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março 31, 2007
“POSSO?"

Erica Chappuis
Apagara a última mensagem que ele lhe enviara: “Posso?” Código usado se o desejo de a ouvir queimava. A inevitabilidade duma paixão impusera desafios e riscos. Sabiam, a pouco menos do meio da vida, que a exigência restringe fogueiras íntimas. Ambos viviam cálidos amores, tranquilos e sensatos. Conformados à lisura das emoções. Simulando invulnerabilidade a sentimentos ferventes e a partidas amorosas.
No início, a emoção era encaminhada para subtis carreiros que o coração percorria a toda a brida. Sendo certo que desperdício é nunca dar o suficiente de nós mesmos, ela ouvia, acima de todas as outras, a voz passiva e cobarde que avalia os custos e põe a prudência à frente de tudo. Entre o caminho linear e o atalho marginal, sempre preferira o primeiro, sabendo da inverdade para consigo. Atalhos, antes silenciados, abriam-se agora como chama sombria de profecia antiga. E rodopiavam-lhe no cérebro como carrocel infernal. Sem pausa ou alívio.
A escrita fora calórico que os unira. O encantamento da palavra urdiu a teia e alimentou braseiro julgado composto de coque frio. Que não era. Sob a suavidade dos dias, pedaços ignorados incandesciam. Por sobranceria – tão serena e aprazível consideravam a domesticidade – arrogaram-se a distracção. E veio o desvio. A ambiguidade. A verdade? Percorreram os atalhos previsíveis. Originais para eles, em tudo semelhantes a histórias batidas. Premonitória fora a resposta dela à pergunta que na primeira vez ele fizera: “E agora? Vais confidenciar à Niná o que temos?” – “Não. Apenas quando tudo for acabado.”
Publicado por Teresa C. às 11:06 AM | Comentários (7)
março 30, 2007
SEXO PORQUE SIM

Autor que não foi possível identificar
Como água tónica com gelo e limão. Como roupa de cor atrevida num dia em que as nuvens comeram o sol. Como música lamecha forrando o automóvel. Ou lábios entreabertos num sorriso. Apetite sem aparente razão. Que tem. Informe na consciência, não escape o momento. Por que apetece. Por que sim.
Conduzia o regresso a casa. Tremente. Ligou o aquecimento. Nada! Encapsulada na culpa fria do após, repetia: “Porquê?” O calor perfumado dele? O sabor da pele? A embriaguez sem álcool? A fantasia dum meio-de-tarde num sítio de aluguer? Baixou o espelho. Rosto descomposto. Cabelo húmido. Cheiro que o banho não despedira. “Louca, louca, louca! Nem sequer o amo... Que fiz eu?”
Perante o sexo, pacifica a mulher enquadrá-lo num amor. Carimbo que o legitima. E promove. E baralha. Querendo alhos, pede bugalhos. Fornecidos pelo homem num regateio verbal em que salda a palavra a favor do desejo. Disto, o inverso está com o gineceu - inventado o amor, despe pruridos e roupa e acontece a fluida permuta dos corpos. Desencantada, pede absolvição no confessionário interior: “foi a primeira vez, para a próxima será melhor.” Sim e não. Como roleta de feira com prémios em reserva para raros vencedores. E quando apetece o peluche branco, uma caneca do Noddy é logro que o custo da senha não cobre.
Nos idos do amor romântico como passaporte para a sexualidade plena da mulher dita de bem, era regra o «sexo porque sim» no casamento. A memória da grinalda ou do papel do notário, mais os filhos, substituíam o passamento do amor. O enamoramento como razão feminina e socialmente aceite para o prazer do corpo veio depois. Sexo porque sim, legitimado pelo prazer e alegria, liberto da autocondenação, é incómodo para a mulher. “Isso fazem as «outras», as miúdas com areia por neurónios, as levianas sem futuro que acabarão infelizes e sós.” E as mulheres de castidade a dois tempos – humilhada e presunçosa -, ou dadas à invenção do amor, como encaram o amanhã? Sublimando, ad aeternum a sexualidade? Vivendo a vida dos filhos, dos pais, amigos, vizinhos e colegas? Negar quem somos, não faz de nós pessoas melhores.
Publicado por Teresa C. às 09:59 AM | Comentários (5)
março 29, 2007
DE BONÉ ÀS AVESSAS


Carlos Cartagena / Dang
Se o mundo fosse uma sala de aula, a Espanha e a Itália seriam as meninas tagarelas «tasse bem», a França a aluna coquette, a China a marrona sem ajuda cujo sucesso só o sacrifício explica. O Japão dava para «cromo» sentado na primeira fila, a Inglaterra para o snobe de serviço. A Alemanha cumpriria o papel do disciplinado exemplar, mochila pejada de manuais, encostado á porta da sala de aula antes do toque da campainha. O Irão não engana: aluno metido consigo e de olhar arrevesado. Em todas as turmas há o gorducho pateta e rico, os EUA, claro!, os meninos pobrezinhos com direito a merenda à borla e a livros em segunda mão, da África, no caso. O grupo dos rufias dados a fanar o alheio e a fumaças proibidas seria da América Latina, de Leste os remediados com roupa de marca comprada na candonga.
Não há classe sem alunos mandriões de boné às avessas que gozam os atentos e recebem as más notas mascando chicletes num riso descarado, sem perderem o ar gingão. Não desligam o telemóvel, menos ainda nos testes – iam lá perder a cara zonza da professora que os apanha a receberem por sms as respostas às perguntas? Não fazem trabalhos de casa, faltam às aulas para fintas e danças com a bola em que são exímios, curtem com as colegas que desviam para o shopping e partilham as «bejecas». Chegam atrasados às aulas de História e, por isso, repetem erros antigos. Medíocres em Matemática, nunca acertam as contas internas com as externas e das línguas estrangeiras aprendem o mínimo que desenrasque turista e engate miúdas. Uma vergonha de alunos! Porém, no papel de papagaios de boatos e anedotas que ridicularizem os outros não há pai para eles.
CAFÉ DA MANHÃ
Pelas ligações para este etéreo espaço, estou grata aos seguintes blogues:
A Espécie
A Forma e o Conteúdo
A Senhora Sócrates
Atelier dos Mangueirinhas
Bate Bocas e Boquitas
Blue!
Could It Think, The Heart Would Stop Beating!
Deep, the Silence
Devias Ter Pensado Nisso Antes
O Último Tango
Paus e Pedras
Por Tudo e Por Nada
Publicado por Teresa C. às 12:29 PM | Comentários (1)
março 28, 2007
LEVANTANDO OS OLHOS DA RUA

Lempicka
Quando Lisboa anoitece, é outra Lisboa que nasce. Saem de casa os que ganham o pão por entre as luzes da cidade, das tocas os laterais à sociedade, caminham enlaçados os amantes, voam bandos de jovens à solta, gentes enchem espectáculos. E há as putas no vai-e-vem batido, tremendo de frio e abandono, à cata do sustento da vida ou do vício. Como aquela que nos sorriu ao sairmos para jantar. Caminhávamos, entrançando os dedos, tagarelando, rindo pela felicidade de estarmos. Tão nossa... Ou não, porque na alegria do amor julgamo-nos diferentes sendo iguais.
Senti-me mal com o café, após o cocktail tira-gosto. Saímos, discretos. Amaste-me ali mesmo enquanto me amparavas e punhas a mão fria na testa, incentivando-me ao alívio da digestão parada. Sentámo-nos nas vergas da esplanada deserta. No teu abraço cerrado, pelas palavras murmuradas, foste solidário. Amante incomparável. Por que na cama revolta onde o desejo saciamos, é fácil borbulhar o champanhe. No frio da rua cuja gente aponta faróis, éramos sós. Caminhámos com vagar até ao canto dependurado no alto. Afastámos os reposteiros pesados, e, pelas vidraças amplas, descemos ao coração da cidade. Na magia das luzes, o rio era mancha escura e perfeito o recorte de duas das colinas. Subindo para a terceira, levantando os olhos da rua, não era adivinhado o nosso abraço amante.
Como todas as noites em que somos, àquela pareceram diminuídas as horas. Pela revolução imperiosa, pela liberdade da fala, não distinguimos do real a fantasia, nem paramos, menos o queremos, mais contamos, vazamos a taça dos corpos que de novo enchemos. E fomos, e somos, e nem uma linha cabe entre nós. É nosso o canto desta Lisboa soberba. Mais ainda quando anoitece.
Publicado por Teresa C. às 09:20 AM | Comentários (5)
março 27, 2007
AQUELE-DE-QUEM-NÃO-DIZEMOS-O-NOME

