracional.

As considerações morais podem mudar um pouco isto, mas apenas (ou quase apenas, para não ser absoluto) em jogos repetidos. Aí, poderíamos ter estratégias de "punição", que podem fazer com que os jogadores se "portem bem". Uma das estratégias mais conhecidas dá pelo nome de "tit-for-tat", espelhando a ideia de reciprocidade: começa-se cooperando e depois disso imita-se o que o opositor tenha feito na jogada anterior. Assim, pune-se um "desvio", mas permiti-se perdoar esse desvio caso o opositor se redima e volte a cooperar.

Quando escreve “Como pode um gene perpetuar-se se abdicar de si em favor de outrem, quiçá provocando a própria morte? Problema conhecido por "dilema do prisioneiro", embora perceba a "analogia", julgo que a aplicação do conceito (mesmo se bem entendido) de "dilema de prisioneiro" não será a mais correcta aqui. É um problema - o que a Tati propõe -, de facto, de "altruísmo", todavia o dilema de prisioneiro não é, em primeira análise, um problema de altruísmo, mas de impossibilidade de coordenação no resultado que seria melhor para todas as partes, simplesmente porque os incentivos individuais impelem cada jogador a escolher de forma diversa. Note-se que falar de "incentivos individuais" não é o mesmo que falar de "egoísmo", mas não me alongo mais aqui.

Tiago Mendes

Publicado por Teresa C. às 11:09 AM | Comentários (0)

fevereiro 16, 2007

ANTENA HIFI E LEITOR DE CD


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Susan Rios


É assim desde que ousamos a fala. Mais cedo e melhor que eles. De argúcia não temos falta, e se nos acusam de arredondarmos o discurso é por sabermos bem demais o que há a dizer e de algum entendimento masculino processar lentamente o óbvio. Aliás, há proporcionalidade directa entre a dificuldade de aquisição deles perante evidências que lhes confundem as práticas, com o feminil rodear das questões. Tememos que os nossos homens entupam os meandros racionais e se fiquem por reacções primárias se for curta e incisiva a nossa intervenção. Daí elaborarmos. Peregrinarmos em subtilezas várias. Tendo sido leve o dia, assim procedemos. Se a Joaninha vomitou quando já tínhamos a pasta na mão, os papéis e os e-mails rodopiaram em carrocel, foram rejeitados projectos que nos levaram ror de tempo e cenho carregado e os inerentes telefonemas queixosos às cúmplices de sempre, o caso muda de figura. Chegadas a casa, uma de duas: ou optamos pelo silêncio, ou “aí vai água e abriguem-se os incautos.”

As parábolas que engendramos para comunicar com eles merecerem nomeação para qualquer Golden Prize mundial. Um exemplo: o diâmetro do abdómen dele esticou, é visível a desorientação do tente-não-caias muscular, as bochechas ameaçam confundir rosto com pescoço. Que fazemos? Confrontar o amado e rotulá-lo como «pote»? Jamais! A auto-estima lubrifica a conjugalidade. Resta fabular. Serenando a intimidade, com doçura (re)mexer e beijar (não adormeça), sussurrando: “Hummm... estás cada vez melhor (verdade após a saciedade), enlouqueces-me (verdade no desarranjo da roupa e na indisciplina de horários), quero-te tanto, tanto... Adoro-te homem (verdade no momento em questão)! Sabes, descuidámos a alimentação – molhos a mais, fritos, legumes e fruta a menos. Ah!, e umas caminhadas a dois; coisa pouca (verdade, mas só no começo – depois verás o que te espera!). Namorávamos mais... Humm... Ainda era melhor... Que dizes «coquinho»?”

E o «coquinho» cede. E dorme. E acorda. E vai trabalhar. E chega para jantar. A cada dia uma novidade: sopa verde-carregado, peixe na grelha, omissão de molho, refeição acompanhada a água e por uma batata-berlinde mais verdes misturados. Óptima altura para constatarmos se ele é mesmo «coquinho» ou um Ares disfarçado. Por mim falo: não tendo para a estratégia descrita vontade e paciência, antes anafado do que para mim tal fado.


CAFÉ DA MANHÃ

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“É verdade, a Rute Monteiro tem uma vida (entre outras sete) que se desenha nas páginas deste romance”. Dia 6 de Março. Pelos 43 meses de blogue e pelo presente aos leitores, merecidos parabéns.

