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março 21, 2007
A HERANÇA

Vladimir Kush
“Os olhos são do pai, as mãos iguais às do avô, do nariz para baixo o rosto é da mãe - até o sorriso, vejam lá! -, a cor do cabelo e os caracóis são da tia, a rebiteza deve-a à avó Matilde – em miúda era fresca, dizem! – e as unhas dos pés - ai, a quem as foi buscar!-, são da tia Leonor. Já não a conheceu, pois, coitada, morreu cedo à conta da sombra no pulmão que o Caramulo não curou.” Esmiuçada pelo olho clínico de quem à família conhece os detalhes, uma pessoa vai ver e só dela nada tem, tendo tudo. Individual, única por decorrência, e numa mirada ao espelho parece estar reunida toda a linhagem em concílio. Cada vez que às mãos der uso criativo é como se tivesse o avô a assistir. Uma pepineira!
Indivíduos há que me intrigam e cujas parecenças desconheço: o inefável Valentim, a diáfana Fátima de Felgueiras – nisto, como em muito, sou banal - a elegante e afirmativa Maria José Nogueira Pinto, a corajosa Maria José Morgado. Aos dois primeiros não gabo a herança recebida; nem em pesadelo gostaria de ser espírito deles antepassado, incapaz de encarnar num vou-ali-volto-já e dar aos rebentos um belo par de galhetas. A Maria José Nogueira Pinto é uma mulher com classe e clássica. Sabe estar, malgré os tiques políticos. Ora, todos sabemos, a actividade política é ruinosa para o requinte e boas maneiras. Nos homens, então, é caótica – desde a farda, ao linguajar, passando pelas atitudes, tudo contribui para os agregar em massa insossa. Somente grosseria ou petulância impetuosas estabelecem a diferença. Calhando, até sou naïf, e tão rudes modos são marketing. Lá está! Os antepassados que legaram o nariz, a boca e o cabelo, certamente desaprovam nos descendentes o que vemos todos os dias...
A Maria José Morgado é mulher de rija têmpera. À uma, ninguém lhe faz o ninho-atrás-da-orelha. Às duas, é mulher de arregaçar as mangas e aí-vai-disto. Às três, veste Ana Salazar, logo mulher-coragem, e isto conta muito. A estirpe que dela fez herdeira teve sucesso na herança, sim senhora!
CAFÉ DA MANHÃ

C.M. Cooper
1 - A Naomi Campbell é notícia por usar um balde e uma esfregona. No mulherio que o mesmo faz dia-sim-dia-sim ninguém repara. Vejam lá o que determina usar telemóvel comum «dimarido» ou um «diamanti» por tecla...
2 - Festa do Livro de Poesia. Hoje, Dia Mundial da Poesia, na Casa Fernando Pessoa, das 11h00 à meia-noite, feira do livro de poesia: baratos e bons. Não faltar.
Outros pontos do programa: às 21h30, leitura de poemas com Maria do Rosário Pedreira, Eduardo Pitta, Fernando Pinto do Amaral, Pedro Mexia, Pedro Sena-Lino, Ana Marques Gastão, José Luís Tavares.
João Afonso e João Lucas, logo a seguir, cantam poetas portugueses.
Desde as 18h00, o quinteto de jazz Wishful Thinking no jardim da Casa. Ao fim da noite, pela noite fora, uma ceia.
Publicado por Teresa C. às março 21, 2007 07:29 AM
Comentários
Mas
nem a de Felgueiras é diáfana nem o Valentim é inefável; um é muito muito tosco e bruto e vígaro e tudo a outra...
também!
Tanto que os futebóis são aqui o menos grosso.
Mas!
o texto é forte e tem graça
Publicado por: -pirata-vermelho- às março 21, 2007 01:51 PM
E a Zezinha (Maria José Nogueira Pinto)?
Publicado por: Sem-Fúcio às março 22, 2007 03:40 AM
Pirata-Vermehlo - ora ainda bem ue não deixa passar nada. Inefável o primeiro pelo descaro polido, dáfana a segunda pelo ar de inocente recauchutada. Enfim, tretas minhas, nada que dê cuidado, salvo as presumidas malfeitorias.
Sem-Fúcio - Pois... Foi omissão que, entretanto, corrigi.
Publicado por: Tati às março 26, 2007 07:38 PM