Diego Rivera
Olh’ó par de jarros! E se da flor gosto, dos molhos delas fazendo jarras e jarrões assim seja chegado o tempo delas. Como o Rivera que as estilizou e misturou com o povo como ninguém antes ou depois. Dois dias arredada do mundo e encontro o país que imagino virado de pernas para o ar. Estamos pior que o pensado, se é que alguém pensa o país. Então num concurso sem carcanhol à vista o povão em que me perfilo elege o oitenta e o oito como sendo dos portugueses os maiores? Por todos os santinhos ao pó repousando nos altares, p’ra que nos havia de dar?!... Pãozinhos sem sal, nem-sim-nem-sopas se é preciso dar a cara ou levantar em público a mão, e à sorrelfa uns safardanas de primeira apanha. Quem nos topou à primeira foi o chefe do futebol belga. Como paga levaram quatro, e quem se riu fomos nós.
Aquele-de-quem-não-gostamos-de-dizer-o-nome-sequer foi o vencedor. Em segundo ficou a versão canhota do anterior. Por causa deste, finado como o outro, fui de pequena habituada a não dizer vermelho. “Encarnado, menina, encarnado, que os vermelhos são maldição.” E eu, desde sempre desconfiando do que não via provado, entediada de acompanhar as tias-avós solteiras no arranjo florido dos altares, dei em combinar o vermelho com azul-mar. Diluído e arredado do preto, salvo em lingerie condimentada e pirosa, sei!, é gosto que conservo no privado oceano das minhas contradições.
Inocente povo que tais nostalgias acalenta!
CAFÉ DA MANHÃ

Autor que não foi possível identificar
O “Sem Pénis, nem Inveja” cresceu tão devagarinho que somente um destes dias atingiu os duzentos mil visitantes. Que tal uma celebração de efeméride caprichada e a preceito? Vá lá, caríssimos! Copo na mão, água não vale!, e um gole à saúde dos leitores. Chears!
Publicado por Teresa C. às 11:26 AM | Comentários (9)
março 26, 2007
PRADA OU A HIGIENE DOS DIAS

Elvgreen
Falhei o Dia Mundial do Sono. O da Tuberculose e o da Água também. Ignorava existir o Dia Mundial da Luta contra a Homofobia. Ainda estou a tempo dos dias da Sida, do Mar e do Homem que o Inverno irá trazer. Para o mês que vem registei o Dia Mundial da Saúde a 7, dos Ciganos a 8, do Planeta Terra a 22 e o do Livro e Direitos de Autor a 23. Ajuntados ao aniversário dos familiares e amigos, reuniões, consulta no dentista, compromissos, há lá cérebro capaz de processar tanta informação? Ok, há agendas e telemóveis e post-it e alertas. Ajudam, mas o resto é a carola que faz. Ora, a bem dizer, corro o risco de a entupir. Como artéria que o colesterol ou a ansiedade estreitou. E não quero. Que saiba, não existem à venda escovilhões cerebrais, logo terei de inventar um. À minha medida. Que esfregue, e rodopie, até deixar num brinco o que imprudentemente sujei.
Depois, há aquela mania de parecer informada. Que não sou. Ou sabedora. Também não, salvo o que ao meu trabalho concerne, a meia dúzia de dicas para tirar nódoas e deixar impecável a roupa, além de algumas receitas culinárias como a das batatas a murro em tudo originais. O resto que por aqui vou debitando são tretas que tenho de ouvido ou farejo no Google, nos livros e jornais. Nada meu. Tudo adquirido a prestações.
Porém, fazendo-me justiça, direi que segredos de maquilhagem e tendências de moda tenho por intuição – desculpa querido Nuno Baltazar, falhei o teu desfile no dia 11 de Março, não foi o dia da intentona posterior ao 25 de Abril?, mais a tua musa de eleição, a Catarina, desfilando ruiva na passerelle; os seis convites, desta vez, foram para amigos que me representaram condignidade. Mulher não pode, a troco da sabedoria, desatender o essencial; a estimada Carla é exemplo da conciliação entre Prada e fundas cavernas de cultura. Eu é mais Prada. Só. Os óculos de sol com armação de massa farta e a pureza das linhas das propostas para este Verão têm, não vá o diabo tecê-las!, lugar cativo em canto honroso da minha leda cabecinha. Assim, como assim, o “Diabo Veste Prada”, e o Inferno deve estar à pinha de gente gira e interessante.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 10:06 AM | Comentários (2)
março 25, 2007
À CONTA DOS GALEGOS

Steve Hanks
O actual centro geodésico da Europa alargada situa-se num campo de milho próximo de Berlim. Originalmente localizado em França, foi caminhando para Este à medida que a Europa Unida se expandia. Depois de duas Grandes Guerras Mundiais em território europeu, seis países - Alemanha, França, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo – assinaram em Roma, a 25 de Março de 1957, o tratado que visava a integração e unificação europeia, objectivos económicos, de prosperidade, segurança energética e de paz.
Existe Europa? Existirá quando houver um sentimento comum europeu. QAuando estiverem mais próximas do cidadão as instituições e a política europeias. Quando se configurar, também, no plano dos valores, dos direitos e da cultura. Moni Ovadia afirmou: “Gostaria de ver nos estádios os jovens, que gostam de pintar a cara com as cores da sua equipa de futebol, pintados com as cores europeias: as pequenas estrelas, o azul... Temos uma bandeira bastante bonita. E gostaria que no início do jogo se cantasse o hino europeu, o 'Hino à Alegria' de Beethoven, que é magnífico. E que nos ecrãs gigantes, durante todo o jogo, pudessemos ler as palavras 'Alle Menschen werden Brüder', 'Todos os homens serão irmãos'.”
Pode ser, mas deixem-me a hora invernal portuguesa. Portugal tem a mesma hora dos Ingleses e Irlandeses. Vêm agora com a história dos galegos, poisados no mesmo fuso que nós, não terem ficado desmiolados por acordarem mais cedo. E eu quero lá saber? Chega ter-me sido hoje roubada ao sono uma hora. Tenham a fineza de ao menos deixar dormir de manhã quem na Europa rasteja atrás.
Publicado por Teresa C. às 11:53 AM | Comentários (4)
março 24, 2007
REZAR 1/3 PARA ENCONTRAR 1/2

Guy Powers
Dos belgas, tenho ideia da bonacheirice moleirona. O Tintin era, antes de conhecer os autóctones, cartão de visita bem disposto. Além do mais, um deles, Joseph Merlin, teve a ideia de construir patins para andar no solo (já existiam os do gelo). Merlin resolveu fazer uma apresentação triunfal para mostrar o invento - sendo violinista decidiu entrar numa festa deslizando nos patins e tocando violino pelo salão. Seria um arraso. E foi! Numa festa, fez entrada aparatosa. Senão: esquecera a necessidade de freio nos patins. Não conseguiu parar, nem desviar e caiu em cima de um espelho valioso. Resultado: espelho e violino quebrados. Uma estreia a revelar ingenuidade simplória.
A bulha de ontem no aeroporto foi caricatura perfeita dos belgas e dos portugueses. Os primeiros amuados como meninos birrentos, os segundos, pela calada, instigadores de tempestades mediterrânicas. E não é argumento adulto a desculpa deles terem começaram primeiro. Somos peritos em provocações encobertas. Esta sms recebida é exemplo: “Vou rezar 1/3, para encontrar 1/2 de te levar para 1/4.” Outra: o condutor que espeta dos dedos o indicador e o mindinho, encolhendo os restantes, é banalidade de quotidiano. Amigo tenho que, perante o gesto, mexe ostensivamente na gravata. E justifica: “Meu caro, cada um exibe o presente que da mulher recebeu!”
CAFÉ DA MANHÃ
Sugestão de leitura – “Alternativas Liberais”
Publicado por Teresa C. às 11:09 AM | Comentários (4)
março 23, 2007
CORRE DE SUL PARA NORTE