Publicado por Teresa C. às 07:12 AM | Comentários (0)

fevereiro 15, 2007

A CURVA DO TEU NARIZ

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Alba e Alexandra Quinn

Foi um acaso ter-te visto. Bisei o olhar, à cautela, não fosse miragem ou semelhança logo desvanecida. Mas não. Eras tu. O fato, o corpo e a falta de pose conhecidos. Entretido como estavas, era diminuto o risco de me veres. Ousei a indiscrição. Percepcionei melhor. Os movimentos automáticos eram os de sempre – a matriz do comportamento não muda assim. Atentando, talvez escoasses incerteza e preocupação. Fora-se a plasticidade emotiva. No rosto havia agora metal. Surpreendeu-me o nariz. Afilava, após curva mal-jeitosa. Curioso, pensei, nunca ter reparado nela. Dos olhos-nos-olhos em que nos deleitávamos, a proximidade devia esborratá-la. Prova da cegueira amorosa? Julgava-a limitada ao espírito e, além do mais, corpo é corpo, portanto objectivo nas minudências.

Parcos minutos, segundos?, e foste. Aconcheguei-me no assento. Dei reposta distraída, de prestes sublinhada. E ri. A conversa prosseguiu. Isenta do ruído que a tua imagem fugitiva poderia ter causado. Ficaram a presença e o diálogo que até ali me levaram. Horas passadas, voltei a ti. Quando te amava, em que lugar escuso guardei a curva do nariz? Ao ver-te, onde estava a nostalgia? A pressa do coração? O carinho? A grilheta do espírito? À pergunta de Telmo que me fiz, “Quem és tu?, respondi como o romeiro de Garret – “Ninguém!”


CAFÉ DA MANHÃ

O António Trindade honrou-me com o destaque do texto “Já P’ra Casa”. Antes, descobrira este espaço por uma amiga. Obrigada também, “Amiga”!

Publicado por Teresa C. às 08:08 AM | Comentários (4)

fevereiro 14, 2007

GULOSEIMAS

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Jessica Dougherty

Há as que deixam de papo cheio o colesterol e as que fazem bem a tudo quando saboreadas com vagar.

Publicado por Teresa C. às 04:29 PM | Comentários (4)

QUANDO A MAÇÃ CAIU

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John Hul

Newton, escreveu: “Os movimentos que os planetas têm não podiam ter origem numa causa natural isolada, mas impostos por um agente inteligente”. Acreditava num Criador, a quem se referia como o Pantokrator , o Todo-Poderoso, “com autoridade sobre tudo que existe, sobre a forma do mundo natural e sobre o curso da história humana.” Ao definir Ciência, Isaac Newton confirmou a sua obsessão pelas Escrituras: “A ciência é pensar Deus depois de Deus.” À época, as partículas que constituiriam Sir Charles Darwin, quem sabe?, seriam cogumelos ou estruturariam a maçã caída, certeira, na cabeça de Newton. Não reza a lenda que o talentoso jovem ficasse irremediavelmente abananado. O sucesso como físico e matemático desmentem a hipótese.

Segundo o Criacionismo, é próxima dos 4000 anos a idade da Terra. Coisa pouca, que os vestígios geológicos, biológicos e astrofísicos desmentem. Para os seguidores de Darwin, os evolucionistas, o nosso planeta ronda os 15 000 000 de anos. Compatível com a datação do dilúvio – a chuvada teria mesmo existido, com ou sem arca recheada de espécies, navegando à deriva. A disputa Criacionista / Evolucionista está acesa como nunca. Os americanos religiosos, predominantemente sulistas e conservadores, fincaram nela a mente e não desistem. O Criacionismo ensinado nalgumas escolas, faz a pedagogia da ciência à medida dos textos Bíblicos. Darwin é apresentado como infiel que afasta a mão de Deus dos humanos, ao reduzir a evolução natural à competição pela sobrevivência e a cruéis leis genéticas.

A discussão desmente o carácter estritamente académico. Abrange valor caro às sociedades como o Altruísmo e o respectivo anti-valor: o Egoísmo. O desempenho altruísta é, aparentemente, contrário à teoria darwiniana da evolução. O paradoxo do altruísmo animal deriva da pergunta: "Como pode um gene perpetuar-se se abdicar de si em favor de outrem, quiçá provocando a própria morte? Problema conhecido por “dilema do prisioneiro”. Uma alegoria facilita – foi preso com o seu cúmplice e ambos colocados em celas separadas. O promotor de justiça diz-lhe ter evidências suficientes para o deixar um ano atrás das grades, conquanto não bastem para condenação mais pesada. Porém, se confessar e concordar em depor contra o cúmplice, ficará livre por ter colaborado, e ele com uma pena por três anos. Se ambos confessarem o crime, cada um sofrerá dois anos de pena. É levado a acreditar que a mesma proposta foi feita ao seu parceiro. O que faz? Na matemática da decisão, a essência pode ter contornos ainda mais banais – tendo hipótese, «fura» uma fila? Lida com os problemas pela omissão ou com responsabilidade? De outro modo: opta pelo altruísmo ou pelo comportamento egoísta? Os criacionistas optariam pelo altruísmo, os evolucionistas por forma evoluída de egoísmo. Eis-nos chegados à fantástica conclusão dos crentes serem generosos e os laicos egoístas. Pura falácia, é sabido, mas a hipocrisia, nomeadamente a made in U.S.A., está desvanecida.


