« O PIRATA VERMELHO | Entrada | MOTO-SERRA VAI AO POLITICOLOGISTA »
março 12, 2007
GANZAS E PATCHOULI

Alain Aslan
“Essas miúdas das escolas secundárias
Com cheiro a leite e o soquete pelo artelho
Ficam maradas com o teu charme perfumado, Yeah
O teu perfume patchouli”
Exibi o tornozelo acima das soquettes. Foi meu o aroma da inocência. Marei com o cheiro dos livros novos e o charme perfumado dos rapazes. Usei os livros presos em correias. Como menina de bom-tom, discretamente enviesei o olhar quando uma «brasa» me queimava o passar. Aprendi a (des)controlar a exígua liberdade. Aprendi a gostar de aprender. Irreverente, ousei o (im)possível no clube de rádio do Liceu – inundar corredores e pátios como o Je t'aime moi non plus. Já velho na altura. Porém, não recordo a embriaguez do patchouli.
“Essas miúdas das escolas secundárias
Já fumam ganzas na paragem do eléctrico
Conversas parvas com mais buço que pintelho
Não dizem duas quando estão ao pé de ti”
Passarinhei em bando de miúdas tagarelas. Usei saias kilt, minis e ultra minis, hotpants com botas de verniz presas por fivela acima do joelho. Falhei as ganzas, o eléctrico e autocarros – mediando curta distância entre a escola e a casa, caminhei nas manhãs frias, gozei o mistério dos nevoeiros; pingos de chuva escorreram nos meus cabelos soltos e no rosto. Tive conversas parvas, intelectualmente pretensiosas. Não dizia «duas» nas festas de garagem ou nas do clube onde os pais pontificavam. Mal sabia dançar enlaçada, e, quando o primeiro delico-doce pousou, demorando, os lábios na minha mão que apertava, esfreguei-a tomando o afago por inoportuna coceira. Mas reforcei no Liceu, depois Escola Secundária, a curiosidade. Mais que rol de conteúdos e conceitos e mnemónicas e fórmulas, ensinaram-me o gozo da descoberta. Afrontar dificuldades. Sentir o aguilhão do erro. Olear a engrenagem racional. Não fugir a desafios, sendo eu a adversária. Fui miúda banal que falhou as ganzas e o patchouli.
Publicado por Teresa C. às março 12, 2007 10:41 AM
Comentários
Então foi como eu.Ah! e também não usei saias kilt lol!!
Beijinho Amiga (saudade!)
Publicado por: Yardbird às março 12, 2007 02:06 PM
Que bonito discurso de sinceridade e bem-estar.
É que... 'aventura' é outra coisa (engendrou-se a mania da 'noite'! esquecendo a parolice local e outras limitações); mesmo com dezassete anos aventura não é de certeza o rock e mais a ganza embora podendo passar por lá, como quem vai ao jardim zoológico ver o gorila esquizóide, a fingir que somos é tarzan ou jane.
Enfim, é o que resta! Juntamente com o futebol da idade do meio e com outras palermices menores para adultos.
Viva Portugal!
Publicado por: -pirata-vermelho- às março 12, 2007 11:01 PM
Inundei os corredores do meu Liceu com perfume Pacchouli. Eram tão bons esses tempos que, hoje, sendo um responsável empresário, executivo e gestor, sempre que uso um fato com gravata me bezunto com esse "perfume pachouli".
Publicado por: Nuno Barata às março 13, 2007 04:13 PM
Querido YardBird - Olha para ele tão malandro! Isso sei eu, que dúvidas sobre tal nunca tive. Beijinho saudoso
Pirata-Vermelho - E viva o Portugal de hoje e sempre mais as múltiplas contradições!
Nuno Barata - Caríssimo, arrisca-se a que eu lhe peça a fineza de me deixar cheirar o seu fatinho... ;)
Publicado por: Tati às março 13, 2007 08:17 PM