Chris Achilleos
O Rio Sado. Em Portugal acresce o Mira e na Europa poucos inverteram à norma a excepção. Nasce, como devem nascer os rios numa serra, modesta, no caso, que acima dos 500 metros não se atreveu; fronteira entre as barrocas e o litoral algarvios e as planuras alentejanas. Na conformidade com o restyling do produto turístico português – possuo lerdos neurónios incapazes de processarem o escândalo que a tantos abespinhou -, a serra do Caldeirão separa o Allgarve deutsch, english, nederland, do Alentejo, por ora, ainda português.
A constatação insidiosa que me vem infectando o pensamento é a actual ausência de escândalos. Não falo de corrupção, do idoso que entra nu no 42 da Carris ali p’rás bandas de Campo de Ourique, tão pouco dos affairs das figurinhas cor-de-rosa. Refiro-me à Ideia Escandalosa, ao Pensamento Cambapé que deixa trémula a middle class morality. Agradar ao freguês, é obrigação do vendedor. Justificar o que todos pensam é quintal dos comentadores. A do intelectual, que a história lembrará, é perseguir e ser perseguido pela classe média. Intelectual pensa diferente e tem como obrigação primeira ser ele próprio, sem descuidar a purga sistemática da vulgaridade e das convenções. Alcançar a singularidade, parece-me objectivo adequado.
Desconfio dos intelectos agremiados que se repetem entre si. Dos indivíduos cheios de si mesmo. Escandaloso é não remar contra a maré; como o Sado, correr de sul para norte. Pensadores – escandalizem-nos, obriguem os intelectos vulgares, como o meu, a cuspirem impropérios e maledicências. Aí tereis aberto o caminho à glorificação, ainda que póstuma, dai por certo.
CAFÉ DA MANHÃ
Foi-se a Tati, chega a Teresa. Três anos e meio de blogue cansaram a primeira e deram à segunda ganas de aparecer. “Ciao e bienvenuta!” Digo eu...
Publicado por Teresa C. às 07:22 AM | Comentários (8)
março 22, 2007
CRESCER É OPCIONAL

M. L. Garmash
Recostou-se. Na esplanada (in)certa, dissolvia nas ondas o olhar. O funcionário estendeu-lhe o sorriso de quem gostava de a rever. Ao “O de sempre?” aquiesceu, devolvendo cumplicidade e simpatia. Ter grutas de mistério que os próximos desconheciam, sabia-lhe bem. O Duarte ficara em casa. Viu-a partir dividido entre esquecer o homework da empresa e fruir do final da tarde de domingo com ela. Sábado de manhã, costumando, partilharam a leitura dos semanários na Versalhes. Indiferentes ao ruído, ao entra-e-sai que não viam por intervalarem o entretém com a troca de impressões. Surpresos, ainda, por terem na frente o outro, iluminavam o rosto e sobre a mesa davam as mãos. Para voltarem aos jornais e às revistas, comprados no quiosque ao lado.
Ela bebericava o sumo de laranja enquanto o sol a passeava. A luz e do mar a fala acolchoavam memórias. Surpreendia-a o amor que a trazia serena e com vontade de experimentar um amanhã. Contabilizou da vida as paixões e os amores. Paixão séria, absorvente, insana como cumpre às paixões, tivera uma. Durara cinco anos em que de si muito esquecera. Ela, sempre tão decidida no vestir, passara à tibieza do “será que ele vai gostar?”. Quando a exaltação pousou, directa, na amizade e na companhia, omitira o amor. Durou o que durou. Uma década de picos e nodos, feito o balanço que a distância legitima. Um par de afectos equívocos haviam-lhe cruzado a passada dos dias. Precários, esticados por comodismo durante curtos anos. Sem culpa ou orgulho, constatava pouco lembrá-los.
Com o Duarte, passada “a adrenalina do novo” – deliciava-a quando ele repetia a frase que no início lhe ouvira –, ficara um gosto terno, atento, macio na doçura, aqui e ali enrugado por verdade dolorosa. Que não dispensavam. Como redenção das mentiras anteriormente consentidas. “Nunca mais!”, fora promessa muda entre eles. Assim cresceu o elo manso que, por ora, os aconchega. Sábio este amor! – e sorria olhando o céu suave de azul. A confiança que um no outro sentia, não era arrogância tola pelo bem adquirido. Ambos com espíritos móveis, precisavam de encantamentos, agora dentro-de-portas pelo cansaço das ilusões precárias e vazias. O aroma do café trouxe-a de volta ao lugar onde deixara o corpo e voara no pensar. Certezas tinha poucas, mas uma garantia: envelhecer é obrigatório, crescer é opcional. Por isso cresciam e do tempo não sentiam o passar.
CAFÉ DA MANHÃ

M. L. Garmash
Publicado por Teresa C. às 10:39 AM | Comentários (5)
março 21, 2007
A HERANÇA

Vladimir Kush
“Os olhos são do pai, as mãos iguais às do avô, do nariz para baixo o rosto é da mãe - até o sorriso, vejam lá! -, a cor do cabelo e os caracóis são da tia, a rebiteza deve-a à avó Matilde – em miúda era fresca, dizem! – e as unhas dos pés - ai, a quem as foi buscar!-, são da tia Leonor. Já não a conheceu, pois, coitada, morreu cedo à conta da sombra no pulmão que o Caramulo não curou.” Esmiuçada pelo olho clínico de quem à família conhece os detalhes, uma pessoa vai ver e só dela nada tem, tendo tudo. Individual, única por decorrência, e numa mirada ao espelho parece estar reunida toda a linhagem em concílio. Cada vez que às mãos der uso criativo é como se tivesse o avô a assistir. Uma pepineira!
Indivíduos há que me intrigam e cujas parecenças desconheço: o inefável Valentim, a diáfana Fátima de Felgueiras – nisto, como em muito, sou banal - a elegante e afirmativa Maria José Nogueira Pinto, a corajosa Maria José Morgado. Aos dois primeiros não gabo a herança recebida; nem em pesadelo gostaria de ser espírito deles antepassado, incapaz de encarnar num vou-ali-volto-já e dar aos rebentos um belo par de galhetas. A Maria José Nogueira Pinto é uma mulher com classe e clássica. Sabe estar, malgré os tiques políticos. Ora, todos sabemos, a actividade política é ruinosa para o requinte e boas maneiras. Nos homens, então, é caótica – desde a farda, ao linguajar, passando pelas atitudes, tudo contribui para os agregar em massa insossa. Somente grosseria ou petulância impetuosas estabelecem a diferença. Calhando, até sou naïf, e tão rudes modos são marketing. Lá está! Os antepassados que legaram o nariz, a boca e o cabelo, certamente desaprovam nos descendentes o que vemos todos os dias...
A Maria José Morgado é mulher de rija têmpera. À uma, ninguém lhe faz o ninho-atrás-da-orelha. Às duas, é mulher de arregaçar as mangas e aí-vai-disto. Às três, veste Ana Salazar, logo mulher-coragem, e isto conta muito. A estirpe que dela fez herdeira teve sucesso na herança, sim senhora!
CAFÉ DA MANHÃ

C.M. Cooper
1 - A Naomi Campbell é notícia por usar um balde e uma esfregona. No mulherio que o mesmo faz dia-sim-dia-sim ninguém repara. Vejam lá o que determina usar telemóvel comum «dimarido» ou um «diamanti» por tecla...
2 - Festa do Livro de Poesia. Hoje, Dia Mundial da Poesia, na Casa Fernando Pessoa, das 11h00 à meia-noite, feira do livro de poesia: baratos e bons. Não faltar.
Outros pontos do programa: às 21h30, leitura de poemas com Maria do Rosário Pedreira, Eduardo Pitta, Fernando Pinto do Amaral, Pedro Mexia, Pedro Sena-Lino, Ana Marques Gastão, José Luís Tavares.
João Afonso e João Lucas, logo a seguir, cantam poetas portugueses.
Desde as 18h00, o quinteto de jazz Wishful Thinking no jardim da Casa. Ao fim da noite, pela noite fora, uma ceia.
Publicado por Teresa C. às 07:29 AM | Comentários (3)
março 20, 2007
GRELAME SEM PARIDADES