CAFÉ DA MANHÃ

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O Táxi que me apanhou – 2 de Março

Publicado por Teresa C. às 06:37 AM | Comentários (3)

fevereiro 13, 2007

IL VIENT D’OÙ LE VENT?

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Jane Wooster Scott

Preparando viagem para fora do país, não descuido o trabalho de casa; recolho dados, mapas e não me escapa a pesquisa meteorológica. França, neste particular, é vendilhona - quem mais pretender do que as previsões do dia, sujeita-se a saque. Inscrição e uma dúzia de euros permitem responder de outro modo à questão: “Papa, il vient d’oú le vent? – Heu... Tu lui demanderas quand il arrivera.”

Se por cá Lisboa importava e o resto era paisagem, por lá o espírito mantém-se. Não sendo Paris o destino, bem como qualquer outro de nomeada turística, o sol a piscar sobre nuvem ou uma cinzenta que chora estão omissos das previsões locais. Muita paciência depois, lá chegamos. Logo ali começa o gozo duma opção diferente. Nisto de pisar a estranja, pouco faltando ao fundamental para cumprir, a displicência pelo divulgado agrada-me. A lugares ignotos que numa viagem o acaso cuidou exibir, procuro assomar. Os dias como viajante sempre curtos demais.

O parisien typique tem muito do espírito marialva do lisboeta nado e criado em bairro tradicional. Desenrascado, refilão, queixo erguido, olhar arguto, sorriso arredio. Sendo taxista piora. Cá e lá. Na habilidade em levar-à-certa o mais cauto, o francês é campeão - esquece o trajecto linear, aumenta a parada, inventa taxas com maior criatividade que o parceiro português. Porém, a cereja no bolo é outra: cliente saído e malas fora da viatura, faltando os trocos na hora de pagar e sendo a nota apetecível, “ala que se faz tarde!” Arranca, e a primeira esquina engole-o, sem que do desfalque a vítima recobre. Polícia nem um. Afinal, não se constituem os franceses como dos europeus os mais refinados?


CAFÉ DA MANHÃ

- A não perder o nº 1 da novíssima Vox Magazine

- Agradeço a gentileza da ligação ao Águas-Furtadas e deste outro menciono o gosto de divulgar imagens aqui publicadas sem qualquer referência.

Publicado por Teresa C. às 07:31 AM | Comentários (2)

fevereiro 12, 2007

A MENINA DA RÁDIO

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Audrey Flack

Estava farta. Exaurida pelas repetidas argumentações e pelas vozes, invariavelmente as mesmas, que durante a campanha me invadiram os dias. A Cila, mui querida e competente funcionária, intervalava o cá-para-lá do ferro com lamúrias pelos maçadores debates e dados e razões que a sempre sintonizada TSF debitava. Não vincasse fora de sítio as camisas, cedi na mudança para onda hertziana mais musical e anunciante. O ferro passou a voar sem danos nem injúrias. Do mal o menos.

Sou «piquena» de rádio. A caixinha é discreta e cabe em qualquer cantinho menor sem poluir a visão. Ligada, não obriga a torcer o pescoço, desfocando da tarefa a atenção compelida pela império da imagem. Ronrona noticiários, da música é satisfatória a selecção, os fazedores de opinião e cronistas são escolhidos a dedo – a Joana Amaral Dias à sexta feira de manhã e os Sinais diariamente filtrados pela sensibilidade e voz grave do Fernando Alves são do meu gosto os reis. Das artes, ciência e ética nada é descuidado. A TSF preenche, a par do Público, a dose de informação assistida que o meu quotidiano precisa.

A companhia da rádio tem origem na infância – a mãe bordava os linhos em matiz e ponto cheio tendo por fundo radiofrequências. Mais humildes no baixo comprimento de onda do espectro electromagnético - distância entre picos consecutivos -, só os infravermelhos, destes esperando calor e não sonoridade. Depois, há o filme que, em garota, a televisão passava. Numa interpretação notável o António Silva (Cipriano) era o típico pai-classe-média-alfacinha. Na pastelaria Bijou – nome delicioso! – sonhava criar uma rádio de bairro tendo como vedeta a filha Maria Eugénia e como compositor Óscar, o futuro genro. De caminho, Cipriano, teimava no amor pela mãe do pretendente da filha, a D. Rosa (Maria Matos). Fosse pelo amor à rádio, ou pela obstinação, a mulher que lhe sempre lhe fizera frente, rendeu-se seduzida.