Bryan Larsen
“Hoy vas a ser la mujer que te de la gana de ser, sem nivelações, paternalismos, dias especiais, trinta por cento no parlamento, feminismos institucionais e mais paneleirices do género que tanto jeito dão para ganhar votos e não solucionam rigorosamente nada.” Isto escreveu esta mulher que, para benefício de quem a lê, das papas-na-língua ignora o sabor.
As universidades têm uma elevadíssima percentagem feminina que supera a média global de 50%. As profissões tradicionalmente masculinas mudam, aos poucos, para mãos mais suaves enfeitadas com anéis e verniz. O empenho profissional da mulher, apesar das sobrecargas decorrentes dos períodos de transição, merece, em geral, amplos elogios.
O tradicional critério do mérito não pode já ser invocado para discriminar a mulher. Mas preteri-lo a favor do modelo da paridade gera desconforto social. À mulher que desempenhar um cargo no quadro da paridade é pedida subordinação a um paternalismo subtil. Por outro lado, homem que, possuindo qualificações adequadas e gosto pelo cargo, foi dele preterido, sentir-se-á injustiçado e com razão.
Carece de prova que a mulher, na circunstância paritária, contribua com maior eficácia para a promoção da igualdade do que integrada na solução decorrente do mérito. O mecanismo das quotas não abre caminhos de liberdade, impõe-nos. Por isso, em vez de fortalecer a democracia, enfraquece-a, bem como a outro bem igualmente precioso: a responsabilidade individual.
Publicado por Teresa C. às 07:07 AM | Comentários (6)
março 19, 2007
HOMENAGEM

Charles Wysocki
A todos os pais e, em particular, aos arredados dos filhos pela conjunção da vida, presto homenagem. É ido o pensamento de pertencer à mãe a maior responsabilidade no crescimento de uma criança. Na sociedade que temos, ninguém com nível mínimo de análise conceptual pode negar que a figura masculina, consubstanciada no pai, ou quem dele pelo amor e dádiva faça a vez, é essencial para que o ser humano evolua harmonioso.
Nós, mulheres, quantas vezes sobrevalorizando o papel de mãe em detrimento do do pai, temos por obrigação respeitar e valorizar o homem que connosco gerou os filhos tão amados. Super-protecção das crianças pela figura materna e exclusivo exercício da autoridade pela figura paternal é erro crasso de que somos, maioritariamente, culpadas. Disto não beneficia ninguém. Mais digo: as mães que assim entendem o exercício do seu amor pelos filhos comprometem da família o bem-estar e o futuro. Delas, a culpa em fatia crescida, por que as crianças à injustiça são sensíveis e ainda mais ao desgaste repetido do pai amado. Cedo ou tarde, chegará o dia em que o erro – bem intencionado(?), erro porém – será pago com juros.
Vão difíceis os dias para a família. Ansiedades, cansaço, dificuldades várias, condicionam o comportamento que os pais têm por ideal. Porventura, a humildade do reconhecimento de fazerem o possível e disso darem conta, pelo diálogo e pelo exemplo, aos filhos, é o que importa. E, sem culpas ou frustrações, vivamos a família com alegria e verdade.
Pais da Blogosfera, recebam a minha sentida homenagem.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 03:04 PM | Comentários (6)
março 18, 2007
PERNAS DELAS, PIJAMAS DELES

Sorayama
Antes, elas (re)miram-se ao espelho, pela frente, por detrás, de lado. “Lá está!”, ruminam, “sorte malvada. Rios, quais rios?, oceanos de dinheiro gastos em massagens, agulhas de mesoterapia, eléctrodos mais as tremuras, e as coxas insistem na superfície lunar. Minha querida, ou acendes velas e apagas, ainda vestidinha, as luzes, ou lá se vai o andor.” Entretanto, eles cortam os pêlos do nariz e das orelhas, espremem os pontos negros, no banho esfregam, como condenados, a cabeça e os sovacos, encolhem a barriga até mal respirarem, verificam se são compatíveis os minutos sem inspiração com despir a mil à hora e aterrarem em cima delas que, salvo as sabidonas, tomarão por impetuoso o balanço, tão certo como quatro ser o dobro de dois.
Chegado o momento da verdade dos corpos, pela ânsia de satisfação do espírito que a carne comanda, nem eles nem elas se deterão no que antes fora temor. Depois, ah, sim!, depois, é que são elas. Eles atentam nas curvas, ou na ausência delas, que a roupa escondia. O peito e as pernas, de novo essas traidoras!, sem saltos e rentes ao chão, perdem da altura metade. E, ou são curtas, ou grossas de mais em baixo e falhas em cima; o rabo que os fascinou e parecia harmonioso, tanto desaparece como engrossa. Gostam de agarrar, é certo, mas menos era o bastante.
Se a noite for farta e preguiçar pela madrugada, não será à primeira, mas da meia dúzia em diante, vem a hora do pijama. Ora, neles, este é momento decisivo. Um clássico de bandas e debrum nas virolas? Desportivo de malha de algodão? T-shirt e calças de treino? Tudo serve, assim condiga o estilo com o indivíduo. Porém, marretada que não merecemos, é enfiarem eles dentro das calças a parte de cima do pijama. Está por nascer o amante capaz de, aos nossos olhos, resistir a prova tamanha. Inquietante case study este: julgarem as gripes semelhantes a melgas ou a pulgas que se infiltram, sorrateiras, pela cintura. Podem crescer literal e metaforicamente, que destas canduras eles não se livram. Adoráveis, pela santa ignorância que nos diverte. Bem-hajam!
CAFÉ DA MANHÃ
Festa do Livro de Poesia. Amanhã, Dia Mundial da Poesia, na Casa Fernando Pessoa, das 11h00 à meia-noite, feira do livro de poesia: baratos e bons. Não faltar.
Outros pontos do programa: às 21h30, leitura de poemas com Maria do Rosário Pedreira, Eduardo Pitta, Fernando Pinto do Amaral, Pedro Mexia, Pedro Sena-Lino, Ana Marques Gastão, José Luís Tavares.
João Afonso e João Lucas, logo a seguir, cantam poetas portugueses.
Desde as 18h00, o quinteto de jazz Wishful Thinking no jardim da Casa. Ao fim da noite, pela noite fora, uma ceia.
Publicado por Teresa C. às 11:17 AM | Comentários (3)
março 17, 2007
O MAR MORTO NÃO PODE GRITAR

Kenney Mencher
As águas densas de sal diminuem o nível à razão de um metro por ano. Em certas zonas, onde há trintas anos era mar, é possível ir a pé de Israel à Jordânia. A escassez de água, assunto bélico na região, desvia os cursos de água de que o mar se alimentava. Mal nutrido, emagrece, aproximando margens a olhos-vistos. As simbólicas chamadas de atenção ao mundo por parte dos jordanos e israelitas e a consciência do património valioso em risco de evaporação, levaram a Europa a tomar entre as mãos a protecção de um mar que de morto nada tem – é habitat de espécies únicas cuja vida fervilha sob a aparente calmaria.
Por cá, podemos gritar. Reclamar. Exigir. O aeroporto da Portela tem de emigrar. Os vapores da combustão derramados sobre Lisboa por cada avião que descola ou aterra, excedem qualquer mínimo de qualidade ambiental. O risco de abordagem às pistas sobre vias de tráfego intenso – entre outras, a segunda circular – e sobre áreas centrais da cidade é desafio à roda da fortuna que um dia, de cansada pode desandar.
Esgrimem argumentos opostos os técnicos e os partidos. A estes é recomendado comedimento, porque a guerrilha política é equívoco grave quando está em cima da mesa a validade do monstruoso investimento. Na Ota, dizem ser um aeroporto anacronismo por que, rica em águas a olho nu invisíveis, somente justifica barragem e hidroaviões. No Montijo e Rio Frio há a preservação de zonas protegidas, ainda com o sapal do Tejo à mistura. Os técnicos que se entendam. Com sabedoria humilde, atinjam consenso que ao país convenha. E se o Mar Morto não grita, nós podemos fazê-lo – “tirem o aeroporto daqui!” Senhores decisores: inovem, e, pela primeira vez, não transformem uma resolução fundamental para a economia e bem-estar dos cidadãos em política rasteira ou teimosia pustulenta.
Publicado por Teresa C. às 11:45 AM | Comentários (8)
março 16, 2007
CONSUMIDORA DE SEX APPEAL

Andrew Potter
A Wikipédia informa: “O termo significa capacidade de um indivíduo atrair sexualmente outra pessoa, ou sentir por ela atracção sexual.” Discordo. Contraria o principal direito dos consumidores (com direito a Dia, ontem ocorrido) – não tomar gato por lebre; sem demérito para o gato ou mérito para a lebre, salvo no gastronomia. Sex Appeal é mais do que atracção sexual. É gosto primário pelo indivíduo que satisfaz múltiplos sentidos e apetites.
Para atentas consumidoras de tudo, do azeite ao sex appeal, as pessoas – sim, porque as mulheres, ao contrário dos nossos homens, possuem faro para o dito, desatendendo ao sexo – gastam igual tempo a exibir o que possuem como a dissimular presumidas imperfeições. A crendice nos estereótipos e a bruxaria dos pré-conceitos em vigor, atormentam incautos de ego em baixo na bolsa do consumo visual. Pois se já Vinícius dizia ser “indispensável hipótese de barriguinha”... Hipótese, não barril. Num abraço de cumprimento, é dramático a barriga chegar primeiro.
Vem esta trenguice a propósito dos rabos masculinos. Assunto em nada despiciendo. Homem que é homem, o agrado não enjeita, embora finja que sim. Cabe-lhe arranjar pretexto elegante para ser apreciado por detrás. Casaco fora do corpo, assim o permita a função. Dar uns passos e parar breve instante. Para nós – OK, para mim -, apreciar um satisfatório cair das calças, importa, depois dos olhos, das mãos, do cheiro, da pele, do cabelo – posso agarrá-lo ou não -, da atitude confiante, da voz, et ecetera, isto e mais aquilo. Idade não é importante. Cinto apertado en su sitio, bem como o adivinhado atrás, no que ao sex appeal masculino concerne, é fundamental.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 07:12 AM | Comentários (3)
março 15, 2007
PITADA DE PAPRIKA

Autor que não foi possível identificar
Sussurraste ao meu ouvido: “Sabes?, um dos meus anjos da guarda, aquele... o mais atrevido, interrompeu-me o dia. Melífluo, com rodeios, descabelou – não achas ginásio a mais? Treino hoje, treino amanhã... Reparaste no trajar? Calças de serpente, tiras com alças resumidas. Não sei não!... Das massagens do cocuruto ao dedo mínimo do pé, entendes. Sabes como ela se abandona. Conheces-lhe o ronronar. Por que esperas? Treina-a tu, meu!” E eu ria, tentando não descolar o ouvido. Entrançada em ti. E segredavas histórias que eu interrompia para acrescentar um ponto ao teu conto. Como pitada de paprika. Ou pimenta verde moída no instante. Que condimentava, sabia. E persistias. E ias e vinhas no conto. Eu ouvia-o, indo e vindo com ele. Os silêncios viriam depois. De palavras, digo. Soberbos em vocalizos. Teus e meus. Discretos, diria um voyeur. Mais tarde, seria a sede – “Vou lá eu!, não vou eu!” Num cigarro, teu, nosso?, harmonizámos respirações. Ainda entrançados, o tempo correu. E as histórias, as verdades, as memórias com ele. Sem omissões. Ausentes as meias-verdades. Nunca as tivemos. Antes ou depois. Por isso me contas contos. E eu rio. Ondulando neles e em ti.
Publicado por Teresa C. às 08:27 AM | Comentários (2)
março 14, 2007
MERCADO DA SAUDADE

Vera Tataro
“Em Melinde os portugueses foram recebidos com festa, muita música e salamalekum, a tradicional saudação muçulmana que pede paz.” Não foi nem é assim em todos os longínquos lugares onde chega(ra)m. Do canto original, levam na mala antecipada nostalgia. Naquele que os aguarda são-lhes estranhos os odores, a forma do horizonte, os hábitos e as cores dos dias. Alimentam o «mercado da saudade» que lhes devolve parte do que deixaram, sejam enchidos, pão, queijos, vinhos, as «novas» do país ou a escrita portuguesa.
Dos visitantes regulares deste sítio, ignoro quase tudo, excepto o vago lugar no mapa-múndi. Ao revê-los, (pres)sinto elo indizível, ou não se quedariam por aqui. Mas quedam. E voltam, uma ou várias vezes ao dia. De entre eles, os vindos de países islâmicos – Teerão no Irão, Ad Dammam, Ash Sharqiyah na Arábia Saudita, Dubai nos Emiratos Árabes Unidos, Burdur, Sekerpinari, Kocaeli e Izmir na Turquia – são companhia assídua. Pergunto-me como enquadram a rigidez de comportamentos nos lugares onde acordam e a liberdade (permissividade?) ocidental. Abrem esta página em casa, recatados, fora dos horários laborais, não escandalizem os nativos? Pois se alguns bloggers, plantados em território nacional, afirmam o “Sem Pénis” com um formato arriscado para abrir em anódinos ambientes...
Nem de propósito, Bento XVI fez hoje marcha-atrás nos rituais católicos renovados pelo Vaticano II. Acabam-se as violas e órgãos e cânticos alegres. Daqui em diante, regressa o latim e o canto gregoriano. Inauguro outra contradição – sendo género musical do meu agrado, ouvi-lo por obrigação rejeito. E se uma celebração eucarística pode ser momento de pacífico olhar para dentro e ao alto, por quê os constrangimentos? Curiosamente, na diplomática visita do Papa à Turquia o acontecimento mais importante acabou por ser a sua ida à Mesquita de Sultanahmet (Mesquita Azul) e a atitude reverencial. O jornal diário turco “Hürriyet” escreveu: “Na Mesquita de Sultanahmet, voltou-se para Meca e rezou como um muçulmano.” Isto é ecumenismo. Falta-lhe ser tão ecuménico dentro da Igreja Católica como fora.
CAFÉ DA MANHÃ

Mais dois notáveis que acumulam excelências: nos blogues e na literatura. Do Eduardo Pitta, chegará às livrarias “Intriga em Família”. Do Pedro Mexia, temos a “Prova de Vida” Não prescindirei das respetivas leituras.
Publicado por Teresa C. às 06:32 AM | Comentários (5)
março 13, 2007
MOTO-SERRA VAI AO POLITICOLOGISTA

Charles Heaphy
Politólogo – “estudioso ou especialista em ciências políticas", sinónimo de politicólogo e de politicologista. Gosto do último, por remeter a médico de enfermidade grave – politiquice. Clientes, a estes especialistas, não devem faltar. Passados dois anos de governo socialista, os politicologistas estiveram na ribalta das televisões. Têm graça nos dizeres que todos conhecemos e a que dão inefável toque de pensamento elaborado. Até resmoneei: “nem sou parva de todo! Cheguei ao mesmo por primária observação.” Tivera eu botões e seriam os interlocutores. Mas não, o fino trapo que vestia outros revelava. Cenas da vida doméstica indesejadas na colação.
Um politicologista, a propósito da efeméride da governação, falou da gestão das faces do poder – a lembrar a finada licenciatura em Gestão das Árvores de Fruto. Referiu Ministros de Estado e de Estadão – um trocadilho fica sempre bem. Ecomomia Mística – com esta delirei! Classificação dos políticos como situcionistas, os que se relacionam tu-cá-tu-lá com os donos do poder e referiu António Vitorino, como endireitas, Paulo Portas e Santana Lopes, e canhotos: o Louçã e o Jerónimo de Sousa que ao visitar um hospital acabou internado. Vá lá um homem cumprir o preceito católico da visita aos presos e doentes...
Os dois anos do Governo de Sócrates decorreram em estado de graça que a eleição do Presidente reforçou. Podemos esbracejar contra os arranhões a quase todas as classes profissionais e aos cidadão em geral. Levou adiante a Lei do Aborto. O ambiente merece, finalmente, atenção. Inegáveis são a reforma da Segurança Social e da Função pública. Outras virão. O resultado da anterior subsidiocracia, perante a partidocracia exaurida, foi tragédia nacional. Sócrates é como moto-serra – corta rente e a direito no meio de uma barulheira infernal. Juram-no os humildes proprietários de pinheiros doentes em zona demarcada do litoral. Quem não foi à missa, ou, nos últimos tempos, não passou à porta da Junta de Freguesia e leu o edital, esgotou Dezembro sem derrubar a mata herdada de trisavós sem rosto e lucrar com a venda da madeira. Agora, as moto-serras governamentais invadem as matas; quando o dono sabe, é tarde demais. Arrecada quatro euros por pinheiro e nem um cêntimo mais. Esperança redentora é a moto-serra pifar e o Homem aparecer.
CAFÉ DA MANHÃ
Aos blogues indicados agradeço a gentileza das ligações para este espaço.
Almanaque Mineiro
Águas-Furtadas
As Minhas Estórias
A Revolta dos Petroleiros
Because the World is Full of Bastards
Da Literatura
Dass
Doçuras e Amarguras
Fotos do Tempo
Looking at the Stars from the Gutter
M&M
Nem Meh Nem ½ Meh
Noites com Luar
Notas ao Café
Oh Não! É agora!
Rabisco(s)
Riobaldo & Diadorim
Sortido Fino
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março 12, 2007
GANZAS E PATCHOULI