Publicado por Teresa C. às 10:18 AM | Comentários (6)

fevereiro 11, 2007

JÁ P’RA CASA!

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Elsie Russel

A médio prazo, dia chegará em que da pior das maneiras os nossos homens – uns queridos pela presença e omissão! – despertarão para horror tido por remoto. As conversas julgadas da treta, que dizem ocupar-nos intervalos das novelas e ócios frívolos, surgirão à luz do dia como insidiosa revolta e tomada do poder. Conjuradas somos há muito. As mulheres europeias, declaram como prioridade a família e a idêntica partição das tarefas e responsabilidades familiares com os companheiros. Partição de facto, não a aviltante «ajuda» que eles, indulgentes, têm por modelar comportamento masculino entre domésticas paredes.

Aos XY penderá o queixo pela perplexidade, e tardarão a fechar a boca pasmada. Arriscarão: “Nós que as ajudávamos quando solicitados, carregávamos as malas nos aeroportos, abríamos vinhos e frascos de compota, eram connosco as avarias dos artefactos, chegando até, oh terrível engano!, a ceder a vez rumo à salvação em caso de catástrofe, tudo dando por incluído no pacote chamado Homem, somos miseravelmente destronados? O que nos resta? Copuladores de serviço? Funcionários subalternos? Duras negociações, ou não fossem elas implacáveis? O clássico rolo da massa substituído por amesquinhamento continuado? Que será de nós quando for cor-de-rosa a Casa Branca?”

E, os mais débeis, coitaditos!, temerão ver o Big Ben rebaptizado de Big Betty, o descalabro de dois novos feriados por ano – os dias da apresentação mundial das colecções de moda Primavera-Verão e Outono-Inverno – e aprovada a lei do “Já p’ra casa!” proibindo um copo depois do trabalho. Aquietem-se as mentes masculinas. Não desejamos o poder absoluto ou a tirania ou a subjugação ou o assédio sexual ou a exploração doméstica ou preterir os homens em favor das mulheres para cargos de chefia. Disto sabemos de cor os danos e fartámo-nos. Um mundo justo e solidário é a meta. Eles e elas respeitando amável e sã igualdade.

Nota – texto (des)inspirado num e-mail amigo.

Publicado por Teresa C. às 03:00 AM | Comentários (5)

fevereiro 10, 2007

TEMPORADA PROVÁVEL DE MÍSSEIS

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“TPM – Temporada Provável de Mísseis – intervalo de tempo em que elas ficam irritadíssimas e o mundo corre perigo de confronto nuclear.” Isto afirmam eles. “Aqueles dias”, dizemos nós. No mistério das cifras mais significam o mesmo – SPM, TDPM. A ciência meteu o bedelho, e desde 1931 (Frank, 1931) que foi descrito e entendido como a última fase do ciclo em que o gineceu experimenta tensão emocional e desconforto físico. Os psicólogos aventaram como base do transtorno, além da biologia, as razões do costume: condições neuróticas, de identidade feminina, conflitos, estressores e o et cetera que, frequentemente, inclui o desconhecido. Longe vai o tempo das aldeãs descomplicadas que de siglas nada sabiam e ao mesmo, de modo familiar, chamavam «chico».

Andando, desde há dias, enfadada com o sistema de comentários da Weblog e disposta a explosões intempestivas, não sejam assacadas culpas ao que, por ora, está tranquilo. Além do mais, não manifesto os sintomas descritos desde os primórdios da medicina: exacerbação de distúrbios psíquicos, desde aumento da ansiedade e irritabilidade até ao surgimento de delírios e ideações suicidas. «Tanga», diria, pois deliciosos delírios surgem em qualquer dos clássicos vinte e oito dias, e idealizações suicidas são disparate puro. Vejamos: a mulher que ao acordar se vê com cara-de-mete-nojo, constata que as calças mais apetecíveis, após lavagem, sublinham «V» despudorado em zona delicada, ou que a humidade do dia mela o cabelo, não lhe ocorrerá o suicídio - range os dentes e vocifera resmoneios.

Aos caríssimos comentadores censurados pela Weblog peço teimosia e paciência. Felizmente, a intervenção no blogue inclui o e-mail. Por esta via soube da infidelidade do sistema. E mais digo – “c’um caraças, estará a Weblog «naqueles dias»?”


CAFÉ DA MANHÃ

Por Uma Questão de Lisura, a minha solidariedade para com o Júlio Machado Vaz.