Alain Aslan
“Essas miúdas das escolas secundárias
Com cheiro a leite e o soquete pelo artelho
Ficam maradas com o teu charme perfumado, Yeah
O teu perfume patchouli”
Exibi o tornozelo acima das soquettes. Foi meu o aroma da inocência. Marei com o cheiro dos livros novos e o charme perfumado dos rapazes. Usei os livros presos em correias. Como menina de bom-tom, discretamente enviesei o olhar quando uma «brasa» me queimava o passar. Aprendi a (des)controlar a exígua liberdade. Aprendi a gostar de aprender. Irreverente, ousei o (im)possível no clube de rádio do Liceu – inundar corredores e pátios como o Je t'aime moi non plus. Já velho na altura. Porém, não recordo a embriaguez do patchouli.
“Essas miúdas das escolas secundárias
Já fumam ganzas na paragem do eléctrico
Conversas parvas com mais buço que pintelho
Não dizem duas quando estão ao pé de ti”
Passarinhei em bando de miúdas tagarelas. Usei saias kilt, minis e ultra minis, hotpants com botas de verniz presas por fivela acima do joelho. Falhei as ganzas, o eléctrico e autocarros – mediando curta distância entre a escola e a casa, caminhei nas manhãs frias, gozei o mistério dos nevoeiros; pingos de chuva escorreram nos meus cabelos soltos e no rosto. Tive conversas parvas, intelectualmente pretensiosas. Não dizia «duas» nas festas de garagem ou nas do clube onde os pais pontificavam. Mal sabia dançar enlaçada, e, quando o primeiro delico-doce pousou, demorando, os lábios na minha mão que apertava, esfreguei-a tomando o afago por inoportuna coceira. Mas reforcei no Liceu, depois Escola Secundária, a curiosidade. Mais que rol de conteúdos e conceitos e mnemónicas e fórmulas, ensinaram-me o gozo da descoberta. Afrontar dificuldades. Sentir o aguilhão do erro. Olear a engrenagem racional. Não fugir a desafios, sendo eu a adversária. Fui miúda banal que falhou as ganzas e o patchouli.
Publicado por Teresa C. às 10:41 AM | Comentários (4)
março 11, 2007
O PIRATA VERMELHO

Jackie Sullivan
Comentou: “A si, que (d)escreve como poucos, pergunto, advogado-do-diabo, no primeiro grande parágrafo é de 'delikatessen' que fala? A segunda grande tirada, a tender no fim para o mesmo tom (porque será?) sempre vai dizendo, muito bem, disto e daquilo, do que só sabem as grandes almas penadas. Grande escrita, bonita voz... mas com distracções, a dar a mão ao lugar comum do ademane ou da encenação; porquê!?”
"Verdade, verdadinha" – não perco, nem quero, esta e outras interjeições aprendidas na Beira dos meus verões -, à segunda pergunta não sei responder. Razão simples: da arte de bem-escrever nada sei. A minha escrita é, tão somente, outra forma de respirar (lugar-comum, sei!), A escrita complementa a respiração que a ciência me permite. Isenta de regras, aquela. Inocente. Sem outro objectivo que o prazer de reflectir ou vazar por escrito emoções. Escrevo o fruto que pende da árvore da minha sensibilidade. Escrevo como estou no mundo. Escrevo sem cuidar do agrado ao leitor. Não faço melhor por que não sei. Gostaria de evitar afectações. Mas como, se nem dou conta delas e no texto "Como a Audrey Hepburn" ignoro onde estejam? Tenha por certo, caro Pirata, jamais pretender o logro. Não desminto o pudor de resguardar vívidas memórias ou sentimentos por via da condição de uma apaixonada racional (esta coisa existe?).
Continuem os estimados comentadores a sublinharem os meus vícios de escrita. Porém, não esqueçam – neste particular, sendo extrema a minha ignorância, por favor, enquadrem a crítica ou jamais aprenderei. Uma nota: quem conhece a mulher de que a Tati é fracção, sabe que a mentira não vai comigo nem eu com ela. Tenho a sina da verdade, por indesejada que seja. Silêncio, a mulher mantém. Mas, possuindo olhar delator, nada mais pode ou sabe fazer.
Publicado por Teresa C. às 10:35 AM | Comentários (3)
março 10, 2007
POMBOS OU CAUTELAS AMBIENTAIS?

Bralds
O mundo ocidental acordou duma noite de mais de meio século. Egoísta. Descuidada. Não que um pesadelo aqui, uma inquietação ali, um, cem, mil sinais não tenham forçado a voltas e reviravoltas no leito da indiferença política e social. Guerras, recessões, transportes, rodovias, conquistar entre os poderosos o lugar maior por via da manipulação ou medo, foram as prioridades dos países ditos desenvolvidos. A pobreza e as profundas assimetrias económicas na geografia política foram apanhando as migalhas dos banquetes dos reis do mundo. Como grão de milho deitado a pombos vadios que se contentam com o pouco bastante para voarem. Em bandos. Procriando demais. Sujando tudo. Sem eira nem beira. Enxotados, à excepção das almas compassivas que os alimentam e esquecem as terríveis doenças que os pombos disseminam de lugar em lugar. Como os povos africanos e asiáticos. Malparidos, malquistos, malsões, malvistos. Pombos com forma humana. Sem alma, respeito ou dignidade.
Conciliar progressão económica, preservação ambiental e qualidade de vida dos cidadãos. Objectivo ambicioso da Europa com todos. Diz ela ser a segunda prioridade logo atrás do combate à pobreza. Preocupante declaração. Se no combate à aviltante miséria a mediocridade tem sido indecorosa, que esperar do empenho nessa coisa vaga das preocupações ambientais? Na Alemanha, a Chanceler Angela Merkel, ex-ministra do ambiente, corta cerce os desperdícios energéticos. Aconselha os patrícios a passarem férias entre as fronteiras. Aumenta o preço do querosene e das viagens de avião. Motiva a compra de veículos híbridos. Estimula as indústrias menos poluentes. A Europa, como comadre embiocada, olha de soslaio a desempoeirada Chanceler – “Mulheres... Sempre as mesmas: sonhadoras e insensatas na gestão da coisa pública. Nem uma alemã treinada para a eficácia e disciplina rígida marca a diferença!” E vêm uns deputados alimentados pelos lobbies económicos, quais velhos do Restelo, atemorizar o povão: “E a recessão económica que de preservar o ambiente decorre? Prontos para a despedida dos luxos do século XXI? Queixem-se depois se o pobre ficar mais pobre... Quem avisa, amigo é.” E não são. Sabiamente corruptos, comodistas e centrados no umbigo do presente esquecem o amanhã. Configurando-o tão remoto, dizem eles!, que nem os netos dos nossos netos assistirão à falência ambiental. Que chega ano, após ano, sob a forma de catástrofes naturais, a neve sumida das estâncias de Inverno, o Verão encharcado por chuvadas inesperadas, o Outono como forno no máximo.
Bem pregam investigadores sérios! Bem vende Al Gore a Verdade Inconveniente! Enquanto não nos atascarmos na lama do que em tempos foram cidades do litoral, assobiaremos enquanto olhamos o ar. Afinal, safando-se os pombos, por que não nós?
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 08:52 AM | Comentários (2)
março 09, 2007
COMO A AUDREY HEPBURN

Distinta. Corpo como junco. Ondulante. Esguio. Alto. Olhos de água. Líquidos. Brilhantes. Dizê-los verdes é injusto; transparentes, sim, ao, (in)fielmente, desvendarem as emoções. Cabelo liso, castanho claro, pelos ombros. Pele branca pincelada por leve rubor. Isenta de maquilhagem. Cuidada - unhas vermelho-escuro enfeitam as mãos. Veste-a o preto mediado por uma ou outra nota de cor. Calça saltos. Adornos ausentes. Não precisa. A simplicidade elegante dispensa o artifício a que recorre quem menos dotes tem. É bela, parecendo não o saber. Genuína a despreocupação. Enfrenta o dia com a coragem de quem diz – “Sou eu. De mais não preciso, salvo que me saibam ler.” Demarcando a cor das pupilas, pela postura, visual refinado e pelo sorriso lembra a Audrey Hepburn.
No último meio ano, dir-te-ia esquecida pela fortuna. Puro engano... Foi a vida que te abraçou. Quando uma provação espreita, traz com ela uma mudança interior. Para melhor, se a sensibilidade é inteligente e infinita como a tua. No momento das lágrimas, a obscuridade turva o presente e tapa o amanhã. O futuro como buraco negro. Sumidos a alegria e o amor se não endereçados aos filhos. Da cama larga, basta-te agora um canto na franja do que foi altar de todas as exaltações. O frio espojado no lugar do amor perdido. Enregelas, recolhida na borda em posição fetal. Surpreende-te o calor de cada expiração – que parte de ti conserva a quentura e teima em viver? Suavemente, experimentas alongar os membros na cama. Remeter o frio para a beira oposta. Ousas de novo. Expulso, enfim. E dominas a temperatura do leito. Arribando o sono, a cada noite o recebes melhor, como menina vencedora de medos e papões. E voltarás, Paula, à doçura e ao encantamento para lá do confinado à família. Cada adormecer aproxima o amanhã. Espera-o com o cabelo apanhado que te fica tão bem. Calça os botins altos rematados a rosa forte. Orienta para ele os passos e confia. Irá tratar-te bem.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 07:24 AM | Comentários (3)
março 08, 2007
UM HOMEM, MEU, UMA MULHER, EU

H. Sorayama
“Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher.” Afirmam ser pretendido “chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e levar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações.”
Foi meritório o gesto de há pouco menos de um século atrás. E hoje? Tem sentido? Tem! Se para as mulheres ocidentais o Dia Internacional da Mulher pode soar a provocação ao evocar memórias funestas que o presente desdiz, para milhões que na África, na Ásia e na Oceania, em sentido restrito, habitam, o objectivo primordial da efeméride é actual. Orgulhosa da minha condição de mulher e consciente do privilégio da ocidentalidade neste particular, ao dia de hoje atribuo o simbólico preito das classes dominantes perante os excluídos do respeito que a Pessoa merece. E sim, adoro mimos dos amigos e do amante – mal vai se o companheiro de anos não cabe na designação! -, irritam-me as flores com dia marcado. Às referências institucionais prefiro, no final de dia cheio, a intimidade da nudez confundida entre um homem, meu, e uma mulher, eu.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 08:43 AM | Comentários (10)
março 07, 2007
DEUS E UM TÁXI PEGARAM-ME PELA CINTURA

Marshennikov
Tem sido bonita a festa. Cinco dias, dois livros. E festa. E gente bonita. Inteligente. Simples. Lavada de afectações. Luzindo pela intensa estrela interior. Melhor – dispensando anos-luz e ficando rentes à pele e ao olhar e ao sorriso. Ao calor e à fala. Ao humor. Duas noitadas de truz. Maré-cheia de bem-estar. Ontem, foi a apresentação do livro do Luis Carmelo feita pelo editor, o Manuel da Fonseca, da editora Guerra e Paz, o O Francisco José Viegas e o autor. Despretensiosos no discurso fluido. Risonho. Isto digo remetendo o evento à primeira parte do Chelsea/Porto, que forçou o Francisco a render-se à teoria da conspiração – reterem-no longe do ecrã que transmitia o desafio, só podia ser manha da mais traiçoeira estirpe moirama. Meu querido: o menino estava um doce com o dolorido ar na face de quem subtraíram um bombom. Acrescendo ter escrito que quanto mais «crescidas» melhor, admito: Deus o conserve em tal convicção. O mesmo deve ter pensado a minha anónima vizinha de assento, que, ao ver-me regressada do beijinho apetecido, sussurrou: - “É exactamente o tipo de homem que gosto! O meus maridos e namorados eram todos parecidos com ele.” E suspirou. Sorri convenientemente. Apreciei-a melhor – «entradota» e jovial na condição. Perante plateias assim, o painel de homens deveria ter exigido contra a entrega do convite ao mulherio, electrocardiograma recente. Juro que ao olhar de soslaio a vizinha, ruminei preocupação, não caísse inanimada a dama. Uma tragédia que estragaria o brilhante discurso do Luis. “Madre mia” , que improviso pleno de subtileza e graça!
Sexta-feira passada. O pleno da felicidade entre amigas. Uma mulher com intelecto e rosto e sorriso luxuosos apresentada como escritora pelo Raul Solnado. Um ambiente de afectos. Sorriso de orelha-a-orelha que não contive o tempo todo. O brilho nos olhos da amiga e autora foi meu também. E a noite da mágica partilha continuou. Esticada no Lux entre margueritas, tostas mistas e margueritas. Iluminada por lustres de uma só cor. Batida pela música que ao corpo impunha ritmo e balanço. Amigos suaves e afáveis. Elas, as rainhas da noite. Tu, Paula e tu, Paula, e tu, Joana que mulheres sois! Declaro a rendição perante Pessoas assim.
Encurtei a noite. Interromper a leitura do ”E Deus Pegou-me pela Cintura” não é fácil. Como deixar a meio os contos do O Táxi que me Apanhou? Os originais em sépia das voluptuosas mulheres da Manuela Pinheiro presenteiam-me o leito. Um gole de vinho branco gelado e a leitura. Sem limite marcado, salvo o cansaço. Que escrita... Que aprazível miscelânea de sentimentos! Os instantes felizes não são assim?
Publicado por Teresa C. às 07:24 AM | Comentários (5)
março 06, 2007
A OITAVA ARTE

Dawn Davidson
Há quem da sordidez faça vida. Nela se instale. Habitue. Como quisto sebáceo no lugar do costume. Vidas gordurosas. Poros como crateras abertos à trafulhice. Vidas-contos-do-vigário. Pejadas de fungos e bolores. Propícias à rataria e bichos subterrâneos. Odeiam luz que as foque. Do sol admitem o calor e o brilho que aos outros exibem, nalguma coisa simulando serem iguais. Não o sendo, longe disso. São morcegos necrófagos – da noite fazem dia e sugam quem mais perto chegar.
Dizem ser a oitava arte a que vende a sétima. A sétima, coisas, pessoas, principalmente o próprio. Arte invisível, não fossem os olhos miúdos que pingam manha e nalgum instante desliza manchando o discurso untuoso do vendedor da alma. Esta ao serviço de quem mais der. Ou parece dar, por maiores serem a longo prazo os logros dos vendilhões do que, à primeira vista, julgam surripiar.
O mundo está cheio deles. Descoberta a rede virtual que lhes abriga a falsidade e o suor e o sebo e a manha e o rosto e as dívidas e a marginalidade, dela fazem galinha-dos-ovos-d’ouro. Estejam puídas as defesas que o indivíduo amarram ao cais, por descuido, inocência ou credulidade, as vítimas caem num ai. Daí a confiar vai um passo. Uma vez estilhaçada, a piedade ou o espírito redentor, são o maior perigo – é tornada vítima o morcego. Necrófago por necessidade, julgam almas pueris. Esquecida a vocação. Somente quando a gordura escorre e se acumula até o cheiro nauseabundo impedir a respiração, a vítima esbraceja. Levanta a cabeça para sobreviver. Olha o lodaçal, o buraco escuso e o bolor e os fungos. Foge a sete-pés.
Publicado por Teresa C. às 07:32 AM | Comentários (6)
março 05, 2007
RAPARIGUINHAS DE LISBOA

Esvoaçam em bandos pela cidade. Rostos falando de primavera. Cabelos soltos levantados pelo vento ou pelo gesto de os prender no elástico que trazem no pulso. Botas rasas mal amanhadas ou ténis de sola grossa. As gangas escorregam na anca e desenformam o corpo. Trouxas de roupa. Algumas aventuram mostrar o peito; o fundo da barriga, quase todas. Casual wear, extremado. Sweats com capuz, blusões de penas ou camisola ligeira desafiando o Inverno. Rostos lavados. Malas pequenas na mão, quando muito um dossiê e um manual numa mochila simbólica. Os livros ficaram em casa. São as rapariguinhas de Lisboa.
A noite transfigura-as em projectos de mulheres. Cuidam, combinam, compram, cambiam a roupa que emoldurará a transformação. Ousam a maquilhagem – lápis negro e sombras nos olhos, bâton nos lábios com um pingo de gloss. No olhar, nas bocas e no corpo o brilho de todas as ilusões. O apetite pela transgressão inaugurado com um shot. E riem. Muito. A mão semi-erguida aperta entre os dedos um cigarro. Os corpos mal cobertos por tiras de roupa. Meneados ao som da música. Colados à parede e a corpos masculinos que simulam dança. Que é. A dança do desejo. Da vontade de curtir. Desfrutar a liberdade à revelia dos olhares censórios dos pais - pela postura, pelo visual, pelos requebros de incêndio. Nos sítios da noite, estão fantasiadas de meninas de alterne. Que não admitiriam parecer. Mas parecem. Sem que isso as constranja. Insuportável seria a liberdade comedida e, por isso, fugitiva. Mulheres incipientes. Rapariguinhas de Lisboa.
CAFÉ DA MANHÃ