Publicado por Teresa C. às 12:12 PM | Comentários (3)

fevereiro 09, 2007

NEM UM MUDO DEU AULAS DE DICÇÃO

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“Nunca um manco treinou atletas para a maratona, nem um mudo deu aulas de dicção. Somente os sacerdotes não prescindem de dar conselhos sobre a reprodução.” Frase do anedotário sazonal. Gosto duvidoso, é certo. Redutora, obviamente. Como tende a ser qualquer pilhéria. De encaixe perfeito em mentes pouco laboriosas e, por isso, dadas a apressadas conclusões. As mesmas que fingem certezas. Reprimem a dúvida com subterfúgios rasteiros. Perante elas sinto-me como São Tomé - repreendido por reacção banal. Caso ouvisse que um amigo falecido se ergueu do túmulo e foi tomar uma cerveja, a dúvida não me largaria. Vendo, sim, convencer-me-ia. Tolero com dificuldade quem não se questiona e brada contra uma dúvida - a semente do pensamento científico – para, em seguida, a espezinhar.

Sobre estar completa às dez semanas a rede cerebral do ser em gestação, nada mo comprova. Duvido. Não é, todavia, essa a questão. O meu Sim na votação de domingo é fundamentado na solidariedade e respeito perante a responsabilidade da mulher ao decidir rasgar a carne e duas vidas. Como o comentador que ali em baixo escreveu: "Quem não dá a cara por nada, e apenas se deixa enrodilhar em conceitos e credos descartados, é idiota que não vive nem vê." Numa penada resumiu o que muitos demoram décadas a concluir.

Ao lado, Diana Krall em Narrow Daylight.

HAPPY HOUR

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H. Sorayama

32 anos mais que perfeitos!

Publicado por Teresa C. às 08:56 AM | Comentários (5)

fevereiro 08, 2007

UMA GAJA DIFERENTE

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Autor que não foi possível identificar

Já fui apelidada de variadas maneiras. Umas agradáveis, algumas nem por isso, detestáveis outras, ou, simplesmente, peculiares. “Menina cheesecacke ” é uma delas. Baptismo nascido a partir de uma encomenda de pastelaria. Os múltiplos afazeres impediram-me a confecção da sobremesa que, meio por meio, aprecio fazer e saborear. Pedi uma receita específica e pouco habitual que, de resto, forneci. Para o João ficou a esquisitice que não lhe retirou pitada da bonomia na satisfação dos clientes, para mim o petit nom. Outros tenho, mas, por que íntimos, seria despropósito desvendá-los.

Ao passear os olhos por aí, intuí que, para o bloguer na altura visitado, a "Gaja Diferente" era eu. Não me enganei. E foi como encomendar ao João - baptismo dele, alcunha minha. O Gaja não me agradou – salvo a caríssima Rita, não conheço quem utilize o termo com bom-gosto e propriedade equivalente. Foi, porém, no adjectivo que me detive. Sendo mulher como outras que pela virtualidade debitam umas lérias, arrebanham imagens com (des)propósito, e se descaem bastas vezes, não entendi o «diferente». Para mais, sendo homem, o «Gaja» envolve sentido pouco abonatório. Ora, nesta categoria masculina ser alvo de distinção, tudo piora – preconceito meu, admito, mas jamais afirmei imunidade aos guardas-avançados da mente.

“Gaja Diferente” tanto pode ser mulher com atributos anómalos, dada a esoterismos ou a taras e manias. Garanto que de atributos possuo os inerentes ao meu sexo e nem mais um, do esotérico nada sei, taras e manias só a mim respeitam. Até admito o «gaja» faltando o tacto ou embaciado o polimento; «diferente», nunca! Ficamos conversados.


CAFÉ DA MANHÃ

«Ela» teve a gentileza de escrever sobre mim. Penhorada me afirmo.

O Tiago Mendes, colunista do Diário Económico, escreveu um belíssimo artigo – “Uma excepção ponderada” - de leitura imprescindível.

Um novíssimo e prometedor Magazine. Gostei.

Ao Minderico agradeço a ligação.

Publicado por Teresa C. às 09:01 AM | Comentários (4)

fevereiro 07, 2007

PONTO FINAL

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Kryscina Merrett

Match Point. Título de um filme do Woody Allen. Brilhante. Outro autor e seria consensual o mérito da obra. Os pré-conceitos, na arte como no resto, são redutores. A muitos impediram de assistir ao filme. Outros, que não leram a declaração de amor que homenageia Manhattan e os que a habitam, ou perderam o feitiço de uma das mais sublimes personagens na história do cinema,Annie Hall, ao ouvirem o nome do realizador fogem do escurinho do cinema onde a fita passa, como soe dizerem fugir o diabo da cruz. A persona cinematográfica de Allen - homenzinho urbano, intelectual de classe média, mergulhado em problemas existenciais aliados aos de um típico judeu americano, muitas vezes hipocondríaco e preocupado com a morte - apaixona ou produz alergia. O meio-termo não é comum.

Paixões inconvenientes. E quais o não são? Alimentadas por frémitos proibidos ou redentores - assumir a condição divina que miracule o outro, curando-lhe vícios e imperfeições. Arroubos de adrenalina desconjuntando corpo e mente. Não fora a curta duração, e aos apaixonados estariam limitadas as opções: enfrascarem-se em álcool e anestésicos, ou devolverem à terra o corpo e ao etéreo os espíritos sofredores. Chegado ao termo o estado de paixão, há mistura de alívio e nostalgia pelo que não chegou a ser – amor. Pelo meio, factos que nos distorcem, julgamos. Como gestação que nenhum dos responsáveis deseja. Egoísmo, clandestinidade, loucura. Por amor a outrem – desculpa mentirosa disfarçando a ferocidade do individualismo.

“Not everybody gets corrupted. You have to have a little faith in people.” - Mariel Hemingway, como Tracy, em Manhattan. Tudo dependendo do lado para onde cai o anel. Match Point.

Publicado por Teresa C. às 08:33 AM | Comentários (1)

fevereiro 06, 2007

QUANDO OS IDIOTAS TROMBETEIAM

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Jim Warren

Às religiões não falta diversidade. Existem para todos os gostos. As que idolatram o dinheiro para adular os ricos, as que o repudiam para consolar os pobres. Algumas preconizam recurso às drogas, outras abominam-nas. Há As divertidas e improváveis que cultuam artistas finados cedo – Marilyn, James Dean, Elvis Presley -, enquanto algumas são miserabilistas e fúnebres assim agradando aos dramáticos e introspectivos. Teorizações houve cultuadas como crença religiosa. O cientificismo é exemplo. Comunista e nazi. O cientista sacerdotal junta os meios da física com a fúria da metafísica. Marx era positivista, mas falava como um líder religioso. Hitler fez o mesmo. Um e outro jamais cogitando estarem errados. Ambos encontraram o caminho da salvação que se mostrou um inferno à parte. Ouvimos os testemunhos dos sobreviventes dos genocídios do séc. XX, e presenciamos a irracionalidade das guerras religiosas. Há os que acreditam no inferno, na danação eterna dos infiéis, em exorcismos, no Santo Alberto João Jardim financiando com milhões o jornal oficial da propaganda na Madeira.

Neste cenário louco, os razoáveis são raros e os idiotas trombeteiam. Na apologia do Sim e do Não em causa no próximo referendo é o mesmo. Do lado do Não levantam-se superstições dos túmulos históricos que perambulam pelas ruas, em busca de carne humana, como zombies. Fanáticos do Sim e do Não como hooligans clubísticos. Dividindo o mundo entre pecadores e abençoados. Aguardando o Juízo final, onde as chamas do fogo eterno tragarão todos os «maus». Os argumentos e poemas histéricos, ontem berrados por defensores do Não perante Ribeiro e Castro, são prova bastante. Os deuses lhes perdoem por que sabendo o que fazem, fazem. Sem culpa, nem vergonha.


CAFÉ DA MANHÃ

Logicamente, Sim.

Publicado por Teresa C. às 02:49 PM | Comentários (2)

fevereiro 05, 2007

ENTRE LENÇÓIS

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Don Seggmiller

Falaste-me dela. Do desportivo com o vidro aberto do lado do condutor. Preparava-se para telefonar. Instante passado, o teu telemóvel tocava. “Já chegaste?”, foi a pergunta. Era quem esperavas no café manhoso e longe de tudo, escolhido como ponto de encontro. “Sai e vem ter comigo!” Obedeceste. Compelido pela feronoma que até ali te levara. A mesma que, num qualquer clube virtual onde é suposto o Cupido dispersar dados, a fez cair na tua rede “Enjoei aqueles engates da treta”, disseste. “Ao ouvir-te, não hesitei sorriso que desanuviasse a pungente verdade. Queria saber do resto da história. Dum episódio passado, actual por que, como outros, faz de ti quem és: nem anjo, nem demónio, antes pessoa inteira. E qual o impoluto a lançar-te a primeira pedra?

“Saiu do automóvel. Vestia um manteau branco. Mulher magnífica a quem as imagens, como amostra do produto exposto, não fizeram justiça”, descreveste. Passado o breve reconhecimento da praxe, perguntou: “no teu carro ou no meu?”. Foste cavalheiro. És. Integra o teu encanto. Embora surpreso pelo trovejar da pergunta, adiantaste: “No meu, se preferires.” Assentiu. Na noite parda, arrancaste. Silêncio espesso. Cortado por ela ao dizer “estou com uma leve dor-de-cabeça.” Demonstraste a solicitude expectável na ocasião e de um homem como tu. Fosse pelo repentino incómodo ou pelo constrangimento, no primeiro negrume de beira-de-estrada ela impôs paragem.