Publicado por Teresa C. às 10:48 AM | Comentários (10)
março 04, 2007
TECIAS DE ENGANOS

Olbinsky
"O casamento é a arte de duas pessoas viverem juntas tão felizes como viveriam se tivessem permanecido separadas." G. Feydeau
Nas comédias de enganos vale tudo. Como nas peças de Feydeau. Entradas e saídas sincopadas. Precisas. Alucinantes. Falas económicas. Como esta: “Os maridos das mulheres de que gostamos são sempre uns imbecis.” Retratando a infidelidade através da farsa humorada. Os cônjuges enganados como bombos da festa. Elas mestras na astúcia de bem-viver.
“Ser marido é um trabalho a tempo inteiro”, dizia Arnold Bennett. Ser mulher também. Cuidar de actualizar as razões da escolha de quem connosco constituiu uma família. Reforçar a cumplicidade, dourar a vida íntima com generosidade e gosto. Deixar passar a paixão e partilhar com ternura o quotidiano. Isentá-lo de agressões. Abdicar dos estereótipos da vida fast, perecível, e buscar valores maiores. Atentar no prioritário – o self de cada um, a paz vívida e intensa de quem sabe possuir bem que, pelo preço tamanho, não existe seguro capaz de lhe cobrir os danos.
Por via da rede virtual ou pela teia social, a infidelidade espreita. Insinuante. Tentadora. (Re)Descobrir o fogo que das entranhas se expande até ao consumir dos corpos. Emoldurado ou não numa hipótese de afecto. Confundindo urgência sexual, ou falseada regressão no tempo, com paixão. Julgando trair outrem, de facto a si traem. Tristeza maior que a do casal corroído pela ilusão dos mercados de carne virtuais, não há. Cada um teclando enganos. Trocando o real pela carne esperando licitação. Como feira adúltera de contrafacções.
Publicado por Teresa C. às 11:14 AM | Comentários (2)
março 03, 2007
ENTRASTE, EU PARTI.

Autor que não foi possível identifIcar
Passear na vida com o coração intacto. Sem pedaços espalhados no tempo ou na geografia dos lugares. Rigoroso nos batimentos. Sístoles e diástoles indiferentes às emoções. Sangue frio em qualquer circunstância. Impulsionado a ritmo constante. Espírito lógico impecável. Pragmatismo de gelo. Olhar parado. Como o do sapo que mede a distância quando prepara o salto. Infalível. Para depois continuar frio noutro lugar. E parado. Capturando alimento ao esticar a língua. Imóvel. O sangue fluindo a intervalos idênticos. A vida como passamento. Antecipado.
Tu não és assim. Lembro-te em Setembro. Imóvel no passeio. Expectante. O coração pulando de pressa. Os pés no mesmo lugar. Amanhecera límpido o dia, lembras? A manhã corria fresca. O sol temperado com a doçura do mês. O de todos os começos. Dos regressos aos mesmos lugares. E entraste. Como crianças adultas fizemos daquele o nosso dia. Abeirámo-nos da água, calcorreámos os verdes, debruçámo-nos sobre o rio. Vinda a noite, soltámos a intimidade de cada um. Excessiva, diriam os timoratos, contida e bem-comportada, afirmariam os demais. Foi a que quisemos que fosse, regida pela vontade dos dois. Soltámos o riso e lembranças e projectos. Foram leves os passos que demos. Lembro o som dos nossos pés na calçada. O perfume da noite. Dirias depois, lembrar o meu. Entraste. Eu parti.
Desde essa noite, cada um perdeu pedaços do coração. Sem deles sentir a falta. Como se o que fica regenerasse o perdido. Nunca parados. Misturando racionalidade com baú repleto de emoções. Dessincronizando os batimentos cardíacos em favor da vida cheia. A quietude dos sapos olhando com piedade. Que odiamos.
Publicado por Teresa C. às 02:02 PM | Comentários (2)
março 02, 2007
DO MASTRO AO CAR(V)ALHO

Claus Heinecke
A unidade de medida portuguesa não pertence ao SI (Sistema Internacional de Unidades). O padrão luso é o car(v)alho – feio como o car(v)alho, mais duro que o car(v)alho, chato como o car(v)alho, pesado como o car(v)alho. Mandámos às urtigas o metro, o quilograma e demais unidades que o mundo aceita, resumindo-as a um só termo de comparação. Prático, simples e sempre a jeito. Sem carecer de conhecimentos científicos, ainda que rudimentares. Por todos entendido. Faz tedmpo, emigrou. Democratizou-se. Renegou pertença às classes humildes e rurais nortenhas para correr o país de lés-a-lés. Hoje é cosmopolita. Calça sapatos italianos, usa gravata de seda e veste caxemira.
“Vai p’ró car(v)alho!” Expressão intrigante. Associar punição ao dito, é fazer dele coisa ruim. Sendo maioritariamente homens os useiros e vezeiros no desabafo, não é estranha a associação? O dicionário afirma que o vulgarismo de pénis utilizado como interjeição é, tão somente, outro modo de afirmar espanto, admiração, impaciência ou indignação. A origem parece remontar às destemidas naus e caravelas. Marinheiro que infringisse normas era desterrado para o cimo do mastro imponente – o fálico «carvalho». Ficava o punido exposto aos ventos fortes e ao sofrimento. Sobrevindo enjoo, capaz de largar pela borda fora as entranhas, estava garantido castigo exemplar. O «carvalho» era a «solitária» dos mares. Marinheiros em terra, a palavra perde o «r» e conserva o significado temeroso. Transformá-la em ameaça e padrão, foi um passo. Criativo povo que de um mastro altaneiro faz unidade de qualquer medida, como a distância do car(v)alho entre Bragança e Cacilhas.
Publicado por Teresa C. às 07:07 AM | Comentários (7)
março 01, 2007
PROFESSOR TITULAR

Kenney Mencher
Senhores Professores, (des)animem – do envelhecido caldo de elite virá à tona a mais fina nata. Alva e cremosa. Adocicada pelo (des)mérito final, um tudo nada acre pelos pingos de limão de muitos anos de empenho enjeitado. Os melhores dos melhores. Todos juntos formando uma espécie de senado. Quase trôpego, é certo. Turvo pelas mais que certas cataratas, frágil devido a bafos suspeitos no coração, de fala arranhada e ouvido minguado. Mãos e braços limitados por epicondilites no ombro, no cotovelo, no pulso, em tudo o que deveria ser articulado. Por via de anos de apagador e giz em riste, há atrito dorido entre os ossos, outrora biologicamente oleados. Senado de senex, velho, idoso. Assembleia de notáveis. Aos futuros senadores escolares chamam-lhe Professores Titulares. Dos professores, a suposta nata. Julgá-la obtida a partir da massa espessa que sobrenada no leite fresco, é engano. Cruel. Mas engano.
Os doutos Titulares são o último patamar da carreira docente. Dificilmente lá chega a plebe que se esmifra a encasquetar conceitos em mentes transbordantes de playsTation, exigências, internet, sms, abandono e toques polifónicos. Uns desgraçados entupidos de todo. Mais desgraçado só o canalizador/professor que é suposto abrir brechas por onde circulem ideias correntes e se arrisca a levar como extra ao pré uns tabefes. Uns e outros dispostos a mandarem-se mutuamente a sítios pouco recomendáveis. De vez em quando, a paixão acontece - são os «cromos» se alunos, os «tansos» se professores. Os primeiros gozados à fartazana pela malandragem encartada, os segundos engolindo o amor mal saídos da aula, não vá alguém apelidá-los de carreiristas safardanas.
Para chegar a Professor Titular somente interessa o feito e os cargos ocupados desde 1999. Pode, até aí, ter sido o maioral dos baldas, ter aniquilado vocações aos milhares, ser dos incompetentes o rei. Tudo o tempo levou se da referida data para cá somar os pontos estipulados. Do mesmo modo, o esmero e amor pela profissão e pelos alunos, assiduidade sem mácula, desempenho dos mais altos cargos docentes são inúteis se após o final do século sobreveio o cansaço pelos serviços burocratas e/ou maleita física inesperada. Professor Titular. Entre pares: um sortudo!
Publicado por Teresa C. às 08:35 AM | Comentários (20)