“Tens preservativo?” Titubeaste o não – na pressa da fuga esqueceras o detalhe. “Eu tenho”, disse, “mas por acaso, não julgues ser meu hábito aventurar-me nestas situações.” Escondeste o sarcasmo perante a banalidade do sofisma que disseste conhecer bem demais. Acto isento de abandono pela obrigatoriedade, pelo odor a vilania, pela desconfiança do lugar. Erecção esforçada, afirmaste. Rápida. Havia a precariedade do desejo e o visível desconforto dela - ouvias-lhe a respiração entrecortada, diferente da produzida pela excitação. Coito acabado, membro expulso, ela abre a porta e vomita. Quando pôde falar, culpou a dor-de-cabeça, entretanto, explosiva. Ordenou o regresso pelo qual desesperavas, e deixaste-a, após garantidas melhoras. “Mulher estranha. Desesperada por um homem que, qual namorado, a levasse a sair e desejasse numa sexta-feira à noite.” Talvez impossível, acrescentei, no minúsculo universo do interior onde habitava, sem pretendentes à altura e castrada pela censura social.

De volta, motor ronronando, ocorreu-te o preservativo. Não o havias retirado. Paraste para examinar a garçonnière ambulante. Nada. “Só pode ter ficado dentro dela. Pois se o tamanho daquilo dava para o King Kong... Que se lixe! Entrou, logo sai!”


CAFÉ DA MANHÃ

Está a decorrer a eleição das 7 Maravilhas de Vila Viçosa apoiada por várias entidades. Vale a pena ler, lembrar os lugares e votar. A cidadania também é exercida por estas iniciativas. O meu aplauso e o meu voto.

Publicado por Teresa C. às 08:30 AM | Comentários (3)

fevereiro 04, 2007

DRAMÁTICA "POSADA"

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Autor que não foi possível identificar

"El camino es siempre mejor que la posada” afirmação de Cervantes num comentário do «J». Nem sempre, discordei na altura, e, de novo, num contexto diferente, a frase contradigo. As pegadas do Homem na Terra traçaram percurso registado pela história. Tomara fossem as artes, as construções magníficas, as descobertas da ciência ou a harmonia mundial a constarem daquela narração crítica e pormenorizada que se constitui como memória dos povos. Mas não. Rosar o trajecto dos humanos não é possibilidade quando o inferno foram, e são, eles.

Os comportamentos desregrados das gerações antepassadas e das actuais transformaram um planeta outrora equilibrado entre o azul das águas, os vermelhos do Glen Canyon, a brancura polar, os ocres dos desertos, os verdes da Amazónia. Fúrias atmosféricas com nome de gente – finalmente, entendo o porquê! -, espécies de borboletas em sítios onde jamais seriam encontradas, doenças tropicais subindo à latitude europeia, o Borda D’Água reformulado, a rega agrícola e os ciclos vegetais transtornados provam a insanidade humana a que a Terra reage. E fotografamos a Sintra nevada, qual Lousã ou Estrela à beira-mar plantada. Planeamos o proveito do cultivo de novas espécies de arroz no Sado. O mar na Costa da Caparica galga 400m. Em Vale de Lobo a magnífica arriba ameaça ruir. Teimosos, ingratos, só agora procuramos remedeio e prevenir a dramática “posada” que não tarda a chegar.


CAFÉ DA MANHÃ

Estou grata ao Mundo Por Raimundo, Dass, Fogo e Água e ao Francisco Araújo pelas ligações para este blogue.

Publicado por Teresa C. às 11:00 AM | Comentários (4)

fevereiro 03, 2007

TELHADO DE VIDRO RELES

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Gil Elvgreen

Forwards. De amigos ou nem por isso. Conhecimentos virtuais. Endereço adquirido à grosa se não for limpa a mensagem a reenviar. Falsas petições, novos vírus informáticos, crianças raptadas, carros roubados, sangue de tipo raro que é urgente recolher. Se os de amigos agradeço pelo bom-gosto ou riso imediato, os anónimos nem olho - num clique envio-os para o lixo igualmente virtual. O outro, o de mau odor ou recuperável por via da reciclagem, separo meticulosamente. Sensibilizada para a fragilizada do ambiente, cuido de não desperdiçar água, electricidade e no automóvel ter saco adequado para os resíduos do consumo. O empenho quotidiano e em projectos científicos com objectivos ambientais suaviza-me a (má?) consciência de cidadã de um mundo exterminador.

Três amigas e um ilustre anónimo de gosto exemplar abastecem-me do que de melhor circula na volatilidade da rede. Sorrio ao pensar em alguns – o do iogurte “shaken, not stirred” está demais, querida Paula! –, e pasmo perante imagens de rigor científico raro. Verdade, é ter ido às malvas a minha virgindade no envio de forwards pela pior das razões – dinheiro. Pasta, carcanhol, massa, cobres. Perante euros rondando os milhares, soçobrei. A carripana chora por lifting urgente que sare gelhas causadas por homens ao volante sem vestígios de senso na distância que à minha frente reservam. Fui sensível ao apelo da chapa dorida e alinhei no forward. Por que iniciada naquelas andanças não limpei endereços anteriores. Foi tudo ao molho e fé no Olimpo, não fosse o caso ele estar atento e perder eu a ocasião dumas lentilhas extra. O rubor que sinto ao lembrar o facto, é recado sério – “jamais esqueças que dissecada por raios X, nem sequer te protege telhado de vidro reles.”

Publicado por Teresa C. às 10:00 AM | Comentários (2)

fevereiro 02, 2007

E DEUS CRIOU O ORGASMO

Apetece-me a malícia. Donairosa. Sussurrada ao ouvido. Espevitado o olhar. Lábios próximos do rosto alheio. Perfume ondulando no ar. E perguntar,: “Sabes porque Deus criou o orgasmo?” Ouvinte expectante. O «não» da resposta espevitando a petulância. Que continua: “para que o ser humano pare de foder.” Nem mais!

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Não há muitas rotações terrestres a separarem o presente dos idos em que da mulher-senhora-dona era suposta contenção. Em sociedade, no ambiente familiar, na cama. Arroubos ousados eram competência das outras – das espanholas, das coristas, das amantes-por-conta. Eles, queixosos do tédio marital, satisfaziam os apetites fora de casa. À maioria das «respectivas» pouco importava o como, quando e onde, desde que houvesse decoro e em casa nada faltasse. Aliás, pretexto bem-vindo que, duma só vez, trazia duas vantagens – contrapartidas em pequenos ou grandes luxos, e paz no leito. A inépcia sexual masculina sobrevinha à lua-de-mel – uns arrumavam o assunto ainda a mulher ia no primeiro suspiro, outros, sem tacto acrescido, somente à meia dúzia de ais doloridos, davam por finda a sessão. Marido e esposa enfadados do preceito da conjugalidade entre-lençóis. Eles procuravam amantes, as mais afoitas também.

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A audácia feminina tardou a alastrar das espanholas para a domesticidade. Enfim chegada, eis, alguns deles, tementes e trementes. Experimentando ânsias serôdias. Fornecendo a imagem reflexa dos antigos medos femininos. Hoje, conhecedora do seu corpo, a mulher permeia o tesouro da ternura com sexo explosivo. E quem a intensidade do acto de amor conhece, não se remedeia com sucedâneo de mau sabor. Neste particular, sou mulher afortunada. Muitas há como eu.

Publicado por Teresa C. às 07:18 AM | Comentários (21)

fevereiro 01, 2007

ADÓNIS RAPADOS E BONECAS OCAS

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Sonia Roji

Ginásios. Tidos como gaiolas de seres narcísicos. Frequentemente, mulheres. Espaços de cultivo do corpo. De rituais de submissão em favor do meu-é-melhor-que-o-teu. De pessoas que trocam a serenidade íntima por músculos rijos. Domadores das imperfeições do corpo pelas próprias mãos. Olhares vidrados nas performances registadas nas máquinas. Garrafa de água à mão. Tops e calças reveladoras. Eles, adónis rapados. Elas, obesas ou bonecas ocas.

Chegados os «enta», algumas mulheres temem que, ao dizer adeus, pareçam ter asas no lugar dos braços. Que uma mamografia seja a única desculpa para fazerem topless. Que entendido ter a vida muitas curvas, se sentem nas maiores. Que a memória se esvaia na justa proporção da água retida. Que as linhas azuis e roxas das pernas sejam mais que as do metro londrino. E dizem ter atingido a idade do conhecimento não a trocando pelos vinte anos. Talvez o corpo se expanda para conter toda a sabedoria e amor acumulados.

Em qualquer prática desportiva existem duas categorias nas motivações. A orientada para a Tarefa, centrada no sentimento de sucesso na realização de uma actividade depender exclusivamente do «eu»; valorizar a aprendizagem em detrimento da performance, possuir uma referência pessoal das capacidades. A motivação orientada para o Ego é satisfeita com primários sentimentos de competência e superioridade, aliados à ansiedade, não surja o insucesso.

Apresento-me como entusiasta do ginásio três a quatro vezes por semana. Narcísica? Frívola? Temerosa do futuro? Subordinada do corpo? De tudo ou de nada um pouco. Uma coisa sei – o gosto de competir comigo acompanha-me desde que me lembro de «ser». E sim, adoro os tops e as calças justas e os tons a condizer e o rabo-de-cavalo e o banho turco, o duche e o regresso leve que o corpo esquece.

Publicado por Teresa C. às 08:54 AM | Comentários (8)